Li uma poetisa que falava de "sereias degoladas" por "piratas abusivos", surgidos de um "mar ensanguentado". Primeiro, pensei:"Que absurdo!", pois quem degolaria sereias? Para evitar seu canto, depois lembrei: "sereias são monstros".
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
DE MANHÃ, RESSUSCITAREI
Adoro destruir-me.
Destruir-me-ei mil vezes.
Mas não como Cristo.
Que não ressuscitou.
Jamais!
Ressuscitarei como a manhã
Que levemente beija a folha da maçã.
E cairei
de podre!
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Dois instantâneos
Felicidade de Pipa
A febre voltou.
Palavras podem ser deliciosas.
Comê-las.
Com meus olhos
soltos no espaço.
Entre o ziguezaguear feliz de uma pipa e
o trem passeando no
elevado
sobre a rua de carros empilhados.
Baterista cego
Gesto 1:
A vareta abre-se ao comando
do meu braço
Desenrolando-se
em câmera lenta.
Antes retraída
Em duas partes seguras
pela minha mão
(Duas baquetas)
entre minhas pernas
de baterista
cego sentado.
Gesto 2:
Fixo a vareta no chão
meus olhos
(Há muito tempo)
Fechados
Até que paralisem
o trem.
A febre voltou.
Palavras podem ser deliciosas.
Comê-las.
Com meus olhos
soltos no espaço.
Entre o ziguezaguear feliz de uma pipa e
o trem passeando no
elevado
sobre a rua de carros empilhados.
Baterista cego
Gesto 1:
A vareta abre-se ao comando
do meu braço
Desenrolando-se
em câmera lenta.
Antes retraída
Em duas partes seguras
pela minha mão
(Duas baquetas)
entre minhas pernas
de baterista
cego sentado.
Gesto 2:
Fixo a vareta no chão
meus olhos
(Há muito tempo)
Fechados
Até que paralisem
o trem.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
forrest gander
descoberto na revista Confraria:
forrest gander
ligaduras
Nós sobrevivemos ao Natal, seu rosto prensado contra o peito espremido de sua avó numa casa tão imaculada, a aranha na fresta do teto mantém distância obscenamente.
forrest gander
ligaduras
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
“ No reencontro. ― A: Eu ainda o compreendo bem? Você está buscando? Onde se acham, no meio do mundo real de agora, seu canto e sua estrela? Onde pode você deitar-se ao sol, de forma que também lhe chegue um excedente de bem-estar e a sua existência se justifique? Que cada um faça isto por si próprio ― você parece me dizer ― e tire da mente as generalidades e as preocupações com os outros e a sociedade! ― B: Eu quero mais, eu não sou um buscador. Quero criar para mim meu próprio sol.”
Que Nietzsche tenha escrito isso por volta de 1882, em a Gaia Ciência, me faz pensar como, de todos os filósofos, ele talvez seja o mais necessário e como é necessária a sua leitura ainda hoje. E como anêmicos, afetados, frívolos e desnecessários ― por mais aberrante que soe a palavra ― me parecem Kant, Schiller, Schelling e outros pensadores alemães, com seus sistemas e metas e ideais e conceitos abstratos, sempre pairando um pouco acima da superfície sem jamais produzir nenhum atrito. Todos muito altos e etéreos ― ... e muito pouco (profundamente) superficiais!
VEGETARIANISMO
Corrijo um erro: não foi em A Gaia Ciência a definição do vegetariano que citei em outra ocasião. Foi em O Caso Wagner, dedicado a “desmascarar” o compositor alemão Richard Wagner. “Definição do vegetariano: um ser que necessita de um fortificante”. Interessante que em Ecce Homo, ao mesmo tempo em que espinafra a cozinha alemã e elogia a italiana do Piemonte, ele se declara “um adversário por excelência do vegetarianismo, exatamente como Richard Wagner, que me converteu”, além de se declarar contra qualquer bebida “espirituosa” (mais menos como Wagner era para ele): “água basta...”! (Ao que retrucaria um não abstêmio irônico como Fernando Pessoa: “Dêem-me de beber que não tenho sede!”).
BARRABÁS
Esse livro, Ecce Homo ― cujo título é extraído da versão vulgata da Bíblia, no evangelho de são João, capítulo 19, onde Pilatos apresenta Cristo aos judeus ― contém a melhor argumentação para aqueles que professam uma aceitável dúvida em Deus (ao contrário daqueles que só acham possível crer em Deus). Deus é uma resposta grosseira.“Sou muito inquiridor, muito duvidoso, muito altivo para me satisfazer com uma resposta grosseira. Deus é uma resposta grosseira, uma indelicadeza para conosco, pensadores ― no fundo, até mesmo uma grosseira proibição para nós: não devem pensar!”.
LIVRE PENSAR
“Eis o homem”, o episódio bíblico da escolha de Barrabás serviu como desculpa para a perseguição e morte de judeus nos séculos seguintes. Dizem que santo de casa não faz milagres, mas fato é que o sectarismo de Jesus não alterou muito o judaísmo até hoje, passados mais de dois mil anos, e a maior parte dos povos do Oriente Médio professa a fé islâmica. Não deixa de ser também uma boutade histórica que os santos floresceram na Itália dos dominadores romanos e de lá saíram também a maior parte dos “representantes” de Cristo na terra.
Que Nietzsche tenha escrito isso por volta de 1882, em a Gaia Ciência, me faz pensar como, de todos os filósofos, ele talvez seja o mais necessário e como é necessária a sua leitura ainda hoje. E como anêmicos, afetados, frívolos e desnecessários ― por mais aberrante que soe a palavra ― me parecem Kant, Schiller, Schelling e outros pensadores alemães, com seus sistemas e metas e ideais e conceitos abstratos, sempre pairando um pouco acima da superfície sem jamais produzir nenhum atrito. Todos muito altos e etéreos ― ... e muito pouco (profundamente) superficiais!
VEGETARIANISMO
Corrijo um erro: não foi em A Gaia Ciência a definição do vegetariano que citei em outra ocasião. Foi em O Caso Wagner, dedicado a “desmascarar” o compositor alemão Richard Wagner. “Definição do vegetariano: um ser que necessita de um fortificante”. Interessante que em Ecce Homo, ao mesmo tempo em que espinafra a cozinha alemã e elogia a italiana do Piemonte, ele se declara “um adversário por excelência do vegetarianismo, exatamente como Richard Wagner, que me converteu”, além de se declarar contra qualquer bebida “espirituosa” (mais menos como Wagner era para ele): “água basta...”! (Ao que retrucaria um não abstêmio irônico como Fernando Pessoa: “Dêem-me de beber que não tenho sede!”).
BARRABÁS
Esse livro, Ecce Homo ― cujo título é extraído da versão vulgata da Bíblia, no evangelho de são João, capítulo 19, onde Pilatos apresenta Cristo aos judeus ― contém a melhor argumentação para aqueles que professam uma aceitável dúvida em Deus (ao contrário daqueles que só acham possível crer em Deus). Deus é uma resposta grosseira.“Sou muito inquiridor, muito duvidoso, muito altivo para me satisfazer com uma resposta grosseira. Deus é uma resposta grosseira, uma indelicadeza para conosco, pensadores ― no fundo, até mesmo uma grosseira proibição para nós: não devem pensar!”.
LIVRE PENSAR
“Eis o homem”, o episódio bíblico da escolha de Barrabás serviu como desculpa para a perseguição e morte de judeus nos séculos seguintes. Dizem que santo de casa não faz milagres, mas fato é que o sectarismo de Jesus não alterou muito o judaísmo até hoje, passados mais de dois mil anos, e a maior parte dos povos do Oriente Médio professa a fé islâmica. Não deixa de ser também uma boutade histórica que os santos floresceram na Itália dos dominadores romanos e de lá saíram também a maior parte dos “representantes” de Cristo na terra.
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
"Chique", no segundo.
FSP, 30/11
Brasil tem 2º melhor IDH entre os Brics
DA REDAÇÃO
O termo Bric é usado para o grupo dos quatro gigantes econômicos emergentes -Brasil, Rússia, Índia e China. O Brasil é o segundo melhor entre os Brics em relação ao grau de desenvolvimento humano. No relatório das Nações Unidas, divulgado nesta semana, o país obteve o 70º lugar no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).A Rússia ficou três posições acima, como 67ª colocada. China e Índia ficaram atrás, com o 81º e o 128º lugares, respectivamente.
Brasil tem 2º melhor IDH entre os Brics
DA REDAÇÃO
O termo Bric é usado para o grupo dos quatro gigantes econômicos emergentes -Brasil, Rússia, Índia e China. O Brasil é o segundo melhor entre os Brics em relação ao grau de desenvolvimento humano. No relatório das Nações Unidas, divulgado nesta semana, o país obteve o 70º lugar no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).A Rússia ficou três posições acima, como 67ª colocada. China e Índia ficaram atrás, com o 81º e o 128º lugares, respectivamente.
"Chique", no "úrtimo"
Folha de São Paulo, 30/11
ELIANE CANTANHÊDE
"Chique"
BRASÍLIA - Segundo Lula, o Brasil agora é "chique", porque é do Brics, com Rússia, Índia e China, e além disso integra o grupo dos países de alto desenvolvimento humano. Ele, porém, esqueceu de alguns "detalhes" e manteve aquela postura curiosa: vitórias são sempre dele; derrotas, dos outros.
A curva do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil mostra claramente que os avanços do país são parte de um longo processo: 0,723 em 1990, 0,753 em 1995, 0,789 em 2000 e, enfim, 0,800 em 2005. Ou seja, o menor avanço em 15 anos foi justamente de 2000 para 2005.
É como Lula capitalizar a auto-suficiência do petróleo e a descoberta de um possível megacampo da Petrobras como mágicas dele. Ou, ainda, como Lula comemorar a marca de um milhão de carros da Ford na Bahia. O PT gaúcho expulsou a fábrica, e o PFL baiano pegou. A festa é do PFL (ou DEM) baiano.
E não custa lembrar que o Brasil entrou no grupo de alto desenvolvimento humano como lanterninha, o último entre os 70, o que não tem nada de chique, especialmente quando comparado ao desenvolvimento econômico, também resultado de um longo processo.
No confronto com dados da realidade, a coisa fica ainda pior. Na mesma semana em que Lula estala a língua de alegria com o IDH, o país e o mundo se chocam com a história de L., a menina franzina e violentada pela vida, entregue pelas "autoridades" às feras no Pará.
Essa menina não é um caso isolado. Ao contrário, sua dor chama a atenção para a situação de sabe-se lá quantas mulheres no Pará e sabe-se lá quantas mulheres e homens jogados como bichos em cadeias pelo país afora. Muitos, aliás, inocentes e sem defesa.
Números são números. Siglas são siglas. A realidade, senhor presidente, é que o Brasil vem evoluindo, sim, mas está longe, muito longe de ser "chique". Pergunte a L.
ELIANE CANTANHÊDE
"Chique"
BRASÍLIA - Segundo Lula, o Brasil agora é "chique", porque é do Brics, com Rússia, Índia e China, e além disso integra o grupo dos países de alto desenvolvimento humano. Ele, porém, esqueceu de alguns "detalhes" e manteve aquela postura curiosa: vitórias são sempre dele; derrotas, dos outros.
A curva do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil mostra claramente que os avanços do país são parte de um longo processo: 0,723 em 1990, 0,753 em 1995, 0,789 em 2000 e, enfim, 0,800 em 2005. Ou seja, o menor avanço em 15 anos foi justamente de 2000 para 2005.
É como Lula capitalizar a auto-suficiência do petróleo e a descoberta de um possível megacampo da Petrobras como mágicas dele. Ou, ainda, como Lula comemorar a marca de um milhão de carros da Ford na Bahia. O PT gaúcho expulsou a fábrica, e o PFL baiano pegou. A festa é do PFL (ou DEM) baiano.
