domingo, 5 de dezembro de 2021

O alfabeto de Valéry: Maus Pensamentos

Notas de leitura e interpretação* 

 A- é sobre bAnalidAde, tolice, infantilidade, animalité. “Negar A é mostrar A atrás de uma grade”. A=A = B=B, é o princípio da identidade. Uma ideia banal, mas que resume toda sabedoria -ver página 33. 

Também, essas passagens:

“Ah, se tu pudesses distinguir todas as besteiras que num espírito acabam por produzir coisas belíssimas e todas as coisas belas que entram na composição de uma besteira ou de outra!”. 

“O que há no fundo do homem? Alguns provérbios, que acabam por responder tudo, e que são todos tolices”.

 B-? 

 C-? 

 D- é claramente um pensamento sobre as Dores.

 E- é sobre aimEr. 

 F?

 G - eGoísmo. 

 H - História. 

 I - Instinto.

 J - Juventude. 

 L-? 

 M- ser huMano ou “Eu” ("Moi").

 N -inteligêNcia. "O alimento ('Nourriture', em francês) da inteligência é aquilo em que ela nunca pensou". 

 O- a mOrte. "La mOrt, en literature, est un son grave".

 P- Pensamento. 

 Q- talvez seja a própria conjunção "Que". Um palpite não de todo absurdo, em se tratando de Valéry. O tema em destaque é o Outro. "Que" é usada para contrapor ideias.

 R-? 

 T- sinceridade ("sincériTé").



 *lembrar de confrontar com Pascal.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

"O avesso da vida"- Philip Roth



A literatura é o avesso da vida. 
Mas o avesso no espelho, distorcido, do parque de diversões.
A diversão em Nathan Zuckerman (personagem principal do romance de Philip Roth, com o título desse post) está nisto: em distorcer, criar ficção a partir dos fatos de sua vida real.
Só que, ao final do romance, ficamos sem saber o que é real e o que é ficção/alucinação/imaginação do autor, dos vários livros dentro do livro/cabeça – “eu sou um teatro e nada mais” – do autor.
Os limites estavam borrados desde o princípio e é essencial que fiquem borrados.
Não existe um “narrador” fora da imaginação de Roth que não seja também fruto de sua imaginação (que, ao lermos, passa a ser também a nossa).
Roth, afinal, e Zuckerman são a mesma pessoa – os personagens “falam” com o autor do livro que está sendo escrito, eles “se lêem”.
O final é em aberto. Zuck é quem tem a última palavra – mesmo depois de morto.
Como em Ulisses, "mesmo a mais fina literatura permanece uma imitação paródica da vida".

terça-feira, 6 de março de 2018

Breviário de obscuridades II


Pergunta lesa-divindade:
- Tu, criador, quando te tornaste criatura?

Breviário de obscuridades I




Que podes fazer com alma,
além de des-gastá-la ---
inutilmente 

e para sempre?


What can you do with soul,
besides un-spend it ---
uselessly

and forever?


l.m.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

RUSSIAN HISTORY/ HISTÓRIA RUSSA


The Russian Sipkov
awoke and in the New Year's Day
dug a hole in the frozen lake
and plunged, after sipping
three liters of vodka.
He left there shivering and sipped
another three liters singing
a song his grandfather
sang when he was arrested
by Stalin and sent to
a prison in Siberia - where,
on a hot day, the spit
froze in the air.

l.m.

O russo Tomaskóvic
acordou e no dia do ano novo
cavou um buraco no lago congelado
e mergulhou, após ter tomado
três litros de vodka.
Saiu de lá tiritando e tomou
mais três litros cantando
uma canção que seu avô
cantava quando foi preso
por Stalin e mandado para
uma prisão na Sibéria - onde,
num dia quente, o cuspe
congelava no ar.

l.m.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Pequeno Café

Paul Valéry
Extraído de "Rhumbs" - "Tel Quel", 1941-1943
Tradução Lauro Marques


Pequeno café obscuro, solidário, secreto, paraíso de pureza e de pensamentos.

Asilo espelhado de pedra oca, de uma palidez bela, fazes bem ao viajante, forno de sombra e de frescor, abóbada de berço muito suave...

Há somente eu dentro dessa gruta. Eu e os “Débats” sobre uma mesa de fundo.

