domingo, 23 de janeiro de 2011

Comentário de Antonio Carlos Secchin sobre o livro "Sumário de Incertezas"

"De um ou outro modo, praticamente todos os poemas surpreendem, pelo despojamento aliado à inventividade imagística e intensidade lírica".

Mensagem do doutor em letras pela UFRJ,  professor de Literatura Brasileira das universidades de Bordeaux, (1975-1979), Roma (1985), Rennes (1991), Mérida (1999), Nápoles (2007), Paris-Sorbonne (2009) e da Faculdade de Letras da UFRJ, crítico e poeta, da Academia Brasileira de Letras, Antonio Carlos Secchin, comentando o recebimento e leitura do meu livro Sumário de Incertezas, Confraria do Vento, 2010.
 
Leia o perfil de Antonio Carlos Secchin no site da Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Do que não escapam os poetas |Resenha de Sumario de Incertezas

"Inscreve-se, escreve-se como quem morre. Vive-se a morte que nos vive. Está escrito. “Cada um se mata o suficiente para continuar vivo”, dizia o poeta Pio Vargas, que, de súbito, se matou. "



Texto completo aqui:

Do que não escapam os poetas |Resenha de Sumario de Incertezas |Revista Bula


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

domingo, 19 de dezembro de 2010

Dois poemas de Juan Gelman



Freira no ônibus – Juan Gelman

[Tradução Lauro Marques]



Entre homens e pacotes, diários envelhecidos,

caras secas, suores, bocas rancorosas,

envolta no silêncio de seu capuz pálido

a noiva de deus viaja com Cristo

sobre peitos que deram de comer a ninguém.



O ladrão – Juan Gelman

[Tradução Lauro Marques]



Na noite silenciosa e escura,

fugindo de toda presença humana ou animal,

evitando os ruídos, furtivamente rouba

fogo das palavras e palavras do fogo

para si, para todos, para o amor que não conhecerá

algum dia

e a cinza fria castiga suas mãos.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A Cidade a Travessa 19/11 na Casa das Rosas

Sexta-feira 19/11, na Casa das Rosas, Avenida Paulista, 37, a partir das 18h, a Cidade a Travessa: megaevento da Confraria do Vento em São Paulo. Leituras, lançamento de livros (Ronaldo Ferrito, Lauro Marques, Victor Paes, Bárbara Lia e Berimba Jesus), performances e entrevistas. Vão servir absinto. Leve sua capa de chuva e prepare-se.

À venda no site da editora, Livraria Cultura e Martins Fontes:
http://www.confrariadovento.com/editora/livro27.htm

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=22379071&uid

http://www.martinsfontespaulista.com.br/ch/prod/382160/sumario-de-incertezas.aspx


domingo, 14 de novembro de 2010

Lançamento do meu livro no dia 19/11 na Casa das Rosas/SP

Foto original da capa por James Emery
 Capa do meu livro de poesia Sumário de Incertezas".
Editora Confraria do Vento, 2010.

À venda no site da editora, na Livraria Cultura e Martins Fontes:
http://www.confrariadovento.com/editora/livro27.htm

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=22379071&uid

http://www.martinsfontespaulista.com.br/ch/prod/382160/sumario-de-incertezas.aspx


Lançamento: 19/11 na CASA DAS ROSAS, Avenida Paulista, 37, das 18h às 22h.

Dentro do evento "Cidade a Travessa", promovido pela Editora Confraria do Vento.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Águas-fortes Portenhas

Photo by Robert Ostmann

Enquanto procuravam minha mulher
que estava perdida na Biblioteca Nacional
chamando-a pelo nome de piso em piso

–até que a encontraram duas horas depois
com um formulário não preenchido de “investigadora” nas mãos e nenhum livro
(o que buscava era de 1891 e olhou para ele durante dois segundos antes de sair correndo para o cabeleleiro)–

eu lia “Poesia Vertical- Antologia Mayor” de Roberto Juarroz
na cápsula de tempo que é a biblioteca, misto de poesia vertical e horizontal, incrustada na cidadela que já foi de Borges

–enquanto embaixo corria em câmera lenta a metrópole portenha, com seus milhares de carros pretos e amarelos girando, continuamente girando, em círculos (que são para mim o verdadeiro símbolo dessa cidade), sempre indo e voltando, sem nenhum destino não pré-fixado: metade da frota é de táxis.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Bienal 2010


