quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Blog de Saramago

Eu acho que a essa altura todos já estão calvos de saber, mas Saramago (sim, ele, "nosso" Nobel) estreou um blog O Caderno de Saramago. O mais curioso que achei foi que o tal blog pode ser lido em português ou espanhol a um toque de um clique. Li também um post interessantinho sobre um pedido de desculpas da Igreja Anglicana à Darwin. Eu gostava dos Cadernos de Lanzarote. Foi o que consegui ler dele até hoje.

-------------

Mais de Saramago, à toda no Blog. Em outro post critica Berlusconni, a quem chama textualmente de corrupto e delinquente. Sobra ainda para o "povo italiano": "No caso concreto do povo italiano, que é dele que estamos falando, e não de outro (já chegará sua vez), está demonstrado que a inclinação sentimental que experimenta por Berlusconi, três vezes manifestada, é indiferente a qualquer consideração de ordem moral. Realmente, na terra da mafia e da camorra, que importância poderá ter o facto provado de que o primeiro-ministro seja um delinquente? Numa terra em que a justiça nunca gozou de boa reputação, que mais dá que o primeiro-ministro faça aprovar leis à medida dos seus interesses, protegendo-se contra qualquer tentativa de punição dos seus desmandos e abusos de autoridade?".

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Bolano



Resenha Roberto Bolaño

Resenha do professor de Teoria Literária Francisco Foot Hardman, sobre Roberto Bolano, aponta influência de À Sombra do Vulcão, de Malcom Lowry. Trecho:

"Em Os Detetives.. Essa paisagem, de desolação e anúncio de queda iminente, de estilhaçamento das identidades, tem outro grande inspirador: Malcom Lowry, de À sombra do vulcão (1947), não à-toa inserido como epígrafe do romance. "

O resto está aqui: DETETIVE SELVAGEM

Mapa de literatura

O site literature-map desenha a partir do nome de um escritor X uma nuvem de autores próximos que os leitores desse escritor X também gostariam de ler. Fiz alguns testes, com Guimares Rosa e Cortazar:
Click para ampliar a imagem:


sábado, 13 de setembro de 2008

Lauro Marques_Sto Antonio

Uma imagem, Santo Antonio do Pinhal. Vi e fotografei.

HISTÓRIA DE CRONÓPIO

Certa vez contou que viu arrastar-se
pelas ruas de uma cidade em ruínas à noite
um fugitivo cronópio, muito verde e muito úmido.
(Mentiu que isso aconteceu em Paris).

O infeliz polichinelo mendigava
enquanto chacoalhava seus guizos
contra o chão de paralelepípedos
perseguido apenas pelo ruído
dos gritos das crianças, do canto
dos grilos e do latido dos cães.

sábado, 16 de agosto de 2008

Diferenças entre objetos esteticamente bons

(fragmento de Teoria Estética)

No limite, não há nada que não seja esteticamente bom, já “provaram” os surrealistas e Duchamp. Na medida em que um fenômeno é ―seja um banco de madeira, uma roda de bicicleta, um urinol, ou um acontecimento, o qual poderia ser o “evento surrealista” (Boher 2001: 20)―, como um todo unificado, ele “deve ter alguma qualidade permeando sua totalidade” (Potter 1967: 46). Ele possui, nessa avaliação, “excelência estética”, o que foi chamado de “excelência ontológica” pelos escolásticos (Parker 1998: 50). A qualidade pode ser tal que nos nauseie, assuste, ou de qualquer outra maneira nos perturbe a ponto de nos afastar do humor próprio ao prazer estético, da disposição de simplesmente contemplar a materialização dessa qualidade em um objeto. Tal objeto “permanece igualmente esteticamente bom, embora as pessoas em nossas condições sejam incapazes de uma calma contemplação estética dele” (Peirce 1998: 201). O que significa simplesmente dizer que há uma certa autonomia do objeto, em relação à sua recepção, e que as qualidades que ele apresenta não são em si mesmas nem boas nem ruins. Pois, como frisa Peirce (2003): “toda abominação estética é meramente nossa insensibilidade resultando de obscurecimentos devidos às nossas próprias aberrações morais e intelectuais” Esse caráter livre, autônomo, de um objeto estético, é um aspecto inerente à sua conformação, que faz ele ser como ele é. Schiller definiu beleza como “nada mais do que liberdade no fenômeno” (Schiller 1995: 120).