Um gênio em roupas escuras, grosseiramente pintado de barba quase azulada... Ele se entedia tanto de sua solidão! Pega um banco para mim. Ele me traria qualquer coisa. Compreendo que vive num mundo imaginário.

Sinto-me um cliente abstrato, essência de cliente.

Vem, e embalsama o ar! ― Fumo e perfume, amargo chocolate a evocar biscoitos tostados!...

Daqui a pouco, após muitos cigarros, desejaremos pedir a esse vago pensador gordo e mal barbeado, um desses glace au citron* que queimam de frio os lábios e a língua...

Livre enfim dos museus!

As coleções, contrárias ao espírito; o harém para o amor.

Estamos cansados das disputas dessas damas sultanas. A soma de todas essas belezas é absurda, fatigante. Uma reunião de objetos excepcionais, uma multidão de singulares só pode agradar aos marchands, seduzir os insensíveis que se julgam sensíveis, e as pessoas crédulas. Um olho espiritual não veria nenhum visitante nas galerias, mas adjetivos errantes. Ao fim de tudo, o objetivo dos artistas, o único objetivo, se reduz a obter um epíteto...

Este chocolate tem um gosto severo que convém a este lugar vazio e agrada a meu humor. Uma colherada, ― um pensamento ― uma baforada, ― um gole de água gelada, ― e esta sequência de julgamentos:

Os museus são odiosos para os artistas.

Eles os adentram somente para sofrer, ou espionar, roubar segredos militares.

Se sentem prazer, é devido à atrocidade de seus desprezos.

Pintar os horríveis sofrimentos da inveja artista.

Michelangelo, houvesse ousado, teria envenenado.

Ciúmes que ele tem de Leonardo. O que isso implica.

Lionardo** não era cioso a não ser de suas idéias.

Um homem de talento, diante de mim maravilhado, ao tomar conhecimento da morte ou da demência, ― não sei mais, ― de um escritor mais conhecido e mais recompensado que ele, permite-se dizer vivamente: Tanto melhor... É chegada a minha vez.

Ousamos escrever as histórias das letras ou da arte sem dizer uma palavra de coisas como tais, sem aprofundar. A arte é tão má quanto o amor. A arte e o amor são criminosos em potência, ― ou não existem.

Tudo que vem dos deuses causa o inferno nos homens.

Este café é deveras delicioso. Vemos daqui o calor vibrante sobre as pedras da rua. Eu passo a mão acariciando a carafe*** gelada. ― Uma trintena de moscas suspensas por seu movimento no espaço criam um sistema planetário e um movimento estatístico indiferente.

Aqui o espírito abatido pelas obras-primas ama a existência, se enleva, e avalia. Tudo que os homens fizeram, fazem e farão, soa para ele como esse barulho local e circunscrito do formigamento alado de trinta insetos. O corpo soergue imperceptivelmente os ombros. O próprio soerguimento, que condena os humanos, é bastante mal recebido. É impossível para a justiça que há em mim, não ver a necessidade de meu sentimento.

― As flores da florista aninhada sob a grande porta do palácio que está à frente dispensam as mensagens e os devaneios de amor. O que não ocorrerá jamais, o que não pode ser, embalsama, tem um perfume.

Eu desenho figuras geométricas no mármore do guéridon**** onde a ponta do lápis é tão feliz, tão livre.

― E de que me serve a necessidade de meu sentimento? Ela te serve muito, meu amigo.

Ela faz desse sentimento o que ele é,― o que são todos os sentimentos. Todo sentimento é o saldo de uma conta da qual o detalhe se perdeu. Impossível se obter uma declaração desses débitos e desses créditos. Encontraríamos aí operações que remontam ao ano mil; outras ao macaco ou ao castor. O pecado original é uma integral, sem dúvida.

Vamos, distrações, frescores, espírito, cessem de dominar!

Um pouco mais de fumaça com gelo; inalemos no ar o odor dos limões amorosos. Paguemos e partamos.


___________
*(N. do T.) Como no original. Valéry grafou Lionardo. Lion=leão, em francês. Em português seria então Leãonardo.
**(N. do T.) Creme gelado ou sorbet de limão.
***(N. do T.) Garrafa, em árabe, no original.
****(N. do T.) Uma pequena mesa de centro, geralmente circular ou oval. Peça do mobiliário francês.

