terça-feira, 6 de outubro de 2015

Nota sobre Bioy Casares

Em 2014 ele completaria 100 anos, assim como outro argentino, Cortázar (quem se importa com a idade aproximada de Cristina K?). Fala-se muito de Invenção de Morel, seu romance “semiótico” por excelência, mas Diário da Guerra do Porco, narrativa sempre atual de uma guerra movida pelos jovens para exterminar os mais velhos (curiosamente, lembrei disso recentemente assistindo à série italiana Gomorra), é imensamente superior, até, mas não só, pelo grau de perturbação.

Antes mesmo de Cortázar, talvez valha mais aqui a comparação de Bioy com Kaffka. No romance Dormir ao Sol (baseado no qual existe um tentativa de adaptação para o cinema que resulta um pouco involuntariamente cômica) temos a perspectiva de alguém metamorfoseado num cão, incapaz de comunicar-se com o mundo exterior, que só é capaz de enxergá-lo como um animal.

Mas são nos contos - assim como em Kafka - que encontramos o escritor em um estado muito próximo à perfeição. Como na magistral, ainda que breve, coletânea Historia Desaforada publicada pela primeira vez em 1986, quando o autor tinha 72 anos de idade. No conto Planes para una fuga al Carmelo, ele retoma mais uma vez o tema do extermínio dos velhos pelos jovens, numa ficção científica envolvendo o vizinho Uruguai. 

Já em Historia desaforada, que dá nome ao volume, e que dialoga com o primeiro conto, a inspiração veio, segundo explica Bioy no prólogo do livro, de uma frase de Bergson: “A inteligência é a arte de sair de situações difíceis”. “Pensei que nesse momento para mim uma situação difícil era a velhice, e me ocorreu a história de um professor que consegue isolar as glândulas da juventude, para injetá-las em organismos decrépitos”.

Em outro conto que integra a mesma coletânea, La rata o una llave para la conducta, uma ratazana gigante, outro animal do bestiário de Bioy, que nunca aparece, assombra um chalé de certo professor Melville (como o autor de Moby Dick). O professor havia chegado a uma teoria segundo a qual “podemos averiguar a verdadeira índole de nossos sentimentos” (se são bons ou maus), “mediante a confrontação com a ratazana que há na casa”. A ratazana é a própria morte ou “nossa desaparição e também a desaparição de todas as coisas, gente, história: o mundo inteiro”.

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Bioy Casares também escreveu um diário de 1.700 páginas em que registrou suas conversações com Borges. Num dos trechos iniciais, há uma breve discussão sobre se deve publicar ou não. Reproduzo aqui mais ou menos exatamente o diálogo, um dos muitos de que o livro é recheado. Borges, naquela ocasião, manifesta-se a favor de que o escritor não deve se apressar em publicar, a fim de evitar a vergonha posterior, que tarda mas não falha. Bioy contemporiza que sempre se ganha algo em publicar, fica-se menos “vaidoso”. E não há coisa pior do que o escritor que jamais escreve nada (o que Enrique Vila-Matas chamaria de complexo de Bartleby e Roberto Arlt descreveu no conto O Escritor Fracassado). Pouco antes ele havia registrado no diário um comentário de Silvina Ocampo, sua esposa, de que, na opinião dela, ele escrevia melhor que Borges, a escritura lhe sairia de modo “mais natural”.

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De las cosas maravillosas, publicado em 1999, foi a última pérola do colar de Bioy Casares, que encontrei por insanos R$ 100,00 em uma livraria de São Paulo. Por felicidade li-o inteiro de uma sentada, de graça, ali mesmo. No meio encontrei esta anedota sobre as últimas palavras de Buster Keaton. Recordando a morte do grande ator e diretor de comédias mudas, Bioy conta que alguém, junto à cama do enfermo, observou que ele havia parado de respirar. Para saber se está morto – retorquiu outro – “você tem que tocar nos seus pés. As pessoas morrem com os pés frios. ‘Ah, Joana d’Arc, não’, disse Buster Keaton. E caiu morto. 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Novo livro de poesia

