Schlegel, que a irmã dizia que tinha cara de bobo, numa
inventiva contra os árabes escreveu em 1798 que estes eram "aniquiladores
entre as nações" e uma "natureza extremamente polêmica", porque
tinham predileção em destruir os originais depois de traduzi-los para sua
língua nativa. Ironicamente, segundo ele, "talvez por isso mesmo fossem
infinitamente mais cultos, mas, apesar de toda cultura, mais puramente bárbaros
que os europeus da Idade Média. Bárbaro é aquilo que é ao mesmo tempo
anticlássico e antiprogressivo". Em outra passagem, acrescenta: "Os
árabes absolutizam em toda a parte. O que não lhes parecia útil, destruíam imediatamente".
terça-feira, 7 de abril de 2015
Absolutamente Nada

Lendo "Absolutamente nada", seleção de textos de
Robert Walser (que o vendedor entendeu Roberto Salsa e depois emendou uma
valsa), me esforçando para gostar. O homem era admirado, segundo me informa a
contracapa, por ninguém menos que Walter Benjamin, Musil, Kafka e Herman Hesse,
que escreveu: "Se Walser tivesse cem mil leitores, o mundo seria um lugar
melhor". Alguns contos são de uma singeleza que nossa época brutal não
mais permite. De tão evanescente fica-se um gosto de nada. Algumas imagens são
decididamente clichês e pelo menos um conto, "O bote", na minha
opinião não mereceria estar na seleção do tradutor Sergio Tellaroli. Por outro
lado, há uma crônica genial sobre as calças compridas das mulheres, escrita em
1911, na qual o autor parece adivinhar o futuro. E eu me lembrei de Antônio
Maria, o genial cronista brasileiro, que teve a desgraça de escrever em
português, num país que não existe no mapa. Antonio Maria por sinal faria 94
anos em 17 de março - ninguém lembrou. Outro conto, "A história de
Helbling", lembra o escrivão Bartleby de Herman Melville e Fernando
Pessoa, do Livro do Desassossego.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Lapouge e as cidades brasileiras
Resenha-artigo
Por Lauro
Marques
“São Paulo não
é feia ou bonita. São Paulo é um monstro”. Gilles Lapouge dá uma das melhores
definições do Brasil e das cidades brasileiras em seu impagável “Dicionário dos
apaixonados pelo Brasil” (editora Amarilys, 2014).
A tradução
“Dicionário Amoroso” do título, como no francês original em que foi lançada a
obra, “Dictionaire amoureux du Brésil”, ficaria melhor. Sim, é amoroso e nos
deixa nus como índios cabralinos.
São Paulo, de
acordo com o verbete sobre as aglomerações urbanas locais, é uma “periferia
infinita”, onde procuramos e nunca encontramos as portas da cidade. Estamos
sempre “ao redor da cidade”. É o ápice da cidade portuguesa, “construída às
cegas, de qualquer jeito, em qualquer lugar”.
Por isso as
sinuosidades são mantidas em nossas vilas e cidades, cheias de declives, vales, ladeiras.
Por isso são belas, diz, amorosamente, Lapouge. Por isso, acrescento, não
pensamos em construir calçadas, ou vias e estradas funcionais ou abastecimento
hídrico planejado.
Por isso também
as ciclovias de São Paulo, destinadas em grande parte aos fantasmas e zumbis (*), que são seus
nem sempre ocultos habitantes.
Rejeitamos a
geometria voluntária da urbe espanhola (ademais, já existente na América
pré-hispânica, enquanto aqui ainda não conhecíamos a roda). À lógica,
preferimos a intuição.
Quem ousou
contrariar essa inclinação foi Niemeyer e sua Brasília utópica - uma utopia,
apesar da rima ser rica, estranha, no entanto.
Em lugar de
ângulos retos, a curva. (A primeira cidade utópica “mulher”, segundo Lapouge).
Em lugar de ruas e esquinas, “asas”, “blocos” e “setores”.
