sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

"Escrever o menos possível"

Do blog:
John Haffenden escreveu uma biografia sobre o poeta William Empson, “Among the Mandarins”, Paperback Book, 720 páginas, em que conta a seguinte história sobre o poeta T. S. Eliot:



Minha memória mais marcante é de estar caminhando [ao lado de Eliot] na Kingsway depois de algum almoço, provavelmente por volta de 1930, momento em que me encontrando sozinho com o grande homem senti que era oportuno levantar uma questão prática que andava me causando certa angústia. “O senhor acha realmente necessário, Mr. Eliot”, disparei, “como o senhor disse no prefácio à antologia dos poemas de Pound, que um poeta escreva versos ao menos uma vez por semana?” Ele estava se preparando para atravessar a Russel Square, olhando para o tráfego nas duas direções, e estávamos nos esquivando dos carros quando sua lenta resposta começou. “Eu estava pensando em Proust quando escrevi aquela passagem”, começou a profunda e triste voz, e então houve uma pausa considerável. “Tomando a questão de modo geral, eu diria, no caso de muitos poetas, que a coisa mais importante que eles teriam a fazer… é escrever o menos possível.” A gravidade da última frase era tão pura que lhe conferia uma qualidade quase lírica. Um leitor pode pensar que se tratava de uma manifestação de desdém ou de uma simples brincadeira, mas eu ainda hoje acho que não era; e naquele tempo me pareceu uma resposta não apenas muito sensata mas também muito satisfatória. Tirou um grande peso da minha consciência.

Comentário meu:
Eu tendo a pensar assim como John Haffenden, também tirou um grande peso da minha consciência! TS Eliot é um dos meus preferidos.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

NO PASA NADA

A casa era uma combinação de vidro e concreto, com linhas retas, e uma sala com portas de vidro que terminava num quintal também de concreto com piscina. Lembrava uma pintura de David Hockney, com alguma coisa de decadente. Ervas daninhas cresciam no canteiro ao lado da piscina, cujo fundo estava bastante escurecido. Uma pequena ponte de madeira com os pregos saltando se equilibrava ou jazia ali no meio, com uma espreguiçadeira de plástico branco displicentemente colocada em cima.

Estava para ser vendida para uma empreiteira que iria demoli-la e construir um prédio de sabe-se lá quantos andares. Ficava numa posição elevada de onde se podia enxergar o horizonte recortado de edifícios cinzas longínquos e algumas poucas edificações mais próximas. Essas pareciam encenar um teatro diário do cotidiano, de formigas humanas movimentando-se, piscando, apagando e acendendo as luzes. Formas de vida como de outro planeta que, a não ser por isso, jamais entrariam em contato.

"Lembrava uma pintura de David Hockney, com alguma coisa de decadente."

Havia lido que cerca de 35 mil litros de esgoto eram despejados por segundo no rio que passava a alguns quilômetros dali. De vez em quando se podia sentir o cheiro pútrido que se levantava de outro rio ou esgoto mais perto. Podreira da cidade podre que apodrecia. Mas não pensava nisso enquanto observava o céu sentado enquanto bebericava vinho e tomava notas. Ele estava empenhado em acompanhar as evoluções e mudanças no espaço aéreo à sua frente como se fossem o resultado da mistura de cores da paleta do pintor mais enlouquecido, acometido de um excesso de melancolia, e esforçava-se para captá-las através da escrita.

Inutilmente, lia para si mesmo, não sem consternação, o resultado pífio em que comparava a lua nova, quando o céu “turvando-se e multiplicando-se em angustiantes profundidades púrpuras e azuis”, vinha “negar-lhe o esplendor”, aos olhos convulsivos (era o que representava para ele naquele momento) das vítimas do acidente ocorrido há poucos dias no Metrô ― cinco passageiros de um microônibus, além de dois pedestres, tragados por desmoronamento de uma cratera aberta nas obras às margens daquele rio fedorento.

Lembrou-se de sexta-feira, quando descera na estação Klabin e, sonolento, caminhara alguns metros. Os pulmões ardendo da poluição às 8 da manhã. (Respirar aqui equivale a fumar dois cigarros por dia, ele estava por dentro das estatísticas). Pensou na cidade, que envelhecia a passos rápidos. 453 anos de invasão jesuíta tinham dado nisso. Olhou os pombos importados da Europa arrastando-se doentes de tão gordos. Eles raspam o tacho da sarjeta. Um casal meio tonto em roupa de jogging passou por ele cambaleante. Vieram “carbonizar” um pouco, pensou. Sintonizou o rádio do celular num rock and roll e rolou em frente.

