segunda-feira, 30 de abril de 2007

DO CADERNO AZUL - OUTONO



Notas para um conto.
Um homem espera num chalé no alto de uma montanha, após ter cometido um ato. Que ato? O que espera? Quem virá encontrá-lo?

Sugere-se que cometeu um crime (assassinato) por encomenda e espera o autor do pedido ou a polícia. O conto termina desviando o olhar, à maneira dos filmes de Godard, para os próprios pés, para o chão, a estrada.

Talvez seja possível incluir, nem como uma espécie de comentário posterior ou epígrafe, alguma coisa de Platão, no Fedro, quando diz: “É isso precisamente o que a escrita tem de estranho e que a torna muito semelhante à pintura. Os produtos desta apresentam-se na verdade como seres vivos, mas, se lhes perguntares alguma coisa, respondem-te com um silêncio cheio de gravidade. O mesmo sucede também com os discursos escritos.”

* * *

A solidão da invenção.
― Para escrever, basta a solidão e um papel. Para escrever bem, talvez seja necessário alguma outra coisa.

Olhou o céu azul pálido, como lavado, e alinhado de nuvens excessivamente embranquecidas pela luz de verão.

― Fernando Pessoa tinha essa mania de descrever o estado do céu, em “O Livro do Desassossego”, mas, merda, isso também cansa ― pensou.

* * *

Era preciso estar numa cidade estranha esta noite. Num quarto de hotel vagabundo, açoitado pelo vento. Sem mãe, pai, esposa, filho ou amigos a quem recorrer. Era preciso estar num quarto escuro, numa cidade estranha, esta noite. Onde ninguém relembrasse meu nome, onde eu não tivesse língua alguma a quem me comunicar.

É verdade, eu já estive lá.

* * *

Há certos caminhos que precisam ser retomados.

O que é a solidão para um homem? Será o mesmo para uma mulher?

Por que as frases deslizam no papel?

No meu caderno azul que precisa ser trocado, de velho, marcas.

Fragmentos de uma briga em que eu tentava me comunicar pela escrita. Na primeira linha: “Caiu no”, e uma linha abaixo, parecendo uma notação musical, deslocada para direita: “meu” e quase na mesma linha, mas um pouco acima, faltando uma letra: “Cai”, e pulando uma linha, no mesmo estilo de escrita na diagonal, a palavra “conceito”.

A raiva era tanta que as letras saíam tortas, repetidas, como num gaguejo.

Aquilo soou para ela como se eu chamasse a mãe dela de puta ou pior. E, impressionante, totalmente por acaso, um recado anotado no mesmo caderno, deixado ali para ser lido, na ausência dela, de um outro dia, já distante, com a letra dela, femininamente perfeita, na página imediatamente anterior: “Muitos beijinhos, meu amor”.

Nos fragmentos, a vida, o murmurinho do mundo.

* * *

Qual a melhor forma de se apagar senão inventando para si mesmo um duplo?

É o que une Paul Auster e um punhado de outros bons escritores a André Gide. Dois autores que citei com freqüência aqui nessa minha coluna pretensiosamente despretensiosa. Talvez, pensando melhor, fosse bom eu também criar um duplo para mim mesmo, que executasse a tarefa.

Leituras de outono.
Recentemente dois “lançamentos” de autores a quem também já fiz referência me chamaram a atenção. Um deles é de 1961, finalmente traduzido para o português. “O Estaleiro”, romance do escritor uruguaio, Juan Carlos Onetti. Dele, escreveu André Sant’anna em resenha de amanhã (no caderno Mais! da Folha de São Paulo, 15/4, que leio nesta noite de sábado, 14/4): “Onetti trabalha enfurnado na insignificância, com personagens insignificantes, em um cenário insignificante, onde nada de fantástico jamais acontece.” Mas é provável que o leitor, prognostica ele, “na insignificância da leitura de ‘O Estaleiro’”, “sinta uma agonia profunda, sinta o cheiro da morte, o gosto do nada”. O improvável leitor fiel desta coluna deve estar se lembrando do que eu disse sobre o filme “O Cheiro do Ralo”. Por isso mesmo, acrescento, Onetti é um autor que “significa” muito ou quase tudo (representa uma coisa por meio de outra, ausente, que se faz presente no ato da leitura). Ele surpreende, sim, por sua linguagem e estimula a imaginação do leitor. Ao contrário do que estranhamente afirma Sant’anna logo no início da resenha.