Uma
cidade-hieróglifo para ser vista do avião, como uma mensagem no deserto aos
deuses (deixada por um comunista!) e inabitável ao rés do chão.
Livro
inspirador, voltarei a ele outras vezes.
_______________
(*) Véspera do
Natal, saída do túnel da Paulista em direção a Dr. Arnaldo. Sou pego em uma
cena de filme de Zumbi. Dentro do túnel, ocupando as laterais dos dois lados da
pista, numa semiescuridão, um grupo se amontoava (provavelmente viciados em
crack). A maioria homens, talvez não muito velhos, barbudos, cabeludos,
desgrenhados, famélicos, roupas em frangalhos e cobertos de sujeira. Corpos
enegrecidos, encolhidos, sentados um ao lado do outro, as mãos agarrando os
joelhos, olhando para frente. As cabeças meio inclinadas, em silêncio absoluto,
como se numa espécie de comunhão, sem fogo. Véspera de Ano-Novo, continuavam
lá. À passagem rápida dos carros, um deles se levantou, um pé tocando o
asfalto, antepondo a silhueta avermelhada contra a luz no final do túnel, que
agora me lembrava também uma caverna pré-histórica. Papelões voavam no meio da
pista.
Nota do autor: Talvez tenha carregado muito
nas tintas na descrição. Mas o quadro, quase um “presépio”, é exato e está
disponível a quem queira experimentar. Poderia tê-lo descrito numa linguagem
objetiva de jornalista, já que os nossos ainda não tiveram a oportunidade de
descrevê-lo. Se saiu nessa linguagem enviesada foi pela força que o evento me
impressionou.
"Poste-Escrito": Não sou inimigo das ciclovias, pelo contrário, utilizo e sou um apoiador. As ciclovias são uma boa ideia, mudaram a cara de São Paulo, oferecendo uma opção de lazer - e até em alguns casos, para uso por entregadores, ou de pessoas que moram em áreas mais urbanizadas da cidade, perto do trabalho e são jovens. Seu fracasso está associado ao próprio fracasso da cidade, de uma forma geral, como a falta de calçadas, avenidas mais largas e arborizadas, com recuo maior dos edificíos, o tecido caótico das ruas, etc.
sábado, 8 de março de 2014
O abismo de Pessoa
Mise en abîme. Procedimento que consiste em incrustar uma imagem dentro dela mesma, representar uma obra dentro de uma obra de um mesmo tipo, que remonta ao princípio dos fractais ou da recursividade na matemática.
Em literatura, o “pôr-se em abismo” é a técnica utilizada pelo escritor que escreve um romance sobre o escritor que escreve um romance, como no primeiro livro de André Gide: “Os Cadernos e as Poesias de André Walter”. Assim como em “Os Moedeiros Falsos”, obra da maturidade de Gide, o próprio romance está sendo escrito dentro da obra de mesmo nome em que é contado.
Indo um pouco além das definições enciclopédicas, de todos os artistas talvez o poeta seja o ser que mais está sempre a cada momento “colocando-se em abismo”. Isto é, ele está o tempo todo representando para si mesmo o ato de escrever o poema e a si mesmo nesse ato. Ele exercita o tempo todo aquilo que Octavio Paz chamou de “outridade” ―resumida na famosa frase de Rimbaud: “Je est un autre”, eu sou um outro, o “eu” é um outro.
Este “eu” de que falam tantos poemas sempre é um retrato de um outro, um “eu” que precisa ser representado na forma desse outro, e só aparece por meio da linguagem.
O “eu” é um outro, meu abismo é o seu abismo e ambos podemos nos reconhecer. Ou talvez nele venhamos a nos perder.
A “outridade” do poeta não é senão “colocação em abismo”, mise en abîme.
(Para ser inteiro é preciso ser outro. E nunca se pode ser inteiramente inteiro, sem ser outro. Donde, nunca se pode ser inteiro.)
O verdadeiro “eu” está em outra parte ou está em parte nenhuma ―o que é o mesmo que dizer que está em toda a parte.