Entretanto, dizer que todo fenômeno possuindo unidade interna é ontologicamente ou esteticamente bom, não significa dizer que não existam diferenças entre os fenômenos (Parker 1998: 50), o que não deixaria nenhum espaço para crítica. Especialmente, não deixaria espaço para a crítica de arte ― pois não teria muito sentido, ao nosso ver, criticar “os Alpes”, ou qualquer outra forma da natureza, a não ser que adotássemos algum ponto de vista de um esteticismo radical, à maneira de um Oscar Wilde, que via no sol poente, “um Turner muito secundário, um Turner do mau período” (Wilde 1992: 53).

Pelo contrário, cada fenômeno tem sua qualidade sui generis ― ainda que “possivelmente alguns podem ser melhores do que outros” (Peirce 2003: 229). A questão da excelência de algo só pode ser resolvida caso se faça referência a algum propósito que esse algo preencha. Numa obra de arte, seu propósito específico é provocar uma experiência estética. Para apreender a diferença entre fenômenos, no caso de uma obra de arte, de maneira evidente, bastaria comparar quaisquer duas pinturas, como no exemplo que iremos utilizar, Saturno de Goya e o de Rubens.

Saturno é o deus romano identificado a Cronos, um dos Titãs, na mitologia grega. De acordo com uma lenda, Cronos teria sido advertido de que um dos seus filhos o destronaria e passou então a engoli-los por ocasião de seu nascimento (Harvey 1987: 145). Saturno é também a encarnação do Tempo, para os romanos, e o Tempo devora todas as coisas, Tempus edax rerum. Na representação que fez Goya perceba-se como o fundo negro colabora para o sentimento de terror da figura, juntamente com a desproporcionalidade dos corpos representados, e como essa impressão é de certo modo deslocada de seu horror habitual, quando observada em detalhe a cabeça com a boca escancarada do gigante grisalho, o qual possui um certo ar típico, ao mesmo tempo trágico e cômico, das caricaturas ―“penetradas de humanidade” (Baudelaire 1995: 10)― de Goya. Comentando sobre Goya escreve Sylvester que a boca desempenha um papel na sua arte mais proeminente do que em qualquer outro grande artista.

Nesse mesmo quadro perceba-se ainda as diferentes qualidades (que são “idéias gerais”) ao percorrermos o corpo do Titã: a qualidade de repugnância das cicatrizes e manchas; o erotismo velado do corpo despedaçado da(o) filha(o) e da nudez do gigante escondida pela escuridão; a qualidade de rigidez dos músculos e veias intumescidas do braço; a força que ele imprime aos punhos e as contorções do ossos sob a carne nas costas; o vermelho vivo do sangue que dele escorre; a qualidade expressiva da boca (onde concentram-se, junto com a expressão dos olhos, as paixões das quais parece tomado o “monstro”), cuja sombra parece engolir tudo, algo que é reforçado pelo fundo negro da pintura.




Francisco Goya Saturno, 1821-1823 e Peter Paul Rubens Saturno devorando seu filho, 1639



Francisco Goya Saturno (detalhe da boca)

Parece ser assim, mas poderia parecer ser de outro modo? Sim, mas apenas em uma certa medida. Imagine o mesmo quadro com um fundo branco, ou azul, ou vermelho, ou... rosa. Imagine ―ou nem precisa imaginar, observe a versão de Rubens para o mesmo mito: na versão de Rubens (que Goya poderia ter visto em Madrid), “Saturno curva sua cabeça sobre o corpo, afunda seus dentes na carne e suga o sangue que jorra de seu filho que esperneia” (Sylverter s/d). Veja-se que nesse último caso o sangue jorra, e não escorre, Saturno afunda seus dentes e não escancara a boca ―, ainda por cima de velho, da qual mal se vêem os dentes, o lado cômico da figura― parecendo querer nos engolir junto com a pintura. (Outra obra de Goya, de um episódio do romance do século XVII El Lazarillo de Tormes, feita cerca de dez anos antes (1808-1812), é a contraparte cômica desse Saturno. Ela mostra um velho cego forçando o nariz dentro da boca do jovem Lazarillo para “cheirar” se ele tinha comido sua sopa.)