Esta tradução é dedicada a Monica, que ama os lugares, as coisas e as sensações estéticas.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

As Eminências Pardas

No escuro elas são perigosas,
bem mais que as pessoas luminosas.
Estas, quando fazem algo de errado,
é mais fácil encontrar um culpado.

Delas podemos dizer o que são,
enquanto das primeiras, não.
Certo é que grande é sua influência,
como algo que vai na consciência.

Também pode lhes ser uma vantagem,
ninguém conhecer sua imagem;
Elas não devem ser desprezadas
pela cor, as eminências pardas.

A fim de exercer maior poder,
talvez seja melhor se esconder.

POEMA HÚNGARO

Em breve serei um velho
Meus ossos irão estalar muito
antes de eu morrer
Meus ossos irão estalar muito
antes de eu morrer


Serei um velho muito louco.


domingo, 20 de novembro de 2016

War Poem/Poema de Guerra

American soldiers photographed in the Ardennes during the Battle of the Bulge.www.answers.com/topic/battle-of-the-bulge

I am entrenched
Estou entrincheirado
Against the snow,
Contra a neve,
Visor lowered
Visor abaixado
To blunt its blow
Para que o vento cegue
I am where I go
Estou aonde me leve

Samuel Menashe
Lauro Marques

sexta-feira, 15 de julho de 2016

“Tal Qual” – Paul Valéry

Tradução: Lauro Marques




Literatura

Os livros têm os mesmos inimigos que os homens; o fogo, a umidade, as feras, o tempo; e seu próprio conteúdo.

*

O pensamento tem dois sexos; fecunda-se e fica grávido de si mesmo.

*

Preâmbulo.

A existência da poesia é essencialmente negável; do que podemos extrair as tentações próximas da arrogância. - Sobre esse ponto, ela se assemelha ao próprio Deus.

Podemos estar surdos quanto a ela, cegos quanto a Ele - as consequências são insensíveis.

Mas isso que todo mundo pode negar e que queremos que haja - se torna o centro e o símbolo poderoso de nossa razão de sermos nós.

*

Um poema deve ser uma festa do Intelecto. Ele não pode ser outra coisa.

Festa: é um jogo, e no entanto, solene, regrado, significativo; imagem daquilo que não temos de ordinário, do estado em que os esforços são ritmos, recuperados.

Celebramos algo quando o realizamos ou o representamos no seu estado mais puro ou mais belo.

Aqui, a faculdade da linguagem, e seu fenômeno contrário, a compreensão, a identidade das coisas que ela separa. Descartamos suas misérias, suas fraquezas, seu cotidiano. Nós organizamos todo o possível da linguagem.

Terminada a festa, nada deve restar. Cinzas, guirlandas pisadas.

*

Para o poeta:
A orelha fala,
A boca escuta;
É a inteligência, a vigília, que infantiliza e sonha
É o sono que vê claro;
É a imagem e o fantasma que observam,
É a falta e a lacuna que criam.

*

A maioria dos homens têm da poesia uma idéia tão vaga que essa imprecisão mesma de sua idéia é para eles a definição da poesia.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Poema de Guenádi Aigui (tradução inédita)




Mais uma vez - na neve
Guenádi Aigui
[Tradução -do francês- Lauro Marques]



você entoa uma canção - e eu me distancio
pouco a pouco na neve (como ontem: silhueta
se obscurecendo na penumbra
em algum lugar cada vez mais longe) e uma tábua quebrada se projeta para fora
lá - entre as ruínas
de uma cabana abandonada (cantando sussurrando
e
chorando há muito tempo - e ao que parece
para
a felicidade não é tão pouco) e mais ao longe a floresta
como
em sonhos
se abre - e você começa a cantar
(embora não fosse mais necessário
pois não estava tudo já terminado)
você continua
(ou mesmo sem nós profundamente amadurece já
resplandecente
a eternidade)
você continua
cada vez mais surdamente
a cantar

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O avesso e o direito

CAMUS


Esta "Madonna" de Giotto tinha um sorriso maroto


Há muito o que se aprender com livros de estreia de grandes escritores. Não é diferente em relação a O avesso e o direito, de Albert Camus. O livro foi publicado, na Argélia, em 1937, quando o autor d’O estrangeiro tinha apenas 22 anos. Primeira lição: um escritor tem de tomar notas. Não necessariamente escritas. Podem ser também mentais. Ele tem de registrar tudo o que acontece à sua volta. Tudo é matéria do pensamento. Os eventos só são desimportantes para aqueles que também são.