O verdadeiro “eu” é uma ficção. Fernando Pessoa, o mais “abismal” dos poetas foi talvez quem melhor compreendeu isso, e que se declarou, pela voz do heterônimo (sempre pela voz do heterônimo) Bernardo Soares, um “espectador irônico” de si mesmo. E é também Bernardo Soares, no Livro do Desassossego, que se rebela contra o escritor Fernando Pessoa, que o escreve escrevendo contra a necessidade de se recompor, para que venha a existir, como linguagem, para nós, destruindo-se enquanto unidade autônoma aparente: “Tornei-me uma figura de livro, uma vida lida. O que sinto é (sem que o queira) sentido para se escrever que se sentiu. O que penso está logo em palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que são outra coisa qualquer. De tanto recompor-me destruí-me. De tanto pensar, sou já meus pensamentos mas não eu. Sondei-me e deixei cair a sonda; vivo a pensar se sou fundo ou não, sem outra sonda agora senão o meu próprio olhar que me mostra, claro a negro no espelho do poço alto, meu próprio rosto que me contempla a contemplá-lo”.
Mise en abîme infernal e vertiginoso em que criador e criatura se fundem e se separam num jogo de espelhos infinito, e a solução para o problema formulado nunca é dada.
Em literatura, o “pôr-se em abismo” é a técnica utilizada pelo escritor que escreve um romance sobre o escritor que escreve um romance, como no primeiro livro de André Gide: “Os Cadernos e as Poesias de André Walter”. Assim como em “Os Moedeiros Falsos”, obra da maturidade de Gide, o próprio romance está sendo escrito dentro da obra de mesmo nome em que é contado.
Indo um pouco além das definições enciclopédicas, de todos os artistas talvez o poeta seja o ser que mais está sempre a cada momento “colocando-se em abismo”. Isto é, ele está o tempo todo representando para si mesmo o ato de escrever o poema e a si mesmo nesse ato. Ele exercita o tempo todo aquilo que Octavio Paz chamou de “outridade” ―resumida na famosa frase de Rimbaud: “Je est un autre”, eu sou um outro, o “eu” é um outro.
Este “eu” de que falam tantos poemas sempre é um retrato de um outro, um “eu” que precisa ser representado na forma desse outro, e só aparece por meio da linguagem.
O “eu” é um outro, meu abismo é o seu abismo e ambos podemos nos reconhecer. Ou talvez nele venhamos a nos perder.
A “outridade” do poeta não é senão “colocação em abismo”, mise en abîme.
(Para ser inteiro é preciso ser outro. E nunca se pode ser inteiramente inteiro, sem ser outro. Donde, nunca se pode ser inteiro.)
O verdadeiro “eu” está em outra parte ou está em parte nenhuma ―o que é o mesmo que dizer que está em toda a parte.
O verdadeiro “eu” é uma ficção. Fernando Pessoa, o mais “abismal” dos poetas foi talvez quem melhor compreendeu isso, e que se declarou, pela voz do heterônimo (sempre pela voz do heterônimo) Bernardo Soares, um “espectador irônico” de si mesmo. E é também Bernardo Soares, no Livro do Desassossego, que se rebela contra o escritor Fernando Pessoa, que o escreve escrevendo contra a necessidade de se recompor, para que venha a existir, como linguagem, para nós, destruindo-se enquanto unidade autônoma aparente: “Tornei-me uma figura de livro, uma vida lida. O que sinto é (sem que o queira) sentido para se escrever que se sentiu. O que penso está logo em palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que são outra coisa qualquer. De tanto recompor-me destruí-me. De tanto pensar, sou já meus pensamentos mas não eu. Sondei-me e deixei cair a sonda; vivo a pensar se sou fundo ou não, sem outra sonda agora senão o meu próprio olhar que me mostra, claro a negro no espelho do poço alto, meu próprio rosto que me contempla a contemplá-lo”.
