quinta-feira, 14 de abril de 2011

Esboços * borrões 4



Nenhum sopro no despertar da aurora
as vinhas vindouras, verdes ainda no solo
velhas, acumulando-se  nas encostas
a face aguada da montanha
(alto, ainda
alto e fundo
ao reverso; caindo
olhando para cima)
[agora, sim, um sopro
fome de vertigem e vida]





Então não havia fogo ainda, frio 
Olhos rasgados que não veem nada
 Um silêncio suntuoso, sólido, esculpido em rocha

terça-feira, 12 de abril de 2011

Esboços * borrões 2



Olhos rasgados que não veem nada
pontes caídas do desterro
marulhos n'água
(febre alta,
esboços-teares)
[e a natureza -opaca-  abomina o vazio]




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Então não havia fogo ainda, frio

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Esboços * borrões



Então não havia fogo ainda, frio
quem te deu permissão para mudar, assim, de lugar?
por acaso não estavas acostumado à ausência
(dos que te queriam, morto, todavia.
Quando te acercavam cães, vestidos de preto como padres)
e à ventania, empurrando os casebres contra o precipício
e à chuva, desfazendo os olhos em água
e ao desejo, cego, explodindo em miríadas



quinta-feira, 7 de abril de 2011

Mais dois poemas de Gelman




Condecorações

Condecoraram o senhor general,
condecoraram o senhor almirante,
o brigadeiro, o meu vizinho
o sargento de polícia.


e alguma vez condecorarão o poeta
por usar palavras como fogo,
como sol, como esperança,
entre tanta miséria humana,
tanta dor
sem ir mais longe.




31 de março

Acabou o mês
e o filho que não vem
e meu irmão que não volta.

Acabou o mês e não te amei as pernas
e não escrevi esse poema de outono em Ontario
e penso penso penso
se foi outro mês
e não fizemos a revolução ainda.


- Juan Gelman
[tradução Lauro Marques]

terça-feira, 5 de abril de 2011

Quadra ao gosto popular

Que posso fazer se sou só sombra?
Uma sombra passa - eis tudo.
Meu único prazer é não ser somente eu
Uma sombra neste mundo!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

"E ele olha através da canção"

"E ele olha através da canção". Porque uma linha de Guenádi Aigui vale mais que mil poemas, caprichosamente elaborados, miméticos, narrativos, perfeitamente "conscientes de si", enfadonhos, acomodados, loucos para serem "expressos". "As notícias farfalham nas matas". "Campo e pedra." "O calar-se". "Pedra".

terça-feira, 22 de março de 2011

Sumário de Incertezas, na Caros Amigos

Meu livro "Sumário de Incertezas" na lista de leituras do jornalista Renato Pompeu, na edição de fevereiro, 167, da Revista Caros Amigos (coluna "Ideias de botequim", p. 45):

"A poesia [brasileira] tem bons momentos no pequeno volume Sumário de Incertezas, de Lauro Marques, editado pela Confraria do Vento. Exemplos: 'Para mim basta/ O brilho das coisas vencidas./ O belo não me agrada mais.' e 'Tem da natureza inseta/ a atração/ por luzes/ pelo perfume das flores/ e das bebidas.'"

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quarta-feira, 16 de março de 2011

Dois poemas de Valdivino Braz


Os velhos lobos do mar



As gaivotas

De sol e nuvens, um céu de ouro e sangue, o arrebol do entardecer. Os gritos melancólicos, de solitárias gaivotas, sobrevoando as carcaças dos barcos. Parecem dizer que o tempo a tudo trespassa, e tudo se esgota. Parecem gritos de alerta, que o dia cessa e se aproxima a hora escura. Parecem avisar que ali vem as sombras a cobrir o mundo e fechar as portas. Parecem deduzir que vão cerrar-se as cortinas dos quartos, que vem a noite por cima estender-se e cobrir a nudez dos corpos. Parecem gritar que a hora é essa, que a vida é só essa, não há outra. Parece que a vida vai sair pela porta dos fundos, o coração a saltar pela boca. Gritam as gaivotas, e serão outras ao amanhecer, com o mar a derramar-se de peixes mortos. Na manhã do mar profundo, com as mortes do mundo.

...

Os homens no BARco

Os homens envelhecem no bar, bebendo as palavras salobras da noite e cuspindo o zinabre corrosivo do tédio. Na longa travessia das horas, destiladas pelos copos, sabem o cansaço dos corpos, os vincos nas faces vulneráveis e a vida moída pela mó do inexorável. Sabem nesta hora o íntimo silêncio em que os gestos se anulam, os olhos no vazio vagam, e cada homem diz a si mesmo coisas uns aos outros indizíveis. Sabem agora a solidão sozinha do lobo ferido no ermo do mundo, e os inevitáveis borrões vermelhos da sangria própria do que é vivo e dói. E morrem os homens, à mesa do bar, barco de náufragos no mar de espuma da última cerveja.