Ninhos, Helio Oiticica (divulgação/Bienal)

Gostei da Bienal 2010, muito melhor que a última (a do "Vazio"). Apesar do tema "Arte e Política", os que conseguem fugir da interpretação literal se saem bem. Achei algumas participações bastante interessantes e bem-humoradas, como o vídeo que mostra a performance de um grupo do Rio, montado num carro-pipa "lavando" as ruas com jatos de ..."sangue", e a reação das pessoas nas rua. Os curadores obtiveram sucesso no ponto em que obras dialogam o tempo todo com a poesia, a literatura, e as artes visuais, com destaque para a fotografia, e na homenagem a autores do passado, como Lygia Pape (num belo filme da época) e Hélio Oiticica, no ninho reproduzido na foto ao lado. Ainda não deu para ver tudo, preciso voltar logo.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Garrafas de cerveja _letra e música



Macacco ao vivo em Natal-RN (detalhe da geladeira no palco)



GARRAFAS DE CERVEJA
 (aka. "Ameaçando a escuridão")


Muita coisa mudou

Os planos são outros
Ecos sem sentido

Você voltando pra casa,

No domingo

E ninguém mais sorrindo

Faz o mundo girar
No chão da sala
Quando pego na sua mão
Com luvas de plástico
Não de pelica,

Esqueci todo o resto.

Abra a geladeira

Eu abro meu peito

E as garrafas de cerveja

No piso sujo

Da sala,

Ameaçando a escuridão.

 
 
  Música  do CD Canções de Ninar. Autor: Macacco (Alexandre Gurgel). Letra: Lauro Marques.

Haiku de primavera (atrasada)


"Três Amigos e Centenas de Pássaros",
Bian Wenjin, dinastia Ming
 






Inverno, acabe!

empoleiradas nas árvores,

gritam maritacas.

















De: Sumário de Incertezas, Lauro Marques. Editora Confraria do Vento, 2010 (no prelo)

domingo, 19 de setembro de 2010

Mário de Sá-Carneiro: Impressões domingueiras


Leio Mário de Sá-Carneiro no domingo meio nublado, no parque da Água Branca. Um parque meio pobre e mal-cuidado, em reformas, com aves simplórias ciscando em meio aos pombos (que ao meu ver nem aves são), galinhas, galos e pavões. Paus-brasis dos mais altos que já vi -antes só conhecia mudas-, que me pareceram muito estranhos, e um resto de vegetação que para nós, citadinos, já nos basta para nos sentirmos em meio ao mato. Uma surpresa. Há quiosques com livros que você pode pegar e ler, depois devolver, sem ninguém para dar por isso. Um quiosque com livros de poesia! Poucos, uns 20 talvez, mas todos bons (lembro que vi Rimbaud, Lautréamont, Haroldo de Campos, Célan, José Paulo Paes), outro de literatura em geral. Fui lá no de poesia e peguei o Mário de Sá. Há mesas de leitura, como as de um restaurante, só que sem garçons, e quando fui lá estavam vazias. Uma musiquinha tocava ao fundo, uma canção infantil. Eu já o tinha lido, claro, mas naquele parque lúgubre, num domingo, após ter passado em frente a um baile da terceira idade, que ocorria a poucos metros ali mesmo dentro do parque, onde pairava um estranho desânimo, um “além-tédio" (1) de tudo -para um parque, com crianças!-, a sensação foi amplificada.

*
*
*

Acrescento algo totalmente desnecessário a essa minha nota igualmente desnecessária, que não tem muito a ver com Sá-Carneiro mas com o "estado de ânimo" do parque naquele dia. O tal baile da terceiridade era uma das "atrações", comparável aos brinquedos para as crianças e os animais soltos, para os que de fora observávamos os velhinhos a entrar na casa - de onde saía uma animada música, contrastando com as figurinhas trêmulas que, rapidamente, e sem trocar muitas palavras, a espinha dobrada, entregavam determinada quantia ao homem, também de idade, usando um chapéu preto e camisa social, que fazia às vezes de porteiro e bilheteiro. Como a casa ficava numa parte baixa, as pessoas na parte alta do caminho que passava ao lado do salão de baile, paravam para olhar, algumas empurrando carrinhos de bebês, em roupas de "jogging", ou casais de meia-idade, por um momento sinceramente enternecidos com as imagens do passado (que para nós seria mais certo dizer futuro, mas que vemos como pertencentes a um tempo passado). Escutei uma garotinha dizer: "mas deve ser necessário ter uma certa idade", entre desejosa e precavida, de participar da "festa", que, como tudo mais no parque, tinha a aura de espectro.