Súbito, levantou-se, tentando espantar a borboleta negra que zumbia acima de sua cabeça, endoidecida pela luz da lâmpada elétrica. Ei-la repousada agora na parede, não mais uma borboleta e sim uma barata imensa e com asas. Correu para dentro da casa em busca do veneno e voltou com dois sprays de marcas diferentes. No meio tempo, a miserável havia sumido. Um dia depois teve a impressão de ver seu cadáver boiando na piscina e vê-lo em seguida desaparecer entre o bico do pássaro gordo de barriga amarela e rosto mascarado que vigiava aquelas águas de cima da árvore-arbusto que se elevava bem mais de cinco metros do muro e projetava sua sombra, deixando cair as florações e folhas mortas que ficavam por ali boiando.

No topo da árvore ele já havia divisado mais de uma vez um casal de periquitos, que faziam um barulho infernal ao cair da tarde, de modo que se podia dizer que ali ele estava de fato numa reserva ecológica. O terraço era um lugar misterioso. Diga-se de passagem que um certo dia um mamoeiro havia brotado ali, no meio do concreto, sem que ninguém soubesse como. Essa árvore milagrosa, que ficava cada vez mais alta, dava pequenos mamõezinhos doces que eram devidamente estraçalhados pelos pássaros que vinham em bandos, avisados uns pelos outros, por seus gritos frenéticos, para a refeição.

Inutilmente, lia para si mesmo (...) o resultado pífio em que comparava a lua nova (...) aos olhos convulsivos (...) das vítimas do acidente ocorrido há poucos dias no Metrô”. 

Sempre admirara os pássaros, à exceção dos pombos, “ratos com asas”, na sua opinião, na mesma medida que detestava os cães. É preciso dizer que na casa havia dois. Ambos de nomes ridículos e humanizados. Um no entanto, já havia morrido. O outro, podia ser adorável de vez em quando, mas ainda assim era um cachorro, i.e., estorvo. Eles usavam o capim ao lado da piscina para fazer suas necessidades. Liberdades que lhes permitiam a dona da casa, assim como a ele, outras tantas.

Ele gostava muito mais dela do que da casa, que às vezes lhe parecia uma prisão com algumas regalias especiais. Ouviu sua voz chamando-o por cima do ombro, virou-se e pode mirá-la contra uma luz fraca, vinda do interior, a cabeleira loura destacando-se no fundo negro em que flutuavam alguns insetos. Olhou-o com um sorriso de quem gostaria de saber o que estava se passando ali naquele intervalo de tempo em que ele ficara quieto, apenas observando, enquanto começava a esfriar. Respondeu também mentalmente com um sorriso em castelhano de no pasa nada, efeito de uma imersão rápida naquele vinho espanhol chamado Memorandum. Quando seu pé tocou na precária ponte de madeira, a construção inteira desabou fazendo Tchibum.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Três poemas


SÍSIFO FELIZ?




Coragem


Paciência


Retidão


Honestidade


Rolar a pedra




Caráter


Ânimo


Disposição


Boa vontade


Rolar a pedra




Energia


Bem estar


Empolgação


Humanidade


Rolar a pedra




Sísifo só tem este


ideal.








RIMA, RIMADOR!




Aprender com o alvo


a flecha


Com o fim


a festa


Com o rasgo


a brecha


Com o beijo


a testa


Com a viga


a mestra


O que me resta


nesta vida


nesta rima


tão canhestra.






O INSETO






Tem da natureza inseta


a atração


por luzes


pelo perfume das flores


e das bebidas.

sábado, 24 de outubro de 2009

domingo, 27 de setembro de 2009

Baladinha da primavera




Uma, duas, três flores


amarelas.




Sobre o cadáver do homem


morto na


primavera.




"Ai, quando eu me for


desta minha vida insincera,


dai-me também uma flor,


duas, três flores


amarelas."

sábado, 26 de setembro de 2009

Cançãozinha francesa

"J’ai perdu ma vie,
par délicatesse
"-

Disse, redizendo,Rimbaud.

O espelho se ri:

"Por delicadeza,
Vous?"

Retorno à simplicidade

Leitura de primavera

Livros com 50% de desconto:

Poesia completa de Garcia Lorca

Edição bilingue da Editora da Imprensa Oficial.
Quase 700 páginas.