Outro “lançamento” saído pela Topbooks é “Tempo dos Mortos”, uma reedição da trilogia “Estação da Morte”, “O Enigma” e “O Sonho”, do poeta, escritor e memorialista cearense, José Alcides Pinto. Alcides é autor do fragmento, fincado na memória: “Oh, a beleza que cuspo quando sonho ― o puro licor que adoece.”

Eis aí uma seleção, caro leitor, do que você pode talvez querer ler no seu outono, o qual, ao que tudo indica, salvo disposições em contrário, já começou.

terça-feira, 17 de abril de 2007

O FUNDO DO RALO



Poderia começar dizendo muita coisa a respeito do filme O cheiro do Ralo, baseado no livro homônimo do quadrinista Lourenço Mutarelli e com roteiro de Marçal Aquino e do próprio diretor, Heitor Dhalia. Começo pela questão do patrocínio, por conta da polêmica levantada na Revista Bula, na qual colaboro. Não queria falar sobre isso porque o filme me impressionou pela própria qualidade (ainda sem julgamento de bom ou ruim, estou falando de uma qualidade em si mesma). No momento em que me levantei da cadeira, não era a Petrobras que eu tinha em mente, mas uma vaga sensação de mal estar.

Acontece que já nos créditos, antes mesmo de começar o filme, o logotipo da empresa petrolífera suscitou o comentário irônico de um espectador. “Mas é sempre a Petrobras!”, dizia a mulher na poltrona ao meu lado, na boa sala do Espaço Unibanco de Cinema, pertencente à instituição bancária fundada pelo pai do cineasta Walter Salles. Como todos sabem, as leis federais de incentivo à cultura no Brasil prevêem que o patrocinador deduza do Imposto de Renda parte do investimento, que pode chegar até a 100%. No caso das estatais, trata-se de um marketing cultural duplamente pago pelo contribuinte, ou seja, nós.

O filme custou aproximadamente R$ 300 mil, uma mixaria até mesmo para os padrões nacionais, como é costume se dizer quando se trata de valores na produção cinematográfica - de todas as artes a mais cara de ser feita. Como a Petrobras está entre as doze maiores empresas de petróleo do mundo, algumas gotinhas do líquido precioso e imundo devem ter bastado. Lembrem-se também que o “Petróleo é nosso” (não sei qual é o slogan que usam lá em Angola ou na Bolívia).

Dizem que alguns investidores se recusaram a produzir o filme por causa do título nauseabundo. O que me faz pensar na razão da maioria do filmes nacionais terem títulos neutros, mesmo quando a temática é barra-pesada: “O céu de Suely”, “Amarelo-manga”, “Central do Brasil”. Nenhum assusta o dono do Boticário ou do Grupo Pão de Açúcar. Ponto para o diretor que foi em frente assim mesmo. Outra coisa que precisa ser dita é que o filme venceu pelas suas próprias pernas. Melhor filme segundo a crítica no Festival do Rio, repetiu a premiação na Mostra Internacional de São Paulo, levando ainda o prêmio do público. Esta última mostra, aliás, uma rara oportunidade de assistir a filmes inéditos da produção nacional e do exterior, teve pela sexta vez o patrocínio da Petrobras que se encarregou ainda da distribuição comercial dos melhores filmes nacionais de ficção e documentário. Esse é outro dado que merece ser mencionado. Para que o filme passe nos cinemas, não basta ser produzido, ainda tem que ser distribuído, daí que alguns filmes nacionais, mesmo quando premiados, demorem em estrear no circuito nacional ou têm a exibição reduzida. E de novo, vem a questão: adianta produzir se não é visto? A quem será que se destina?