A segunda (ou terceira?) lição é aprender a conviver com os contrários e extrair deles sua soma. O amor de viver nasce do desespero de viver. No que nos aflige está também o prazeroso. É preciso não ter pressa para poder contemplar, na paisagem que se descortina diante de nossos olhos, quase sempre cegos, o avesso e o direito das coisas. Duas faces de uma só medalha.

Uma frase do livro me remeteu para algo que escrevi anteriormente a respeito da qualidade estética no olhar oblíquo dos retratos de grupo de Manet. No penúltimo ensaio, “Amor pela vida”, Camus fala nos “olhos sem olhar dos Apolos dóricos ou nos personagens ardentes e imobilizados de Giotto”. E acrescenta em nota: “É com o surgimento do sorriso e do olhar que começam a decadência da escultura grega e a dispersão da arte italiana. Como se a beleza deixasse de existir onde começava o espírito.”

- Novamente, é preciso não ter pressa. Vemos bem em que a frase atraiçoa o autor. Há, sem dúvida beleza de sobra nos personagens “ardentes” e “imobilizados”, mas nem por isso menos "espiritualizados" de Giotto, que por sinal também podiam sorrir, como na Madonna com um sorriso maroto que ilustra esse post. Por outro lado lembremos que a estatuária grega era repleta de cores, e portanto "ardente", e que só para nós agora ela aparece branca, "espiritualizada", destituída de olhos.

Um exemplo de um torso "carnavalesco".


C'HI

Os chineses têm uma palavra, "C'hi", que significa, entre outras coisas “beleza estática”. O termo só me ocorreu hoje, no momento em que escrevo isto, para descrever, infelizmente ainda de modo muito imperfeito, o que sentia um dia atrás, da sacada desse quarto na montanha, a mais de mil metros de altitude. Enquanto finalizava a leitura de Camus, e observava as dobras do tecido azul, lembrando um manto, da roupa de verão de minha mulher, estendida ao sol do meio-dia, sobre o parapeito de madeira, tendo ao fundo, entrecortado, o verde vibrante das colinas.

Santo Antônio do Pinhal, 4 de janeiro de 2006, atualizado em 16/6/2016

terça-feira, 26 de abril de 2016

Um poema de outono

Autumn Grasses in Moonlight, Meiji period (1868–1912), ca. 1872–91. Shibata Zeshin (Japanese, 1807–1891).Two-panel folding screen; ink, lacquer, and silver leaf on paper; 26 1/8 x 69 in. (66.4 x 175.3 cm) http://www.metmuseum.org/toah/ho/10/eaj/hob_1975.268.137_av1.htm


ELEGIA






O sol no topo dos edifícios
— na parede de tijolos
tremulando,
as sombras das árvores que brincam
com o vento:

Outono.





Lauro Marques

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Valéry sobre política

Dois extratos de Paul Valéry (o verdadeiro e único) traduzidos por mim:

"A atitude da indignação habitual, sinal de uma grande pobreza de espírito.
A 'política' aí constrange seus apoiadores. Vemos seu espírito se empobrecer dia após dia,de justa cólera a justa cólera.
Cada partido tem seu programa de indignação, seus reflexos convencionais.

***

Todo partido profetiza. Toda a política seria alterada se o fato único de prometer e de  predizer fosse por todo o mundo considerado como insuportável e inconveniente."

terça-feira, 19 de abril de 2016

Tradução de César Vallejo

Hoje gosto da vida muito menos...



Vallejo em París


Hoje gosto da vida muito menos,
mas sempre gosto de viver: já dizia isto.
Quase toquei a parte do meu todo e me contive
com um tiro na língua por detrás de minha palavra.

Hoje me apalpo o queixo em retirada
e dentro dessas calças momentâneas eu me digo:
Tanta vida e jamais!
Tantos anos e sempre minhas semanas!
Meus pais enterrados com sua pedra
e seu triste crescimento ainda não acabado;
de corpo inteiro irmãos, meus irmãos,
e, por fim, meu ser parado e de colete.