Reencontro as canções (vontade de escrever), reencontro toda uma poética, que parece simples...que fala de vento no olival, vento na serra...

Poema de la solea*


Tierra seca
tierra quieta
de noches
inmensas.

..(Viento em el olivar,
viento en la sierra.)

Tierra
vieja
del candil
y la pena.
Tierra
de las hondas cisternas.
Tierra
de la muerte sin ojos
y las flechas.

..(Viento por los caminos.
Brisa en las alamedas.)



__

*ou "soledad": canção típica da Andaluzia, informa o tradutor na edição do livro.

domingo, 20 de setembro de 2009

Commentary on The Cantos of Ezra Pound,

Commentary on The Cantos of Ezra Pound and others, c. 2001-2002

Comentários dos Cantos (no final da página):

Canto I, II & XX, III, IV, VIII, IX, X,

XI, XII, XIII, XIV, XV, XVII, XVIII, XIX,

XXI, XXXI, XXXII, XCVIII

Relembro-me, de mim, quando a poesia era um mistério
E eu tropeçando pelos Cantos, sem entender niente:
“E o Buccentoro, a vinte jardas bradando “Stretti”,
Mas adorando tudo -
“Luz: e a luz primeira antes de qualquer orvalho
“Ou: a escada cinza segue acima sobre os cedros”.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A bigorna

Blog do amigo Aldrovandi, músico e compositor (dos bons, daqueles com piano em casa), que também gosta de "poetar" com o martelo:

A Bigorna

sábado, 29 de agosto de 2009

Fabulador de pulsões negativas


É assim que o escritor argentino Alan Pauls descreve Enrique Vila-Matas na orelha de "Suicídios Exemplares", publicado recentemente no Brasil. Escrito dez anos antes de Bartleby e Companhia, já há algo neste livro do escrivão de Herman Melville que se recusa a fazer qualquer coisa que seja (o que é também um modo de se aniquilar). Tema que seria explorado por Vila-Matas na forma de uma galeria de personagens estranhos tomados por essa mesma "pulsão negativa". Não agir, não escrever, literatura do não. Não é por menos que Fernando Pessoa seja um dos heróis de Vila-Matas. No final desse seu livro de contos sobre suicidas e não-suicidas, ele o transforma em personagem, juntamente com Mário de Sá-Carneiro, simplesmente ao transcrever (outra vez o copista, que exercita a arte da citação) o trecho da carta deste para Fernando Pessoa, escrita em 31 de março de 1916, poucas semanas antes de suicidar-se no Hotel de Nice, Paris, após ingerir cinco frascos de estricnina, tendo inclusive convidado para assistir o amigo José de Araújo: Mas não façamos literatura. Pelo mesmo correio (ou amanhã) registradamente enviarei o meu caderno de versos que você guardará e de que você pode dispor para todos os fins como se fosse seu (...) Adeus. Se não conseguir arranjar amanhã a estricnina em dose suficiente deito-me para debaixo do "metro"... Não se zangue comigo.

O antiblogger?

Escrever somente quando necessário.

Como Paul Valéry, que acordava no meio da noite assaltado pela urgência de uma frase ou pensamento e assim preencheu cadernos e mais cadernos absolutamente desnecessários. E aqui me contradigo, pois, em literatura, como na vida, como saber quando e o que é de fato necessário?

* * *

"Poste-escrito": sobre isso e sobre a "necessidade do sentimento", ler (valeria a pena meditar?) minha tradução do texto Pequeno Café, de Valéry.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Poésie perdue

Où..........
se trouveras
la poésie
dans une..............
cellule
.....................cancer-rose?

Poesia perdida

Onde a
..........poesia
mora..............
Numa célula
.....................câncer-rosa?

domingo, 31 de maio de 2009

O monge e o desassossego

Uma bem intencionada amiga emprestou-me O monge e o Executivo, de James Hunter. Pus na minha mesa de cabeceira debaixo do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Eles que se entendam!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Meus poemas, Um bom poema

Você me perguntou para aonde foram meus poemas? Eles estão por aí, jogando bola, mudando de cidade, ou de emprego, arrumando briga. Como dizia Leminski *: um bom poema, minha amiga, leva uma vida.

_______________

*um bom poema leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade,
eu e você, caminhando junto.