Heitor Dhalia é recifense e tem quase a mesma idade que o escrevinhador desta coluna. Como eu, deve ter sido um ávido leitor de revistas em quadrinhos na adolescência, como a “Chiclete com Banana”, de Angeli, Laerte e Glauco, e a lendária Heavy Metal. Lourenço Mutarelli se inscreve nesse quadro de quadrinhos undergrounds inspirados em Robert Crumb, para citar um nome. O filme, é claro, guarda um pouco desse clima meio sórdido, que remete ainda ao humor ácido de um Bukowski, ou aos personagens inertes e sem esperança do escritor uruguaio Juan Carlos Onetti. Como não li o livro não sei se funciona como romance, ou novela, estando mais para um conto.

Cinematograficamente, a referência pode ser tanto David Lynch, como foi propalado a respeito pela crítica, ou Tarantino. Mas pode muito bem ser comparado a alguns filmes de Arnaldo Jabor, na adaptação de Nelson Rodrigues. Há algumas boas tiradas sobre o casamento e a humanidade que lembram o espírito do velho Nelson, que ficava repetindo máximas como a de que “o mineiro” - e o brasileiro por extensão - “só é solidário no câncer”. Ou que “nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais”.

Selton Melo, no papel central, tem o melhor desempenho na carreira, superando a si mesmo em “Lavoura Arcaica” – onde o monólogo empolado e literário combinava menos com o tipo que ele costuma interpretar. A linguagem direta, aliás, é uma vantagem do filme. É irritante a mania em filmes nacionais de que para parecer profundo é preciso citar algum escritor ou filósofo erudito, principalmente porque na maioria das vezes parece algo deslocado e falso. Talvez não combine com nossa cultura, pouco afeita à leitura.

O personagem principal é um comprador de bugigangas, na verdade, mais alguém com uma mania de colecionador, que passa a maior parte do tempo a receber em sua loja os tipos mais diversos, também catalogáveis: “a viciada”, “o homem do gramofone”, “o homem da caixinha de música”. No intervalo entre um e outro, ele vai a uma lanchonete, onde, após romper com a noiva às vésperas do casamento, fica fissurado pela bunda de uma garçonete de nome impronunciável. Um pedaço do corpo, no caso a bunda, passa a ser desejado como um objeto a mais para sua galeria.

A tese é clara e tem um fundo psicanalítico. À medida que entra num processo de loucura autodestrutiva no qual sua patologia se exacerba, Lourenço - mesmo nome do criador - procura pelos pedaços aos quais ainda se agarra, símbolos de sua própria mutilação. De revelador, há ainda uma paixão pelas próteses. O olho de vidro pelo qual entrega uma quantia desproporcional de dinheiro é, em sua fantasia, o “olho do pai morto na segunda guerra”. (De novo, a maldição do pai ausente). A perna mecânica adquirida em sequência é a “perna do pai”. Quando conseguir juntar todos os pedaços, ele sonha em se reencontrar.

Ao mesmo tempo, a procura evolui para um fetiche: a bunda, que ganha dimensões também simbólicas, separada do corpo individual, e que se liga ao cheiro do ralo. A bunda, o cheiro do ralo, o olho. Ver, sentir, tocar, ter. O único prazer que Lourenço se permite é o prazer voyeurístico sadomasoquista e o de possuir. Se o filme ficasse apenas nisso, daria um excelente curta-metragem. Mas para um longa, há momentos cansativos e repetitivos, alguns de humor forçado, como se fosse preciso divertir o público, machucar ao mesmo tempo em que se assopra a ferida. Mesmo assim o filme consegue ser reflexivo o bastante e fica acima da média. Fosse um filme argentino, o personagem seria um escritor frustrado, às voltas com a produção de um livro ou peça teatral. Do jeito que está, consegue ser mais próximo de nossa realidade, cada vez mais absurda e doentia, em que procuramos nos salvar muitas vezes mergulhados em nosso erotismo e egocentrismo, bem brasileiros, afinal de contas.