E não custa lembrar que o Brasil entrou no grupo de alto desenvolvimento humano como lanterninha, o último entre os 70, o que não tem nada de chique, especialmente quando comparado ao desenvolvimento econômico, também resultado de um longo processo.
No confronto com dados da realidade, a coisa fica ainda pior. Na mesma semana em que Lula estala a língua de alegria com o IDH, o país e o mundo se chocam com a história de L., a menina franzina e violentada pela vida, entregue pelas "autoridades" às feras no Pará.
Essa menina não é um caso isolado. Ao contrário, sua dor chama a atenção para a situação de sabe-se lá quantas mulheres no Pará e sabe-se lá quantas mulheres e homens jogados como bichos em cadeias pelo país afora. Muitos, aliás, inocentes e sem defesa.
Números são números. Siglas são siglas. A realidade, senhor presidente, é que o Brasil vem evoluindo, sim, mas está longe, muito longe de ser "chique". Pergunte a L.
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Bolsa Família "diminui desigualdade", mas...
Jornal de Debates
http://www.jornaldedebates.ig.com.br/index.aspx?tma_id=1454
O Brasil merece o posto de elite da qualidade de vida?
A ONU incluiu o Brasil no grupo de elite da qualidade de vida. O país é o último dos 70 mais bem colocados, com IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) superior a 0,800, em uma escala de zero a um. O ingresso aconteceu graças a uma revisão nas estatísicas de expectativa de vida, que elevou a esperança de vida de 70,8 anos para 71,7 no país.
De acordo com o relatório de Desenvolvimento Humano da ONU, "o Bolsa Família é responsável por quase um quarto da recente queda abrupta na desigualdade no Brasil e por 16% de seu declínio na probreza extrema".
O assessor do Pnud (Programa das Nações Unidas de Desenvolvimento Humano), Flávio Comin, aponta cinco áreas em que o Brasil está muito defasado em relação aos outros países de alto desenvolvimento: saneamento básico, pobreza, mortalidade infantil, mortalidade materna e desigualdade.
Na primeira área, um estudo da Fundação Getúlio Vargas demonstra que o país vai demorar para conseguir melhorar. Segundo a estimativa, se se manter o nível de crescimento das redes em 1,59% ao ano, somente em 2122 toda a população brasileira terá acesso à rede de coleta de esgoto. A fundação calculou que apenas 46,77% da população possuía rede de coleta em 2006. O Jornal de Debates pergunta: o Brasil merece o posto de elite da qualidade de vida?
http://www.jornaldedebates.ig.com.br/index.aspx?tma_id=1454
O Brasil merece o posto de elite da qualidade de vida?
A ONU incluiu o Brasil no grupo de elite da qualidade de vida. O país é o último dos 70 mais bem colocados, com IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) superior a 0,800, em uma escala de zero a um. O ingresso aconteceu graças a uma revisão nas estatísicas de expectativa de vida, que elevou a esperança de vida de 70,8 anos para 71,7 no país.
De acordo com o relatório de Desenvolvimento Humano da ONU, "o Bolsa Família é responsável por quase um quarto da recente queda abrupta na desigualdade no Brasil e por 16% de seu declínio na probreza extrema".
O assessor do Pnud (Programa das Nações Unidas de Desenvolvimento Humano), Flávio Comin, aponta cinco áreas em que o Brasil está muito defasado em relação aos outros países de alto desenvolvimento: saneamento básico, pobreza, mortalidade infantil, mortalidade materna e desigualdade.
Na primeira área, um estudo da Fundação Getúlio Vargas demonstra que o país vai demorar para conseguir melhorar. Segundo a estimativa, se se manter o nível de crescimento das redes em 1,59% ao ano, somente em 2122 toda a população brasileira terá acesso à rede de coleta de esgoto. A fundação calculou que apenas 46,77% da população possuía rede de coleta em 2006. O Jornal de Debates pergunta: o Brasil merece o posto de elite da qualidade de vida?
Desenvolvimento econômico à frente do social
O Estado de São Paulo
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Com atraso, Brasil entra no grupo de alto desenvolvimento humano
País alcançou 0,800 a passos lentos; renda melhorou, mas outros indicadores seguem em situação crítica
Lisandra Paraguassú e Lígia Formenti, BRASÍLIA
Pela primeira vez desde que foi divulgado o primeiro relatório do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), há 30 anos, o Brasil alcançou a pontuação 0,800, o que coloca o País na categoria do alto desenvolvimento humano. O relatório é de 2007, mas com base nos dados de 2005.
A própria Organização das Nações Unidas (ONU), que coleta as informações e faz o cálculo do índice, trata a conquista brasileira de maneira comedida.
Veja a evolução do IDH
"É simbólico. Há muito para se fazer", afirmou Flávio Comin, especialista em Desenvolvimento Humano e assessor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), que prepara o relatório do IDH. Só o Bolsa-Família, com a prática da transferência de renda, é que empurra o País para cima. A precariedade das políticas públicas de saúde, educação e saneamento não melhora significativamente a vida dos brasileiros.
Na comparação de índices sociais, o Brasil continua perdendo de países como Chile, Argentina, Uruguai e México. "Os números mostram que estamos no caminho correto, mas temos uma dívida social muito grande", afirmou Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social.
O Brasil chegou a um IDH 0,800, mas não conseguiu subir na comparação entre países. Era o 69º em 2006 (0,792). É o 70º neste ano, o último da linha de alto desenvolvimento humano. E chegou a esse estágio por conta de revisões na metodologia de cálculo dos dados, descobrindo-se que Albânia e Arábia Saudita têm situações melhores que a brasileira.
O grupo de médio desenvolvimento, onde sempre esteve o Brasil, vai de 0,500 a 0,799, enquanto os países com baixo desenvolvimento - a maioria, do continente africano - têm índices que chegam, no máximo, a 0,499.
EMPURRÃO ECONÔMICO
Um olhar mais atento sobre os números mostra que o Brasil melhora a passos muito lentos e, se avançou na economia, ainda deixa a desejar nos avanços sociais. É na comparação entre Produto Interno Bruto (PIB) per capita e o IDH que a real situação social do Brasil aparece.Nesse índice, números positivos significam que o desenvolvimento social do País é maior do que o desenvolvimento econômico. O número brasileiro é três negativo.
Países que o Brasil ultrapassou no ranking têm resultados melhores. É o caso da Venezuela, que tem uma pontuação 14, do Equador, com 21, e do Paraguai, com 10.
"No Brasil, o desenvolvimento econômico está à frente do desenvolvimento social. É preciso crescer renda, mas é preciso que se cresça numa velocidade maior nessas dimensões sociais", afirma o assessor do Pnud.
Se o País melhorou gradativamente em todos os índices que compõem o IDH (renda, educação e saúde) é o aspecto econômico que tem tido mais peso, especialmente depois da criação de programas de transferência de renda - políticas iniciadas no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (1999-2002), com a criação da chamada Rede de Proteção Social, e que foram consolidadas no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a partir de 2004, com o Bolsa-Família, que unificou e expandiu a rede social.
Neste ano, a renda foi a única que teve crescimento real no Brasil. Saúde e educação tiveram índices melhores por conta de revisões de metodologias feitas pela ONU. O PIB per capita no Brasil passou de US$ 8.195 para US$ 8.402 (o dólar usado é o da Paridade de Poder de Compra, não o câmbio real).
Desse valor, US$ 130 são devidos à revisão dos dados, mas US$ 77 foi de crescimento real.No Índice de Pobreza Humana (IPH) - um cálculo que leva em conta a situação de saúde, renda e educação apenas da parte mais pobre da população -, o Brasil aparece em 23º lugar entre 108 países em desenvolvimento. Mas, quando se tira a renda da conta, o Brasil cai seis posições no ranking. Sobra um país em que ainda há uma enorme faixa da população analfabeta, com problemas de saneamento básico e mortalidades infantil e materna acima do aceitável.
ESPAÇO PARA OTIMISMO
Apesar dos problemas, a ONU aponta motivos para otimismo no Brasil. A previsão é que os relatórios dos próximos anos poderão trazer números melhores, resultado de investimentos atuais. "Uma coisa interessante é que houve redistribuição de renda nos últimos anos sem sacrifício da estabilidade econômica ou do crescimento", elogia Kevin Watkins, coordenador do relatório do IDH.
"Economistas freqüentemente dizem que não é possível distribuir renda com crescimento, mas o Brasil mostrou que isso pode acontecer."Mas Watkins faz cobranças. "Para que esse otimismo se confirme já se sabe que há requisitos relacionados ao crescimento econômico, redistribuição de terra e crédito e um sistema de impostos eficiente e igualitário", diz.
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Com atraso, Brasil entra no grupo de alto desenvolvimento humano
País alcançou 0,800 a passos lentos; renda melhorou, mas outros indicadores seguem em situação crítica
Lisandra Paraguassú e Lígia Formenti, BRASÍLIA
Pela primeira vez desde que foi divulgado o primeiro relatório do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), há 30 anos, o Brasil alcançou a pontuação 0,800, o que coloca o País na categoria do alto desenvolvimento humano. O relatório é de 2007, mas com base nos dados de 2005.
A própria Organização das Nações Unidas (ONU), que coleta as informações e faz o cálculo do índice, trata a conquista brasileira de maneira comedida.
Veja a evolução do IDH
"É simbólico. Há muito para se fazer", afirmou Flávio Comin, especialista em Desenvolvimento Humano e assessor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), que prepara o relatório do IDH. Só o Bolsa-Família, com a prática da transferência de renda, é que empurra o País para cima. A precariedade das políticas públicas de saúde, educação e saneamento não melhora significativamente a vida dos brasileiros.
Na comparação de índices sociais, o Brasil continua perdendo de países como Chile, Argentina, Uruguai e México. "Os números mostram que estamos no caminho correto, mas temos uma dívida social muito grande", afirmou Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social.
O Brasil chegou a um IDH 0,800, mas não conseguiu subir na comparação entre países. Era o 69º em 2006 (0,792). É o 70º neste ano, o último da linha de alto desenvolvimento humano. E chegou a esse estágio por conta de revisões na metodologia de cálculo dos dados, descobrindo-se que Albânia e Arábia Saudita têm situações melhores que a brasileira.
O grupo de médio desenvolvimento, onde sempre esteve o Brasil, vai de 0,500 a 0,799, enquanto os países com baixo desenvolvimento - a maioria, do continente africano - têm índices que chegam, no máximo, a 0,499.
EMPURRÃO ECONÔMICO
Um olhar mais atento sobre os números mostra que o Brasil melhora a passos muito lentos e, se avançou na economia, ainda deixa a desejar nos avanços sociais. É na comparação entre Produto Interno Bruto (PIB) per capita e o IDH que a real situação social do Brasil aparece.Nesse índice, números positivos significam que o desenvolvimento social do País é maior do que o desenvolvimento econômico. O número brasileiro é três negativo.
Países que o Brasil ultrapassou no ranking têm resultados melhores. É o caso da Venezuela, que tem uma pontuação 14, do Equador, com 21, e do Paraguai, com 10.
"No Brasil, o desenvolvimento econômico está à frente do desenvolvimento social. É preciso crescer renda, mas é preciso que se cresça numa velocidade maior nessas dimensões sociais", afirma o assessor do Pnud.
Se o País melhorou gradativamente em todos os índices que compõem o IDH (renda, educação e saúde) é o aspecto econômico que tem tido mais peso, especialmente depois da criação de programas de transferência de renda - políticas iniciadas no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (1999-2002), com a criação da chamada Rede de Proteção Social, e que foram consolidadas no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a partir de 2004, com o Bolsa-Família, que unificou e expandiu a rede social.