Meu segundo livro de poesia, na Amazon. 93 p (tamanho Ebook). Pode ser lido em qualquer dispositivo, celular, tablet ou computador. Quem escreveu, editou, diagramou, sofreu, gozou, revisou e fez a foto da capa fui eu mesmo. Para pagar toda essa equipe o livro custa R$ 17,54 , dos quais 70% são para mim, 30% para a Amazon, justíssimo. Se não vender nada, hipótese mais que provável, meu prejuízo será zero também. Também pode ser lido de graça através de cadastro na Amazon. Brasil, pátria educadora.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Conto fantástico: O número de vidas do gato

Em 3015, o transplante de cérebro para clones feitos sob medida a partir do DNA de mortos famosos nos séculos passados tornou-se algo comum.






terça-feira, 7 de abril de 2015

Aniquiladores



Schlegel, que a irmã dizia que tinha cara de bobo, numa inventiva contra os árabes escreveu em 1798 que estes eram "aniquiladores entre as nações" e uma "natureza extremamente polêmica", porque tinham predileção em destruir os originais depois de traduzi-los para sua língua nativa. Ironicamente, segundo ele, "talvez por isso mesmo fossem infinitamente mais cultos, mas, apesar de toda cultura, mais puramente bárbaros que os europeus da Idade Média. Bárbaro é aquilo que é ao mesmo tempo anticlássico e antiprogressivo". Em outra passagem, acrescenta: "Os árabes absolutizam em toda a parte. O que não lhes parecia útil, destruíam imediatamente".

Absolutamente Nada


Lendo "Absolutamente nada", seleção de textos de Robert Walser (que o vendedor entendeu Roberto Salsa e depois emendou uma valsa), me esforçando para gostar. O homem era admirado, segundo me informa a contracapa, por ninguém menos que Walter Benjamin, Musil, Kafka e Herman Hesse, que escreveu: "Se Walser tivesse cem mil leitores, o mundo seria um lugar melhor". Alguns contos são de uma singeleza que nossa época brutal não mais permite. De tão evanescente fica-se um gosto de nada. Algumas imagens são decididamente clichês e pelo menos um conto, "O bote", na minha opinião não mereceria estar na seleção do tradutor Sergio Tellaroli. Por outro lado, há uma crônica genial sobre as calças compridas das mulheres, escrita em 1911, na qual o autor parece adivinhar o futuro. E eu me lembrei de Antônio Maria, o genial cronista brasileiro, que teve a desgraça de escrever em português, num país que não existe no mapa. Antonio Maria por sinal faria 94 anos em 17 de março - ninguém lembrou. Outro conto, "A história de Helbling", lembra o escrivão Bartleby de Herman Melville e Fernando Pessoa, do Livro do Desassossego.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Lapouge e as cidades brasileiras


Resenha-artigo

Por Lauro Marques

“São Paulo não é feia ou bonita. São Paulo é um monstro”. Gilles Lapouge dá uma das melhores definições do Brasil e das cidades brasileiras em seu impagável “Dicionário dos apaixonados pelo Brasil” (editora Amarilys, 2014).

A tradução “Dicionário Amoroso” do título, como no francês original em que foi lançada a obra, “Dictionaire amoureux du Brésil”, ficaria melhor. Sim, é amoroso e nos deixa nus como índios cabralinos.

São Paulo, de acordo com o verbete sobre as aglomerações urbanas locais, é uma “periferia infinita”, onde procuramos e nunca encontramos as portas da cidade. Estamos sempre “ao redor da cidade”. É o ápice da cidade portuguesa, “construída às cegas, de qualquer jeito, em qualquer lugar”.

Por isso as sinuosidades são mantidas em nossas vilas e cidades, cheias de declives, vales, ladeiras. Por isso são belas, diz, amorosamente, Lapouge. Por isso, acrescento, não pensamos em construir calçadas, ou vias e estradas funcionais ou abastecimento hídrico planejado.

Por isso também as ciclovias de São Paulo, destinadas em grande parte aos fantasmas e zumbis (*), que são seus nem sempre ocultos habitantes.

Rejeitamos a geometria voluntária da urbe espanhola (ademais, já existente na América pré-hispânica, enquanto aqui ainda não conhecíamos a roda). À lógica, preferimos a intuição.

Quem ousou contrariar essa inclinação foi Niemeyer e sua Brasília utópica - uma utopia, apesar da rima ser rica, estranha, no entanto.