 Valdivino Braz nasceu em Buriti Alegre (GO), em 23 de novembro de 1942. Formado em Jornalismo pela UFG (1984), é membro da União Brasileira de Escritores – Seção de Goiás (UBE-GO). Publicou dois livros de contos, um romance e dez livros de poemas, seis dos quais premiados em concursos. Entre eles, “A trompa de Falópio” (Prêmio Nacional Cidade de Belo Horizonte, 1992), de onde foram extraídos os excertos publicados acima.

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domingo, 13 de março de 2011

Un poema de Aldo Luis Novelli

Un poema de Aldo Luis Novelli

>>>traducido por  Lauro Marques

O poeta argentino, Aldo Luis Novelli


Amorsaurio

nos rozamos en la calle.

le acaricié el pelo en la esquina.

hablamos de las injusticias del mundo
cerca del basural.

nos amamos con los restos
del cuerpo.

antes de dormirme
le leí un cuento de Monterroso.

y cuando desperté
ella ya no estaba allí.



Librillo editado por el Min. Educ. Nac. dentro del "Plan Nacional de Lectura" en la colección "Escribiendo en la Patagonia" que se distribuyó en todas las escuelas y Bibliotecas Populares de la Provincia


Amorsauro


nos roçamos na rua.

acariciei seus cabelos na esquina.

falamos sobre as injustiças do mundo
perto do lixão.

nos amamos com os restos
do corpo.

antes de adormecer
li para ela um conto de Monterroso.

e quando despertei
ela já não estava lá.



Livreto publicado pelo Min. Educ. Nac no âmbito do Plano Nacional de Leitura "na coleção "Escrita na Patagônia", que foi distribuído em todas as escolas e bibliotecas públicas da Província

[Tradução Lauro Marques]

sábado, 12 de março de 2011

Tsunami

Escrito com raiva

no mar -

Tempestade 嵐






怒りで書かれて

海で -





Written in anger

In the ocean -

Storm 嵐

VARIACIONES SOBRE "EL DINOSAURIO" **



VARIACIONES SOBRE EL DINOSAURIO **

"La versión para el público (final feliz)"

Lauro Marques


Cuando despertó, el dinosaurio ya se había ido.



 ‎** El dinosaurio


[Minicuento]


Augusto Monterroso



Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Amuleto, Roberto Bolaño

"Metempsicosis. La poesía no desaparecerá. Su no-poder se hará visible de otra manera."
Uma das "profecias" de R. Bolaño, em "Amuleto", novela do autor, escrita em 1999, como um capítulo extraído de "Os Detetives Selvagens" que ganhou vida própria.

(Outra "profecia" é que "César Vallejo será leído em los túneles en el año 2045". Esta última eu já tratei de concretizar, pois já li, muitas vezes, César Vallejo em túneis.)

Faz parte dos delírios da personagem Auxilio Lacouture(*), escondida num banheiro da UNAM, durante uma invasão do Exército, em 1968, na Cidade do México.

Por trás, há o tema da morte - da poesia, dos poetas (seres perseguidos, fantasmagóricos, e às vezes ridículos, que gostariam de se imaginar heróicos), sua lenta e angustiada aparição e desaparição no mundo. E da memória. Da poesia como uma forma que resiste ao tempo: ela reencarnará, os poetas (ou suas obras), alguns, continuarão.

(*) Relendo essa nota, pensei que o sobrenome "La couture", que siginifica "costura", em francês, talvez seja uma chave, pode ser lido como "La culture", cultura.
"Y ese canto es nuestro amuleto"

terça-feira, 1 de março de 2011

"Pequenos incômodos"

  • advinhando formas numa pintura de nuvens,
 adivinando formas en una pintura de nubes,
guessing shapes in a painting of clouds,
  • - É preciso encarar o mar com fundo respeito - disse. Enquanto se afogava.
- We have to face the sea with deep respect - said. While was drowning.

- Hay que enfrentar el mar con fundo respeto - dijo. Mientras estaba se ahogando.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Artistas/Los Artistas/Artists

Artistas

Foi em dezembro do ano passado
Eu parei para cumprimentar um grupo de operários
que haviam acabado de decorar (após horas) a Avenida
com bolas, pingentes e toda a sorte de penduricalhos iluminados.
- Parabéns! Eu disse. Ficou muito bonito.
- Obrigado - eles agradeceram, por detrás de seus capacetes e roupas cinzas
e voltaram para os seus bairros pobres e mal-iluminados.

Artistas

Fue en diciembre del año pasado
Me detuve a saludar a un grupo de trabajadores
que acababa de terminar la decoración (después de horas) de la Avenida
con bolas, colgantes y todo tipo de baratijas iluminadas.
- ¡Enhorabuena! Yo dice. Es hermoso.
- Gracias -  ellos agradecieran, por detrás de sus cascos y ropas grises
y regresaron a sus barrios pobres y con poca luz.