O fato de que parece ser assim é indicativo de que estamos falando do modo como experienciamos qualidades que são possíveis de serem experienciadas desses fenômenos, representados na pintura, cujas qualidades podemos abstrair ―prescindir― da existência material do quadro, que constitui o fenômeno que estamos observando. Não precisamos tocar na pintura, para, por assim dizer, sentirmos sob a pele os ossos. Fazemos isso porque uma qualidade disso ser assim foi corporificada na pintura. Não se pode, portanto, confundir, que estamos dizendo que são qualidades subjetivas, pois todas essas qualidades estão realmente lá como propriedades intrínsecas desses fenômenos, independentemente de alguém experienciá-las ou não. E a capacidade que tem uma obra, concluída em 1823, de continuar despertando em nós sentimentos e cognições, é a prova maior de que se trata de uma “realidade” “viva”, e “não é vestígio mudo, ruína, museu...” (Gadamer 1996: 27). Quando falamos do “ar tragicômico”, ou da expressividade do rosto, etc., estamos supondo que são qualidades que já existem na pintura. Elas existem, como possibilidade positiva definida, até mesmo antes de terem sido corporificadas pela mão do pintor.

BAUDELAIRE, Charles et.al. (1995). Os caprichos de Goya. São Paulo: Imaginário.
BOHER, Karl Heinz (2001). O ético no estético. Ética e estética (org. por ROSENFIELD, D.L). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
GADAMER, Hans-Georg (1996). Estetica y hermenéutica. Madrid: Tecnos.
HARVEY, Paul (1987). Dicionário Oxford de literatura clássica grega e latina. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
PARKER, Kelly (1998). The continuity of Peirce’s thought. Vanderbilt University Press: Nasville.
POTTER, Vincent G. (1967). On norms and ideals. Amherst: The University of Massachusetts Press.
SCHILLER, Friedrich (1994). Sobre a educação estética numa série de cartas e outros textos. Lisboa: Imprensa Nacional -Casa da Moeda.
SCHILLER, Friedrich (1995). A educação estética do homem. São Paulo: Iluminuras.
SYLVESTER, David (s/d). About modern art: http://www.artchive.com./core.html.
WILDE, Oscar (1992). A decadência da mentira e outros ensaios. São Paulo: Imago.
PEIRCE, C. S. (1998). The essential Peirce 2. Nathan Houser et al. (eds.). The Peirce edition project. Bloomington, Indiana: Indiana University Press.
PEIRCE, C. S. (2003). Manuscrito 310.1-14. Conferências sobre o pragmatismo – Conferência V. Tradução, apresentação e notas de Lauro José Maia Marques. Cognitio – Revista de Filosofia, São Paulo, Vol. 4, nº 2, 227-231.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Spleen e Ideal




Porventura posso eu ter roçado de leve a curiosidade do hipotético leitor destas mal-ajambradas linhas, quando evoquei um poema de Baudelaire, ao tratar das garrafas PET que um ser bem intencionado e auspicioso, sob a égide de arte conceitual ou “de protesto”, mandou plantar às margens nada plácidas do rio-esgoto Tietê, que bem podia se chamar Anhanguera ou diabo ou Hades ― ou o principal dos seus rios, na mitologia grega: Stix, “a repugnante”, um dos espíritos fluviais (as filhas de Oceanôs).

Faz pouco tempo, foi ontem, o meu sogro, atualmente com 62 anos, praticava remo no Tietê-Stix, um pouco antes as pessoas nadavam. Houve um tempo, dizem, que se pescava. Esse rio estupendo nasce no interior do Estado de São Paulo, quilômetros antes da Capital, miraculosamente, com águas quase puras.