Neste ano, a renda foi a única que teve crescimento real no Brasil. Saúde e educação tiveram índices melhores por conta de revisões de metodologias feitas pela ONU. O PIB per capita no Brasil passou de US$ 8.195 para US$ 8.402 (o dólar usado é o da Paridade de Poder de Compra, não o câmbio real).
Desse valor, US$ 130 são devidos à revisão dos dados, mas US$ 77 foi de crescimento real.No Índice de Pobreza Humana (IPH) - um cálculo que leva em conta a situação de saúde, renda e educação apenas da parte mais pobre da população -, o Brasil aparece em 23º lugar entre 108 países em desenvolvimento. Mas, quando se tira a renda da conta, o Brasil cai seis posições no ranking. Sobra um país em que ainda há uma enorme faixa da população analfabeta, com problemas de saneamento básico e mortalidades infantil e materna acima do aceitável.
ESPAÇO PARA OTIMISMO
Apesar dos problemas, a ONU aponta motivos para otimismo no Brasil. A previsão é que os relatórios dos próximos anos poderão trazer números melhores, resultado de investimentos atuais. "Uma coisa interessante é que houve redistribuição de renda nos últimos anos sem sacrifício da estabilidade econômica ou do crescimento", elogia Kevin Watkins, coordenador do relatório do IDH.
"Economistas freqüentemente dizem que não é possível distribuir renda com crescimento, mas o Brasil mostrou que isso pode acontecer."Mas Watkins faz cobranças. "Para que esse otimismo se confirme já se sabe que há requisitos relacionados ao crescimento econômico, redistribuição de terra e crédito e um sistema de impostos eficiente e igualitário", diz.
"Abençoados por Deus" - sete crianças brasileiras morrem por dia em conseqüência da falta de saneamento básico
Folha online27/11/2007 - 13h36
Lula comemora IDH, diz que país é abençoado por Deus e reclama do FMI
RENATA GIRALDI
da Folha Online, em Brasília
Entusiasmado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou nesta terça-feira o resultado apontado pelo relatório de Desenvolvimento Humano 2007-2008, divulgado hoje pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).
De acordo com o relatório, o Brasil entrou pela primeira vez no grupo de países considerados de alto desenvolvimento humano.
"Todo governo que vier vai se sentir na obrigação de fazer o Brasil crescer um ponto no relatório. Todos [no atual governo] têm o compromisso de que o país vive um momento tão especial que nós poderemos nos dar ao luxo de dizer que 'somos abençoados por Deus'", disse Lula.
27/11/2007 - 10h00
Brasil entra no grupo de países de alto desenvolvimento humano, mas cai no ranking
LORENNA RODRIGUES
da Folha Online, em Brasília
O Brasil entrou pela primeira vez no grupo de países considerados de alto desenvolvimento humano. Entre os dados que contribuíram para o desempenho brasileiro está o aumento na expectativa de vida da população. Em 2004, ela era de 71,5 anos para 71,7 anos em 2005.
Apesar disso, caiu uma posição no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), passando de 69º para 70º no item qualidade de vida.
O Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) divulgou nesta terça-feira relatório que mostra que o IDH brasileiro alcançou 0,800 --em uma escala de 0 a 1--, o que é considerado alto. O índice divulgado hoje leva em consideração dados de 2005. No relatório do ano passado, de 2004, o IDH do Brasil foi de 0,792.
Os responsáveis pela pesquisa, porém, viram com cautela a melhoria no desempenho do país. Eles lembram que países como Argentina, México e Cuba estão à frente do Brasil no ranking há mais de 20 anos.
[...]
Ranking
Em 2005, a Albânia e a Arábia Saudita ultrapassaram o Brasil no ranking do IDH, ocupando agora a 68ª e a 61ª posição respectivamente. O Brasil, em compensação, ficou à frente da Dominica (71ª posição).
Países vizinhos do Brasil, porém, estão em melhor posição, como a Argentina (38ª), Chile (40ª) e Uruguai (46ª). A Islândia ocupa a primeira posição, com IDH de 0,968, seguida por Noruega, Austrália, Canadá e Irlanda. Em último lugar (177ª posição), com IDH de 0,336, está Serra Leoa.
Folha de São Paulo, quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Saneamento para todos só em 2122, diz FGV
Estimativa foi feita com base na taxa de crescimento do nível de coleta de esgoto no país, que atualmente está em 1,59% por ano
Fundação calculou que, em 2006, apenas 46,77% da população brasileira possuía rede de coleta de dejetos domésticos
DA SUCURSAL DO RIO
Com o atual nível de investimento em saneamento básico, só em 2122, daqui a 115 anos, a totalidade da população brasileira terá acesso à rede de coleta de esgoto, revela pesquisa da FGV (Fundação Getúlio Vargas) divulgada ontem. Mais da metade dos brasileiros não tem esgoto recolhido.
[...]
A FGV calculou que, em 2006, somente 46,77% da população brasileira era beneficiada por rede de recolhimento de dejetos domésticos. Há 14 anos, era de 36,02% o percentual dos brasileiros com acesso a rede de esgoto.
Coordenador da pesquisa, o economista Marcelo Néri estimou que, a se manter o nível de crescimento das redes coletoras em todo o país observado a partir de 1992, somente daqui a, no mínimo, 56 anos, metade da população terá acesso a esgoto encanado. A atual taxa de crescimento da rede de esgoto nacional é de 1,59% por ano.
Mortalidade infantil
Ainda de acordo com a pesquisa, a mortalidade infantil na faixa de um a seis anos de idade é maior nas regiões do país onde não há esgoto coletado. Ao analisar os dados da Pnad, Néri concluiu que a falta de saneamento básico tem responsabilidade direta na mortalidade registrada nessa faixa etária.
A incidência de morte entre um ano e seis anos decorre do contato direto das crianças com as aglomerações de esgoto, afirma o pesquisador. Antes de completar o primeiro ano, o bebê ainda permanece mais tempo sob os cuidados de adultos.
Segundo Marcelo Néri, depois disso, os meninos, mais do que as meninas, passam a ficar mais soltos, pois começam a andar e a brincar fora de casa. Muitas vezes descalços e nus, circulam em meio à imundície acumulada em poças e valões. A maioria deles até bebe a água contaminada por coliformes fecais. Acabam vitimados por diarréias e outras doenças relacionadas à carência de saneamento básico.
Baixo investimento
Conforme divulgou o Instituto Trata Brasil, sete crianças brasileiras morrem por dia em conseqüência da falta de saneamento básico no local onde vivem. O instituto considera que o ideal seria investir em saneamento o equivalente a 0,63% do PIB (Produto Interno Bruto). Hoje, o investimento na área é de 0,22%.
Outras vítimas em potencial da ausência de rede coletora de esgoto são as gestantes, pois a falta de saneamento aumenta as chances de os filhos nascerem mortos. De acordo com a pesquisa, em áreas sem saneamento, aumenta em cerca de 30% a possibilidade de grávidas virem a parir natimortos.
A pesquisa mostra ainda que, apesar da gravidade da situação constatada nos índices oficiais do governo federal, a velocidade da expansão do saneamento básico é inferior à oferta de outros serviços públicos, como rede de distribuição de água, coleta de lixo e eletricidade.
O levantamento da FGV indica também que São Paulo é o Estado brasileiro com maior cobertura em saneamento básico -84,24% da população paulista é atendida por rede de esgoto. O Amapá convive com situação oposta. É o pior Estado brasileiro em termos de recolhimento de esgoto. Só 1,42% dos habitantes têm o benefício.
Lula comemora IDH, diz que país é abençoado por Deus e reclama do FMI
RENATA GIRALDI
da Folha Online, em Brasília
Entusiasmado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou nesta terça-feira o resultado apontado pelo relatório de Desenvolvimento Humano 2007-2008, divulgado hoje pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).
De acordo com o relatório, o Brasil entrou pela primeira vez no grupo de países considerados de alto desenvolvimento humano.
"Todo governo que vier vai se sentir na obrigação de fazer o Brasil crescer um ponto no relatório. Todos [no atual governo] têm o compromisso de que o país vive um momento tão especial que nós poderemos nos dar ao luxo de dizer que 'somos abençoados por Deus'", disse Lula.
27/11/2007 - 10h00
Brasil entra no grupo de países de alto desenvolvimento humano, mas cai no ranking
LORENNA RODRIGUES
da Folha Online, em Brasília
O Brasil entrou pela primeira vez no grupo de países considerados de alto desenvolvimento humano. Entre os dados que contribuíram para o desempenho brasileiro está o aumento na expectativa de vida da população. Em 2004, ela era de 71,5 anos para 71,7 anos em 2005.
Apesar disso, caiu uma posição no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), passando de 69º para 70º no item qualidade de vida.
O Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) divulgou nesta terça-feira relatório que mostra que o IDH brasileiro alcançou 0,800 --em uma escala de 0 a 1--, o que é considerado alto. O índice divulgado hoje leva em consideração dados de 2005. No relatório do ano passado, de 2004, o IDH do Brasil foi de 0,792.
Os responsáveis pela pesquisa, porém, viram com cautela a melhoria no desempenho do país. Eles lembram que países como Argentina, México e Cuba estão à frente do Brasil no ranking há mais de 20 anos.
[...]
Ranking
Em 2005, a Albânia e a Arábia Saudita ultrapassaram o Brasil no ranking do IDH, ocupando agora a 68ª e a 61ª posição respectivamente. O Brasil, em compensação, ficou à frente da Dominica (71ª posição).
Países vizinhos do Brasil, porém, estão em melhor posição, como a Argentina (38ª), Chile (40ª) e Uruguai (46ª). A Islândia ocupa a primeira posição, com IDH de 0,968, seguida por Noruega, Austrália, Canadá e Irlanda. Em último lugar (177ª posição), com IDH de 0,336, está Serra Leoa.
Folha de São Paulo, quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Saneamento para todos só em 2122, diz FGV
Estimativa foi feita com base na taxa de crescimento do nível de coleta de esgoto no país, que atualmente está em 1,59% por ano
Fundação calculou que, em 2006, apenas 46,77% da população brasileira possuía rede de coleta de dejetos domésticos
DA SUCURSAL DO RIO
Com o atual nível de investimento em saneamento básico, só em 2122, daqui a 115 anos, a totalidade da população brasileira terá acesso à rede de coleta de esgoto, revela pesquisa da FGV (Fundação Getúlio Vargas) divulgada ontem. Mais da metade dos brasileiros não tem esgoto recolhido.
[...]
A FGV calculou que, em 2006, somente 46,77% da população brasileira era beneficiada por rede de recolhimento de dejetos domésticos. Há 14 anos, era de 36,02% o percentual dos brasileiros com acesso a rede de esgoto.
Coordenador da pesquisa, o economista Marcelo Néri estimou que, a se manter o nível de crescimento das redes coletoras em todo o país observado a partir de 1992, somente daqui a, no mínimo, 56 anos, metade da população terá acesso a esgoto encanado. A atual taxa de crescimento da rede de esgoto nacional é de 1,59% por ano.
Mortalidade infantil
Ainda de acordo com a pesquisa, a mortalidade infantil na faixa de um a seis anos de idade é maior nas regiões do país onde não há esgoto coletado. Ao analisar os dados da Pnad, Néri concluiu que a falta de saneamento básico tem responsabilidade direta na mortalidade registrada nessa faixa etária.
A incidência de morte entre um ano e seis anos decorre do contato direto das crianças com as aglomerações de esgoto, afirma o pesquisador. Antes de completar o primeiro ano, o bebê ainda permanece mais tempo sob os cuidados de adultos.
Segundo Marcelo Néri, depois disso, os meninos, mais do que as meninas, passam a ficar mais soltos, pois começam a andar e a brincar fora de casa. Muitas vezes descalços e nus, circulam em meio à imundície acumulada em poças e valões. A maioria deles até bebe a água contaminada por coliformes fecais. Acabam vitimados por diarréias e outras doenças relacionadas à carência de saneamento básico.