* * *



Ainda falando em filmes. As previsões catastróficas de cientistas de extinção de boa parte da biodiversidade ainda na metade deste século, me fizeram lembrar de Blade Runner, cujo título do romance original de Philip K. Dick é: “Andróides sonham com ovelhas eletrônicas?”. Uma referência ao futuro em que os animais estariam extintos e seriam substituídos por autômatos. A própria humanidade estaria em risco, com a criação de andróides tão perfeitos e indistinguíveis dos verdadeiros humanos que precisariam ser eliminados. As lembranças e sonhos desses modelos são programas de computador implantados em lugar da memória. O argumento virou um filme-pastiche bem ao gosto dos anos oitenta, nas mãos de Ridley Scott, mas que marcou uma geração naquela década ingênua, quando ainda acreditávamos que o futuro demoraria a chegar.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

SIMILITUDES E INFLUÊNCIAS


“No final, todas as vidas não passam de uma soma de fatos contingentes, uma crônica de interseções fortuitas, lances de sorte, casualidades que nada revelam senão sua própria falta de propósito”, diz o personagem principal de “O quarto fechado”, uma das histórias que compõem A trilogia de Nova York, de Paul Auster.
“Pode ser”, pensa Gabriel. Ele lembra que a viu passando pelo corredor vestida num collant azul, a cor preferida dele. Gabriel recorda de ter pensado como ela era bonita e que com certeza ela devia ter um namorado. Ela nem sequer o notou e não podia saber que alguns meses depois eles iriam estudar juntos na mesma sala no mesmo curso de pós-graduação. Ele também não podia imaginar que eles iriam estar casados um ano depois e que ele seria de fato o primeiro namorado dela.
Nessa época, Gabriel estava morando numa “República” perto da Universidade, no apartamento de número 13. A casa dela ficava no número 1131, em outro bairro, uma casa grande, com piscina, que lembrava um quadro de David Hockney. A placa do carro que o pai de Gabriel dirigia quando morreu era 3113. Quando eles se casaram foram morar num apartamento que tinha sido da avó dela, por mais de dez anos, e que ela costumava alugar a terceiros. Qual era o número do apartamento? Bem, você pode procurar por eles no décimo primeiro andar, nº 113.
* * *
Dois poemas.Remexendo na gaveta de guardados (caixa de entrada do seu velho Outlook Express), M. encontra fragmentos de poemas e a explicação para a semelhança daquilo o que ambos exprimem numa nota enviada pelo correio eletrônico também a S.F.
“Ô a beleza! A beleza que cuspo quando sonho -- o puro licor que adoece.” (Alcides Pinto).
E o de M.:
“Cuspiram-me o cadáver -- o amor!
O amor estava sendo preparado
-- deram-me o amor!
Aí então me tornei a doença que tanto temiam.”
Final de Interlúdio (1) (Do Amor): IV-A MUSA, de Balada para um Morto, livro inédito.
Na nota, M. explica que estava lendo o Alcides e se carcomendo o espírito: “Como posso EU ter sido influenciado por esse senhor??? Na verdade ambos devemos ter sido influenciados pelo ‘De Azedo’ e o ‘De Arbelo’. E Ambos os ‘Dos Demônios’... O Blake e o outro, Dos Anjos, é claro.”
M. gosta de charadas com os nomes. Encontra “Azedo” no nome de Álvares de Azevedo e apelida Baudelaire de “De Arbelo” (tradução para o francês “Beau de l’air”). O profeta paraibano Augusto dos Anjos é consumido por demônios, os mesmos dos “Provérbios do Inferno”, do poeta místico William Blake, e, talvez, pensa M., fossem os mesmos “demônios de rapina” que assaltavam seu peito à noite, de madrugada, queimando como o alcatrão de saias perfumadas, saídos do “seu” Livro dos Mortos em um outro poema esquecido de M.
Aquele mesmo livro cujo primeiro poema ele escreveu exatamente um mês antes da morte do pai e foi “gerado” pela leitura que o pai fez para ele do soneto de Augusto dos Anjos, que vinha com uma dedicatória ao “primeiro filho nascido morto com sete meses incompletos”. “Imagine a dor que ele sentia quando escreveu isto”, disse o pai de M. Naquele mesmo dia, de olhos fechados, no seu quarto, M. imaginou.
Quadros retratando ausências.
Do quadro de Munch, Puberdade (1895) ,diz Giulio Argan, em Arte Moderna, p. 256, retomando alguns temas que eu vinha tratando antes.
“A figura é realista, com mãos e pés grandes e um pouco avermelhados, como frequentemente ocorre com os adolescentes; delicados, como de menina, são o peito e os braços, e plena, já de mulher, é a curva dos quadris e da bacia. O rosto indeciso e amedrontado indica a perturbação da moça pela transformação que sente se realizar em seu próprio ser. Realista é a sombra, projetada pela iluminação frontal, apenas levemente deslocada para esquerda; todavia, essa sombra agigantada, que nasce do próprio corpo da menina, toma forma avulta como um fantasma, possui um claro sentido simbólico, é a prefiguração da vida futura. A cama também é realista, vê-se a marca, sente-se a tepidez deixada pelo corpo; no entanto, certamente se refere aos que, para Munch, são os dois pólos da existência, o amor e a morte”.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