Mise en abîme infernal e vertiginoso em que criador e criatura se fundem e se separam num jogo de espelhos infinito, e a solução para o problema formulado nunca é dada.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
TAL QUAL (PAUL VALÉRY)

Fragmentos (“esboços de pensamentos”) recolhidos ao acaso e traduzidos de “Tel Quel”, coletânea de escritos de Paul Valéry, Gallimard: 1943.
LITERATURA
Escrever é prever.
Descobrimos, relendo, a medida de nossa própria ignorância.
*
Muitos escritores consideram sua arte, não como algo em que necessitam se tornarem mestres ― sine qua non ― mas como um jogo de azar no qual podem arriscar a própria sorte. Eles confiam inteiramente na fortuna e dar-se-ão o valor que ela vier a lhes conferir. (Acrescentarão uma coisa ou outra).
Há portanto dois perigos, duas maneiras de se perder e afundar: adaptar-se completamente ao público; ser fiel demais ao próprio sistema.
*Uma obra é sólida quando ela resiste às substituições que o espírito de um leitor ativo e rebelde sempre tenta submeter às suas partes.
Jamais esquecer que uma criação é algo finito, acabado e material. O arbitrário vivo do leitor se bate contra o arbitrário morto da obra.
*
De um certo “ponto de vista”, que não raramente é o meu ― o que chamamos de uma bela obra pode parecer um terrível defeito do autor.
*
Freqüentemente julgo uma obra de arte ao pensar: é impossível que tenhas querido isto.
*
Um poeta é o mais utilitário dos seres. Preguiça, desespero, acidentes de linguagem, olhares particulares, ― tudo isso que o homem mais prático perde, rejeita, ignora, elimina, esquece, o poeta recolhe e por meio de sua arte acrescenta certo valor.
*
Quem diz: Obra, diz também: Sacrifícios.
A grande questão é decidir aquilo que vamos sacrificar: é preciso saber quem, quem, será comido.
*
Conheço a literatura por lhe haver interrogado de minha própria vontade. (E somente desse modo).
LITERATURA
Escrever é prever.
Descobrimos, relendo, a medida de nossa própria ignorância.
*
Muitos escritores consideram sua arte, não como algo em que necessitam se tornarem mestres ― sine qua non ― mas como um jogo de azar no qual podem arriscar a própria sorte. Eles confiam inteiramente na fortuna e dar-se-ão o valor que ela vier a lhes conferir. (Acrescentarão uma coisa ou outra).
Há portanto dois perigos, duas maneiras de se perder e afundar: adaptar-se completamente ao público; ser fiel demais ao próprio sistema.
*Uma obra é sólida quando ela resiste às substituições que o espírito de um leitor ativo e rebelde sempre tenta submeter às suas partes.
Jamais esquecer que uma criação é algo finito, acabado e material. O arbitrário vivo do leitor se bate contra o arbitrário morto da obra.
*
De um certo “ponto de vista”, que não raramente é o meu ― o que chamamos de uma bela obra pode parecer um terrível defeito do autor.
*
Freqüentemente julgo uma obra de arte ao pensar: é impossível que tenhas querido isto.
*
Um poeta é o mais utilitário dos seres. Preguiça, desespero, acidentes de linguagem, olhares particulares, ― tudo isso que o homem mais prático perde, rejeita, ignora, elimina, esquece, o poeta recolhe e por meio de sua arte acrescenta certo valor.
*
Quem diz: Obra, diz também: Sacrifícios.
A grande questão é decidir aquilo que vamos sacrificar: é preciso saber quem, quem, será comido.
*
Conheço a literatura por lhe haver interrogado de minha própria vontade. (E somente desse modo).
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Rio que não passa por minha aldeia
Rio que corre em outra cidade
que não é a minha
único que eu posso amar
Onde sua gélida corrente?
que alimentará os vinhedos
que alimentará o povoado
que não me alimentará
Amo o rio que não passa por minha aldeia
só posso amar esse rio.