Paulo Leminski

domingo, 26 de abril de 2009

O filho eterno


Em O Filho Eterno, de Cristovão Tezza, não há tanta crueldade, ao contrário do que afirma o crítico da Veja, cujo comentário vem estampado na contracapa do premiado livro do escritor nascido em Lages-SC. Não dá para equipará-lo a Céline ou Onetti, nesse quesito, por exemplo. Talvez porque os personagens do livro sejam reais - principalmente seu filho, alvo da "crueldade" por ser portador da síndrome de Down, que ele não se reprime às vezes de qualificar como 'idiota", para em seguida demonstrar uma infinita paciência (eu não diria "compreensão", mais uma tolerância diante do inevitável). O que o crítico da Veja queria era quem sabe um outro "Marley e eu". E o romance (no que até onde hoje em dia se chama de romance) não oferece nenhum guia de auto-ajuda. Ele está tão perdido quanto nós. É um escritor, e isso basta. Em alguns momentos me lembra um John Fante, tentando ir em frente com seus escritos e hesitante diante da acolhida que têm. O Brasil, a dificuldade de se viver num país como o nosso, aparece como pano de fundo, nas lembranças do autor. Imigração e trabalho subalterno no exterior, a casa comprada com juros extorsivos embutidos num plano picareta do Governo, o medo diante da polícia, que dariam um segundo romance. O livro termina em um ponto que poderia ter sido outro qualquer. A ficção imita ou antes acompanha a vida dele e seu filho, impedido de chegar à idade adulta (que o pai, como ele próprio faz questão de sublinhar, por sua vez, reluta em alcançar) , daí o "eterno" do título.

sábado, 28 de março de 2009

Porque gosto tanto deste poema


Porque gosto tanto deste poema, escrito já há alguns anos, um haicai perfeito de 17 sílabas, que eu mesmo compus, para celebrar a mim mesmo (como o velho Walt Whitman também fez, sendo menos sintético, ele que não era nenhum japonês):


Madadayo (*)

Um fio de cabelo
branco brotou no meu peito.
Tu, coração, velho?




__________________

(*)Madadayo (pt: Ainda Não) é um filme japonês de 1993, o último dirigido e escrito por Akira Kurosawa. O filme é baseado na história real do professor Uchida Hyakken, que se aposentou depois de 30 anos lecionando literatura alemã para se tornar escritor. Com grande carisma e humor peculiar, conquistou o repeito e a amizade de seus alunos na forma de comemoração: todos os anos, no dia de seu aniversário, era comemorado o Madadayo, quando os alunos perguntam "Mada kai?" (Pronto?), e ele depois de uma imensa taça de cerveja respondia "Mada dayo!" (Ainda não!) significando que seus alunos teriam que "agüentá-lo" por mais um ano.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Recordações em vermelho, preto e branco


Eu escutava, no escuro da garagem, o rádio do fusca estacionado (um fusca lamentavelmente verde-abacate), em Mossoró, anos oitenta, interior do Rio Grande do Norte. Sentado no banco da frente, no lado do condutor, só a luz interna acesa, enquanto brincava com a direção do carro, a porta meio aberta, ouvia o locutor declamar “GOOOOOOOOOOOL” ― vibrava ― “DOOOO FLAAAMEEENGOOOO!!!... Ao redor, o silêncio da noite estrelada e quente mossoroense, a rua sem carros e sem asfalto, visível pelas frestas das grades do portão branco de ferro que separava a rua da casa, onde, de vez em quando, eu jogava bola até ficar tarde e minha mãe me chamar para dentro.

Mas a maioria dos meus jogos se passava de casa para dentro. Nos jogos solitários que inventava, como o “futebol de mão”, em que, usando uma bola de gude e duas traves improvisadas em cima da mesa, uma mão jogava contra a outra (havia muitos empates). Ou o “futebol de parede”, que consistia em chutar a bola com força contra a parede da garagem e rebater sem dar dois toques e nas poucas vezes que jogava com meu irmão mais novo (que, no entanto, preferia a leitura dos romances de Stendhal ao nobre esporte inglês).

Eu morava a poucos passos do estádio de futebol, o “Nogueirão”, um campinho de terra amarronzada e uma árvore solitária pouco frondosa separavam minha casa do local onde ocorria, a intervalos sucessivos, o clássico Potiguar versus Baraúnas ― eu nunca tinha entrado lá. Só uma vez, em 1985, quando tinha 14 anos, meu pai me levou para assistir ao jogo amistoso do Flamengo contra o Baraúnas. Os jogadores do Fla com o uniforme branco, o que eu mais gostava, com o qual a equipe conquistou o campeonato mundial de interclubes, em 1981. Era o grupo de Zico, Adílio, Júnior, Tita, Leandro, Andrade, Raul... O melhor time que o Flamengo já montou e que colecionou vitórias naquela década.