LATA DE SARDINHA VOL. 2

É a mais pura verdade. Algo que não posso tocar, ver, ouvir, ou cheirar. Descobrir o significado dessas palavras.

***

Enganei-me sobre a ilustração da capa do livro “A invenção da solidão”, de Paul Auster. É uma lata de sardinha aberta em que se vê o fundo vazio. Imagem da solidão de A. Índice da ausência. A “maldição do pai ausente”.

Como na pintura Splash (“Tchibum”) de David Hockney. Também um emblema da ausência, do que não se vê.

Seguem-se várias citações de quadros retratando a ausência.

Nighthawks, “Notívagos”, de Edward Hopper, cuja tradução literal, em ornitologia, é de uma espécie de pássaro de hábitos noturnos.

Observar com olhos atentos. A caixa registradora solitária na loja fechada, iluminada pela luz do café. A larga calçada, os bancos vazios. Um casal que não se olha, um homem de costas, o paletó lembrando as asas recolhidas de pássaro... noturno... solidão.

O quarto vazio preenchido de Van Gogh.

A “Puberdade”, de Munch. Uma adolescente sentada à beira de uma cama. A sombra da morte, desde o nascimento, presente no despertar sexual da jovem trêmula.

“Mulher de azul”, de Veermer. Conforme um comentarista, citado por Auster: “A carta, o mapa, a gravidez da mulher, a cadeira vazia, a caixa aberta, a janela que não se vê – são todos índices ou emblemas naturais da ausência, do não visto, de outras mentes, vontades, tempos e lugares, do passado e do futuro, do nascimento e talvez da morte - em geral, de um mundo que se estende além dos limites da moldura, e de horizontes maiores, mais largos, que circundam e invadem a cena suspensa diante de nossos olhos. E no entanto é na plenitude e na auto-suficiência do momento presente que Veermer insiste – com tamanha convicção que sua capacidade de orientar e incluir se reveste de um valor metafísico”.

Imagens de Manet. Olhares que nunca se cruzam e que observam o vazio extraquadro. “A ameixa”, “O balcão”, “Almoço no ateliê”, “Na praia”, “Na estufa”.

Série de fotografias, da década de 90, de Sarah Jones, com “quarto” no título. “The sitting room”, “The dinning room”. Adolescente sentada, vestida numa espécie de pijama branco, cabeça caída, da qual só se vê os cabelos lisos alongando-se sobre o braço, recostada na altura dos olhos, deixando entrever um pedacinho da nuca, na mesa extremamente polida, tendo ao fundo um biombo japonês.



“A plenitude e a auto-suficiência do momento presente”.

terça-feira, 27 de março de 2007

SARDINHA EM LATA

Minha propensão para o diarístico.