* * *
Río que no pasa por mi aldea
Río que corre en otra ciudad
que no es la mía
único que puedo amar
Donde su gélida corriente?
que alimentará los viñedos
que alimentará el pueblo
que no me alimentará
Amo el río que no pasa por mi aldea
sólo puedo amar este río.
que não é a minha
único que eu posso amar
Onde sua gélida corrente?
que alimentará os vinhedos
que alimentará o povoado
que não me alimentará
Amo o rio que não passa por minha aldeia
só posso amar esse rio.
* * *
Río que no pasa por mi aldea
Río que corre en otra ciudad
que no es la mía
único que puedo amar
Donde su gélida corriente?
que alimentará los viñedos
que alimentará el pueblo
que no me alimentará
Amo el río que no pasa por mi aldea
sólo puedo amar este río.
sábado, 17 de agosto de 2013
domingo, 4 de novembro de 2012
Enésima meditação noturna
Mira
a noite/sem
consequências/
não
este nada/o grande
nada/
e
à manhã/que pronto/virá/
fingirá
que é outra/e ignora
continuidade.
Enésima
meditación nocturna
Mira
la noche/sin
consecuencias/
no
esta nada/la grande
nada/
y
al mañana/que pronto/vendrá/
fingirá
que es otra/e ignora
continuidad.
LM
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Historia del bigote (tercera versión)
Mi padre tenía un bigote enorme
que cultivaba con mucho orgullo
un bigote de bandolero mexicano
- tanto, que la primera vez que vi una foto de Zapata, luego me acordé de mi padre.
Cuando, cierto día, le pregunté qué iria a hacer cuando su bigote se volviese blanco,
no me contestó, quedóse enfadado, dijo: "No lo sé, tal vez no llegue a ser blanco, nunca".
Pienso en ello hoy, cuando estoy cerca de la edad de mi padre muerto, con su bigote, intacto, todavía.
que cultivaba con mucho orgullo
un bigote de bandolero mexicano
- tanto, que la primera vez que vi una foto de Zapata, luego me acordé de mi padre.
Cuando, cierto día, le pregunté qué iria a hacer cuando su bigote se volviese blanco,
no me contestó, quedóse enfadado, dijo: "No lo sé, tal vez no llegue a ser blanco, nunca".
Pienso en ello hoy, cuando estoy cerca de la edad de mi padre muerto, con su bigote, intacto, todavía.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Donc, il n'y avait pas feu encore, le froid
Donc, il n'y avait feu encore, froid
qui vous a donné autorisation de changer, comme ça, de place?
par hasard n'étiez vous pas habitué à l'absence
(de ceux qui vous voulaient, mort, cependant?
Lorsque vous entouraient chiens, vêtus de noir comme les prêtres)
et au vent, poussant les huttes contre la falaise
et à la pluie, défaisant les yeux en l'eau
et au désir, aveugle, éclatant en myriades
LM
sábado, 19 de maio de 2012
Assommé parmi les étoiles
Assommé parmi les étoiles
île fatiguée de soleil
bateau sans voile en battant contre le temps
solitaire avec mouettes et bancs de poissons
sábado, 21 de abril de 2012
domingo, 22 de janeiro de 2012
Impossível reconhecimento
Impossível
reconhecimento
no ocaso das
estações
abraço o
vermelho das casas
quando o sol
se põe
e o barulho
da chuva
quando a
chuva acaba
[e é quase
nada viver]
o espaço de
uma asa
num intervalo
de um segundo
quando
despetalam as ros...
a claridade
sentida de verão chuvoso.
