sexta-feira, 15 de julho de 2011

Emil Cioran – “Do inconveniente de ter nascido”


Emil Cioran – “Do inconveniente de ter nascido” (1973)

Tradução de Lauro Marques



 Caso pudéssemos nos ver com os olhos dos outros, desapareceríamos no ato.

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A sorte grande de Nietzsche de ter acabado como acabou. Na euforia!


« É preciso estar bêbado ou louco, dizia Sieyès, para falar nas línguas conhecidas. »
É preciso estar bêbado ou louco, eu poderia acrescentar, por se atrever ainda a usar palavras, qualquer palavra.

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Uma obra só existe quando ela é preparada na sombra com a atenção, com o cuidado do assassino que medita seu golpe. Em ambos os casos, o que importa é a vontade de « surpreender ».

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Um livro é um suicídio adiado.

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Não é preciso se sujeitar a uma obra, é preciso somente dizer algo que possa se murmurar à orelha de um bêbado ou de um moribundo.

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Há dois mil anos que Jesus se vinga de nós por não ter morrido em um sofá.

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Diante de um túmulo, as palavras: jogo, impostura, diversão, sonho, se impõem. Impossível pensar que existir seja um fenômeno sério. Certeza de uma fraude na origem, na base. Deveríamos gravar no frontão dos cemitérios: « Nada é trágico. Tudo é irreal ».

 

Tristeza automática. Um robô elegíaco.

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Todos esses poemas em que a única coisa em questão é o Poema, toda uma poesia que não tem outra matéria a não ser ela mesma. Que diríamos de uma oração cujo objeto fosse a religião?

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Nada de mais abominável que o crítico, e com mais razão ainda, o filósofo em cada um de nós: se eu fosse poeta, reagiria como Dylan Thomas, que, sempre que comentavam seus poemas, se deixava tombar no solo e se entregava a contorções.

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Todo misantropo, se sincero for, lembra por momentos aquele velho poeta acamado e completamente esquecido, o qual, enfurecido contra seus contemporâneos, tinha decretado que não queria receber mais ninguém. Sua mulher, por caridade, tocava de vez em quando à porta.

2 comentários:

Michelle Matias disse...

Gostei muito do seu blog!Sensacionais essas "frases".

Lauro Marques disse...

Obrigado Michelle. Bem vinda.