Os jogadores do Baraúnas iam a pé ou de bicicleta treinar ― daquelas bicicletas Monark barra-forte, de pedreiro. Um time que nunca havia ganhado nenhum título fora de casa, surgido inicialmente como bloco carnavalesco, cujo nome foi inspirado no cacique “Baraúnas”, líder da tribo Monxorós, que habitava a região. (Como, aliás, está dito no hino do clube, o qual, obviamente, eu nunca havia escutado: “Baraúnas, tu és origem / Da história que fez tradição. / Foste chefe, na mata virgem, / De uma tribo desta região...”).

É claro, na época, eu não pensava que nada disso fosse contraditório. Na verdade eu (ou era meu pai) odiava Mossoró. Torcer contra o time da cidade era perfeitamente razoável. Eu mesmo não havia telefonado uma vez, a pedido do meu pai, para uma emissora, num programa de rádio que denunciava as mazelas da cidade e dito a frase: “Agora desminta a Folha de São Paulo!”? Tudo por causa de uma matéria publicada naquele jornal que havia revoltado o município. Falava, entre outras coisas, das bicicletas (na ocasião, o número desses veículos por habitante em Mossoró era comparável ao da China) e das carroças disputando lugar com os carros. Eu havia depois desligado, deixando atônito e enraivecido no outro lado da linha o apresentador, que ainda tentou retrucar, deixando solto um início de resposta, evidentemente não ouvido, “Nós...” e depois falou disso ao vivo no programa ido ao ar em seguida.

Aqui cabe uma explicação. Meu pai e a família dele eram paraibanos, e ele havia se mudado a contragosto para Mossoró. A cidade era extraordinariamente quente e seca ― apesar das praias a pouco mais de 40 km, para onde nós, sem que eu encontre agora nenhuma explicação além da que irei dar a seguir, não íamos nunca. Meu pai detestava praia, gostava das serras paraibanas, onde havia se criado, e era capaz de dirigir um dia inteiro (com um braço quebrado e engessado, como ele havia feito uma vez levando a mulher e os filhos) para chegar à Paraíba. Na casa dos avôs, meus quinze tios viviam em pé de guerra, porque uns eram vascaínos, outros botafoguenses e outros, ainda, eram flamenguistas “doentes” como meu pai e eu.

Meu pai me punha na frente da TV vestido com o uniforme do Flamengo, todos os cinco filhos, na verdade, inclusive as duas meninas, uniformizados em frente à TV. E quando não passava o jogo do Flamengo, a salvação era o rádio. Aliás, ele desligava o som da televisão porque não suportava os comentaristas e ligava o rádio, cujos profissionais eram muito mais competentes e informados, segundo ele. No rádio, uma jogada que parecia completamente sem graça virava um momento emocionante, todos os momentos eram culminantes na narração e quando a jogada acabava, entrava o locutor anunciando a hora ou um reclame do Ponto Frio Bonzão (um nome que me fazia pensar não no Rio de Janeiro, mas num lugar gelado e tão distante de Mossoró quanto a Lua, como o Pólo Norte) e outras lojas que eu não conhecia.

O Nogueirão era palco, também, quando não tinha jogo, de torneios de bingo (para cada dezena sorteada, o locutor anunciava: “Núuuumero dez!”. Ou vinte, trinta etc. E acrescentava à frase um “De rombo!” para indicar, talvez para quebrar a rotina monótona dos jogos de bingo, que o número proclamado continha um zero)... E corrida de jegue. Eu gostaria que meu pai tivesse me levado pelo menos uma vez a uma daquelas sensacionais corridas de jegue. Eu só havia escutado a música tocando nos alto-falantes, que continha uma lição jamais esquecida (recordo até hoje): “O burro é quem merece uma medalha/ O burro é quem trabalha/ O burro é quem dá duro...”. E foi então que Zico e companhia, com seu uniforme branco no qual havia bordado, acima do peito, orgulhosamente, uma estrela amarela de campeões do mundo na final contra o time do Liverpool, em Tóquio, pisaram o mesmo gramado que os jegues já haviam adubado tantas outras vezes.

