segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Cidade do México - Diário de viagem

Frida Kahlo por Antonio Gironella


(Instantâneos)
-escrito em portuñol selvagem-

Xochimilco: Pântano Azteca de águas oscuras. Aquí hay gente que vive aislada. A mãe levando de balsa, remando, seus filhos para la escuela. Nosotros y los mexicanos bebiendo frescas cervezas. Tristes-alegres, “valsam”. Noches Buenas*, los terribles Mariachis e bem no fundo, quase não se notam, emplumados para la guerra, eles nos olham.

Teotihuacan: Das casas de palha e barro, nenhum vestígio. Palácios, um rei morou aqui. Do alto da pirâmide, larga vista para o vale de los muertos ―“camelando” sus últimas bugigangas.

Centro, praça do Zócalo: Em uma tenda zapatista armada, solitária, alguém canta una vieja canção, Che Guevara. Policiais no palacio del Gobierno montam-guardam os murais de Rivera.

Centro, Catedral: Silêncio. No centro, à entrada, de interior negro, Jesus Del Veneno, oscuro, pende de la cruz, como se pendesse de um galho, antes dos outros santos e altares. Tudo alto y dependurado. Cheiro incenso ―mais silêncio, intenso, vindo de fora, da praça, um canto, irreproduzível, la-la-la-la, de tristeza amplificada de micrófono, alegre y desesperada. Um campesino escuta a si próprio na sala reservada, a conversar com estátuas, que lhe olham, e a si mesmas, assustadas, em su silencio de luto e de madera.

Palácio de Belas-Artes: Fuera los santos! Catedral (in)útil onde se odeia/adora el hombre: de novo Rivera, Orozco ―um rasgo en las paredes, mejor que los murales, gigantescos y tirânicos: Gironella, pinturas que  son un corte y sangran.

Museo Nacional de Arte: Bela moldura, em espanhol. Patio sin nombre ―donde contemplo o vazio, el tiempo, como se fuera la mas bela de las artes, subindo y descendo las escaleras.

Calle Francisco de Souza: O ocre cor de terra das casas da calle Francisco de Souza, hijos de la Malinche, também tingida de azul cobalto y Frida, que eu não vi, as aquarelas do museu de aquarela...

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* "Noche Buena" é o nome de uma cerveja mexicana, do tipo premium, escura, de edição limitada e lançada nos meses de outubro a dezembro para ser consumida na noite de Natal (a "Nochebuena", como é chamada). É também o nome de uma flor vermelha estampada no invólucro da cerveja.

3 comentários:

Rosilene Fontes disse...

Que coisa linda Lauro, que diário mais poético! Eu tenho uma vontade enorme de conhecer o México (a arquitetura, história, ver as cores, os ocres, vermelhos e laranjas, os azuis mais azuis que o céu). Você esteve lá? Quero muito conhecer Puebla (fiz até um projeto me inspirando nela). Mesmo que você nunca tenha ido, você foi (o poema comprova). Gostei muito Centro,Catedral: Silêncio. (é tão Minas Gerais).
abraços

Anônimo disse...

Obrigado Rosilene, estive na Cidade do México apresentando num congresso de semiótica em 200...? Esqqueci, depois eu lembro. Não levei máquina alguma, então fiz esses instantâneos mentais, para não esquecer. Pretendo voltar um dia lá e tomar de novo aquelas nochebuenas e conhecer outros lugares. Sim, a catedral é silenciosa e escura, muito barroca, e cheira a incenso. Abraços
Lauro

Rosilene Fontes disse...

meus piores pesadelos: o primeiro água sempre muita água (tempestades, enchentes) e o segundo esquecer minha máquina fotográfica em uma viagem... Impensável. Mas o seu registro é fabuloso.
abraços e obrigada pelo link