Em lugar de ângulos retos, a curva. (A primeira cidade utópica “mulher”, segundo Lapouge). Em lugar de ruas e esquinas, “asas”, “blocos” e “setores”.

Uma cidade-hieróglifo para ser vista do avião, como uma mensagem no deserto aos deuses (deixada por um comunista!) e inabitável ao rés do chão.

Livro inspirador, voltarei a ele outras vezes.

_______________

(*) Véspera do Natal, saída do túnel da Paulista em direção a Dr. Arnaldo. Sou pego em uma cena de filme de Zumbi. Dentro do túnel, ocupando as laterais dos dois lados da pista, numa semiescuridão, um grupo se amontoava (provavelmente viciados em crack). A maioria homens, talvez não muito velhos, barbudos, cabeludos, desgrenhados, famélicos, roupas em frangalhos e cobertos de sujeira. Corpos enegrecidos, encolhidos, sentados um ao lado do outro, as mãos agarrando os joelhos, olhando para frente. As cabeças meio inclinadas, em silêncio absoluto, como se numa espécie de comunhão, sem fogo. Véspera de Ano-Novo, continuavam lá. À passagem rápida dos carros, um deles se levantou, um pé tocando o asfalto, antepondo a silhueta avermelhada contra a luz no final do túnel, que agora me lembrava também uma caverna pré-histórica. Papelões voavam no meio da pista.


Nota do autor: Talvez tenha carregado muito nas tintas na descrição. Mas o quadro, quase um “presépio”, é exato e está disponível a quem queira experimentar. Poderia tê-lo descrito numa linguagem objetiva de jornalista, já que os nossos ainda não tiveram a oportunidade de descrevê-lo. Se saiu nessa linguagem enviesada foi pela força que o evento me impressionou.

"Poste-Escrito": Não sou inimigo das ciclovias, pelo contrário, utilizo e sou um apoiador. As ciclovias são uma boa ideia, mudaram a cara de São Paulo, oferecendo uma opção de lazer - e até em alguns casos, para uso por entregadores, ou de pessoas que moram em áreas mais urbanizadas da cidade, perto do trabalho e são jovens. Seu fracasso está associado ao próprio fracasso da cidade, de uma forma geral, como a falta de calçadas, avenidas mais largas e arborizadas, com recuo maior dos edificíos, o tecido caótico das ruas, etc.

sábado, 8 de março de 2014

O abismo de Pessoa



Mise en abîme. Procedimento que consiste em incrustar uma imagem dentro dela mesma, representar uma obra dentro de uma obra de um mesmo tipo, que remonta ao princípio dos fractais ou da recursividade na matemática.

Em literatura, o “pôr-se em abismo” é a técnica utilizada pelo escritor que escreve um romance sobre o escritor que escreve um romance, como no primeiro livro de André Gide: “Os Cadernos e as Poesias de André Walter”. Assim como em “Os Moedeiros Falsos”, obra da maturidade de Gide, o próprio romance está sendo escrito dentro da obra de mesmo nome em que é contado.

Indo um pouco além das definições enciclopédicas, de todos os artistas talvez o poeta seja o ser que mais está sempre a cada momento “colocando-se em abismo”. Isto é, ele está o tempo todo representando para si mesmo o ato de escrever o poema e a si mesmo nesse ato. Ele exercita o tempo todo aquilo que Octavio Paz chamou de “outridade” ―resumida na famosa frase de Rimbaud: “Je est un autre”, eu sou um outro, o “eu” é um outro.

Este “eu” de que falam tantos poemas sempre é um retrato de um outro, um “eu” que precisa ser representado na forma desse outro, e só aparece por meio da linguagem.

O “eu” é um outro, meu abismo é o seu abismo e ambos podemos nos reconhecer. Ou talvez nele venhamos a nos perder.

A “outridade” do poeta não é senão “colocação em abismo”, mise en abîme.

(Para ser inteiro é preciso ser outro. E nunca se pode ser inteiramente inteiro, sem ser outro. Donde, nunca se pode ser inteiro.)

O verdadeiro “eu” está em outra parte ou está em parte nenhuma ―o que é o mesmo que dizer que está em toda a parte.