Já não posso viver sem meu caderno de notas e a caneta. (Desespero: ficar numa casa sem caneta e papel é o equivalente a ter perdido alguma capacidade).

Trocar de caderno.

Quando não escrevo parece que não “vivi direito” aquela semana.

Leitura de Paul Auster, “A invenção da solidão”.

Sugestão de minha irmã. A primeira edição da tradução brasileira é de 1999. Nosso pai já estava morto havia oito anos.

A sombra de meu pai. Meu pai, uma sombra. Nos primeiros tempos, não o procurava. Ele me aparecia em sonho. Lembro do horror de acordar e pensar que ele já não estava lá, eu havia sonhado com ele. Sonhava com um abraço. Um sorriso. Aos poucos foi deixando de existir. Não lembro se nos falávamos nesses sonhos. Lembro de uma frase ditada em meio ao sono não tão profundo. A frase era uma espécie de enigma, que eu logo desvendei: “Os óculos ficaram todos vermelhos”.

Meu pai morreu aos 52 anos num acidente de carro, no dia 31/3 de 1991. A placa do carro era 1331. No dia anterior, eu completava vinte anos.

Naquele dia, um domingo, eu escutei uma canção de Tom Waits, cuja letra dizia: “Nunca dirija um carro se estiver morto”.

Meu pai estava vivendo uma espécie de “separação branca”. Isto é, eles estavam morando em cidades diferentes. Ela, em Natal, com os filhos, e ele em Mossoró, a 4 horas de viagem. Ele ia e vinha todo final de semana.

Naquele dia estávamos nos recuperando de alguma desavença. A regra era adotar o silêncio nesses casos. Até que viesse enfim o perdão, tão natural quanto coçar o nariz ou espirrar, como pensávamos na nossa família. Às vezes acho que pusemos muito peso nessa crença de que tudo seria redimido, não importando o que fosse feito. Muito Cristão, convenhamos.

Nós tínhamos acabado de voltar a nos falar. Estávamos bebendo vinho e conversando, em comemoração ao meu aniversário. Tivemos poucas conversas de fato. Meu pai sempre viveu num mundo próprio, que não era o meu, não era de ninguém. Era só dele. E me pergunto se o mesmo não se dá a propósito de todo mundo (essa, aliás, é a conclusão a que chega Auster, até onde eu li o livro. Ilustração da capa: uma lata de sardinha aberta e dentro outra lata fechada).

Fui a última pessoa a vê-lo com vida, quando me despedi, já dentro do carro. Poucas horas depois ele estava sendo arrastado por alguns quilômetros, preso à carroceria de um caminhão, até que o motorista percebesse que alguém havia batido na traseira do veículo e encostasse.

No pára-choque do caminhão, sem luzes, e rodando em baixa velocidade, estava escrito: “não me siga, também estou perdido”.

Meu pai morreu escutando Beethoven no toca-fitas, que não parou até acabar o último movimento.

* * *

Auster pai, sobre poesia: se não dá dinheiro, não é profissão.

Judaísmo de Auster.

Marina Tzvetáiveva, poeta russa, citada no livro, após ter experimentado um período de “extrema dificuldade econômica e moral”: “Neste que é o mais cristãos dos mundos/ Todos os poetas são judeus”.

* * *

“Toda a infelicidade dos homens advém de um só fato: o de não terem sabido permanecer quietos dentro de um quarto”: Pascal. A frase, glosada também por Baudelaire em um dos seus “Pequenos poemas em prosa”, chamado “A solidão”, obceca Auster.


Mas o próprio sábio francês depois se emendou: a fonte de todos os sofrimentos é a nossa pobre condição mortal.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Lua nova


1
São Paulo, fim de tarde (início de noite, já sendo noite, de verão), com nuvens ameaçadoras, tranquilas, trazedoras de chuvas, e uma lua nova perfeitamente delineada.

2

Abaixo dela, indiferentes, não lhe notam os prédios monótonos e sem luzes - estranhamente desabitados, de domingos.