Vinte e três anos depois e me esforço para recordar como foi a partida. Em vão. Só me lembro dos uniformes brancos, de como gostei de estar no estádio com meu pai, torcendo pelo Flamengo, na arquibancada, e do formato redondo do estádio de cimento armado. Lembro que, comparado à proximidade dos “closes” da televisão, os jogadores pareciam pequenos de onde eles estavam.
Lembro de ter olhado para fora do muro e visto minha casa, onde ficaram minha mãe e meus irmãos. Da noite cálida e do campo verde ― não sabia que era tão verde, ou será que imagino agora que era tão verde? ―, dos mosquitos ao redor das torres de iluminação ― e imediatamente me recordo da vez em que uma coruja se perdeu e veio cair tonta no quintal de minha casa, por causa das luzes do estádio de futebol.

Lembro que estranhei a falta de “replay” nos gols, de meu pai e eu vestidos com a camisa do time rubro-negro (em nenhum momento pensei que fosse um time “carioca”). Meu pai com um radinho, que ele tanto gostava, de alça e botão seletor para mudar de estação. A sensação que tenho é de uma nostalgia silenciosa, de volta ao passado, com todas as sensações tácteis e visuais, mas nenhuma lembrança fixa, nem auditiva ou olfativa, um mergulho com bolhas numa piscina de água muito quente e muito funda.

Sim, havia outros flamenguistas, uma horda estranha como eram eu e meu pai, e vieram de todas as partes, de seus lares também silenciosos, naquele dia no estádio, mas eu não os conhecia e não fiz nenhum contato com eles, nem o meu pai. O que minha memória reteve foi um espaço vago e teatralmente iluminado na arquibancada, ocupado por meu pai e eu somente.

O que lembro, como se fosse hoje, é do verde do campo de futebol, do branco com listras em vermelho e preto do uniforme do Flamengo, da sensação térmica de calor envolvendo todos, onde talvez soprasse de vez em quando uma brisa noturna vinda daquelas praias afastadas e dos insetos em volta das luzes das torres do estádio, confundindo as aves noturnas.

sábado, 7 de março de 2009

Pedro Páramo

E agora lendo Pedro Páramo, de Juan Rulfo, agora que só escrevo notas esparsas, escorridas, pergunto-me se já não estão todos mortos... como as almas saídas das páginas deste pequeno livro estranho e forte, enquanto lá fora o ar enche-se da umidade pré-chuva, neste verão interminável de março, negando-me, não sei se negando-me de fato, onde para sempre para mim vida e morte se reuniram no dia trigésimo em que nasci, no mesmo em que vinte anos depois morreu meu pai, Pedro Páramo.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Não existe

"Não existe verdade sem o seu contrário; não existe amor que não odeie" (Borges? Escrevi para mim mesmo, à guisa de lembrete endereçado ao futuro, na contracapa de Ficções, numa edição antiga que folheio agora, no momento certo que eu previ, muito anos depois.)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A vida Breve


No fim do romance A vida Breve de Onetti, os personagens, que diga-se de passagem, são produtos da fantasia criados por outro personagem Juan María Brausen, estão fugindo da polícia. Fantasiados, "excessivamente escondidos no Carnaval", sem roupas para trocar e sem nenhuma perspectiva, sem dinheiro nem documentos, deixados para trás na fuga, sem ter mais para onde correr, eles sabem que quando acabar esse que é o último dia de folia, eles não vão conseguir passar mais despercebidos. É a hora em que está amanhecendo em Buenos Aires e eles estão sentados numa praça enquanto brindam à má sorte com copos vazios e a um homem muito velho que "alimentava-se de minúsculos mistérios sem importância. Na hora da morte acreditou que se salvaria dizendo estar com sono".

sábado, 21 de fevereiro de 2009

A conta do Marques

"É a débito e não a crédito da conta do Marques. (Vejo-o gordo, amável, piadista, e num momento, o navio desaparece)."

Bernardo Soares. O Livro do Desassossego.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Os detetives selvagens2

Ontem parei na página 526 dos Detetives. Acho que no final é um livro triste, tem uma visão pessimista e desencantada do ato de escrever, dos poetas, e escritores em geral.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Duas visões




















Profeta Daniel, de Aleijadinho, em pedra sabão e Liteira "serpentina" de arruar, século XVIII.