O poema chama-se Spleen. Recitava para mim em voz baixa, dirigindo devagar. Voltava de uma estada no campo, longe nas serras. Chovia, pouco, uma casca fina e gelatinosa, quase sólida, envolvia as janelas do carro e alguns seres humanos dignos de pena se arrastavam às margens da rodovia. A noite se elevava projetando sombras nos edifícios ao longe e nos casebres dos crentes filhos de Deus empilhados em volta, ameaçadora e cinzenta, escorregadia como um muco, escorrendo à medida que eu adentrava, rumo à luz, a cidade-cemitério, armada de cimento e os seus cheiros, tão adoráveis ao olfato de um cão, intraduzíveis.

Transcrevo, na tradução de Ivo Barroso, que é a que está à mão, o poema de Baudelaire:

Quando o céu plúmbeo e baixo pesa como uma tampa
Sobre o espírito exposto aos tédios e aos açoites,
E, ungindo toda a curva do horizonte, estampa
Um dia mais escuro e triste do que as noites;

Quando a terra se torna em calabouço horrendo,
Onde a Esperança, qual morcego espavorido,
Sua asa tímida nos muros vai batendo
E a cabeça roçando o teto apodrecido;

Quando a chuva, a escorrer as tranças fugidias,
Imita as grades de uma lúgubre cadeia,
E a muda multidão das aranhas sombrias
Estende em nosso cérebro uma espessa teia,

Os sinos dobram, de repente, furibundos
E lançam contra o céu um uivo horripilante,
Como os espíritos sem pátria e vagabundos
Que se põem a gemer com voz recalcitrante.

― Sem música ou tambor, desfila lentamente
Em minha alma uma esguia e fúnebre carreta;
Chora a Esperança, e a Angústia, atroz e prepotente,
Finca em meu crânio penso uma bandeira preta.


* * *

As garrafas PET infláveis, feitas de vinil, serão ao cabo de alguns meses de “exposição”, desmontadas e submetidas a um processo de higienização e em seguida transformadas em duas mil mochilas a serem doadas a estudantes. A higienização é necessária, por causa das bactérias, fungos, vírus e sabe-se mais o quê a que ficarão expostas. Não seria melhor doar de uma vez o material, o qual, devido à ausência de uma coleta seletiva do lixo, de uma forma ou de outra voltará ao rio? Ou tratar os 32 mil litros de esgoto despejados ali por segundo (solução custosa para a qual seriam necessários investimentos muito maiores)?

Não, pois essa não é a lógica do espetáculo. Primeiro é preciso submeter ao fogo, para somente após, vencida essa primeira etapa de existência simbólica, ritual, estender a mão num gesto de generosidade que não passa de uma desculpa esfarrapada para aliviar a consciência da culpa e legitimar a inutilidade, a não ser para o próprio espetáculo, e as “boas intenções” do ato.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Perambulamos pela noite, consumidos pelo fogo

A foto tem inegável "beleza plástica"

“Nenhuma sensatez em cima, nenhuma ordem embaixo”. Assim termina o filme-ensaio-manifesto cujo nome cifrado é um palíndromo latim (pode ser lido da esquerda para direita e vice-e-versa) de Guy Debord. No filme, de 1978, Debord narra: “Nada expressa melhor o atual encurralamento e inquietude que esse velho ditado que por si só diz tudo, montando carta por carta como um labirinto inevitável, unindo perfeitamente a forma e o conteúdo da perdição: In girum imus nocte et consumimur igni. Perambulamos pela noite, consumidos pelo fogo”.

Presente nesse filme, como comenta Luiz Zanin Oricchio, em artigo no jornal O Estado de São Paulo, está a “idéia de espetáculo como a forma moderna da alienação, tendo caráter tautológico por sua própria natureza ('O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo')”. Tanto a frase final, quanto o palíndromo e as idéias de Debord servem para pensar a respeito da sequência de 20 esculturas infláveis no formato de grandes garrafas PET (acesas durante a noite) que o artista Eduardo Srur instalou nas duas bordas do Rio Tietê - o Stix paulistano.

Em 21 de maio de 2007 escrevi em um breve texto intitulado “Sobre Estética e cosméticos - anotações para uma possível crítica do boudouir”:

Um artista em São Paulo joga centenas de pérolas (não valiosas) no Rio Tietê, como forma de protestar contra a poluição do rio. O gesto, que poucas pessoas presenciam, gera uma reportagem nos principais jornais, onde somos informados que 32 mil litros de esgoto não tratado são lançados por segundo (!) no rio. Não há uma “obra de arte” específica, um objeto, só um gesto, que é uma tentativa de introduzir elementos esteticamente expressivos numa atitude política. (Assim como seria o terrorismo para Habermas).