Baixo investimento
Conforme divulgou o Instituto Trata Brasil, sete crianças brasileiras morrem por dia em conseqüência da falta de saneamento básico no local onde vivem. O instituto considera que o ideal seria investir em saneamento o equivalente a 0,63% do PIB (Produto Interno Bruto). Hoje, o investimento na área é de 0,22%.
Outras vítimas em potencial da ausência de rede coletora de esgoto são as gestantes, pois a falta de saneamento aumenta as chances de os filhos nascerem mortos. De acordo com a pesquisa, em áreas sem saneamento, aumenta em cerca de 30% a possibilidade de grávidas virem a parir natimortos.
A pesquisa mostra ainda que, apesar da gravidade da situação constatada nos índices oficiais do governo federal, a velocidade da expansão do saneamento básico é inferior à oferta de outros serviços públicos, como rede de distribuição de água, coleta de lixo e eletricidade.
O levantamento da FGV indica também que São Paulo é o Estado brasileiro com maior cobertura em saneamento básico -84,24% da população paulista é atendida por rede de esgoto. O Amapá convive com situação oposta. É o pior Estado brasileiro em termos de recolhimento de esgoto. Só 1,42% dos habitantes têm o benefício.
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
O novelo de Antonioni
“O fio perigoso das coisas e outras histórias”, livro de anotações de idéias para possíveis filmes, de Michelangelo Antonioni. São 33 “núcleos narrativos”, como ele chama, transformados em peças literárias, editado na Itália no início dos anos 80 e publicado aqui em 1990, pela editora Nova Fronteira.
Leio e vou destecendo nós, que são os nossos, um homem e uma mulher, desencontros.
“Na planície do Pó os homens amavam as mulheres com ironia”, diz em um desses fragmentos, intitulado “Crônica de um Amor que nunca existiu”. O Pó aí é o nome do rio no Norte da Itália... mas o importante mesmo é saber o que significa “amar uma mulher com ironia”, como tantos personagens masculinos nos filmes do cineasta morto aos 95 neste negro ano de 2007. ― Penso em Marcelo Mastroianni em “A Noite”, um filme com uma manhã e uma noite e essa ironia talvez seja na verdade desespero, carregado de angústia, quando amanhece.
“Com ironia” significa não se entregar totalmente, manter-se numa situação de proximidade distante, irônica, o contrário ou quase da alegria, que é entrega, total e permanente, sem reservas, talvez um estado impossível só alcançado de tempos em tempos e do qual se cai constantemente. A ironia seja por isso talvez uma defesa para tais quedas. Não entregar-se é manter-se ereto, com todas as conotações eróticas da frase.
A maioria dos contos ou pedaços de filmes imaginários ou não, alguns realizados anos depois, é sobre encontros e desencontros (tomando emprestado como foi traduzido no Brasil o título recente de um filme de Sofia Coppola, que bebe nessa fonte). “As geleiras da Antártida caminham três milímetros por ano em nossa direção. Calcular quando chegarão. Prever, num filme, o que acontecerá.” Num fragmento intitulado Antártida, Antonioni espera a geleira, que afinal chegou para ele, essa que pode fazer esperar mas não decepciona nunca.
Em “Este corpo de lama” temos primeiro uma breve exposição, resultado de pesquisa sobre a vida das mulheres num convento de clausura, tema para o qual o cineasta foi levado após a leitura de um episódio narrado por uma monja americana em seu diário e que daria segundo ele um belo início de filme. Em seguida tem-se uma narrativa também curta baseada nesse episódio.
Um homem encontra uma mulher andando sozinha à noite, muito grave, e resolve segui-la e então abordá-la. Após uma breve troca de palavras, ela o leva quase sem querer para uma igreja onde os dois se separam, por vontade dela, evitando-o por meio de um gesto e indo sentar-se à distância, completamente absorta numa espécie de transe místico. Ela lhe parece “um impermeável vazio, o corpo jogado fora. Este corpo de lama, diz Santa Teresa”.
Ao fim da missa, ele a perde de vista, mas resolve procurá-la na rua onde a havia visto sair de uma porta de casa para a noite antes. Encontra-a e no meio de hesitações trava uma batalha impossível de ser ganha que corresponde à luta travada entre uma fogueira teimando em arder e os primeiros flocos de neve: “Tem a impressão de nunca ter experimentado um desejo tão intenso de possuir uma mulher. Mas é um desejo diferente, que tem algo de meigo e respeitoso. É ridículo, pensa. E no entanto hesita na voz e não pode fazer nada contra isso, enquanto diz:
― Posso te ver amanhã?
Ela continua sorrindo nos poucos segundos de silêncio que precedem sua resposta. E sua voz não deixa transparecer nenhuma emoção quando fala.
― Amanhã vou entrar num convento de clausura.”
“Que início fantástico de filme!”, exclama Antonioni. Mas é um filme que para nós, ― plagiando-lhe ―, feliz ou infelizmente, acaba aqui.
Leio e vou destecendo nós, que são os nossos, um homem e uma mulher, desencontros.
“Na planície do Pó os homens amavam as mulheres com ironia”, diz em um desses fragmentos, intitulado “Crônica de um Amor que nunca existiu”. O Pó aí é o nome do rio no Norte da Itália... mas o importante mesmo é saber o que significa “amar uma mulher com ironia”, como tantos personagens masculinos nos filmes do cineasta morto aos 95 neste negro ano de 2007. ― Penso em Marcelo Mastroianni em “A Noite”, um filme com uma manhã e uma noite e essa ironia talvez seja na verdade desespero, carregado de angústia, quando amanhece.
“Com ironia” significa não se entregar totalmente, manter-se numa situação de proximidade distante, irônica, o contrário ou quase da alegria, que é entrega, total e permanente, sem reservas, talvez um estado impossível só alcançado de tempos em tempos e do qual se cai constantemente. A ironia seja por isso talvez uma defesa para tais quedas. Não entregar-se é manter-se ereto, com todas as conotações eróticas da frase.
A maioria dos contos ou pedaços de filmes imaginários ou não, alguns realizados anos depois, é sobre encontros e desencontros (tomando emprestado como foi traduzido no Brasil o título recente de um filme de Sofia Coppola, que bebe nessa fonte). “As geleiras da Antártida caminham três milímetros por ano em nossa direção. Calcular quando chegarão. Prever, num filme, o que acontecerá.” Num fragmento intitulado Antártida, Antonioni espera a geleira, que afinal chegou para ele, essa que pode fazer esperar mas não decepciona nunca.
Em “Este corpo de lama” temos primeiro uma breve exposição, resultado de pesquisa sobre a vida das mulheres num convento de clausura, tema para o qual o cineasta foi levado após a leitura de um episódio narrado por uma monja americana em seu diário e que daria segundo ele um belo início de filme. Em seguida tem-se uma narrativa também curta baseada nesse episódio.
Um homem encontra uma mulher andando sozinha à noite, muito grave, e resolve segui-la e então abordá-la. Após uma breve troca de palavras, ela o leva quase sem querer para uma igreja onde os dois se separam, por vontade dela, evitando-o por meio de um gesto e indo sentar-se à distância, completamente absorta numa espécie de transe místico. Ela lhe parece “um impermeável vazio, o corpo jogado fora. Este corpo de lama, diz Santa Teresa”.
Ao fim da missa, ele a perde de vista, mas resolve procurá-la na rua onde a havia visto sair de uma porta de casa para a noite antes. Encontra-a e no meio de hesitações trava uma batalha impossível de ser ganha que corresponde à luta travada entre uma fogueira teimando em arder e os primeiros flocos de neve: “Tem a impressão de nunca ter experimentado um desejo tão intenso de possuir uma mulher. Mas é um desejo diferente, que tem algo de meigo e respeitoso. É ridículo, pensa. E no entanto hesita na voz e não pode fazer nada contra isso, enquanto diz:
― Posso te ver amanhã?
Ela continua sorrindo nos poucos segundos de silêncio que precedem sua resposta. E sua voz não deixa transparecer nenhuma emoção quando fala.
― Amanhã vou entrar num convento de clausura.”
“Que início fantástico de filme!”, exclama Antonioni. Mas é um filme que para nós, ― plagiando-lhe ―, feliz ou infelizmente, acaba aqui.
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
CABELOS MOLHADOS
Gabriel não estava pensando em nada especial quando olhou para o chão naquela noite em Vasta Colina. Era uma noite agradável de inverno. Ele estava de passagem pela cidade onde ele nascera. Fazia anos e anos que não pisava lá. Agora estava alojado na coxia de um teatro reservado para um congresso de teoria literária. Ele não fazia a mínima idéia de como ele havia ido parar ali, junto com aquela trupe de amigos, todos tão sem grana e sem muita esperança quanto ele.
Fora atraído pela possibilidade de rever a cidade e nada mais. E ela não o decepcionara. Estava linda. A noite abriu uma boca cheia de dentes pronta para engolir tudo em volta. O ar batendo contra o corpo causava uma sensação tépida. Olhou para cima. Cuspiu o cigarro que não fumava por entre os dentes (“o modo infame de beber” e um dos dois únicos pecados mortais existentes, segundo os vaabitas) e pôs-se em movimento.
A cidade o chamava para dentro. Andou a esmo à procura de um bar ou qualquer outro sinal de movimento. Um perfeito estrangeiro, nada o reconhecia. Sentia entretanto uma sensação estranha de pertencimento, que nunca mais pôde sentir novamente em nenhum outro lugar. Para onde ia? Essa é a única forma de liberdade. “Turismo é pecado, caminhar é virtude”, disse Herzog, o “duque”, certa vez. As placas o guiavam para lugar nenhum, pequenos hotéis ainda acesos mais adiante.
| "Fora atraído pela necessidade de rever a cidade e nada mais". |
Não havia outra decisão senão não perdê-la de vista.
Passou a segui-la. Sim, era outra forma de se perder, ainda mais, em Vasta Colina, dessa vez sendo guiado. Era fácil e doloroso por causa da adrenalina. E ele não era de resistir à tentação, pelo contrário. Não havia cera nenhuma em seus ouvidos, de modo que os círculos da noite iam se fechando em volta dele enquanto percorria as ruas, enquanto a garota à sua frente ia fazendo curvas e mais curvas. Finalmente, tomou coragem para aproximar-se o bastante.
- Desculpe, por favor você poderia me informar...
Viu seu rosto. Combinava perfeitamente bem com o resto.
- É que eu sou de fora, estou no congresso...
- Você sabe onde fica...
Olhou para ele, calma e decidida, e respondeu, tranquilamente, como uma legítima vastacolinense, algo que ele não sentiu necessidade nenhuma em anotar. Agora que a havia alcançado, diante dela, em poucos minutos, resolveu que não precisava mais disfarçar.
- Olha, falou ele, para ser sincero, eu não quero nenhuma informação. Eu vi você saindo do hotel e resolvi seguir você - apostou tudo de uma vez no número sete, preto.
- É mesmo? Que bom - disse ela, para a total surpresa dele, que esperava qualquer outra coisa.
Perguntou seu nome e ela respondeu.
- Mas não vou poder falar com você agora, disse.
Pararam em frente ao portão da casa dela.
- É que estou esperando meu namorado.
Nesse exato momento, passou um cara num chevette vermelho e estacionou alguns metros adiante.
- Olha ele aí... Tenho que ir. Passe aqui depois amanhã e a gente conversa, sorriu.
Obedecendo, e meio que maravilhado, disfarçou e apressou o passo. Continuou andando, não sem antes registrar local e número.
Ainda meio sem acreditar e sedento pela caminhada, procurou por um bar. Não muito mais adiante encontrou. Havia poucas cadeiras no balcão e uma única vazia ao lado de um cidadão de meia-idade, careca, gordo e àquela altura completamente bêbado.