Aleijadinho

Era mulato, como a maioria da população de Ouro Preto, filho de arquiteto português, e de uma sua escrava africana. Produziu obras magníficas. As melhores estão fora da igreja, em Congonhas, expostas ao ar livre e à ação dos vândalos: a série dos doze profetas esculpidos em pedra sabão. O conjunto em madeira pintada representando sete cenas da Paixão de Cristo também é impressionante, cheio de sentidos enigmáticos que alguns interpretam como sendo referências à maçonaria e à Inconfidência. De novo, o sentido religioso não é o que atrai aqui e sim a maestria da obra, que contou com a ajuda dos discípulos para ser feita. (A doença que deformou as mãos de Aleijadinho estava já em estado avançado. Ele precisava atar o martelo e o cinzel nas mãos para poder esculpir e talhar.) Nota-se, entretanto, um estilo único em todas as esculturas, algo comovente.
Como tudo no Brasil, mesmo personagens recentes são envoltos em brumas, o que abre espaços para a especulação. A ausência de uma historiografia séria deixa dúvidas sobre a biografia e até mesmo da real existência desse personagem do barroco mineiro. As obras contudo estão lá, apesar de faltar um maior envolvimento das instituições que deveriam apoiar a pesquisa e a preservação desse patrimônio, perceptível para quem visite as cidades históricas mineiras.

Religião e mendicância

Em Ouro Preto, há um Museu do Oratório, com peças de todos os tipos. Entre os oratórios, existia um chamado de "esmoler", utilizado por mendigos, pendurado no pescoço, para pedir esmolas. Há uma linha contínua unindo religião e mendicância.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Minas



As igrejas em São João Del Rei e em Tiradentes têm o teto em forma de uma caravela invertida – "a bem dizer, naufragada" – explicou-me um guia, não sei se captando o alcance da imagem. As igrejas barrocas, naufrágios portugueses do século XVIII talhados em madeira coberta de ouro, transplantados para os trópicos em navios e como navios naufragados deixados para secar e apodrecer sobre pilares ornamentados nos pontos altos das cidades.

Em Tiradentes, ressoa música por todos os lados. Sentado na piscina de um casarão do século XVIII, escuto Vivaldi. O mesmo tipo de som, música erudita, toca nos alto falantes na rua, na praça em frente à capela do Rosário, também do século XVIII, enquanto espero pelo trio de sopro (clarineta, fagote e flauta) que irá executar peças de Vivaldi, Corelli e Mozart. À noite, saindo da igreja, após o concerto, me deparo com um coral de jovens acompanhados de violão, que apresentava músicas populares antigas, de porta em porta, em vários pontos da cidade.

Sobre as igrejas

Para a maioria dos visitantes, como eu próprio, elas perderam quase toda a significação religiosa. São um misto de exposição de arte, museu, cenário, palco e obras de arte em si mesmas.

Quando, em São João Del Rei, sem nenhum aviso, o padre inicia a missa das seis, parece um intruso, eu diria que ele parece quase profanar o lugar com sua presença.
Os turistas, com suas câmeras, fogem (fugimos) todos como um bando de pássaros assustados para a frente da igreja.

A ruína do significado religioso pode ser lida numa placa de advertência afixada no local: "Este altar é sagrado, favor não apoiar-se ou colocar objetos em cima".

Falta de um museu da escravidão
Não sei se existe um mesmo no Brasil, voltado apenas para esse tema, mostrando os sofrimentos e as torturas impingidas aos negros trazidos da África. Em São Paulo, onde há museu de tudo quanto é coisa, sei que não há (tem, isto sim, o Museu Afro, que ainda não visitei). Nos museus em Minas, da Inconfidência, em Ouro Preto e Casa do Padre Toledo, em Tiradentes, a questão é tratada en passant, quando não suavizada. Talvez porque o próprio Padre Toledo era um rico senhor de escravos e os inconfidentes não fossem abolicionistas.