Gosto da vida enormemente
mas, desde logo,
com minha morte querida e meu café
e vendo os castanheiros frondosos de Paris
e dizendo:
É um olho este, aquele; uma testa esta, aquela... E
repetindo:
Tanta vida e jamais me falha a toada!
Tantos anos e sempre, sempre, sempre!

Disse colete, disse
todo, parte, ânsia, disse quase, por não chorar.
Que é verdade que sofri naquele hospital que fica
ao lado
e está bem e está mal haver mirado
de abaixo acima meu organismo.

Gostarei de viver sempre, assim fosse de barriga,
porque, como ia dizendo e o repito,
tanta vida e jamais! E tantos anos,
e sempre, muito sempre, sempre sempre!
_______________


"Hoy me gusta la vida mucho menos..."

Poema de César Vallejo.
Tradução Lauro Marques.

São Paulo, 26 de outubro de 2010.
2h.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Não me convide para o baile



Observando a cronologia dos contos de Raduan Nassar, o último é de 1996: “Mãozinhas de seda”, escrito especialmente para o segundo número dos Cadernos de Literatura Brasileira, IMS, e não publicado a pedido do autor - como informa edição da antologia editada pela Companhia Das Letras no ano seguinte. É portanto, também, sua última composição literária.

Escrito na primeira pessoa, e que termina com uma exclamação entre parêntesis “(Saudades de mim!)”, o tom é autobiográfico. Nele, o escritor evoca a memória de um bisavô aristocrata que teria lhe dado o conselho de que "a diplomacia é a ciência dos sábios", e que o "'negócio é fazer média', e enfatizava a palavra negócio (...): 'Nada de porraloquice. Me promete.’"

Em seguida compara os intelectuais, "eruditos, pretensiosos, e bem providos de mãozinhas de seda", às mocinhas casadoiras de sua Pindorama natal, que, às vésperas dos bailes de Primavera esgotavam o estoque de pedra-pome, com a qual poliam as mãos a fim de torná-las macias e sedosas para melhor seduzir os mancebos.

"A harmonia do perfil é completa por faltar-lhes justamente o que seria marcante: rosto. Em consequência desse aparente paradoxo, tenho notado também que estão entregues a um rendoso comércio de prestígio, um promíscuo troca-troca explícito, a maior suruba da paróquia!".

Com esse texto -como não poderia deixar de ser, breve, que foge ao formato do conto tradicional-, Raduan Nassar dá adeus não só à literatura mas ao "troca-troca" intelectual. Este último, feito por negociantes disfarçados, “mercadores de ideias”, "sem rostos", ao seu ver, o impediria de praticar aquilo o que à abertura afirma ter a convicção de considerar “a maior aventura humana”: "dizer o que se pensa".

A isso, a “fazer média”, “o verbo passado na régua, o tom no diapasão, num mundanismo com linha ou no silêncio da página”, escolhe, diplomaticamente, a saída da reclusão e de não mais escrever. Resta saber se ainda veremos surgir inéditos, escritos longe das festas e do comércio, cercado de boas-maneiras, dos intelectuais, que só serão descobertos depois que o autor não puder mais receber o convite para a valsa do baile que não queria dançar.


terça-feira, 6 de outubro de 2015

Nota sobre Bioy Casares

Em 2014 ele completaria 100 anos, assim como outro argentino, Cortázar (quem se importa com a idade aproximada de Cristina K?). Fala-se muito de Invenção de Morel, seu romance “semiótico” por excelência, mas Diário da Guerra do Porco, narrativa sempre atual de uma guerra movida pelos jovens para exterminar os mais velhos (curiosamente, lembrei disso recentemente assistindo à série italiana Gomorra), é imensamente superior, até, mas não só, pelo grau de perturbação.

Antes mesmo de Cortázar, talvez valha mais aqui a comparação de Bioy com Kaffka. No romance Dormir ao Sol (baseado no qual existe um tentativa de adaptação para o cinema que resulta um pouco involuntariamente cômica) temos a perspectiva de alguém metamorfoseado num cão, incapaz de comunicar-se com o mundo exterior, que só é capaz de enxergá-lo como um animal.

Mas são nos contos - assim como em Kafka - que encontramos o escritor em um estado muito próximo à perfeição. Como na magistral, ainda que breve, coletânea Historia Desaforada publicada pela primeira vez em 1986, quando o autor tinha 72 anos de idade. No conto Planes para una fuga al Carmelo, ele retoma mais uma vez o tema do extermínio dos velhos pelos jovens, numa ficção científica envolvendo o vizinho Uruguai. 