O verdadeiro “eu” é uma ficção. Fernando Pessoa, o mais “abismal” dos poetas foi talvez quem melhor compreendeu isso, e que se declarou, pela voz do heterônimo (sempre pela voz do heterônimo) Bernardo Soares, um “espectador irônico” de si mesmo. E é também Bernardo Soares, no Livro do Desassossego, que se rebela contra o escritor Fernando Pessoa, que o escreve escrevendo contra a necessidade de se recompor, para que venha a existir, como linguagem, para nós, destruindo-se enquanto unidade autônoma aparente: “Tornei-me uma figura de livro, uma vida lida. O que sinto é (sem que o queira) sentido para se escrever que se sentiu. O que penso está logo em palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que são outra coisa qualquer. De tanto recompor-me destruí-me. De tanto pensar, sou já meus pensamentos mas não eu. Sondei-me e deixei cair a sonda; vivo a pensar se sou fundo ou não, sem outra sonda agora senão o meu próprio olhar que me mostra, claro a negro no espelho do poço alto, meu próprio rosto que me contempla a contemplá-lo”.

Mise en abîme infernal e vertiginoso em que criador e criatura se fundem e se separam num jogo de espelhos infinito, e a solução para o problema formulado nunca é dada.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

TAL QUAL (PAUL VALÉRY)


Fragmentos (“esboços de pensamentos”) recolhidos ao acaso e traduzidos de “Tel Quel”, coletânea de escritos de Paul Valéry, Gallimard: 1943.

LITERATURA

Escrever é prever.

Descobrimos, relendo, a medida de nossa própria ignorância.

*

Muitos escritores consideram sua arte, não como algo em que necessitam se tornarem mestres ― sine qua non ― mas como um jogo de azar no qual podem arriscar a própria sorte. Eles confiam inteiramente na fortuna e dar-se-ão o valor que ela vier a lhes conferir. (Acrescentarão uma coisa ou outra).

Há portanto dois perigos, duas maneiras de se perder e afundar: adaptar-se completamente ao público; ser fiel demais ao próprio sistema.

*Uma obra é sólida quando ela resiste às substituições que o espírito de um leitor ativo e rebelde sempre tenta submeter às suas partes.

Jamais esquecer que uma criação é algo finito, acabado e material. O arbitrário vivo do leitor se bate contra o arbitrário morto da obra.

*

De um certo “ponto de vista”, que não raramente é o meu ― o que chamamos de uma bela obra pode parecer um terrível defeito do autor.

*

Freqüentemente julgo uma obra de arte ao pensar: é impossível que tenhas querido isto.

*

Um poeta é o mais utilitário dos seres. Preguiça, desespero, acidentes de linguagem, olhares particulares, ― tudo isso que o homem mais prático perde, rejeita, ignora, elimina, esquece, o poeta recolhe e por meio de sua arte acrescenta certo valor.

*

Quem diz: Obra, diz também: Sacrifícios.

A grande questão é decidir aquilo que vamos sacrificar: é preciso saber quem, quem, será comido.


*

Conheço a literatura por lhe haver interrogado de minha própria vontade. (E somente desse modo).

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Rio que não passa por minha aldeia

Rio que corre em outra cidade
que não é a minha
único que eu posso amar

Onde sua gélida corrente?

que alimentará os vinhedos
que alimentará o povoado
que não me alimentará

Amo o rio que não passa por minha aldeia
só posso amar esse rio.



*          *         *


Río que no pasa por mi aldea

Río que corre en otra ciudad
que no es la mía
único que puedo amar

Donde su gélida corriente?

que alimentará los viñedos
que alimentará el pueblo
que no me alimentará

Amo el río que no pasa por mi aldea
sólo puedo amar este río.

sábado, 17 de agosto de 2013



Hoje, como ontem
exposto aos fenômenos
corpo-
máquina, qual é
tua    —tessitura? Sentes:
este abraço, em tu-
a  
alma—?

domingo, 4 de novembro de 2012

Enésima meditação noturna




Mira a noite/sem
consequências/
não este nada/o grande
nada/
e à manhã/que pronto/virá/
fingirá que é outra/e ignora
continuidade.



Enésima meditación nocturna

Mira la noche/sin
consecuencias/
no esta nada/la grande
nada/
y al mañana/que pronto/vendrá/
fingirá que es otra/e ignora
continuidad.
 