LM
LM
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Resenha no Prosa & Verso
Resenha de 'Sumário de incertezas', de Lauro Marques
Sumário de incertezas, de Lauro Marques. Editora Confraria do Vento, R$ 19
Luciano Rosa *
Curioso
(ou sintomático) o verso que abre o livro de estreia do poeta Lauro
Marques: “Para mim basta”. O que soaria como senha de despedida ou
indício do fim é, em "Sumário de incertezas" (Confraria do Vento), via de
acesso a um universo lírico instigante, perturbador às vezes, desvelado
no singular “passeio pelo paraíso ou/ Inferno/ de delícias” proposto ao
leitor. Pórtico desse percurso, o poema “Intro” prenuncia o tom geral
do livro: “O belo não me agrada mais”, “Entrego a ti as tuas fadas” e
“Deixa-me morrer em paz/ Com meus demônios!” são versos que, articulados
com a renúncia da linha inicial, sinalizam uma poética elaborada não
com os artifícios consabidos e consagrados da beleza dúctil, de
contornos harmoniosos, mas forjada a partir do material duro extraído do
desamparo que intermedeia o contato do poeta com o mundo desolado que o
abriga.
Desse embate surge uma poesia tangida por certa “alma em pânico”, a vagar por “entre prantos”, “panos sujos [e] pântanos”, “encharcada de tédio,/ que sofre muito para chegar/ num ponto qualquer”. No trajeto de quem “habituado [está] a pisar em espinhos”, a paisagem que se descortina, “à noite gris/ no meio de/ lugar nenhum”, pode ser “um descampado de natureza morta” ou “a paisagem ocre” sob “um céu sem vida”, em que “nuvens são nações de ódio”. “Nada é minha/ morada/ Tudo é só pó”, afirma o poeta em “Pária”, cujo último verso – “Nunca alcancei o outro lado” – bem simboliza a errância e a incompletude que frequentemente lhe orientam a pena.
Aparentemente infértil, tal cenário é altamente fecundo às incertezas que a poesia de Lauro Marques se propõe sumariar. “Com que tinta escreverei agora/ que o tinteiro esvaziou?/ Com a tinta da dúvida que/ essa não seca nunca!”, pergunta e sentencia o poeta em “Dúvida”. É com essa tinta perene que se grava o “impreciso canto,/ Nem formidável/ Nem novo”, mas inusitadamente belo, de Sumário de incertezas, cuja hesitação fundamental parece centrada na própria poesia e, por conseguinte, naquele que a traz à luz. Escrevendo “para poder escapar/ da mediocridade”, o poeta se questiona: “Mas, ai de mim, se o poema/ também resulta – medíocre?”. A consciência do risco essencial de seu ofício reaparece alegorizada num aforismo do general Bonaparte, mote do poema “Napoleão”: “Do sublime ao ridículo/ há apenas um passo”. Hábil em esquivar-se aos perigos dessa fronteira ínfima e oscilante, Marques manifesta notável capacidade de conjugar delicada sensibilidade com alta potência lírica, combinação que resulta em fulgurações poéticas de fina beleza. É o que se vê, por exemplo, em poemas como “Agora”, “Pensamento” e “Elegia (outono)”.
Interessado não apenas em compendiar dúvidas, "Sumário de incertezas" é também profícuo inventário de perdas e interdições: um “salto que nós nunca demos”, uma “estrada/ que nunca/ pisei”, “um porto/ que já não alcanço”, uns “olhos que não dão mirada” e outras denegações são despojos que servem de matéria a uma poética em boa parte brotada da inviabilidade. Impelida por uma “ânsia/ de chegar/ a nenhum lugar”, a lírica de Lauro Marques parece gestada num “intervalo infinito” em que tudo é “olvido e névoa”. “E apesar disso tudo/ (ou talvez por isso)”, essa poesia – “ao mesmo tempo sublime, banal e verdadeira” – aciona sugestivo repertório imagético, responsável em grande medida pelo vigor dos poemas.