Sem muito o que fazer sentou e ordenou ao garçom uma cerveja. Não demorou muito pro sujeitinho ao seu lado abrir o bico e puxar conversa.
- Amigo, adivinha só onde eu estava agora há pouco?
- ...
Não esperou responder:
- Tava num hotel com uma gata. 19 anos, um corpinho de deusa, cabelinho curto... e viciada em maconha. Sou o traficante dela, sabe? Faz qualquer coisa em troca. Fizemos de tudo...
E descreveu com detalhes o “tudo”, que, devo dizer, não era pouco.
- E o o corno do namorado dela não sabe de nada, soltou uma gargalhada, que ecoou de forma sinistra pelo bar.
Não havia dúvida, era a menina com quem ele havia acabado de conversar. Não quis ficar mais tempo ouvindo aquilo, terminou sua cerveja e se despediu da criatura ao seu lado, deixando-o se vangloriar para outro alguém. No dia seguinte, tinha que ir embora. Passou pela manhã no endereço que havia anotado. Ainda cheio de coragem da noite anterior, tocou a campainha. Atendeu a mãe dela que respondeu que ela não estava. Tinha ido estudar.
terça-feira, 25 de setembro de 2007
NOTÍCIAS DO BRASIL REAL
Matéria veiculada na Folha de São Paulo, terça-feira, 25 de setembro de 2007
CLÓVIS ROSSI
As estatísticas e a vida real
SÃO PAULO - Janio de Freitas e Vinicius Torres Freire já haviam alertado sobre o excesso de foguetório em torno da redução da miséria. Excessivo porque o patamar a partir do qual a pessoa deixa de ser "miserável" é baixo demais. Aí, esse excelente repórter que é Sergio Torres foi visitar uma família das que deixaram de ser "miseráveis", pelo menos na estatística.
Eis sua descrição:
"As crianças não têm o que calçar, vestem-se todos os dias com as mesmas roupas, comem carne, quando muito, uma vez por semana, dormem no chão sem piso de um casebre sem banheiro e brincam em um riacho de esgoto. Mesmo assim, não são miseráveis, segundo metodologia da FGV".
É a história da família de Nilcéia de Lurdes da Silva, 35 anos, cinco filhos, um neto, e do companheiro Aílton de Oliveira, 34, que vivem "em barraco pendurado em uma encosta no bairro Quilombo, próximo ao centro de Paracambi, município que, a 75 km do Rio, separa a Baixada Fluminense da região centro-sul do Estado".
Poderia ser a história de milhões de outras Nilcéias e Aíltons que, na estatística, deixaram de ser miseráveis, mas só na estatística.
Na vida real, prossegue Sergio Torres, "continuam na situação miserável que as acompanha desde a nascença. Na última sexta, não comeram nada de manhã. O barraco da família não tem água. A luz é clandestina, puxada do poste da rua. O esgoto, uma vala negra que corre no quintal. As crianças só andam descalças. Pisam nos dejetos sem dar importância. É o chão delas, afinal. Para trabalhar, o casal deixa as crianças aos cuidados da filha de 11 anos".
Nada contra festejar estatísticas agradáveis. Desde que a festa não seja apenas um pretexto para esquecer que, por trás delas, ou apesar delas, o Brasil continua um país primitivo. Obscenamente primitivo.
CLÓVIS ROSSI
As estatísticas e a vida real
SÃO PAULO - Janio de Freitas e Vinicius Torres Freire já haviam alertado sobre o excesso de foguetório em torno da redução da miséria. Excessivo porque o patamar a partir do qual a pessoa deixa de ser "miserável" é baixo demais. Aí, esse excelente repórter que é Sergio Torres foi visitar uma família das que deixaram de ser "miseráveis", pelo menos na estatística.
Eis sua descrição:
"As crianças não têm o que calçar, vestem-se todos os dias com as mesmas roupas, comem carne, quando muito, uma vez por semana, dormem no chão sem piso de um casebre sem banheiro e brincam em um riacho de esgoto. Mesmo assim, não são miseráveis, segundo metodologia da FGV".
É a história da família de Nilcéia de Lurdes da Silva, 35 anos, cinco filhos, um neto, e do companheiro Aílton de Oliveira, 34, que vivem "em barraco pendurado em uma encosta no bairro Quilombo, próximo ao centro de Paracambi, município que, a 75 km do Rio, separa a Baixada Fluminense da região centro-sul do Estado".
Poderia ser a história de milhões de outras Nilcéias e Aíltons que, na estatística, deixaram de ser miseráveis, mas só na estatística.
Na vida real, prossegue Sergio Torres, "continuam na situação miserável que as acompanha desde a nascença. Na última sexta, não comeram nada de manhã. O barraco da família não tem água. A luz é clandestina, puxada do poste da rua. O esgoto, uma vala negra que corre no quintal. As crianças só andam descalças. Pisam nos dejetos sem dar importância. É o chão delas, afinal. Para trabalhar, o casal deixa as crianças aos cuidados da filha de 11 anos".
Nada contra festejar estatísticas agradáveis. Desde que a festa não seja apenas um pretexto para esquecer que, por trás delas, ou apesar delas, o Brasil continua um país primitivo. Obscenamente primitivo.
terça-feira, 21 de agosto de 2007
“Old Boys”, velhos problemas
O argumento defendido por Olavo de Carvalho em um artigo republicado na Revista Bula, sobre o maior massacre já cometido em uma universidade norte-americana, é tão absurdo quanto a tese de “mártir do anticonsumismo” aplicada ao autor do crime e ridicularizada por ele no mesmo texto. Segundo Olavo, o morticínio é resultado de uma lei que proíbe o porte de armas dentro de universidades nos Estados Unidos.
“Se apontasse uma arma para um caixa do WalMart, levaria chumbo de dez fregueses ao mesmo tempo”, defende ele. Esquece, entre várias inconsistências, que antes de tudo a lei vale para todos, inclusive para os alunos esquisitões e não apenas para “professores e funcionários”, os tais “patos sentados” como ele chama no texto. A alternativa seria transformar a sala de aula numa trincheira de guerra com professores treinados pelo FBI e prontos a reagir ao primeiro sinal de “ameaça” à segurança.
Por falar em argumentos absurdos, também estapafúrdias e apressadas foram as comparações suscitadas por um post em um dos blogs do jornal “The New York Times” na Internet, sugerindo semelhanças entre cenas do filme “Old Boy” e as poses do garoto sul-coreano, que matou 32 pessoas da Universidade Técnica de Virgínia. Nas imagens ele aparece segurando faca, martelo e armas de fogo - entre elas uma pistola Glock de 9 mm comprada 36 dias antes numa loja em que o rapaz de 23 anos só precisou mostrar seu green card de imigrante legal, além de passar no “exame” do vendedor. Este relatou: “Ele era um garoto universitário simpático e bem vestido. Não vendemos uma arma se temos qualquer indicação de que a compra é suspeita”. Um pacote com 27 vídeos, além de fotografias e textos escritos, foi enviado pelo estudante no intervalo entre um crime outro à rede de televisão NBC.
Por que não comparar também essas imagens com Jack Nicholson segurando um machado em “O iluminado”? Ou Robert De Niro apontando uma arma para a cabeça em “Taxi Driver”? “Vocês tiveram 100 bilhões de chances de evitar este dia, mas decidiram derramar o meu sangue. Vocês me encurralaram e só me deixaram uma opção. A decisão foi de vocês. Agora vocês têm sangue em suas mãos e nunca vão conseguir limpá-las”, diz o assassino em um dos vídeos enviados, cujo texto poderia ter sido extraído de Stalone Cobra - “Vocês são a doença, eu sou a cura” - ou Dirty Harry - “Make my day”.
Em um outro vídeo, o garoto professa uma confusa versão do cristianismo redentor e se compara a Jesus Cristo: “Vocês vandalizaram meu coração, rasgaram minha alma e queimaram minha consciência. Vocês achavam que era um garoto patético que vocês estavam extinguindo. Graças a vocês, eu morri. Como Jesus Cristo, para inspirar gerações de pessoas fracas e indefesas.” Aqui o discurso poderia ter sido inspirado em um trecho da Bíblia - “Ah! filha de Babilônia, que vais ser assolada; feliz aquele que te retribuir consoante nos fizeste a nós. Feliz aquele que pegar teus pequeninos e esmagá-los contra a pedra” (Salmo 137) e “Suas crianças também deverão ser feitas em pedaços diante de seus olhos; suas casas serão destruídas, e suas esposas violadas” (Isaías 13:16) - ou até mesmo no messianismo água-com-açucar de “Matrix”.
O que dizer então de milhares de outras imagens e mensagens de violência de zilhões de filmes e programas de televisão, sem esquecer, é claro, de livros e HQs e letras de músicas, sem falar nos video-games? “Old Boy”, o filme do diretor sul-coreano Chan-wook Park, é apenas mais uma obra nessa lista. Sem dúvida perturbador e memorável em vários aspectos, o filme vale a pena pelas qualidades cinematográficas e visuais que lhe renderam o Grande Prêmio do Júri de Cannes. Baseado em um mangá japonês, conta a história de um homem que passa 15 anos preso em um quarto sem saber o motivo. Quando o deixam escapar, tem início uma série ultraviolenta de atos contra aqueles identificados como culpados. Alguns críticos, chegaram mesmo a identificar no roteiro uma “crítica aos valores da sociedade oriental”.
O que influenciou realmente a cabeça do garoto dificilmente saberemos. É sabido que recentemente havia mostrado sinais de perturbação, incluindo colocar fogo num quarto do dormitório e de ter sido denunciado à polícia por duas colegas que o acusaram de perseguição. Segundo disseram outros estudantes que o conheceram, ele era ridicularizado durante o ensino médio por causa do excesso de timidez e “jeito esquisito de falar”. O personagem da tragédia absurda que decidiu protagonizar para o mundo ver (vê-lo) foi sem dúvida influenciado pela cultura da violência a que ninguém pode mais fingir que está imune. Mas ninguém faz o que ele fez apenas para aparecer ou por pura vontade de imitar, a não ser que tenha um distúrbio mental muito sério. Junte a isso a facilidade de se obter e usar armas e você terá todos os ingredientes explosivos juntos.
Olavo de Carvalho acha que com professores armados em sala de aula, o problema todo estaria resolvido. No Brasil, da bala perdida e do Estado distante, país líder mundial em jovens entre 15 a 24 anos mortos por arma de fogo, ficaria ainda mais difícil de apontar quem seriam os verdadeiros culpados e onde estaria a solução.
“Se apontasse uma arma para um caixa do WalMart, levaria chumbo de dez fregueses ao mesmo tempo”, defende ele. Esquece, entre várias inconsistências, que antes de tudo a lei vale para todos, inclusive para os alunos esquisitões e não apenas para “professores e funcionários”, os tais “patos sentados” como ele chama no texto. A alternativa seria transformar a sala de aula numa trincheira de guerra com professores treinados pelo FBI e prontos a reagir ao primeiro sinal de “ameaça” à segurança.
Por falar em argumentos absurdos, também estapafúrdias e apressadas foram as comparações suscitadas por um post em um dos blogs do jornal “The New York Times” na Internet, sugerindo semelhanças entre cenas do filme “Old Boy” e as poses do garoto sul-coreano, que matou 32 pessoas da Universidade Técnica de Virgínia. Nas imagens ele aparece segurando faca, martelo e armas de fogo - entre elas uma pistola Glock de 9 mm comprada 36 dias antes numa loja em que o rapaz de 23 anos só precisou mostrar seu green card de imigrante legal, além de passar no “exame” do vendedor. Este relatou: “Ele era um garoto universitário simpático e bem vestido. Não vendemos uma arma se temos qualquer indicação de que a compra é suspeita”. Um pacote com 27 vídeos, além de fotografias e textos escritos, foi enviado pelo estudante no intervalo entre um crime outro à rede de televisão NBC.