LM

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Historia del bigote (tercera versión)

Mi padre tenía un bigote enorme
que cultivaba con mucho orgullo

un bigote de bandolero mexicano

- tanto, que la primera vez que vi una foto de Zapata, luego me acordé de mi padre.

Cuando, cierto día, le pregunté qué iria a hacer cuando su bigote se volviese blanco,
no me contestó, quedóse enfadado, dijo: "No lo sé, tal vez no llegue a ser blanco, nunca".

Pienso en ello hoy, cuando estoy cerca de la edad de mi padre muerto, con su bigote, intacto, todavía.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Donc, il n'y avait pas feu encore, le froid


Donc, il n'y avait feu encore, froid
qui vous a donné autorisation de changer, comme ça, de place?
par hasard
n'étiez vous pas habitué à l'absence
(de ceux qui vous voulaient, mort, cependant?
Lorsque vous entouraient chiens, vêtus de noir comme les prêtres)
et au vent, poussant les huttes contre la falaise
et à la pluie, défaisant les yeux en l'eau
et au désir, aveugle, éclatant en myriades




LM

sábado, 19 de maio de 2012

Assommé parmi les étoiles

Assommé parmi les étoiles
île fatiguée de soleil
bateau sans voile en battant contre le temps
solitaire avec mouettes et bancs de poissons

sábado, 21 de abril de 2012

Bando de luzes, fluido éter

revoada de pássaros pretos sob o céu embranquecido
noite, noite, ainda
e campos com flores como/ túmulos se abrindo






LM

domingo, 22 de janeiro de 2012

Impossível reconhecimento


 
Impossível reconhecimento
no ocaso das estações

abraço o vermelho das casas
quando o sol se põe

e o barulho da chuva
quando a chuva acaba

[e é quase nada viver]

o espaço de uma asa
num intervalo de um segundo
quando despetalam as ros...

a claridade sentida de verão chuvoso. 





LM

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Resenha no Prosa & Verso

 Resenha de 'Sumário de incertezas', de Lauro Marques


Sumário de incertezas, de Lauro Marques. Editora Confraria do Vento, R$ 19

Luciano Rosa *
Curioso (ou sintomático) o verso que abre o livro de estreia do poeta Lauro Marques: “Para mim basta”. O que soaria como senha de despedida ou indício do fim é, em "Sumário de incertezas" (Confraria do Vento), via de acesso a um universo lírico instigante, perturbador às vezes, desvelado no singular “passeio pelo paraíso ou/ Inferno/ de delícias” proposto ao leitor. Pórtico desse percurso, o poema “Intro” prenuncia o tom geral do livro: “O belo não me agrada mais”, “Entrego a ti as tuas fadas” e “Deixa-me morrer em paz/ Com meus demônios!” são versos que, articulados com a renúncia da linha inicial, sinalizam uma poética elaborada não com os artifícios consabidos e consagrados da beleza dúctil, de contornos harmoniosos, mas forjada a partir do material duro extraído do desamparo que intermedeia o contato do poeta com o mundo desolado que o abriga.

Desse embate surge uma poesia tangida por certa “alma em pânico”, a vagar por “entre prantos”, “panos sujos [e] pântanos”, “encharcada de tédio,/ que sofre muito para chegar/ num ponto qualquer”. No trajeto de quem “habituado [está] a pisar em espinhos”, a paisagem que se descortina, “à noite gris/ no meio de/ lugar nenhum”, pode ser “um descampado de natureza morta” ou “a paisagem ocre” sob “um céu sem vida”, em que “nuvens são nações de ódio”. “Nada é minha/ morada/ Tudo é só pó”, afirma o poeta em “Pária”, cujo último verso – “Nunca alcancei o outro lado” – bem simboliza a errância e a incompletude que frequentemente lhe orientam a pena.