Ao mesmo tempo é uma forma de capitalizar a atenção para o autor da iniciativa. Quem sabe ele não será chamado pelo Estado no futuro para fazer uma “intervenção” em uma área pública, ou seu nome não seja cogitado para a próxima Bienal que discutirá, pela ducentésima vez, a relação entre a arte e cidade? A “transgressão” está mais do que institucionalizada. Foi preciso primeiramente o consentimento do poder governante (e o patrocínio deste) para a realização do ato, cujos efeitos na resolução do problema além disso são bastante duvidosos.


Debord sabe, como Heráclito, citado no filme, que “não se pode entrar no mesmo rio duas vezes, nem duas vezes tocar a mesma substância perecível”. Quase um ano depois, inacreditáveis 32 mil litros de porcaria pura continuam sendo despejados por segundo no rio-lama, ou quem sabe, até esse número aumentou. O ex-rio está mais podre e fétido do que nunca. Mas a instalação, “obras lúdicas e provocativas”, “um empreendimento coletivo” - nas palavras do humilde autor da façanha ao jornal - “exigiu meses de pesquisa técnica e participação de diversos profissionais e órgãos públicos”.

“Não, deixe-nos atravessar o rio e descansar debaixo da sombra dessas árvores” (Debord).

Levando a alienação e o aspecto lúdico ao extremo, a TV Cultura, demonstrando mais uma vez o mau gosto estético da emissora, noticiou o evento (“culturalizou” o evento?) colocando o áudio de Trem das Onze (ou foi Sampa?), música-símbolo da capital paulista, sobre as imagens das PET acesas formando um “contraponto às luzes vermelhas dos carros” (palavras do locutor, extasiado diante de tanta beleza) que passavam, também eles engarrafados. Perdidos num labirinto de espelhos, dando voltas pela noite, e sendo consumidos pelo fogo autodesejante do espetáculo televisivo.

Não precisa nem perguntar a quem interessa o show. Certamente não é ao cidadão paulistano, acostumado com a feiúra da cidade, que pode se contemplar no espelho sem luzes do rio imundo e pensar no fracasso da incivilização que ajudou a fomentar. (Entrar na cidade pela avenida depois de uma temporada longe no campo, tem a dimensão de uma tragédia com todas as cores de um poema de Baudelaire sobre o Spleen, é experimentar o apocalipse acontecendo).

Sairia mais barato se tivesse partido do próprio Estado a idéia brilhante, digna de uma Marta Suplicy nos seus melhores dias de “projeto belezura”, mas com certeza seria criticado. Aí entra o “artista” com o seu discurso qualificante perfeitamente adaptado às exigências dos donos do poder e à estrutura do jogo. Se, em lugar das inocentes e pueris PET, fossem imensas fezes iluminadas, o efeito seria outro, a jogada teria alguma audácia, como quando o publicitário da Benetton instalou, a pedido do mandatário local, um desentupidor gigante em Veneza para “afugentar os turistas” - ainda que continuássemos no reino do cinismo. E não da arte, gostaria de acrescentar, se esse nome não estivesse sido já tão maltratado a ponto de perder de vez, se é que possuiu algum dia, o caráter de revolta.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O TOALETE OU HAMLET


Comecei a comentar o texto de Stanley Fish, traduzido na Revista Bula, “As Humanidades nos salvarão?”, mal tinha terminado de ler. O que segue é um apanhado, com alguns acréscimos, do que comecei a rascunhar na ocasião, na própria seção de comentários da revista.

Concordo que o estudo das Humanidades não salva ninguém. Ponto. Aliás, é muito mais condenar, ao desemprego, por exemplo, do que salvar. No nosso País, então nem se fala. Só que Fish pensa demais como americano, confortavelmente instalado num posto de prestígio de uma universidade de um País tremendamente rico, e não só culturamente. (Ele é professor emérito de Humanidades na Davidson-Kahn Distinguished University e decano do College of Liberal Arts and Sciences da Universidade de Illinois em Chicago.)