Por que não comparar também essas imagens com Jack Nicholson segurando um machado em “O iluminado”? Ou Robert De Niro apontando uma arma para a cabeça em “Taxi Driver”? “Vocês tiveram 100 bilhões de chances de evitar este dia, mas decidiram derramar o meu sangue. Vocês me encurralaram e só me deixaram uma opção. A decisão foi de vocês. Agora vocês têm sangue em suas mãos e nunca vão conseguir limpá-las”, diz o assassino em um dos vídeos enviados, cujo texto poderia ter sido extraído de Stalone Cobra - “Vocês são a doença, eu sou a cura” - ou Dirty Harry - “Make my day”.
Em um outro vídeo, o garoto professa uma confusa versão do cristianismo redentor e se compara a Jesus Cristo: “Vocês vandalizaram meu coração, rasgaram minha alma e queimaram minha consciência. Vocês achavam que era um garoto patético que vocês estavam extinguindo. Graças a vocês, eu morri. Como Jesus Cristo, para inspirar gerações de pessoas fracas e indefesas.” Aqui o discurso poderia ter sido inspirado em um trecho da Bíblia - “Ah! filha de Babilônia, que vais ser assolada; feliz aquele que te retribuir consoante nos fizeste a nós. Feliz aquele que pegar teus pequeninos e esmagá-los contra a pedra” (Salmo 137) e “Suas crianças também deverão ser feitas em pedaços diante de seus olhos; suas casas serão destruídas, e suas esposas violadas” (Isaías 13:16) - ou até mesmo no messianismo água-com-açucar de “Matrix”.
O que dizer então de milhares de outras imagens e mensagens de violência de zilhões de filmes e programas de televisão, sem esquecer, é claro, de livros e HQs e letras de músicas, sem falar nos video-games? “Old Boy”, o filme do diretor sul-coreano Chan-wook Park, é apenas mais uma obra nessa lista. Sem dúvida perturbador e memorável em vários aspectos, o filme vale a pena pelas qualidades cinematográficas e visuais que lhe renderam o Grande Prêmio do Júri de Cannes. Baseado em um mangá japonês, conta a história de um homem que passa 15 anos preso em um quarto sem saber o motivo. Quando o deixam escapar, tem início uma série ultraviolenta de atos contra aqueles identificados como culpados. Alguns críticos, chegaram mesmo a identificar no roteiro uma “crítica aos valores da sociedade oriental”.
O que influenciou realmente a cabeça do garoto dificilmente saberemos. É sabido que recentemente havia mostrado sinais de perturbação, incluindo colocar fogo num quarto do dormitório e de ter sido denunciado à polícia por duas colegas que o acusaram de perseguição. Segundo disseram outros estudantes que o conheceram, ele era ridicularizado durante o ensino médio por causa do excesso de timidez e “jeito esquisito de falar”. O personagem da tragédia absurda que decidiu protagonizar para o mundo ver (vê-lo) foi sem dúvida influenciado pela cultura da violência a que ninguém pode mais fingir que está imune. Mas ninguém faz o que ele fez apenas para aparecer ou por pura vontade de imitar, a não ser que tenha um distúrbio mental muito sério. Junte a isso a facilidade de se obter e usar armas e você terá todos os ingredientes explosivos juntos.
Olavo de Carvalho acha que com professores armados em sala de aula, o problema todo estaria resolvido. No Brasil, da bala perdida e do Estado distante, país líder mundial em jovens entre 15 a 24 anos mortos por arma de fogo, ficaria ainda mais difícil de apontar quem seriam os verdadeiros culpados e onde estaria a solução.
domingo, 12 de agosto de 2007
O ENGANO
É verdade que cultuo a incerteza pelo pouco que vale.
Oh, canções dos sóis distantes!
Hoje, compus uma canção de marinheiro, dessas bem tolas, para serem cantadas por um grupo de amigos, caneca à mão, em alegres rodas:
DESAFIO AO MAR
O mar é um marujo bêbado, este fim de tarde.
E eu não sei se sou um espectador ou sou ele
próprio se arrebentando no casco
de terra sobre o qual estamos,
em nossa embarcação de
pedra, aço e madeira.
(Todos estamos bêbados de cerveja e vinho e bebemos
sentados em nossas cadeiras, dormindo ou apenas admirando).
A verdade é que se passaram assim
mais de seis horas.
Ninguém sai daqui antes do sol
ir-se embora...
Não haverá vencedores nessa peleja...
Hoje, o banco de areia resistiu,
Mas, alto lá,
voltaremos amanhã, mar,
– e veremos!
*
*
*
Todos nós seremos grandes coisas assim que quisermos. Mas, ai de nós, não será ainda hoje.
Grandes corações, homens, artistas, escritores, poetas, atores. Amigos, maridos e esposas. Pais e filhos. Irmãos-na-alma.
Por enquanto, a única certeza acabou de se pôr no horizonte. E como eu estava longe, e chovia, e entre quatro paredes de concreto... Eu não vi nada.
Um dia nos tornaremos aquilo que somos. Mas, ai de nós, não hoje.
Volto o olhar mais uma vez sobre minha pequena criação tola. Que quis eu dizer, realmente, com aquilo?
Qual o desafio?
Os marujos só podem vencer o mar, na sua batalha contra o monte conquistado, arrebentando eles próprios o coração, transbordando de tanto beber nos seus copos de cerveja.
Falsa vitória!
E há pouco, julgava-os audazes e orgulhosos!
“O engano” ou como vi a mim mesmo num reflexo noturno.
Oh, canções dos sóis distantes!
Hoje, compus uma canção de marinheiro, dessas bem tolas, para serem cantadas por um grupo de amigos, caneca à mão, em alegres rodas:
DESAFIO AO MAR
O mar é um marujo bêbado, este fim de tarde.
E eu não sei se sou um espectador ou sou ele
próprio se arrebentando no casco
de terra sobre o qual estamos,
em nossa embarcação de
pedra, aço e madeira.
(Todos estamos bêbados de cerveja e vinho e bebemos
sentados em nossas cadeiras, dormindo ou apenas admirando).
A verdade é que se passaram assim
mais de seis horas.
Ninguém sai daqui antes do sol
ir-se embora...
Não haverá vencedores nessa peleja...
Hoje, o banco de areia resistiu,
Mas, alto lá,
voltaremos amanhã, mar,
– e veremos!
*
*
*
Todos nós seremos grandes coisas assim que quisermos. Mas, ai de nós, não será ainda hoje.
Grandes corações, homens, artistas, escritores, poetas, atores. Amigos, maridos e esposas. Pais e filhos. Irmãos-na-alma.
Por enquanto, a única certeza acabou de se pôr no horizonte. E como eu estava longe, e chovia, e entre quatro paredes de concreto... Eu não vi nada.
Um dia nos tornaremos aquilo que somos. Mas, ai de nós, não hoje.
Volto o olhar mais uma vez sobre minha pequena criação tola. Que quis eu dizer, realmente, com aquilo?
Qual o desafio?
Os marujos só podem vencer o mar, na sua batalha contra o monte conquistado, arrebentando eles próprios o coração, transbordando de tanto beber nos seus copos de cerveja.
Falsa vitória!
E há pouco, julgava-os audazes e orgulhosos!
“O engano” ou como vi a mim mesmo num reflexo noturno.
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
REALIDADE, DIAMANTES E DESERTOS VERMELHOS
O Deserto Vermelho é o nome do filme, de 1964, do diretor italiano Michelangelo Antonioni (1912-2007). É o primeiro longa-metragem em cores de Antonioni - o que terá toda a importância, a partir, desde já, como veremos, do título - e com a fotografia de Carlo Di Palma. Lançado em DVD, em versão restaurada, o filme se passa na poluída Ravenna, cidade italiana, e tem a atriz Monica Vitti no papel principal. No que segue, não tentarei resenhá-lo, mas abordá-lo de alguns pontos de vista que, se não forem os mais relevantes, foram os que me suscitou a obra quando tive a oportunidade de assisti-la recentemente.
Comecemos pelo final, não o do filme, mas dos extras do DVD recheados de comentários irônicos e divertidamente mundanos dos cinejornais da época que faziam a cobertura das entregas de prêmios às celebridades do cinema italiano. Em tais comentários, Antonioni é sempre retratado de forma caricatural como o “intelectual sombrio”. Monica Vitti, por sua vez, que junto com ele formava o par “menos alegre” do cinema, na avaliação do cinejornal, era premiada pelas suas atuações “cada vez mais mudas”. Antonioni, flagrado na pré-estréia de seu outro filme, “Eclipse”, “não se rendia a nenhuma corrente, nem mesmo à elétrica”.
Numa espécie de contraponto “sério” a essas vinhetas cômicas, o próprio Antonioni comparece nos extras, sendo entrevistado por um repórter de um programa francês. Nessa entrevista, aliás, mostra-se muito pouco “ecológico”, para alguém cuja transformação do mundo industrial foi tido como um choque. Ficamos sabendo, pelo próprio diretor, que Deserto Vermelho “originou-se” desse choque, em uma visita do diretor a Ravenna, cidade próxima ao lugar de nascimento de Antonioni, Ferrara.
Somos informados também que durante as filmagens ele mandou pintar casas, árvores e até um bosque inteiro, cujo verde não lhe parecia uma cor “justa” para a impressão que queria causar no espectador. Por isso foi pintado de branco, com ajuda de uma máquina de borrifar tinta, especialmente para cena inicial do filme, uma greve na porta de uma usina. O cenário construído entretanto sequer chegou a ser utilizado. Por razões técnicas, anteriores à era Spielberg, devido ao sol, o bosque parecia preto, quando enquadrado contra a luz.
Se formos analisar melhor o motivo dessas intervenções visuais “corretoras”, percebemos que, no filme de Antonioni, a poluição das indústrias, com suas cores, precisa ser possuidora de uma beleza ao mesmo tempo assustadora e pungente, atrativa e horrenda, que alguns filósofos como Kant e Schiller chamariam de sublime.
É possível encontrar esse tipo de beleza - a câmera nos mostra, e isso é sentido por Giuliana, interpretada por Monica Vitti, a ponto de levá-la ao desespero: nas poças esverdeadas do cais; na lama azul-petróleo do rio estagnado; nas marcas multicoloridas de ferrugem e óleo do casco das embarcações; na neblina artificial de uma nuvem de amônia ou resultante da evaporação da água utilizada na usina e até mesmo na fumaça amarela e venenosa da chaminé.
Esse é um filme em que o ambiente desempenha um papel principal, revela também o diretor italiano na entrevista. Como isso se coadunaria então, com aquele que os críticos dizem ser o grande tema de Antonioni, “a incomunicabilidade e a solidão do homem contemporâneo”?
Apesar de casada com o diretor da usina, Giuliana está terrivelmente só, a realidade a atinge de modo quase insuportável. A única saída para seu tormento seria se ela pudesse também “pacificar a violência” que sente, sublimando-a esteticamente, em suma, tornando-se artista, a exemplo do próprio Antonioni. Mas o que fazer quando não se é dotado de talento até mesmo para essa não-solução provisória, chamada arte?
No final do conto mais famoso de F. Scott Fitszgerald, encontramos a seguinte frase: “No mundo inteiro, há apenas diamantes, diamantes, e talvez a pobre dádiva da desilusão. Bem, eu tenho esta última, e farei o de sempre com ela: nada.”
Os personagens de Antonioni caracterizam-se quase sempre por uma espécie de inação ao final de suas vidas filmadas (final da película). Chega-se a um ponto em que não há mais nada para fazer ou dizer, a não ser aceitar a “pobre dádiva da desilusão”. Seus personagens nunca são triunfantes, mas resignados. Alguns se deixam mesmo abater pela tragédia, como no caso do final de O Grito, ou em Profissão: repórter.