Aparentemente infértil, tal cenário é altamente fecundo às incertezas que a poesia de Lauro Marques se propõe sumariar. “Com que tinta escreverei agora/ que o tinteiro esvaziou?/ Com a tinta da dúvida que/ essa não seca nunca!”, pergunta e sentencia o poeta em “Dúvida”. É com essa tinta perene que se grava o “impreciso canto,/ Nem formidável/ Nem novo”, mas inusitadamente belo, de Sumário de incertezas, cuja hesitação fundamental parece centrada na própria poesia e, por conseguinte, naquele que a traz à luz. Escrevendo “para poder escapar/ da mediocridade”, o poeta se questiona: “Mas, ai de mim, se o poema/ também resulta – medíocre?”. A consciência do risco essencial de seu ofício reaparece alegorizada num aforismo do general Bonaparte, mote do poema “Napoleão”: “Do sublime ao ridículo/ há apenas um passo”. Hábil em esquivar-se aos perigos dessa fronteira ínfima e oscilante, Marques manifesta notável capacidade de conjugar delicada sensibilidade com alta potência lírica, combinação que resulta em fulgurações poéticas de fina beleza. É o que se vê, por exemplo, em poemas como “Agora”, “Pensamento” e “Elegia (outono)”.

Interessado não apenas em compendiar dúvidas, "Sumário de incertezas" é também profícuo inventário de perdas e interdições: um “salto que nós nunca demos”, uma “estrada/ que nunca/ pisei”, “um porto/ que já não alcanço”, uns “olhos que não dão mirada” e outras denegações são despojos que servem de matéria a uma poética em boa parte brotada da inviabilidade. Impelida por uma “ânsia/ de chegar/ a nenhum lugar”, a lírica de Lauro Marques parece gestada num “intervalo infinito” em que tudo é “olvido e névoa”. “E apesar disso tudo/ (ou talvez por isso)”, essa poesia – “ao mesmo tempo sublime, banal e verdadeira” – aciona sugestivo repertório imagético, responsável em grande medida pelo vigor dos poemas.

"Sumário de incertezas" configura-se ainda como uma espécie de súmula de referências a delinear a filiação intelectual de Marques, que a certa altura assevera: “A poesia é um longo e interminável diálogo entre poetas, no qual se entra como num rio caudaloso”. A correnteza dos ingleses – Shakespeare, D. H. Lawrence, William Blake, Malcolm Lowry – aparece com força, muito embora outros afluentes – Ungaretti, Rilke, Pound, Rimbaud – mostrem-se também influentes. Do colóquio com as artes plásticas nasce “Tríptico de Bacon” (sobre “Três estudos para figuras na base de uma crucificação”, de Francis Bacon), um dos momentos altos do livro. A intensa interlocução do poeta com seus pares e com criadores de outras artes revela um lastro cultural que em nada se confunde com a fátua afetação muita vez camuflada sob o brilho falso da erudição de almanaque. No caso de Marques, são sinais que ajudam a mapear-lhe a linhagem poética e tornam mais claro seu pensamento lírico.

Se “Arte é o que vale a pena” (como lemos em “A parte”), "Sumário de incertezas" é, indubitavelmente, boa aposta de leitura. No contato com essa poesia ora aflita, ora “leve/ como uma cerveja weiss” – “pluma temerosa a fender o espaço” –, a pena é muitíssimo bem recompensada. E a qualidade dos poemas “é a parte/ que cabe a cada leitor descobrir”.

LUCIANO ROSA é doutorando em Letras pela UFRJ, pesquisador da literatura brasileira do século XX, organizador do volume "Anos 40" da coleção Roteiro da Poesia Brasileira e os "Melhores Contos de Aurélio Buarque de Holanda", ambos da editora Global.



sábado, 15 de outubro de 2011

 
 
“AH!”, disse às trevas
e às bétulas
rondando o muro –
e o farfalhar das asas,
quase nunca,
silêncio escuro.

"E por que não?"
"nesse mundo
todos
farfalhamos".
 
 
LM 

domingo, 2 de outubro de 2011

As pessoas não são formigas

 
No Metrô,
vejo escorrer
(no rosto
lento e calmo
sorridente e não disfarçado)
uma lágrima
no rosto da menina.
 
 
LM

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

THE DOUBT/ A DÚVIDA








  With what ink will I write now
     that the ink-pot is emptied?
With the ink of the doubt             that
     this never dries out!


 



Com que tinta escreverei agora
     que o tinteiro esvaziou?
Com a tinta da dúvida            que
     essa não seca nunca!






LM