__________

(1) - nome de um poema de MSC.

Nada me expira já, nada me vive ---/ Nem a tristeza nem as horas belas. /De as não ter e de nunca vir a tê-las, /Fartam-me até as coisas que não tive. //Como eu quisera, enfim de alma esquecida, /Dormir em paz num leito de hospital.../ Cansei dentro de mim, cansei a vida/ De tanto a divagar em luz irreal. //Outrora imaginei escalar os céus/ À força de ambição e nostalgia,/ E doente-de-Novo, fui-me Deus/ No grande rastro fulvo que me ardia.// Parti. Mas logo regressei à dor, /Pois tudo me ruiu.../ Tudo era igual: A quimera, cingida, era real,/ A própria maravilha tinha cor!// Ecoando-me em silêncio, a noite escura/ Baixou-me assim na queda sem remédio;/ Eu próprio me traguei na profundura,/ Me sequei todo, endureci de tédio.// E só me resta hoje uma alegria:/ É que, de tão iguais e tão vazios, /Os instantes me esvoam dia a dia/ Cada vez mais velozes, mais esguios...

Ver também o poema "Dispersão".

sábado, 18 de setembro de 2010

Segunda canção do homem tolo

"Ho Tche Tchang, sempre a cavalo, parecia remar numa barca. Certa noite, mais bêbado que nunca, caiu num poço, onde dorme ainda, creio eu..."





Foto de Okinawa Soba
Escuta o barulho do mar
Longe silente
E vê o pelo ouriçar
Tu que não sentes
Enche o peito de ar
(Até um grito estourar)
Por entre os dentes
E gira em teu calcanhar
Tolo contente
Até o dia sangrar
Novo poente


E bebe o vinho dormente
E bebe o vinho dormente





De: Sumário de Incertezas, Lauro Marques. Editora Confraria do Vento, 2010 (no prelo)

domingo, 12 de setembro de 2010

Earth in beauty dressed

Foto de mauroguanandi
Um ipê amarelo desfolhando (despetalando?) nesse início de setembro me lembrou um fragmento de Yeats, que sempre me vem à memória nessa época do ano (traduzo aqui sem muito rebuscar):

"Em beleza a terra vestida
 Aguarda o retorno da primavera.
 Todo amor verdadeiro deve findar,
 Transformado no ápice
 Em alguma coisa menor.
 Prove que eu minto."

O poema no original completo:

Her Anxiety


Earth in beauty dressed

Awaits returning spring.

All true love must die,

Alter at the best

Into some lesser thing.

Prove that I lie.



Such body lovers have,

Such exacting breath,

That they touch or sigh.

Every touch they give,

Love is nearer death.

Prove that I lie.


William Butler Yeats

Aqui, uma animação desse poema (quase "espírita") com a namorada de Yeats, Maud Gonne, resssucitada dos mortos por meio da computação gráfica, "recitando" o poema. Detalhe: Gonne lembra "gone", ido.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O homem tolo - poema, antecedido de comentário à leitura de Ulisses

Sábado 14 de janeiro de 2006


Limpo a poeira do Ulisses, traduzido por Antônio Houaiss. Poeira não. São grossas camadas pretas de poluição, gordura, e ácaro. Joyce diria: "Necrófago! Mascador de cadáveres!".

Leio a edição carcomida pelas traças, que traçaram umas curvas (algumas bem elegantes) por todo o livro. Com a caneta, sublinhando as frases que eu gosto. (Ou do estilo). E são muitas.

"Diz Maeterlink: Se Sócrates deixar sua casa hoje, encontrará o sábio sentado à sua soleira. Se Judas sair esta noite, é para Judas que seus passos tenderão. Cada vida são muitos dias, dia após dia. Caminhamos através de nós mesmos, encontrando ladrões, fantasmas, gigantes, velhos, jovens, esposas, viúvas, irmãos do amor. Mas sempre encontrando-nos a nós mesmos."

