segunda-feira, 17 de outubro de 2005

Nietzsche - Ecce Homo, uma obra peculiar dentro da biografia de N.

Adquira o livro no site da Companhia das letras:http://www.companhiadasletras.com.br/
(Novas atualizações a este post serão adicionadas, até um ponto limite, que não sei o certo. O ensaio como forma - Adorno)

Uma versão desse post foi publicada na Revista Bula, Goiânia, 26/10 a 01/11/2005, com boas fotos e uma charge de N.

Ecce Homo é uma obra peculiar dentro da biografia de N. Ele a escreveu pouco antes de perder a lucidez. Freud a estudou como um "caso clínico". Em algumas passagens, N. extrapola no auto-elogio, "Shakespeare e Goethe não saberiam respirar nessas alturas". Alguns chegam mesmo a classificar o volume como "pós-filosófico". E no entanto, o livro nos deslumbra com várias passagens poéticas e altamente dignas de ser pensadas, como em todos do filósofo alemão. Tal como esse parágrafo em que ele discorre sobre a maneira de reconhecer a vida que vingou:

"Um homem que vingou faz bem a nossos sentidos; ele é talhado em madeira dura, delicada e cheirosa ao mesmo tempo. Só encontra sabor no que é salutar; seu agrado, seu prazer cessa, onde a medida do salutar é ultrapassada. Inventa meios de cura para injúrias, utiliza acasos ruins em seu proveito; o que não o mata o fortalece. De tudo que vê, ouve e vive forma instintivamente sua soma: ele é um princípio seletivo, muito deixa de lado. Está sempre em sua companhia, lide com homens, livros ou paisagens: honra na medida em que elege, concede, confia. Reage lentamente a toda sorte de estímulo, com aquela lentidão que uma larga previdência e um orgulho conquistado nele cultivaram – interroga o estímulo que se aproxima, está longe de ir ao seu encontro. Descrê de “infortúnio” como de “culpa”: acerta contas consigo, com os outros, sabe esquecer – é forte o bastante para que tudo tenha de resultar no melhor para ele.”

A tradução é de Paulo César de Souza, Cia. das Letras, São Paulo, 2001, 25-26.
Não parecem as palavras de um homem louco. A não ser que a loucura seja uma forma extrema de sanidade.

Há também muitas curiosidades nesse livro: não deixa de ser cômico imaginar N. percorrendo Roma, em vão, à procura de um lugar “não-cristão” para hospedar-se; ou a afirmação, suprimida da edição após sua morte, de que “a verdadeira objeção” à idéia de eterno retorno eram sua irmã e sua mãe! A quem ele chama de “vermes venenosos”: “Crê-me aparentado a tal canaille seria uma blasfêmia à minha divindade”, diz. Quando se pensa no que a irmã fez depois com sua obra, chegando ao ponto de falsificar cartas atribuídas a ele, associando-o ao nazismo, deve se dar toda razão a Nietzsche por essas investidas contra a família.

Outro fato curioso é que N. tinha certeza que descendia de nobres poloneses, mas a pesquisa genealógica demonstrou a sua origem totalmente germânica. É mais fácil encontrar passagens elogiosas aos judeus em seus livros, do que a favor do alemão médio da época – um tipo que N. desprezava profundamente, e em relação ao qual se considerava um "antípoda".

N. promoveu um ataque feroz à "cultura" alemã e o que esta, segundo ele, havia produzido até então de pior: o idealismo "tornado um instinto" nos alemães. Kant não era filósofo de fato, nem sequer era "profundo". "Os alemães acham-se inscritos na história do conhecimento apenas com nomes ambíguos, jamais produziram senão falsários 'inconscientes' (– Fichte, Schelling, Schopenhauer, Hegel, Scheiermacher merecem o termo tanto quanto Leibniz e Kant; não passam todos de 'fabricantes de véus' [Scheiermacher] –)."

Ninguém é perfeito. N. odiava a "cerveja alemã", duvidava da máxima "in vino veritas". Um copo de vinho servia, segundo ele, para lhe estragar todo o dia. Estranho para um "fervoroso" "seguidor" de Dionísio. A explicação no entanto não tem nada de "metafísica", mas vem a ser meramente fisiológica. O filosófo da Gaia Ciência tinha o estômago fraco.

Há toda uma seção dedicada à culinária e, mais uma vez, serve para espinafrar a cozinha alemã, as carnes excessivamente cozidas. N. escreveu a favor e contra o vegetarianismo. Todas esssas observações, demasiado humanas, tinham no entanto um lugar na sua filosofia, cujo mandamento era olhar para o homem e não procurar por nada cuja elucidação não pudesse ser encontrada aqui mesmo na terra.