"Sumário de incertezas" configura-se ainda como uma espécie de súmula de referências a delinear a filiação intelectual de Marques, que a certa altura assevera: “A poesia é um longo e interminável diálogo entre poetas, no qual se entra como num rio caudaloso”. A correnteza dos ingleses – Shakespeare, D. H. Lawrence, William Blake, Malcolm Lowry – aparece com força, muito embora outros afluentes – Ungaretti, Rilke, Pound, Rimbaud – mostrem-se também influentes. Do colóquio com as artes plásticas nasce “Tríptico de Bacon” (sobre “Três estudos para figuras na base de uma crucificação”, de Francis Bacon), um dos momentos altos do livro. A intensa interlocução do poeta com seus pares e com criadores de outras artes revela um lastro cultural que em nada se confunde com a fátua afetação muita vez camuflada sob o brilho falso da erudição de almanaque. No caso de Marques, são sinais que ajudam a mapear-lhe a linhagem poética e tornam mais claro seu pensamento lírico.
Se “Arte é o que vale a pena” (como lemos em “A parte”), "Sumário de incertezas" é, indubitavelmente, boa aposta de leitura. No contato com essa poesia ora aflita, ora “leve/ como uma cerveja weiss” – “pluma temerosa a fender o espaço” –, a pena é muitíssimo bem recompensada. E a qualidade dos poemas “é a parte/ que cabe a cada leitor descobrir”.
LUCIANO ROSA é doutorando em Letras pela UFRJ, pesquisador da literatura brasileira do século XX, organizador do volume "Anos 40" da coleção Roteiro da Poesia Brasileira e os "Melhores Contos de Aurélio Buarque de Holanda", ambos da editora Global.
Sumário de incertezas, de Lauro Marques. Editora Confraria do Vento, R$ 19
Luciano Rosa *
Curioso
(ou sintomático) o verso que abre o livro de estreia do poeta Lauro
Marques: “Para mim basta”. O que soaria como senha de despedida ou
indício do fim é, em "Sumário de incertezas" (Confraria do Vento), via de
acesso a um universo lírico instigante, perturbador às vezes, desvelado
no singular “passeio pelo paraíso ou/ Inferno/ de delícias” proposto ao
leitor. Pórtico desse percurso, o poema “Intro” prenuncia o tom geral
do livro: “O belo não me agrada mais”, “Entrego a ti as tuas fadas” e
“Deixa-me morrer em paz/ Com meus demônios!” são versos que, articulados
com a renúncia da linha inicial, sinalizam uma poética elaborada não
com os artifícios consabidos e consagrados da beleza dúctil, de
contornos harmoniosos, mas forjada a partir do material duro extraído do
desamparo que intermedeia o contato do poeta com o mundo desolado que o
abriga.Desse embate surge uma poesia tangida por certa “alma em pânico”, a vagar por “entre prantos”, “panos sujos [e] pântanos”, “encharcada de tédio,/ que sofre muito para chegar/ num ponto qualquer”. No trajeto de quem “habituado [está] a pisar em espinhos”, a paisagem que se descortina, “à noite gris/ no meio de/ lugar nenhum”, pode ser “um descampado de natureza morta” ou “a paisagem ocre” sob “um céu sem vida”, em que “nuvens são nações de ódio”. “Nada é minha/ morada/ Tudo é só pó”, afirma o poeta em “Pária”, cujo último verso – “Nunca alcancei o outro lado” – bem simboliza a errância e a incompletude que frequentemente lhe orientam a pena.
Aparentemente infértil, tal cenário é altamente fecundo às incertezas que a poesia de Lauro Marques se propõe sumariar. “Com que tinta escreverei agora/ que o tinteiro esvaziou?/ Com a tinta da dúvida que/ essa não seca nunca!”, pergunta e sentencia o poeta em “Dúvida”. É com essa tinta perene que se grava o “impreciso canto,/ Nem formidável/ Nem novo”, mas inusitadamente belo, de Sumário de incertezas, cuja hesitação fundamental parece centrada na própria poesia e, por conseguinte, naquele que a traz à luz. Escrevendo “para poder escapar/ da mediocridade”, o poeta se questiona: “Mas, ai de mim, se o poema/ também resulta – medíocre?”. A consciência do risco essencial de seu ofício reaparece alegorizada num aforismo do general Bonaparte, mote do poema “Napoleão”: “Do sublime ao ridículo/ há apenas um passo”. Hábil em esquivar-se aos perigos dessa fronteira ínfima e oscilante, Marques manifesta notável capacidade de conjugar delicada sensibilidade com alta potência lírica, combinação que resulta em fulgurações poéticas de fina beleza. É o que se vê, por exemplo, em poemas como “Agora”, “Pensamento” e “Elegia (outono)”.