Já em Historia desaforada, que dá nome ao volume, e que dialoga com o primeiro conto, a inspiração veio, segundo explica Bioy no prólogo do livro, de uma frase de Bergson: “A inteligência é a arte de sair de situações difíceis”. “Pensei que nesse momento para mim uma situação difícil era a velhice, e me ocorreu a história de um professor que consegue isolar as glândulas da juventude, para injetá-las em organismos decrépitos”.

Em outro conto que integra a mesma coletânea, La rata o una llave para la conducta, uma ratazana gigante, outro animal do bestiário de Bioy, que nunca aparece, assombra um chalé de certo professor Melville (como o autor de Moby Dick). O professor havia chegado a uma teoria segundo a qual “podemos averiguar a verdadeira índole de nossos sentimentos” (se são bons ou maus), “mediante a confrontação com a ratazana que há na casa”. A ratazana é a própria morte ou “nossa desaparição e também a desaparição de todas as coisas, gente, história: o mundo inteiro”.

***

Bioy Casares também escreveu um diário de 1.700 páginas em que registrou suas conversações com Borges. Num dos trechos iniciais, há uma breve discussão sobre se deve publicar ou não. Reproduzo aqui mais ou menos exatamente o diálogo, um dos muitos de que o livro é recheado. Borges, naquela ocasião, manifesta-se a favor de que o escritor não deve se apressar em publicar, a fim de evitar a vergonha posterior, que tarda mas não falha. Bioy contemporiza que sempre se ganha algo em publicar, fica-se menos “vaidoso”. E não há coisa pior do que o escritor que jamais escreve nada (o que Enrique Vila-Matas chamaria de complexo de Bartleby e Roberto Arlt descreveu no conto O Escritor Fracassado). Pouco antes ele havia registrado no diário um comentário de Silvina Ocampo, sua esposa, de que, na opinião dela, ele escrevia melhor que Borges, a escritura lhe sairia de modo “mais natural”.

***

De las cosas maravillosas, publicado em 1999, foi a última pérola do colar de Bioy Casares, que encontrei por insanos R$ 100,00 em uma livraria de São Paulo. Por felicidade li-o inteiro de uma sentada, de graça, ali mesmo. No meio encontrei esta anedota sobre as últimas palavras de Buster Keaton. Recordando a morte do grande ator e diretor de comédias mudas, Bioy conta que alguém, junto à cama do enfermo, observou que ele havia parado de respirar. Para saber se está morto – retorquiu outro – “você tem que tocar nos seus pés. As pessoas morrem com os pés frios. ‘Ah, Joana d’Arc, não’, disse Buster Keaton. E caiu morto.” 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Novo livro de poesia

Meu segundo livro de poesia, na Amazon. 93 p (tamanho Ebook). Pode ser lido em qualquer dispositivo, celular, tablet ou computador. Quem escreveu, editou, diagramou, sofreu, gozou, revisou e fez a foto da capa fui eu mesmo. Para pagar toda essa equipe o livro custa R$ 17,54 , dos quais 70% são para mim, 30% para a Amazon, justíssimo. Se não vender nada, hipótese mais que provável, meu prejuízo será zero também. Também pode ser lido de graça através de cadastro na Amazon. Brasil, pátria educadora.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Conto fantástico: O número de vidas do gato

Em 3015, o transplante de cérebro para clones feitos sob medida a partir do DNA de mortos famosos nos séculos passados tornou-se algo comum.






terça-feira, 7 de abril de 2015

Aniquiladores



Schlegel, que a irmã dizia que tinha cara de bobo, numa inventiva contra os árabes escreveu em 1798 que estes eram "aniquiladores entre as nações" e uma "natureza extremamente polêmica", porque tinham predileção em destruir os originais depois de traduzi-los para sua língua nativa. Ironicamente, segundo ele, "talvez por isso mesmo fossem infinitamente mais cultos, mas, apesar de toda cultura, mais puramente bárbaros que os europeus da Idade Média. Bárbaro é aquilo que é ao mesmo tempo anticlássico e antiprogressivo". Em outra passagem, acrescenta: "Os árabes absolutizam em toda a parte. O que não lhes parecia útil, destruíam imediatamente".