sábado, 15 de novembro de 2008

A morte exata do crítico medidor

Em seu escritório atapetado, cercado de livros por todos os lados, o crítico avaliava, com régua métrica, calibrada pelo Instituto Nacional de Metrologia, quantos centímetros de espessura possuía o texto do escritor X ou Y. Era seu lazer e sua vocação, para a qual havia dedicado grande parte de sua vida e carreira, ambas devotadas integralmente às letras.

Por escolha própria não havia contraído nenhum matrimônio, nem tido filho. Evitava mesmo a todo custo o contato com outras pessoas. A não ser os fortuitos e de breve permanência. A crítica literária era sua única e verdadeira paixão. Havia nascido para isso, para ser crítico. E era o que exercia com afinco, na sua solidão de celibatário aplicado, até mesmo nos piores momentos de sua vida, nem sempre alegre.

Havia começado seu trabalho de medição da escritura do texto dos autores com uma medida em palmos, mas, aos poucos, com sua fama crescente e na proporção em que se avolumavam os pedidos que lhe chegavam de todas as partes do globo, havia abandonado esse padrão, já há muito ultrapassado, em favor de um mais pertinente ao sistema métrico vigente.

O nível máximo de escritura que algum autor já havia alcançando na sua rígida escala pessoal havia sido de 40 centímetros ―e o mínimo, em torno de ¼ de um palmo, cinco centímetros. Era um crítico diligente e tenaz e vivia, literalmente, afundando-se em livros e leituras.

Nos últimos dias de sua vida, estivera a ponto de desenvolver um novo método revolucionário, que iria lhe permitir medir, além da espessura, também a massa ou ―dito em outras palavras,― o peso da escritura de determinado autor.

Para isso já havia feito diversos testes, com balanças de todos os tipos, analógicas e digitais, nacionais e importadas, chegando a delinear um projeto de um protótipo especialmente adaptado às suas exigências, desenhado por ele próprio, para o qual, entretanto, infelizmente ficaram faltando muitos desenvolvimentos que permaneceram inconclusos.

Sua estante, como alguém poderia esperar, era abastecida com uma multiplicidade sem fim de livros, que cresciam numa torrente até o pé-direito do escritório que chegava à altura máxima de sete metros. Aos mais espessos e pesados, assim medidos por ele, dedicava um lugar de honra no topo da estante, que estava ficando para lá de abarrotada.

Foi vítima de um acidente inusitado e infeliz, porém, conseqüente com sua atividade literária, enquanto cochilava sobre uma pilha de livros recém-medidos, o pescoço molemente apoiado sobre o último da pilha, quase que se oferecendo inconscientemente ao sacrifício. Num momento e zás! A estante inteira veio a desabar em cima dele, causando-lhe morte súbita por esmagamento e quebra do pescoço.

Hoje se encontra enterrado sob sete palmos de terra. De vez em quando, algum autor timidamente iniciante, sedento de julgamento, ainda vem depositar algum livro que acabou de dar à luz sobre sua lápide, por uma crença que ficou difundida principalmente entre os escritores mais jovens. Na vã esperança de que, do além onde se encontra, o nosso crítico possa ler e declarar a sua apreciação, a respeito da medida exata de sua escritura.

Um comentário:

Rosilene Fontes disse...

Lauro,
Adorei!
Eu ando colocando flores (ao invés de livros)na lápide dele para primeiro chamar atenção...rs
Falando sério, lembrei do artigo de Antonio Cicero que saiu na folha ontem "João Cabral e o verso livre".
o poeta, disse Cabral "é aquele que nunca aprende a escrever"
Este artigo está no blog ACONTECIMENTOS de A.Cicero.

Vi que você está de cara nova. A cara é a mesma não mudou, mas gostava mais da foto espontânea com a taça de vinho e toda a aura de mistério que envolve um escritor(era mais poético).