“Não sou filósofo, nem sociólogo”, afirma Antonioni na entrevista. Tudo aquilo que quis dizer, segundo ele, foi dito no próprio processo de fazer o filme. A avaliação sobre o significado viria depois ou talvez não viesse nunca. A inconclusão de suas obras é a própria inconclusão da vida - enquanto houver vida, ela não estará concluída.
Não sabemos o que acontece com Giuliana, o filme não nos mostra, não há uma “resolução definitiva” para o seu drama. Talvez ela permaneça apenas como um símbolo da inadequação, ao mesmo tempo extremamente receptiva, esteticamente, mas cuja resposta, em forma de ação, seja passiva. Testemunha silenciosa da passagem de um mundo naturalmente belo (que seria talvez apenas ideal) para uma realidade terrível, mas ainda assim não totalmente desprovida de encantos, com a qual é preciso de alguma forma conviver.
Comecemos pelo final, não o do filme, mas dos extras do DVD recheados de comentários irônicos e divertidamente mundanos dos cinejornais da época que faziam a cobertura das entregas de prêmios às celebridades do cinema italiano. Em tais comentários, Antonioni é sempre retratado de forma caricatural como o “intelectual sombrio”. Monica Vitti, por sua vez, que junto com ele formava o par “menos alegre” do cinema, na avaliação do cinejornal, era premiada pelas suas atuações “cada vez mais mudas”. Antonioni, flagrado na pré-estréia de seu outro filme, “Eclipse”, “não se rendia a nenhuma corrente, nem mesmo à elétrica”.
Numa espécie de contraponto “sério” a essas vinhetas cômicas, o próprio Antonioni comparece nos extras, sendo entrevistado por um repórter de um programa francês. Nessa entrevista, aliás, mostra-se muito pouco “ecológico”, para alguém cuja transformação do mundo industrial foi tido como um choque. Ficamos sabendo, pelo próprio diretor, que Deserto Vermelho “originou-se” desse choque, em uma visita do diretor a Ravenna, cidade próxima ao lugar de nascimento de Antonioni, Ferrara.
Somos informados também que durante as filmagens ele mandou pintar casas, árvores e até um bosque inteiro, cujo verde não lhe parecia uma cor “justa” para a impressão que queria causar no espectador. Por isso foi pintado de branco, com ajuda de uma máquina de borrifar tinta, especialmente para cena inicial do filme, uma greve na porta de uma usina. O cenário construído entretanto sequer chegou a ser utilizado. Por razões técnicas, anteriores à era Spielberg, devido ao sol, o bosque parecia preto, quando enquadrado contra a luz.
Se formos analisar melhor o motivo dessas intervenções visuais “corretoras”, percebemos que, no filme de Antonioni, a poluição das indústrias, com suas cores, precisa ser possuidora de uma beleza ao mesmo tempo assustadora e pungente, atrativa e horrenda, que alguns filósofos como Kant e Schiller chamariam de sublime.
É possível encontrar esse tipo de beleza - a câmera nos mostra, e isso é sentido por Giuliana, interpretada por Monica Vitti, a ponto de levá-la ao desespero: nas poças esverdeadas do cais; na lama azul-petróleo do rio estagnado; nas marcas multicoloridas de ferrugem e óleo do casco das embarcações; na neblina artificial de uma nuvem de amônia ou resultante da evaporação da água utilizada na usina e até mesmo na fumaça amarela e venenosa da chaminé.
Esse é um filme em que o ambiente desempenha um papel principal, revela também o diretor italiano na entrevista. Como isso se coadunaria então, com aquele que os críticos dizem ser o grande tema de Antonioni, “a incomunicabilidade e a solidão do homem contemporâneo”?
Apesar de casada com o diretor da usina, Giuliana está terrivelmente só, a realidade a atinge de modo quase insuportável. A única saída para seu tormento seria se ela pudesse também “pacificar a violência” que sente, sublimando-a esteticamente, em suma, tornando-se artista, a exemplo do próprio Antonioni. Mas o que fazer quando não se é dotado de talento até mesmo para essa não-solução provisória, chamada arte?
No final do conto mais famoso de F. Scott Fitszgerald, encontramos a seguinte frase: “No mundo inteiro, há apenas diamantes, diamantes, e talvez a pobre dádiva da desilusão. Bem, eu tenho esta última, e farei o de sempre com ela: nada.”
Os personagens de Antonioni caracterizam-se quase sempre por uma espécie de inação ao final de suas vidas filmadas (final da película). Chega-se a um ponto em que não há mais nada para fazer ou dizer, a não ser aceitar a “pobre dádiva da desilusão”. Seus personagens nunca são triunfantes, mas resignados. Alguns se deixam mesmo abater pela tragédia, como no caso do final de O Grito, ou em Profissão: repórter.
“Não sou filósofo, nem sociólogo”, afirma Antonioni na entrevista. Tudo aquilo que quis dizer, segundo ele, foi dito no próprio processo de fazer o filme. A avaliação sobre o significado viria depois ou talvez não viesse nunca. A inconclusão de suas obras é a própria inconclusão da vida - enquanto houver vida, ela não estará concluída.
Não sabemos o que acontece com Giuliana, o filme não nos mostra, não há uma “resolução definitiva” para o seu drama. Talvez ela permaneça apenas como um símbolo da inadequação, ao mesmo tempo extremamente receptiva, esteticamente, mas cuja resposta, em forma de ação, seja passiva. Testemunha silenciosa da passagem de um mundo naturalmente belo (que seria talvez apenas ideal) para uma realidade terrível, mas ainda assim não totalmente desprovida de encantos, com a qual é preciso de alguma forma conviver.
sexta-feira, 20 de julho de 2007
DUAS LIÇÕES DE POESIA: UM FILÓSOFO FRANCÊS E UM POETA RUSSO
“O poema não é nem uma descrição, nem uma expressão. Tampouco é uma pintura comovida da extensão do mundo. O poema é uma operação [...]. A regra é simples: envolver-se com o poema, não para saber do que fala, mas para pensar no que nele acontece. [...] O sentido se adquire com o mover do poema, em sua disposição [...]; o que o produz é uma Idéia.”
Alain Badiou escreve essas palavras, no seu “Pequeno manual de inestética”, a respeito de Mallarmé. Mas se trata também de tentar responder afinal o que seria de fato qualquer poema. (E como se deveria lê-lo). Poderia por exemplo ser aplicado integralmente a Guenádi Aigui, poeta de língua russa, nascido em 1934 numa aldeia Tchuvasse (um povo descendente dos hunos, estabelecido à margem do Rio Volga), e falecido recentemente.
Tenho conhecimento de apenas duas traduções para o português de Aigui. A primeira foi feita por Boris Schnaiderman, em colaboração com Haroldo de Campos, incluída numa antologia chamada Poesia russa moderna, da editora Perspectiva. A segunda saiu na revista eletrônica Confraria do Vento nº 4, em tradução, inédita em livro, de George Yurievitch Ribeiro. É deste a versão a seguir, em três partes, a qual darei uma breve interpretação (o que significa simplesmente experienciar, i.e., “entrar” num poema, ser POR ELE pensado):
Silêncio
1
no invisível crepúsculo
de saudade pulverizada
conheço o inútil como os pobres conhecem a última roupa
e trastes antigos
e sei que essa inutilidade
é justamente a de que o país necessita de mim
segura como um acordo sigiloso:
silêncio como vida
e por toda minha vida
A poesia não é pintura. Seria melhor dizer, não é uma representação exata da realidade, uma vez que o pintor nunca pinta as coisas como ele realmente as vê. O poema principia por evocar o invisível, começa por anunciar o silêncio de que trata, ou antes em que ocorre, e que é também um poema: pintura sem cor ou imagem. Inútil e conhecido, como a última roupa do pobre, a qual este se agarra (e que o protege da nudez absoluta), seguro como um acordo sigiloso (mudo), por toda a vida.
2
No entanto, calar – é tributo, e para si – é silêncio.
No segundo movimento, que não é de todo contrário, apenas mais ambíguo do que o primeiro, o poema se apresenta como riqueza, a qual se concede para si próprio (em contraponto ao que se oferece a um país, na primeira estrofe). Há uma pausa e a própria brevidade reforça o caráter necessário desse silêncio, em que “se faz” (se dá, se autoconcede) o poema.
3
acostumar-se a tal silêncio
que é como coração inaudível em ato
como aquilo que é vida
feito certo espaço dela
e no aquilo eu sou – como Poesia é
e eu sei
que meu trabalho é difícil e é por si só
como no cemitério da cidade
é a insônia do zelador.
Finalmente o poema se aproxima do bater inaudível (a não ser no silêncio) do coração, em funcionamento. Algo vital, que ocupa um pequeno espaço, difícil, para o qual é preciso acostumar-se, que tem uma qualidade própria, e permanece vivo e desperto, mesmo quando todas as outras coisas dormem.
segunda-feira, 2 de julho de 2007
ESTRELA SOLITÁRIA
Filme recente de Wim Wenders, com roteiro e atuação impecável do ótimo Sam Shepard (Paris, Texas), nos leva a uma viagem pela paisagem mítica dos confins do oeste americano, que parou no tempo, como uma fotografia de Walker Evans ou um quadro de Edward Hopper.
Um ator de westerns (gênero, a rigor, há muito extinto em Hollywood), em franca decadência, resolve largar tudo. No meio de uma filmagem, no deserto, ele abandona o set e volta à sua cidade Natal, Elko, no Estado de Nevada.
Encontra abrigo (provisório) em casa da mãe, que não o via havia mais de 30 anos . Vaga pelos bares e cassinos, num cenário de sonho e ilusão, como um personagem sem cara própria. Ninguém o reconhece como um filho da terra, nem mesmo, num primeiro momento, a própria mãe, que acompanhou a vida dele durante anos a fio, por meio de recortes de jornais e revistas sensacionalistas.
Wenders faz, mais uma vez, como é do seu estilo, um road-movie sobre a busca da identidade, numa sociedade em que isso já se tornou quase impossível. A paternidade entra na história como mais um elemento nessa jornada, em que o reconhecimento de si próprio no outro é uma constatação dolorosa e não completamente resolvida.
A certa altura o personagem principal afirma que está “travelling light”, viajando de forma descomprometida, sem carregar muita bagagem. A frase também serve de metáfora para o filme, que consegue ser ao mesmo tempo leve e divertido, sem deixar por isso de oferecer material para a reflexão.
PATERNIDADE
“A paternidade, no sentido de gerar conscientemente”– diz Stephen Dedalus, na cena da biblioteca em Ulisses, de James Joyce,– “é desconhecida do homem”. “A paternidade talvez seja uma ficção legal. Quem é o pai de um filho que um filho qualquer deva amá-lo ou ele a um filho qualquer?” As implicações de tal teoria, segundo Harold Bloom, são que “a Igreja e todo o cristianismo se dissolvem se se acreditar nisso”.
A hipótese “perigosa” de Stephen poderia ser pensada como tendo sua origem naquele tipo de herói moderno, tal qual definiu Baudelaire, já no século XIX, na persona do artista que “nada revela senão ele próprio. Não promete aos séculos vindouros senão suas próprias obras. Só cauciona a si mesmo. Morre sem filhos. Foi seu rei, seu sacerdote, seu Deus”.
O preço pago por isso, sabemos, geralmente é alto; costuma vir na forma da melancolia, da dor, o spleen, que é também uma característica marcante do romance de Joyce –ele mesmo um “pai que foi seu próprio pai”, e como tal, sem precursor ou sucessor, o que, ainda segundo Harold Bloom, “é visivelmente a visão de Joyce de si próprio como autor”.