3

Quando o céu, turvando-se e multiplicando-se em angustiantes profundidades púrpuras e azuis, vem negar-lhe o esplendor.

4

Que vai aos poucos descobrindo os olhos convulsivos dos habitantes tragados pela cratera do Metrô.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

I like Lawrence

Eu gosto de Lawrence
Do seu verso não medido
Mas pensado
De sua vergonha em ser poeta
(O que é sem dúvida, apropriado,
Um pouco de contenção e pudor
Acompanhado de alguma dose de descaramento
Sempre é bem-vindo)
Dos seus lugares-comuns
E de apesar disso tudo
(ou talvez por isso)
De sua força
Gosto de Lawrence sem jamais ter lido
Seus romances escandalosos
I like Lawrence
Por que ele aponta um caminho
Sem ser jamais "derramado"
Mesmo quando ele de fato exagera
(Mas sobre isso posso estar enganado,
como em tudo)
I like Lawrence
Pela sua incerteza
Correndo como um cachorro louco ou como um rio
ao seu lado

B...kiana

- Talvez você não entenda, mas quando eu bebo, eu me reinvento. Pode ser que minha imaginação seja pequena, mas meu fígado é forte.

Disse isso com a maior cara de "I dont give a shit".

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Blog de Gustavo Castro

Gustavo aprimora-se no desvelamento poético da (ir)realidade cotidiana, visto por olhos míopes, quer dizer, poéticos. Vale a pena acompanhar seu diário de viajante pelos "brasis" (será que o termo já virou clichê?)acompanhado do filho pequeno:

razaopoesia

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

sábado, 6 de janeiro de 2007

mirante em santo antonio do pinhal



Quando chegamos, faltando três dias para a virada do ano, fomos recebidos por um beija-flor, preso na gaiola de vidro da casa. Fiquei admirado e encantado com a delicadeza com que ela pegou o pequeno pássaro em suas mãos e logo em seguida, sem que o minúsculo ser tivesse tempo para se debater, devolveu-o mais uma vez ao seu elemento. Pensei que não haveria melhor maneira de acabar 2006.

O calor do primeiro dia na serra foi logo substituído por uma chuva insistente e muda (como aprendi com René Char, “a chuva fina é muda”) que nos deixou levemente entristecidos.

Fomos interrompidos pelo ano-novo.

Agora, vendo distante, no tempo, as árvores altas, o pio dos pássaros e o canto dos sapos, e já “sem nenhuma montanha no olhar”, pergunto-me se tudo aquilo era real, “como um lago de montanha abandonado”, que não será jamais, já que uma das características do real é a constância.

Abro mais uma vez a página desse livro de Char (Nu Perdido e Outros Poemas), a esmo, e me consola o que está escrito: “Beleza, caminho ao teu encontro na solidão e no frio [...]. Amo você e você vive em mim”.

E pobre de tudo, menos do que escrevo, contento-me apenas em dividir o que não tenho com aquele que neste momento me lê. “Lágrimas e sorrisos são fósseis”. “O tempo rasga e poda. Um clarão dele se afasta: nossa faca”. “Que ele viva!”. Feliz 2007.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

DESAFIO AO MAR

O mar é um marujo bêbado, este fim de tarde.
E eu não sei se sou um espectador ou sou ele
próprio se arrebentando no casco
de terra sobre o qual estamos,
em nossa embarcação de
pedra, aço e madeira.
(Todos estamos bêbados de cerveja e vinho e bebemos
sentados em nossas cadeiras, dormindo ou apenas admirando).
A verdade é que se passaram assim
mais de seis horas.
Ninguém sai daqui antes do sol
ir-se embora...

Não haverá vencedores nessa peleja...
Hoje, o banco de areia resistiu,
Mas, alto lá,
voltaremos amanhã, mar,
– e veremos!

*
*
*

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

This guitar says

Drinking alone is thinking alone. And, hey, baby, I can drink you under the table. Not only once but twice.