E de fato, a passagem remeteu-me para algo que escrevi antes. Eis que reencontro. O anti-Zaratustra. O sem força. O poeta, o bobo. O bufão que interrompe, através da parábase, o discurso do sábio. O último dos homens, talvez. Eu. Incipt commedia!


O HOMEM TOLO


O homem tolo construiu castelos de gelo

no verão, onde pensou em morar

por muitos anos

e rimou palavras a esmo

para surdos-mudos e

analfabetos

numa língua morta e

desconhecida

desde então.



O homem tolo saiu à noite com uma lanterna

apagada

procurando pela escuridão

e só encontrou a si mesmo.



Esse homem tolo

abriu as janelas de sua alma

numa rua deserta e no lugar de inspirar,

expirou ali mesmo.


ÍNDICE DAS FRASES MAIS NOTÁVEIS DE ULISSES

Foto da primeira edição (verdemuco) do Ulisses
(TRADUÇÃO: ANTÔNIO HOUAISS)



Pág. 8: “– Por Deus – disse sereno. – Não está o mar tal como Algy lhe chama: a doce mãe gris? O mar verdemuco.” (1)

Pág. 20: “O vazio espera certo todos os que tecem o vento.”

Pág. 73: “O senhor Dedalus olhou para a claudicante personagem e disse docemente:

– Que o Diabo lhe quebre o espinhaço.”

Pág. 362: “Estética e cosméticos são para o boudoir. Busco a verdade. Pura verdade para um homem puro.”



Pág. (*): .........................................................................



(*) Para respeitar a idiossincrasia de cada um, deixamos a cada leitor a tarefa de completar esta página.

________________________

(1)
"Snotgreen", termo "criado" por Buck Mulligan, no Ulisses. "O mar verdemuco" e não "verdemeleca" como está na tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro (Editora Objetiva, 2005). Uma bobagem essa, admito... mas me fez recuar na compra do livro. "Meleca" lembra palavreado infantil que não corresponde a snot - nasal mucus, mucous secretion, mucus - protective secretion of the mucous membranes; in the gut it lubricates the passage of food and protects the epithelial cells; in the nose and throat and lungs it can make it difficult for bacteria to penetrate the body through the epithelium - além de não combinar com o contexto da rememoração de Stephen, em seguida: a mãe a morrer vomitando a bile numa tigela de porcelana que "parecia uma lesma verde arrancada de seu fígado apodrecido em seus ataques de vômito e de altos gemidos..."

Aí está: O mundo à beira do caos e eu aqui discutindo meleca...

domingo, 5 de setembro de 2010

Há pouco, velozmente, no Metrô

Traffic, de riczribeiro

Desfizemos nossas roupas e saímos nós, vestidos de noite. Há pouco, velozmente, no Metrô, estáticos, espalhamos átomos pelo mundo afora. Um hálito quente, a língua úmida, a queimar-lhes a nuca. Dois velhos de boinas, conversam contentes, segurando livros. Uma moçoila, com ares de estudante, também de boina, quase que “posa”. Uma velha gorda com a sacola de supermercado, distraída, pensa (?). Somos todos desesperados... Somos todos... desesperados... E a mulher bela, na propaganda de desodorante, sorri. Enquanto isso, eu, no canto contrário, sentado, componho o poema com o olho, pois sei que, no momento seguinte, esquecerei tudo.

NOTAS À MARGEM

LER É VIVER


Minhocão, foto de Daniel Mitsuo


A frase em letras garrafais, numa faixa, sobre a porta de um pequeno sebo, surpreendeu-me da janela do ônibus, enquanto passava embaixo do elevado Costa e Silva, mais conhecido como minhocão, uma das sete desgraças do mundo contemporâneo (não há as sete maravilhas do mundo antigo? Eu proponho uma lista alternativa que seja encabeçada pelo minhocão).



Quer frase mais “Pessoana” do que essa? Ler é viver. E portanto, a maioria da população brasileira não vive, pois não lê. Não sei se quem pôs a faixa estava inteiramente consciente da crítica feroz que fazia à ignorância dos que, como eu, por ali cruzavam a rua, cumpridores da rotina diária, ruidosos ou em silêncio, a caminho de mais um dia na metrópole paulistana.