Artists

It was in December last year
I stopped to greet a group of workers
who had just finished decorating (after hours) the Avenue
with balls, pendants and all sorts of illuminated trinkets.
- Congratulations! I said. It's beautiful.
- Thanks - they thanked, behind their helmets and ash clothes
and returned to their poor and dimly lit neighborhoods.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Poema em vermelho


Eu quis escrever um poema em vermelho com todas as

qualidades que o vermelho tem: a textura, a luz, o som, a urgência e a intensidade  que o vermelho tem
Porque estou cansado de poemas azuis ou amarelos Eu quis escrever um poema em vermelho.




Red Poem

I wanted to write a poem in red
with all the qualities that red has:
texture, light, sound, urgency and intensity that red has


Because I'm tired of  blue poems or yellow
I wanted to write a poem in red.




LM

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Notas soltas - Poesia

A poesia não tem recuos e avanços. Ela – é, permanece. Depois de retirar sua atuação “social”, é impossível deixá-la sem a plenitude vital e humana, do aprofundamento, de ser autônoma. E então? –Ela pode evidentemente aprofundar-se também naquelas esferas em que o sono atua com tamanha intensidade. “Ousar” permanecer no sono, enriquecer-se em seu domínio, comunicar-se com ele – nisto, se quiserem, é lenta certeza da poesia em si mesma – ela não necessita que lhe façam “indicações”, que lhe “permitam” e que a controlem (também é assim, e em concordância, o seu leitor).


Será que a poesia perde ou adquire algo em tais condições? Seria desejável deixar isso como uma pergunta formulada. O mais importante: ela sobrevive. Expulse-a pela porta, ela se esgueira pela janela.

Guenádi Aigui. Sono e poesia.


Deixe-me colocar-lhe uma questão, senhor Breton. Todos conhecemos a noite e os dois lados que todas as noites têm: a noite dentro de casa e a noite fora de casa. Ou seja: há a tranquilidade e o esperado e há, ainda, o medo e a estranheza. Claro que se poderá sempre dizer que a poesia não se encontra nem em um lado nem no outro: a noite tem dois lados e a poesia é a porta da casa no momento em que é aberta e o escuro cobre a relva e o céu. Mas quando alguém tem medo, deve correr para casa; e quando sente tédio, deve correr para a parte de fora da noite. E a poesia, que parece uma coisa parada, resolve, ao mesmo tempo, o tédio e o medo; o que é bom e dois, sendo uma única, a poesia.

 Gonçalo M. Tavares. O Senhor Breton e a entrevista.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Releituras de Guenádi Aigui

Em 2008 publiquei uma leitura minha de um poema de Aigui, na Revista Bula. (Clique para ir para a página da revista). Na época, eu escrevi "poeta russo", mas o correto é "tchuvache" (a Tchuváchia é uma república autonônoma da Ex-URSS). Utilizei uma tradução de George Yurievitch Ribeiro, que eu considero ainda melhor que a que nos dá agora Boris Schnaiderman, para os mesmos versos, publicada na recente e belíssima coletânea de textos da editora Perspectiva “Guenádi Aigui: Silêncio e Clamor”.

Disse melhor, mas na verdade, relendo, agora, deveria ter dito que as duas traduções são complementares. A de GYR era para mim mais familiar, daí o estranhamento. Como não entendo russo, fica difícil julgar. As traduções iniciam de modo diferente, mas depois seguem mais ou menos juntas. Fica merecendo um estudo posterior. A título de comparação, leia-se os versos iniciais, pelos dois tradutores: "no clarão/ da angústia desfeita em pó" (BS); "no invisível crepúsculo/ de saudade pulverizada" (GYR). Na segunda tradução, a presença da palavra invisível (que não deixa de ser sugerida na primeira), marcou minha leitura do poema.

O conhecimento da biografia do autor também serviria para uma leitura do poema em questão, chamado "Silêncio", quando sabemos que o poeta foi levado ao ostracismo na Rússia, por não se adequar às diretrizes do realismo socialista. Veja-se, sobre isso, os versos, que vem imediatamente após os dois primeiros citados no parágrafo anterior, e são um testemunho da coragem e da firmeza de princípios do autor em relação à sua arte:


“conheço o inútil como os pobres conhecem a última roupa

e trastes antigos

e sei que essa inutilidade

é justamente a de que o país necessita de mim” (GYR)


Muito semelhante é essa passagem na nova tradução, de BS:


“conheço o desnecessário como os pobres conhecem a

roupa última

e os velhos trastes

e sei que este desnecessário

é o que o país precisa de mim”

Em um outro poema de Aigui, chamado “O Nosso”, traduzido na coletânea organizada por BS, a poesia, que neste poema é também sono e silêncio do poeta, é colocada ao lado da verdade, em favor da vida, num contraponto à mentira – reservada para o Estado.