é verdade

que tenho andado muito contido... uma leitora me lembra... andava mais solto no primeiro blog... "É preciso que o escândalo surja!" - André Gide.

Do meu sumário de incertezas


FRAGMENTOS APÓCRIFOS


7

Filho de Marte, Vulcano, despejo
lavas – por isso não te trouxe
flores.

6

Heróis vencidos, finda a batalha:
repasto de pássaros.

5

Adormecidos, lilases, a aurora boreal
vem nos acordar.

4

O pai dividiu seu último cálice
e, agonizante, partiu.
Na longa estrada solitária,
sua voz alguém ouviu?

3

Oh, os bafejos da sorte!
Oh, os motejos da morte!
Oh, a estrela do Norte!
Quem me guiará ainda?

2

A amplidão do mar ou uma
casca de noz são o mesmo
para o que nunca se move.

1

Tateando o tempo o fruto
descobriu o solo.

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Gide

Uma leitora da Revista Bula, Maria Clara, estudante de literatura, me pergunta sobre André Gide, que andei traduzindo uns pedaços do primeiro livro dele "Os cadernos de André Walter". "Um gênio ou um charlatão?", quer saber ela, e ainda minha opinião "sincera" sobre o papel que este ocuparia na “literatura mundial".

Em primeiro lugar, charlatão, com certeza, não. É justamente o contrário, alguém engajado em desvelar a falsidade, como afirma o pesquisador Alain Goulet, em entrevista à Revista Trópico...

>>>>POST ALTERADO<<<<

Leia como ficou na próxima terça-feira, 14 de novembro, edição 151 da Revista Bula

sábado, 4 de novembro de 2006

Tower of song!

Santo You tube, TOS na versão original:
http://www.youtube.com/watch?v=ahUMC2gS6Nw&mode=related&search=

epifania para mim, as 4 da madruga, (bebendo Diego de Almagro, Reserva 2000).

Leonard Cohen

Consegui assistir a I'm Your Man, filme sobre Leonard Cohen na 30ª Mostra de cinema de SP. As apresentações de um show em tributo ao bardo canadense, realizado em Sidney, Austrália, em 2005, e que ocupam a maior parte do longa-metragem, ficam bem aquém do original. Um tal de Rufus Wainright canta, não se sabe bem por qual motivo, três músicas: "Everybody Knows", afetadíssimo, "Hallelujah", idem ( que já ganhou uma versão "definitiva" com o falecido Jeff Buckley), e a melhor interpretação de Rufus neste filme: "Chelsea Hotel nº2".

>>>>POST ALTERADO<<<<

Leia como ficou na próxima terça-feira, 14 de novembro, edição 151 da Revista Bula

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Pequenas livrarias

Fechou mais uma livraria de pequeno porte na Avenida Paulista: A Belas Artes, que ficava na Paulista com a Consolação. Essa é a terceira que fecha nos últimos meses (antes foram a 5ª Avenida e a Duas Cidades). A justificativa é que não suportaram a concorrência com as chamadas megastores - a exemplo da Cultura na mesma Paulista. Na contracorrente, está em pleno funcionamento no mesmo espaço que abriga as quatro salas do cinema Reserva Cultural, no térreo baixo do prédio da TV Gazeta, uma excelente livraria. Apesar de diminuta, tem uma seleção de títulos de poesia que não são facilmente encontráveis, tais como O nu perdido e outros poemas, coletânea de René Char, traduzida por Contador Borges, que adquiri e estou adorando. (A linguagem simbólica, os aforismas, o poema sobre Rimbaud, a noite, a noite...).

sábado, 21 de outubro de 2006

Filme de sexta: O Crocodilo

Grande Moretti! Melhor diretor italiano da atualidade. A Itália é uma "italieta", Berlusconni é o diabo. Nós temos Lula, mas a Itália, ah, a Itália... tem Berlusconni! Impagável.

19:20O Crocodilo (Il Caimano), de Nanni Moretti (112'). Falado em italiano. Legendas em português. Indicado para: 16 anos. Reserva Cultural Sala 2