quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Estética Darwinista (editado 19/1/06: negrito)

Artigo de Denis Dutton clique - editor do website Arts and Letters Daily, verdadeiro tesouro para quem busca informação de qualidade na internet (e não tem problema para ler em inglês). O melhor é que ele é também professor de filosofia da arte na Universidade de Canterbury na Nova Zelândia.

Para o professor, que está escrevendo um livro sobre "Estética Darwinista", frequentar obras de arte não é uma atividade tão "inútil" quanto se pensa. Aqueles que dentre nossos ancestrais aprenderam a derivar prazer da "prática" ficcional (dos conflitos e perigos) para a vida real obtiveram na verdade um salto evolutivo: eles estavam mais preparados para lidar com o mundo real quando se depararam com ele.

Apesar de eu querer concordar com a tese, pergunto se a uma estética darwinista não seria necessário acrescentar uma ética que lhe acompanhe. Aquela parte da ação, da escolha, no mundo real. Há sempre a possibilidade de optarmos pela tragédia. Nesse sentido, não se pode dizer que "aprendemos" a lidar melhor com os conflitos com a tragédia grega, ou Shakespeare, se ao que parece estamos condenados a repeti-los em nossas vidas (quando ferimos alguém que nos ama e que amamos, por exemplo). Por outro lado, eles nos fornecem exemplos sobre os quais podemos refletir longa e profundamente.Tornamo-nos melhor? Não sei dizer. Mas com certeza tornamo-nos outros.

Talvez o ponto seja esse mesmo: a "outridade" a que somos submetidos por meio da arte nos transforma, de um modo, em todos os sentidos (as palavras aqui fazem eco umas com as outras) perceptível. Aristóteles, não por acaso o filósofo grego que primeiro pensou a catarse na arte, escreve o postulado de que a alma é potencialmente as coisas que percebe e sente. Se você não percebe e sente, é sua alma que se apequena.

A complexidade introduzida por uma audição, ou leitura, ou contemplação de uma obra artística visual, tem efeitos naquele que experimenta - sobre o modo de pensar, individual e coletivo, sentir, maneiras de agir no mundo. Independentemente de bem e de mal. Este é outro problema, que a filosofia da arte não cansa de discutir e que a arte não cessa de propor.

4 comentários:

IJ Abutre disse...

Ótimos tema e notícia. Ontem mesmo refletia na utilidade de ter lido uma boa quantidade de livros, assistido a muitos filmes e de ter, digamos assim, uma percepção artística da existência. Estou sob grande pressão em meu trabalho administrativo na universidade e vejo-me imaginando e incluindo a mim mesmo em cenários cinematográficos e literários. Algo como uma capacidade e propensão mental para transcender, evadir-me do cotidiano atoleimado, canhestro, lúgubre e encher a consciência de personagens, narrativas, sentimentos, idéias e cores. Trata-se de um lenitivo realmente podereso. Não ocupar-me apenas do aqui e agora, fatídico, bruto, debilitante e reinventar-me a cada passo, a mim e a realidade que me circunda. Isso talvez devamos a nossa sensibidade artística, um passo evolutivo. Forte abraço.

Pablo Capistrano disse...

assino embaixo na idéia da relação entre ética e estética, na medida em que a gente pode entender a ética como "um lugar a partir do qual o homem se situa". Então a apreensão estética pode redimensionar esse lugar e produzir uma nova "postura" diante do mundo.
além do que tem aquela idéia do tio Wittgenstein: "ética e estética são uma só".

Nelson Moraes disse...

A Civilização começou em Altamira e similares. Mas vá explicar aos pichadores.
Abraço.

Lauro disse...

Todos vocês têm razão.Abutre, espero vê-lo produzindo, urgentemente, ensaios, poesias e filmes. Pablo disse o que eu queria dizer em poucas palavras. Tio Wittinho disse isso? Mas se fossem uma só, então tudo estaria resolvido. Não interpretem mal a Wilde. A arte é inútil? Sim, ela não ajuda velhinhas a atravessar a rua. Nelson falou de Altamira. Belo projeto, mandar pichadores para Altamira. Para aprimorar a técnica.
Obrigado pelos comentários e abraços em todos