segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Poema para uma derrota



Acabei de ler (posso já ter lido, então releio) "Poema para uma derrota", de Gustavo de Castro (poeta estreante, editor autor), do livro Ossos da luz, editora Casa das Musas, 2007, o melhor livro do gênero que li este ano. Este é apenas um exemplo dos muitos bem-sucedidos poemas do livro, perpassado pelas sombras iluminadoras de René Char e do argentino Roberto Juarroz, com ecos de Nietzsche, Calvino e Cortázar (e que tem, lógico, altos e baixos e alguns erros de revisão, mas os altos são mais altos), cuja leitura é essencial.

Poema para um derrota



Entulhas pela casa, em todo canto, os restos do passado. Passeias entre caixas, malas, bolsas, vendo o desgoverno do teu estado. Lá fora, no orvalho da noite fria, não podes deixar de cobrir com lona, devido à chuva das monções, a velha cadeira pia que tantas vezes te sentou. Não podes deixar de notar o tanto de sonhos fracassados que és. O mar de espíritos velhos, este sertão cerrado convés vazio ao mar.

Entulhas pela casa alheia, em todo canto, o relógio velho parado, o monte de saco seco nordestinado, o quadro inacabado do pintor falido, o fogão sem forno funcionado. Procuras no meio do entulho a coleção de pedras, verás estranhamente, que elas continuam pedras. Mas já não pedras como antes. Agora são pedras mudadas, acompanhadas do claudicante pó do nada.


Duas imagens me causam impacto e dão idéia da força do poeta: a cadeira pia (porque velha mãe que "lhe sentou" tantas vezes no colo) que não se pode deixar de cobrir com lona, para proteger-lhe, este resto de passado tornado coisa, devido à chuva das monções - e o uso da palavra monção, de origem árabe, para indicar chuva intensa sazonal, tem um sabor especial também para os nordestinados como Gustavo.


A segunda imagem que fica é a da coleção de pedras, transformadas pelo tempo em outra coisa, cobertas por um pó de nada hesitante, metáforas para o próprio poema, que se oferece o tempo todo en abîme.

Um comentário:

Rosilene Fontes disse...

Lauro,
muito bom mesmo este poema e de tão bom parece que entramos nele, nesta casa entulhada de coisas e de sombras. Parabéns para o Gustavo Castro.