Em Ecce Homo ele faz a autocrítica (e o autoelogio) de todos os seus livros anteriores, passando-os em revista. "Eis o homem" é a frase com a qual Pilatos apresenta Cristo aos judeus. ("Crucifica-o, Crucifica-o", responderam, tendo-o visto, os príncipes e os ministros dos sacerdotes, de acordo com o episódio citado no Evangelho de São João). No posfácio a esse volume, da edição das obras de N, pela Cia. das Letras, o tradutor afirma que, com essa obra, N. fez para si mesmo os louvores que gostaria de ter ouvido , durante toda a sua vida, e não escutou de ninguém. E no entanto, mal começara ele a ser lido e admirado, à epoca que terminou de escrever o livro, e já incita a todos na introdução, citando passagens do Zaratustra, que o abandonem, e encontrem a si mesmos. E conclui ele dizendo: "Somente quando me tiverem todos renegado, retornarei a vós".

Nisto consiste o "anti-cristianismo" de N. “Nunca adules teu benfeitor”(a frase é de Buda, citado em A Gaia Ciência). Apesar de falar às vezes como um pregador, N. afasta a possibilidade de ser ele o fundador de uma religião. Escreve Ecce Homo antes que alguém tenha a má idéia de atribuir-lhe algo parecido. Ele também ensinou a “filosofar com o martelo”, usando o instrumento como um diapasão, capaz de constatar a existência de deuses-ídolos ocos. Ele nunca foi santo. “Costumo lavar as mãos após o contato com pessoas religiosas”, afirma. Ao cristianismo, “essa recusa de viver tornada religião”, opõe o amor-fati, amor ao destino, amor de si mesmo. Dionísio contra o crucificado.

Continua... Talvez.



Lauro Marques

PARA IR ALÉM: Leia-se esse excelente ensaio "Ecce homo: um livro quase homem", de Alexandre Mendonça -Mestrando do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, nos CADERNOS NIETZSCHE 4 (Maio 1998)

6 comentários:

Soares Feitosa disse...

Lauro, o ensaio está um primor. De nível, em onda alta.
Escrevi recente um ensaio sobre o velho N. De uma forma muito estranha, sequer lhe cito o nome, mas o leitor, aliás, o LEITOR, sabe que é ele. Nem parece, mas é. O texto todo gira noutros caminhos (cavalos espancados), o detonador da loucura dele, para, no final, chamar N ao encontro. Está aqui:
[http://www.jornaldepoesia.jor.br/feito80d.html]
Há, no ensaiote, um pequeno problema de tradução.
Nao sei o método coroneliano é válido; ou, pelo contrário, pura fraude... tanger o leitor no brete, por uma elipse muito alongada, cometária, desde as nuves de Oorth até a coroa solar.
Depois que os bigodes arderam é que me dei conta, creia-me. Fraude?
Você é um jovem muito culto. Parabéns. O LEITOR!
SF

Lauro disse...

Compadre, nem tanto, mas obrigado assim mesmo pelo elogio.
Li seu ensaio-entrevista-ficção-autobiográfica. Moisés não espancava, mas o Deus de Moisés, aquele que mandava esmagar a cabeça das criancinhas na
frente de suas mães, no Egito, sim. E aí Nietzsche chega a ser mais compassivo. "Eu não acreditaria num deus que não soubesse dançar", ou montar a cavalo, diria você. O episódio dele abraçado ao cavalo chicoteado, citado em elipse, no seu ensaio, sempre me lembrou
Dostoievski, um personagem saído de "Notas de Subsolo"ou Crime e Castigo, ou Os Irmãos Karamazov.
P.s seu comentário, com minha resposta está está indo para o blog.
Grande abraço, compadre!
Lauro

Soares Feitosa disse...

Moisés espancou!
Caiu na armadilha e espancou. É tudo escrito em armadilha.
O Ancião dos Dias (vide Blake) diz: «Mata!» Ai daquele que matasse. Ele
haveria de dizer: «Estás com as mãos sujas de sangue!» O herói responde:
«Matei, Mandaste-mo!» Ele diz: «Não interpretaste direito a ordem. Não verás a terra prometida.»
Claro que este diálogo nunca houve.
Claro que este é o único diálogo possível.

E o abraço a ambos, a ti e a mim.
Soares, o abraçante.

Affonso Romano de Sant'Anna disse...

Lauro, acho que você fez bem em apontar lados vários de N., esse enigma que ainda espanta o Ocidente. É isso, ele faz muito sentido dentro da rigidez da
cultura alemã/ européia. Numa cultura anárquica, carnavalizada, sem eixos convencionais como a brasileira, ele se sentiria perdido, atônito e talvez voltasse a se comportar como um "alemão".
Meu abraço, ars

Lauro disse...

Nietzsche no Brasil! Isso seria interessante de pensar, certamente ele se sentiria um "alemão". Somos o maior país católico do mundo! Acho que muita coisa o chocaria, eu o levaria para conhecer a Praça da Sé.
Um abraço e obrigado pelo comentário, Affonso!
Lauro

SHIMA disse...

para quem nao foi batizado em nenhuma religiao e tem por signo o dragao no horoscopo chines eu me identifiquei com NIETZSCHE NO LIVRO ASSIM FALAVA ZARATRUSTA , QUANDO ELE DISSE UMA VIBORA NAO PODE FERIR UM DRAGAO;E PARA COMPLETAR O QUE É O HOMEM-BOMBA NA IDEIA DE NIETZSCHE.