Interessado não apenas em compendiar dúvidas, "Sumário de incertezas" é também profícuo inventário de perdas e interdições: um “salto que nós nunca demos”, uma “estrada/ que nunca/ pisei”, “um porto/ que já não alcanço”, uns “olhos que não dão mirada” e outras denegações são despojos que servem de matéria a uma poética em boa parte brotada da inviabilidade. Impelida por uma “ânsia/ de chegar/ a nenhum lugar”, a lírica de Lauro Marques parece gestada num “intervalo infinito” em que tudo é “olvido e névoa”. “E apesar disso tudo/ (ou talvez por isso)”, essa poesia – “ao mesmo tempo sublime, banal e verdadeira” – aciona sugestivo repertório imagético, responsável em grande medida pelo vigor dos poemas.
"Sumário de incertezas" configura-se ainda como uma espécie de súmula de referências a delinear a filiação intelectual de Marques, que a certa altura assevera: “A poesia é um longo e interminável diálogo entre poetas, no qual se entra como num rio caudaloso”. A correnteza dos ingleses – Shakespeare, D. H. Lawrence, William Blake, Malcolm Lowry – aparece com força, muito embora outros afluentes – Ungaretti, Rilke, Pound, Rimbaud – mostrem-se também influentes. Do colóquio com as artes plásticas nasce “Tríptico de Bacon” (sobre “Três estudos para figuras na base de uma crucificação”, de Francis Bacon), um dos momentos altos do livro. A intensa interlocução do poeta com seus pares e com criadores de outras artes revela um lastro cultural que em nada se confunde com a fátua afetação muita vez camuflada sob o brilho falso da erudição de almanaque. No caso de Marques, são sinais que ajudam a mapear-lhe a linhagem poética e tornam mais claro seu pensamento lírico.
Se “Arte é o que vale a pena” (como lemos em “A parte”), "Sumário de incertezas" é, indubitavelmente, boa aposta de leitura. No contato com essa poesia ora aflita, ora “leve/ como uma cerveja weiss” – “pluma temerosa a fender o espaço” –, a pena é muitíssimo bem recompensada. E a qualidade dos poemas “é a parte/ que cabe a cada leitor descobrir”.
LUCIANO ROSA é doutorando em Letras pela UFRJ, pesquisador da literatura brasileira do século XX, organizador do volume "Anos 40" da coleção Roteiro da Poesia Brasileira e os "Melhores Contos de Aurélio Buarque de Holanda", ambos da editora Global.
sábado, 15 de outubro de 2011
domingo, 2 de outubro de 2011
As pessoas não são formigas
No Metrô,
vejo escorrer
(no rosto
lento e calmo
sorridente e não disfarçado)
uma lágrima
no rosto da menina.
LM
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
THE DOUBT/ A DÚVIDA
With what ink will I write now
With the ink of the doubt that
this never dries out!
Com que tinta escreverei agora
que o tinteiro esvaziou?
Com a tinta da dúvida que
essa não seca nunca!
essa não seca nunca!
LM
domingo, 28 de agosto de 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Thought / Pensamento
But we
can't
avoid the
dew
when
evening falls -
thought is
like a landing.
Again and
again at
the same
point,
being
different.
What has
changed
in the
mean-
time between a verse and
time between a verse and
another,
what can I
say of your
eyes?
PENSAMENTO
Mas não podemos
evitar
o sereno
quando a tarde cai –
o pensamento é como um pouso.
De novo e sempre
no mesmo ponto,
sendo diferente.
O que mudou nesse meio-
tempo entre um verso e
outro, que posso Eu
dizer de seus
olhos?
LM
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