Exposta no museu onde ficava a casa do inconfidente Padre Toledo, vi uma liteira que parecia saída de uma pintura do Inferno de Bosch. O modelo de "arruar" (isto é, para ir à rua, em viagens curtas) chamava-se "serpentina", por causa da representação em madeira de uma serpente na ponta do "veículo", produzido em outra colônia portuguesa, Macau. O trabalho de carregá-las era para ser feito por escravos "bem fardados e corpulentos". Era, informa o texto do museu, um trabalho "especializado", pois os carregadores negros aprendiam a marchar sem solavancos, para não "incomodar" as pessoas que transportavam. Por isso, ainda de acordo com o texto exposto, após a abolição tornou-se um dos ofícios mais bem pagos, senão o mais bem pago, para os negros "livres". (No museu da Inconfidência vi outro desses modelos. Lá, um guardinha que fazia às vezes de guia, lembrou que os negros que transportavam as mocinhas da sociedade eram castrados, sem dó nem piedade. Segundo ele, os testículos eram esmagados com pedras).
Ainda na casa transformada em museu do Padre Toledo, em Tiradentes, vi também pela primeira vez, uma corrente usada para "prender e transportar escravos", com várias formas pontiagudas de ferro enegrecido, retirado, em 1970, do fundo do Rio das Mortes – de novo, a sensação de estar diante de um objeto produzido nos fornos do inferno, por demônios. Abaixo da casa, "existe um interessante porão que serviu de prisão para escravos," como descreve laconicamente, quase como não tivesse muita importância, e por último entre as "atrações" do museu, o texto na página da Prefeitura de Tiradentes. Mesmo descaracterizado, com pichações, dá para sentir a atmosfera maligna e angustiante que impregna as paredes e imaginar-se no lugar dos que ali "viveram".
Texto ao lado de objetos de tortura usados em escravos no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto exalta a "paciência e a sabedoria" dos negros que "souberam se integrar" à cultura dos seus algozes brancos. Entre as poucas referências escritas, há um livro que ensina como "tratar, curar e evitar as doenças dos negros", como um compêndio destinado à saúde dos animais de criação.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Salvação. De viagem

Em pé e espremido perto da janela do ônibus em movimento hoje à tarde, debaixo de um sol escaldante, numa ruazinha perpendicular, próxima à igreja, pude observar, num flash de tempo - apenas alguns segundos, enquanto o ônibus ia se afastando-, uma fileira de anciões, todos muito brancos, que aguardavam não sei que sinal divino, parados. À frente do grupo, um andor, emplumado, pendia nos ombros de dois abnegados velhinhos. Mais atrás, algumas velhinhas mais sensatas portavam sombrinhas. Sobre a padiola ornamentada, uma estátua do que eles chamam de “A virgem santíssima”, ou algo equivalente (e esse conceito de virgem imaculada, por trás do Grande Corno, não citarei nomes para não ofender ninguém, o caso permanece em aberto já faz mais de 2 mil anos, eu nunca pude aceitar completamente, eu quero dizer compreender). A pergunta que me veio à cabeça, pouco depois, quando desci do ônibus, no calor sufocante do asfalto, foi: Que Deus sadomasoquista os ensinou a sofrer assim? E o que é pior, os ensinou que sofrer é bonito?

Como estou de viagem para Minas Gerais esses dias e devo me enfiar em algumas Igrejas (só espero que não estejam muito mofadas), acho bom ir me acostumando com isso. Levarei meu caderno de notas (caneta e papel) comigo, além de anti-histamínico, tomarei minhas impressões.

domingo, 4 de janeiro de 2009

A vida Breve 2


Há livros que não deveríamos ler. Que querem dissipar suas sombras tristes sobre nós, através de nós, tornando-nos seus personagens. Livros assim escravizam. Talvez Onetti fosse louco, assim como todos os grandes escritores (Joyce, Céline, Becket). E talvez escrever seja uma forma de ir adiante. Levantar-se, preparar o café com ovos mexidos, limpar-se, tomar banho, abotoar o paletó e dirigir-se até o escritório. Enquanto sentem se avolumar ao redor as ondas surdas do caos .

sábado, 3 de janeiro de 2009

Paul Valéry

Frase de Paul Valéry, que me apanhei relendo pouco tempo antes dos fogos explodirem, na virada do ano: "Temos de entrar em nós próprios armados até os dentes." De Monsieur Teste.

A vida breve

A "Vida breve", de Onetti, é também cruel . Me fez lembrar de Céline. Personagens esquisitos, desesperados, a morte rondando ao lado, inquieta. E de vez em quando, frases como essa, entre parêntesis, que iluminam o texto como um clarão de cemitério: "(Alguém pisa, estrangeiro, as folhas caídas no bosque; damos sepultura, sem pompa, à última rosa desse verão chuvoso.)". Enquanto gotas, reais, de chuva lavam a janela do apartamento onde digito isso e uma mulher grita, na casa da rua embaixo, pela terceira vez com o cachorro (que insiste em latir).