segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Pequeno Café

Paul Valéry
Extraído de "Rhumbs" - "Tel Quel", 1941-1943
Tradução Lauro Marques


Pequeno café obscuro, solidário, secreto, paraíso de pureza e de pensamentos.

Asilo espelhado de pedra oca, de uma palidez bela, fazes bem ao viajante, forno de sombra e de frescor, abóbada de berço muito suave...

Há somente eu dentro dessa gruta. Eu e os “Débats” sobre uma mesa de fundo.

Um gênio em roupas escuras, grosseiramente pintado de barba quase azulada... Ele se entedia tanto de sua solidão! Pega um banco para mim. Ele me traria qualquer coisa. Compreendo que vive num mundo imaginário.

Sinto-me um cliente abstrato, essência de cliente.

Vem, e embalsama o ar! ― Fumo e perfume, amargo chocolate a evocar biscoitos tostados!...

Daqui a pouco, após muitos cigarros, desejaremos pedir a esse vago pensador gordo e mal barbeado, um desses glace au citron* que queimam de frio os lábios e a língua...

Livre enfim dos museus!

As coleções, contrárias ao espírito; o harém para o amor.

Estamos cansados das disputas dessas damas sultanas. A soma de todas essas belezas é absurda, fatigante. Uma reunião de objetos excepcionais, uma multidão de singulares só pode agradar aos marchands, seduzir os insensíveis que se julgam sensíveis, e as pessoas crédulas. Um olho espiritual não veria nenhum visitante nas galerias, mas adjetivos errantes. Ao fim de tudo, o objetivo dos artistas, o único objetivo, se reduz a obter um epíteto...

Esse chocolate tem um gosto severo que convém a esse lugar vazio e agrada a meu humor. Uma colherada, ― um pensamento ― uma baforada, ― um gole de água gelada, ― e essa sequência de julgamentos:

Os museus são odiosos para os artistas.

Eles os adentram somente para sofrer, ou espionar, roubar segredos militares.

Se sentem prazer, é devido à atrocidade de seus desprezos.

Pintar os horríveis sofrimentos da inveja artista.

Michelangelo, houvesse ousado, teria envenenado.

Ciúmes que ele tem de Leonardo. O que isso implica.

Lionardo** não era cioso a não ser de suas idéias.

Um homem de talento, diante de mim maravilhado, ao tomar conhecimento da morte ou da demência, ― não sei mais, ― de um escritor mais conhecido e mais recompensado que ele, permite-se dizer vivamente: Tanto melhor... É chegada a minha vez.

Ousamos escrever as histórias das letras ou da arte sem dizer uma palavra de coisas como tais, sem aprofundar. A arte é tão quanto o amor. A arte e o amor são criminosos em potência, ― ou não existem.

Tudo que vem dos deuses causa o inferno nos homens.

Esse café é deveras delicioso. Vemos daqui o calor vibrante sobre as pedras da rua. Eu passo a mão acariciando a carafe*** gelada. ― Uma trintena de moscas suspensas por seu movimento no espaço criam um sistema planetário e um movimento estatístico indiferente.

Aqui o espírito abatido pelas obras-primas ama a existência, se enleva, e avalia. Tudo que os homens fizeram, fazem e farão, soa para ele como esse barulho local e circunscrito do formigamento alado de trinta insetos. O corpo soergue imperceptivelmente os ombros. O próprio soerguimento, que condena os humanos, é bastante mal recebido. É impossível para a justiça que há em mim, não ver a necessidade de meu sentimento.

― As flores da florista aninhada sob a grande porta do palácio que está à frente dispensam as mensagens e os devaneios de amor. O que não ocorrerá jamais, o que não pode ser, embalsama, tem um perfume.

Eu desenho figuras geométricas no mármore do guéridon**** onde a ponta do lápis é tão feliz, tão livre.

― E de que me serve a necessidade de meu sentimento? Ela te serve muito, meu amigo.

Ela faz desse sentimento o que ele é,― o que são todos os sentimentos. Todo sentimento é o saldo de uma conta da qual o detalhe se perdeu. Impossível se obter uma declaração desses débitos e desses créditos. Encontraríamos aí operações que remontam ao ano mil; outras ao macaco ou ao castor. O pecado original é uma integral, sem dúvida.

Vamos, distrações, frescores, espírito, cessem de dominar!

Um pouco mais de fumaça com gelo; inalemos no ar o odor dos limões amorosos. Paguemos e partamos.


___________
*(N. do T.) Como no original. Valéry grafou Lionardo. Lion=leão, em francês. Em português seria então Leãonardo.
**(N. do T.) Creme gelado ou sorbet de limão.
***(N. do T.) Garrafa, em árabe, no original.
****(N. do T.) Uma pequena mesa de centro, geralmente circular ou oval. Peça do mobiliário francês.

Esta tradução é dedicada a Monica, que ama os lugares, as coisas e as sensações estéticas.

6 comentários:

Rosilene Fontes disse...

Oi Lauro,

Lindo o texto! Só mesmo um poeta para traduzir.

É uma cobertura (teto) em curva = abóbada.
Existe a "abóbada de berço" = um arco de volta perfeita.
Agora é com você - poetizar...

abraço

Lauro disse...

Oi Rosilene, muito obrigado pela ajuda e pelo comentário.

Ficou "abóbada em berço muito doce", um arco de volta perfeita muito suave...

Veja que ele compara também ao formato de um forno, também em arco, então é perfeito.

Ele fala em forno, só que de sombra e de frescor, o que é muito poético, todas as imagens remetem a um lugar acolhedor, um asilo de pedra oca, com espelhos nas paredes.

Fiquei imaginando onde poderia ser esse lugar, se não na França, talvez na Argélia, por causa das referências em árabe, o que você acha?

Abraços.

Lauro disse...

Corrigindo: ficou, como você pode ler no texto, "abóbada de berço muito suave"...
Mais uma vez obrigado, fiquei muito contente com sua ajuda.

Rosilene Fontes disse...

Lauro,
lendo mais uma vez este poema... ele para mim é uma pintura, veja...
cada objeto, descrições, texturas...
ORIENTALISMO ERA MODA...
para mim Paul Valery pintou este quadro em forma de poesia...
no mármore do gueridon onde a ponta do lápis é tão feliz, tão livre.

Rosilene Fontes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rosilene Fontes disse...

vivendo e aprendendo... Vou Chamar carinhosamente meu sobrinho e afilhado Leonardo de "Lionardo" ADOREI!

Meu pequeno Lionardo tem 5 anos e um dia a irmã Laura (7 anos) estava irritando-o lendo em voz alta e ele disparou: "leia com o coração!" Lionardo já é poeta...