DIGNIDADE



Parei hoje para cumprimentar o vigilante que toma conta do prédio onde trabalho. Ele estava polindo as botas, sentado à cadeira do engraxate, que faz ponto na praça em frente do prédio. Fui dizer, apenas para ser simpático e ter algo para dizer, que eu também iria engraxar meus sapatos, um dia desses. Então ele me responde afirmando: “Já que vamos sair amanhã, resolvemos engraxar as botas”.



Confesso que de início não compreendi, o plural majestoso confundiu-me. Imaginei que ele, vaidoso, certamente planejava dar uma volta à noite, ou sair para uma festa ou quem sabe talvez um bar, após o trabalho, e queria por isso ver suas botas brilhando.



Como eu não havia entendido bem, fiquei surpreso quando ele me disse em seguida que este seria o seu último dia naquele emprego. Falei qualquer coisa para reanimá-lo e fui-me embora, sorrindo. Só agora, já em casa, quando tomo para mim mesmo essas notas solitárias, é que pude compreender a verdadeira dimensão do que ocorrera.



Ele chegara ao fim do contrato temporário de serviço como vigilante e o ato de polir as botas era uma maneira de demonstrar para si mesmo que ele era superior à sua própria desgraça. (Se as devolveu ou não, como imagino ser praxe nesses casos, é um mero detalhe que não afeta em nada a minha imaginação de sua superioridade).



Tinha razão portanto o plural majestoso, carregado de dignidade, daquele homem, que eu, para minha vergonha, na minha simplicidade, não pude perceber de imediato.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Dois poemas de Ezra Pound


O SOBRADO

Ezra Pound

Tradução Lauro J.M. Marques

Vem, apiedemo-nos daqueles que estão melhor que nós.

Vem, amiga minha, e recorda

que os ricos têm mordomos e não amigos,

E nós temos amigos e não mordomos.

Vem, apiedemo-nos de casados e solteiros.



A aurora entra com seus pezinhos

como uma dourada Pavlova*

E estou próximo ao meu desejo.

Não há coisa melhor no mundo

Que essa hora de claro frescor

A hora de despertarmos juntos.





INSTRUÇÕES POSTERIORES

Ezra Pound

Tradução Lauro J.M. Marques

Venham, minhas canções, vamos expressar nossas paixões mais básicas.

Vamos expressar nossa inveja do homem com um trabalho regular e nenhuma preocupação com o futuro.

Vocês são muito vãs, minhas canções.

Receio que terão um péssimo fim.

Vocês vagabundeiam pelas ruas, vocês demoram-se nas esquinas e paradas de ônibus,

Vocês não fazem quase nada.



Vocês sequer expressam nossas grandezas mais íntimas,

Vocês terão um péssimo fim.



E eu? Eu acabei meio alucinado.

Eu falei tanto com vocês, que as vejo quase à minha volta,

Insolentes animaizinhos! Libertinas! Desnudas!



Mas vocês, canções mais recentes do lote,

Vocês não são velhas o suficiente para terem causado muita injúria.

Eu trarei para vocês um casaco verde da China

Com dragões bordados.

Eu trarei para vocês as calças de seda escarlate

Da imagem do menino Jesus em Santa Maria Novella;

Para que não digam que nos falta o gosto,

Ou que não há ninguém casto nessa família.

 
_______________

(*) "Como uma dourada Pavlova" = Anna Pavlova, bailarina russa, nascida em São Petersburgo, a 31 de janeiro (segundo o calendário juliano) ou a 12 de fevereiro (pelo calendário gregoriano) de 1881 e falecida na Haia, em 23 de janeiro de 1931.. De talento e carisma excepcionais, fascinou o mundo da dança no fim do século XIX e na primeira metade do século XX. Seu extraordinário talento e suas interpretações extremamente pessoais deram um novo sentido ao balé clássico. Também era conhecida como Anna Pavlovna Pavlova. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Anna_Pavlova

Texto original dos poemas:

Lustra, 1916.
http://www.archive.org/stream/lustrofezrpound00pounrich#page/n0/mode/2up



A POESIA É UM CENTAURO


“A poesia é um centauro”. Metade lógica, metade música.

“A faculdade clarificadora, pensante, de arranjar as palavras, deve se mover em conjunto às faculdades estimuladoras, sensíveis, musicais.”

Ezra Pound, Literary Essays of Ezra Pound, New Directions, New York, pg 52.