CAUBÓI
O tema da paternidade entra no enredo do longa-metragem de Wim Wenders, Estrela Solitária, como um complicador a mais na jornada do personagem principal, em busca da identidade perdida.
O título original em inglês, Don’t come knocking, um aviso de “Não me perturbem”, é uma alusão às dificuldades que enfrentará Spence, personagem interpretado por Sam Sheppard, ao voltar para casa, passados 30 anos. Ele descobre que tem um filho, a essa altura já na idade adulta, o qual mora com a mãe (Jessica Lange), na cidadezinha de Butte, Estado de Montana, EUA.
Assim como o artista moderno, descrito por Baudelaire, o caubói americano, visto pela ótica da ficção cinematográfica no gênero “faroeste”, consagrado no século passado, é também o retrato de um ser solitário, que busca se realizar de maneira autônoma, e parte sem deixar herdeiros “conscientes”. (É curioso constatar como esse mito persiste até mesmo na versão ressignificada, homossexual, em Brokeback Mountain.)
Um ator de westerns (gênero, a rigor, há muito extinto em Hollywood), em franca decadência, resolve largar tudo. No meio de uma filmagem, no deserto, ele abandona o set e volta à sua cidade Natal, Elko, no Estado de Nevada.
Encontra abrigo (provisório) em casa da mãe, que não o via havia mais de 30 anos . Vaga pelos bares e cassinos, num cenário de sonho e ilusão, como um personagem sem cara própria. Ninguém o reconhece como um filho da terra, nem mesmo, num primeiro momento, a própria mãe, que acompanhou a vida dele durante anos a fio, por meio de recortes de jornais e revistas sensacionalistas.
Wenders faz, mais uma vez, como é do seu estilo, um road-movie sobre a busca da identidade, numa sociedade em que isso já se tornou quase impossível. A paternidade entra na história como mais um elemento nessa jornada, em que o reconhecimento de si próprio no outro é uma constatação dolorosa e não completamente resolvida.
A certa altura o personagem principal afirma que está “travelling light”, viajando de forma descomprometida, sem carregar muita bagagem. A frase também serve de metáfora para o filme, que consegue ser ao mesmo tempo leve e divertido, sem deixar por isso de oferecer material para a reflexão.
PATERNIDADE
“A paternidade, no sentido de gerar conscientemente”– diz Stephen Dedalus, na cena da biblioteca em Ulisses, de James Joyce,– “é desconhecida do homem”. “A paternidade talvez seja uma ficção legal. Quem é o pai de um filho que um filho qualquer deva amá-lo ou ele a um filho qualquer?” As implicações de tal teoria, segundo Harold Bloom, são que “a Igreja e todo o cristianismo se dissolvem se se acreditar nisso”.
A hipótese “perigosa” de Stephen poderia ser pensada como tendo sua origem naquele tipo de herói moderno, tal qual definiu Baudelaire, já no século XIX, na persona do artista que “nada revela senão ele próprio. Não promete aos séculos vindouros senão suas próprias obras. Só cauciona a si mesmo. Morre sem filhos. Foi seu rei, seu sacerdote, seu Deus”.
O preço pago por isso, sabemos, geralmente é alto; costuma vir na forma da melancolia, da dor, o spleen, que é também uma característica marcante do romance de Joyce –ele mesmo um “pai que foi seu próprio pai”, e como tal, sem precursor ou sucessor, o que, ainda segundo Harold Bloom, “é visivelmente a visão de Joyce de si próprio como autor”.
CAUBÓI
O tema da paternidade entra no enredo do longa-metragem de Wim Wenders, Estrela Solitária, como um complicador a mais na jornada do personagem principal, em busca da identidade perdida.
O título original em inglês, Don’t come knocking, um aviso de “Não me perturbem”, é uma alusão às dificuldades que enfrentará Spence, personagem interpretado por Sam Sheppard, ao voltar para casa, passados 30 anos. Ele descobre que tem um filho, a essa altura já na idade adulta, o qual mora com a mãe (Jessica Lange), na cidadezinha de Butte, Estado de Montana, EUA.
Assim como o artista moderno, descrito por Baudelaire, o caubói americano, visto pela ótica da ficção cinematográfica no gênero “faroeste”, consagrado no século passado, é também o retrato de um ser solitário, que busca se realizar de maneira autônoma, e parte sem deixar herdeiros “conscientes”. (É curioso constatar como esse mito persiste até mesmo na versão ressignificada, homossexual, em Brokeback Mountain.)
terça-feira, 26 de junho de 2007
GIDE
“Nós vivemos para manifestar. As regras da moral e da estética são as mesmas: toda obra que não manifesta é inútil, e por isso mesmo, má. Todo homem que não manifesta é inútil e mau” (André Gide, Tratado do Narciso, Folio, p. 21).
Quando perguntado qual frase resumiria seu livro de estréia, Gide, que teve toda a obra incluída no índex de livros proibidos pela Igreja Católica, em 1952, respondeu:
“Nous devons tous représenter” – “Devemos todos representar ”.
Quando perguntado qual frase resumiria seu livro de estréia, Gide, que teve toda a obra incluída no índex de livros proibidos pela Igreja Católica, em 1952, respondeu:
“Nous devons tous représenter” – “Devemos todos representar ”.
terça-feira, 29 de maio de 2007
Sobre estética e cosméticos: anotações para uma possível crítica do “boudoir”
“Estética e cosméticos são para o boudoir. Busco a verdade. Pura verdade para um homem puro.” James Joyce, em Ulisses.
Um artista em São Paulo joga centenas de pérolas (não valiosas) no Rio Tietê, como forma de protestar contra a poluição do rio. O gesto, que poucas pessoas presenciam, gera uma reportagem nos principais jornais, na qual somos informados que 32 mil litros de esgoto não tratado são lançados por segundo (!) no rio. Não há uma “obra de arte” específica, um objeto, só um gesto, que é uma tentativa de introduzir elementos esteticamente expressivos numa atitude política. (Assim como seria o terrorismo para Habermas).
Ao mesmo tempo é uma forma de capitalizar a atenção para o autor da iniciativa. Quem sabe ele não será chamado pelo Estado no futuro para fazer uma “intervenção” em uma área pública, ou seu nome não seja cogitado para a próxima Bienal que discutirá, pela ducentésima vez, a relação entre a arte e cidade? A “transgressão” está mais do que institucionalizada. Foi preciso primeiramente o consentimento do poder governante para a realização do ato, cujos efeitos na resolução do problema além disso são bastante duvidosos.
Do Romantismo ao Modernismo, afirma Terry Eagleton, em “A Ideologia da Estética”, a arte busca tornar vantajosa para si a autonomia que ganhou com sua condição de mercadoria - livre das funções sociais tradicionais no interior da Igreja, do tribunal ou do Estado, ganhando a liberdade autônoma da mercadoria. Ela passa a existir para qualquer um que a possa apreciar e que tenha dinheiro para comprá-la. Numa tentativa de escapar a essa nova condição, a vanguarda revolucionária proclama que o problema da arte é a própria arte: “Abaixo com as bibliotecas e os museus”; “não há obras de arte, só gestos, happenings, manifestações, provocações”, declara. Comporta-se assim como “crianças rebeldes tentando chocar seus pouco escandalizáveis progenitores”, segundo Eagleton.
No momento atual, apesar de a produção artística representar um papel cada vez menos significativo na ordem social - após esta ter marginalizado o prazer, reificado a razão e esvaziado inteiramente a moral - adverte Eagleton, a estética propõe colocar novamente as três regiões do estético, ético e cognitivo em contato umas com as outras. Ela fará isso articulando os três discursos, engolindo os outros dois. Tudo agora deve se tornar “estético” - que não se confunde mais com o belo, mas que diz respeito a tudo aquilo que apela à intuição, ao sensível, ao corpo. Até o feio, o repugnante, tem sua legião de admiradores, chegando a ponto de existirem espetáculos em que o artista se automutila diante da platéia, ou as pinturas feitas com o próprio sangue (se for HIV+, “melhor” ainda), animais conservados em formol e expostos cortados ao meio ou ainda a exibição de cadáveres em museus.
A estética se assenhoreia de seus territórios vizinhos, modelando-os a partir de si, com muito pouca atenção por sua especificidade discursiva. No seu caráter autotélico, de fim em si mesmo, guarda ainda uma perturbadora afinidade com a idéia do mal. “O mal não é só uma questão de imoralidade, mas um prazer ativo e sádico com a miséria humana e a destruição; e que, aparentemente entrega-se à destrutividade como um fim em si mesmo”, afirma Eagleton.
Não há portanto porque assumirmos como positiva essa predominância da estética sobre os outros discursos. Assim como, por um outro prisma, não deve haver também nenhuma virtude “automática” numa arte que abrace os temas da experiência comum. No capitalismo de consumo, com a cultura totalmente estetizada, é de se perguntar até onde vai a função crítica de manifestações como essa do artista que protestava contra a poluição do Rio Tietê.
Ao mesmo tempo é uma forma de capitalizar a atenção para o autor da iniciativa. Quem sabe ele não será chamado pelo Estado no futuro para fazer uma “intervenção” em uma área pública, ou seu nome não seja cogitado para a próxima Bienal que discutirá, pela ducentésima vez, a relação entre a arte e cidade? A “transgressão” está mais do que institucionalizada. Foi preciso primeiramente o consentimento do poder governante para a realização do ato, cujos efeitos na resolução do problema além disso são bastante duvidosos.
Do Romantismo ao Modernismo, afirma Terry Eagleton, em “A Ideologia da Estética”, a arte busca tornar vantajosa para si a autonomia que ganhou com sua condição de mercadoria - livre das funções sociais tradicionais no interior da Igreja, do tribunal ou do Estado, ganhando a liberdade autônoma da mercadoria. Ela passa a existir para qualquer um que a possa apreciar e que tenha dinheiro para comprá-la. Numa tentativa de escapar a essa nova condição, a vanguarda revolucionária proclama que o problema da arte é a própria arte: “Abaixo com as bibliotecas e os museus”; “não há obras de arte, só gestos, happenings, manifestações, provocações”, declara. Comporta-se assim como “crianças rebeldes tentando chocar seus pouco escandalizáveis progenitores”, segundo Eagleton.
No momento atual, apesar de a produção artística representar um papel cada vez menos significativo na ordem social - após esta ter marginalizado o prazer, reificado a razão e esvaziado inteiramente a moral - adverte Eagleton, a estética propõe colocar novamente as três regiões do estético, ético e cognitivo em contato umas com as outras. Ela fará isso articulando os três discursos, engolindo os outros dois. Tudo agora deve se tornar “estético” - que não se confunde mais com o belo, mas que diz respeito a tudo aquilo que apela à intuição, ao sensível, ao corpo. Até o feio, o repugnante, tem sua legião de admiradores, chegando a ponto de existirem espetáculos em que o artista se automutila diante da platéia, ou as pinturas feitas com o próprio sangue (se for HIV+, “melhor” ainda), animais conservados em formol e expostos cortados ao meio ou ainda a exibição de cadáveres em museus.
A estética se assenhoreia de seus territórios vizinhos, modelando-os a partir de si, com muito pouca atenção por sua especificidade discursiva. No seu caráter autotélico, de fim em si mesmo, guarda ainda uma perturbadora afinidade com a idéia do mal. “O mal não é só uma questão de imoralidade, mas um prazer ativo e sádico com a miséria humana e a destruição; e que, aparentemente entrega-se à destrutividade como um fim em si mesmo”, afirma Eagleton.
Não há portanto porque assumirmos como positiva essa predominância da estética sobre os outros discursos. Assim como, por um outro prisma, não deve haver também nenhuma virtude “automática” numa arte que abrace os temas da experiência comum. No capitalismo de consumo, com a cultura totalmente estetizada, é de se perguntar até onde vai a função crítica de manifestações como essa do artista que protestava contra a poluição do Rio Tietê.
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