terça-feira, 21 de outubro de 2008

A performance

Pedro e Marta haviam combinado de irem juntos à abertura, cercada de mistério, da instalação do artista que estava causando sensação naquele momento na cidade. Mas Pedro tivera um problema no trabalho àquela tarde e chegara muito atrasado ao casarão transformado em galeria e local para exposições e performances como aquela. Chovia e ele procurou em vão Marta na pequena multidão que deixava o local às pressas, molhada e espavorida. Como não a encontrou, resolveu juntar-se ao segundo grupo que já se formava na fila de entrada.

O casarão ficava numa parte elevada e tinha uma construção bizarra por causa do terreno desnivelado. Antes de chegar à porta principal passava-se por uma piscina ladeada por paredes altas, localizada na parte abaixo do casarão, e um muro lateral por onde subia uma escada de degraus largos, cercada de jardins.

Passando pela porta, chegava-se às muitas salas. Um recepcionista mudo entregou o programa a que se deveria assistir. Setas e placas apontavam a direção. O programa dividia-se em duas partes. Na primeira, em uma sala de cinema especialmente preparada era projetado um documentário fictício em preto-e-branco sobre vítimas da ditadura em um país latino-americano. Nos dois lados da sala havia máquinas, em torno de dez, metade em cada lado, que Pedro notou serem imitações de aparelhos mata-moscas eletrônicos de luz negra, que no início da sessão permaneciam apagados.

No final do filmete, falado em espanhol e português, que durou 15 minutos, os personagens principais reapareciam na tela e os que haviam sido torturados até à morte diziam seus nomes e iam lentamente desaparecendo da tela, quando, para cada menção, se acendia o mata-moscas fazendo o barulho característico de eletrocussão e um cheiro de carne queimada era exalado.

Em seguida, ia-se a outra sala onde um outro filme mostrava o próprio artista caracterizado de Little Richard cantando acompanhado por uma banda de músicos vestidos como gângsteres. No meio do show, a apresentação era interrompida e em seu lugar eram exibidas imagens do lado de fora. As imagens focavam as pessoas que tinham saído da sessão anterior deixando o local apressadamente, ao som de uma música marcial, descendo os degraus da escada atabalhoadamente, alguns corriam.




Canhões laser disparavam finos feixes de luz vermelha sobre as pessoas. Os feixes de laser eram seguidos de sons que imitavam balas sendo disparadas e barulhos de detonação e pessoas gritando. No meio daquela confusão, Pedro pôde distinguir Marta, num momento em que quase caiu e olhou para trás, a câmera aproximou seu rosto num close.

Por fim, as luzes se acenderam, a música terminou e era a vez dos que tinham assistido ao filme sair para a rua. Pedro tentou ligar para Marta, mas do outro lado do celular ninguém atendeu a ligação.

Chovia mais forte quando ele deixou o casarão, o que tornou a “escapada” ainda mais dramática. Pedro abriu o guarda-chuva preto iluminado por fora pelo canhão de luz vermelha em meio aos estampidos, silvos e gritos e forçou a passagem pelo grupo que ia mais à frente.

4 comentários:

Rosilene Fontes disse...

oi amigo,
bacana este conto, bem contemporâneo. Já aconteceu algo parecido comigo, mas foi em um show abarrotado de gente e nunca mais vi o cara. Mas falando de arte é o que eu tenho sentido no final de cada abertura, um vazio e solitária por não me corresponder com ela...
abraço.

Anônimo disse...

Bom que gostou Rosilene, achei que você ia gostar mesmo. Eu sonhei com isso. Você pegou bem o lance do vazio... mas eu gostaria de ver essa instalação aí que eu bolei...

Lauro

Rosilene Fontes disse...

Sério que esta arte é sua? rs
Eu só não consegui ver o filme.
rosilene

Lauro disse...

Não é bem um filme, é a música (link do You Tube): Marcial (Warlike) Music, "Preparation" & "Charge" by Vangelis, trilha sonora do filme Alexandre. Vou levar para a próxima Bienal (risos).