Imagine um mundo sem arte. Imagine o Afeganistão dos talibãs ou a América fanática de Bush que nega Darwin (coisa que dificilmente alguém letrado defenderia). Ou o Brasil com seu povo explorado e feliz, se achando um habitante do Paraíso. Eis aí os “efeitos concretos” experienciáveis de um mundo sem acesso às Humanidades.

Nesse texto não acho que ele esteja questionando apenas a utilidade “prática” das interpretações de textos literários, ainda que esse possa ter sido seu alvo inicial, mas coloca em xeque o próprio valor desse estudo. E por extensão das artes. É o velho argumento, com uma roupagem nova, de que é melhor investir na cura de doenças do que em teatro, livros, ou no estudo das artes. (À primeira vista fica difícil de negar que não seja assim). A questão toda gira em torno do financiamento do departamento de Artes e Humanidades. Ao que parece, para Fish, os integrantes desse departamento não têm o direito de reclamar da ausência de financiamento. Afinal não há como justificar tal financiamento, as Humanidades não servem para nada, elas não produzem efeitos “palpáveis”, a não ser proporcionar prazer aos seus apreciadores. Elas não servem a um bem maior, mas são seu próprio bem.

Em um artigo chamado “Verdade e Toaletes: Pragmatismo e as Práticas da Vida”, Fish diz também que “pontos de vista filosóficos são independentes dos pontos de vista de uma pessoa (e logo de suas práticas) em qualquer outro domínio da vida diferente do domínio muito específico e refinado do fazer filosófico”. O mesmo, segundo ele, se dá com o estudo das Artes e Humanidades em geral. Não nos torna mais nobres ou pessoas melhores, mas mais habilitados a responder sobre esses campos específicos, quando solicitados. E Fish ainda afirma, nesse mesmo artigo publicado como uma reflexão sobre a coletânea “O revival do pragmatismo”, de 1999: “A tese de que toaletes são mais essenciais à vida do que a filosofia me parece auto-evidente”. No fundo ele tem razão,o estudo da arte e humanidades não salva a vida de ninguém, mas saneamento básico, e a existência de banheiros, sim.

A minha total discordância é quando ele afirma que as Humanidades, o estudo ou ensino ou a prática disso, “não podem produzir efeitos concretos”, e só podem ter sua existência justificada, “em relação ao prazer que dão àqueles que as apreciam.” Ele está obviamente minimizando o impacto da Cultura na sociedade, e reduzindo tudo a uma questão hedonista. Para ficar num caso bem conhecido, lembremos que Hitler utilizou argumentos estéticos (de raça “pura”) para propor varrer os judeus da Alemanha. Não só para o “bem”, mas para o “mal”, uma esfera influencia a outra. Essa pretensa autonomia dos saberes que ele pretende não existe.

Levada ao extremo a opinião de Fish, nem deveria haver ensino de filosofia ou humanidades em geral em países pobres como o Brasil. Realmente não há como justificar o financiamento dessa área em relação a outras muito mais “rentáveis”. É justamente por propor um distanciamento entre as diferentes áreas do saber, que Fish só consegue justificar a existência da área em que atua recorrendo à noção gasta de prazer.

A milésima interpretação de Hamlet é tão “útil” à sociedade quanto foi a primeira e quanto será a milésima primeira. Não se pode medir a produção acadêmica desse modo. Hamlet continuará sendo lido e estudado enquanto houver pessoas dispostas a lê-lo e ensiná-lo ― e fazem isso porque o julgam merecedor de tal ato, como algo importante em suas vidas.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

PENSOS*


FALA O ATEU

Deus-me-livrei!

VARIAÇÕES SOBRE O DINOSSAURO**
Versão para o público (happy-ending)

Quando acordou, o dinossauro já havia ido embora.


(*)Dic. Houaiss. Rubrica: pesca. Linha que, presa à rede e segura pelo pescador, revela que peixes foram apanhados.
(**) sobre o miniconto "El dinosaurio" de Augusto Monterroso: Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Da criação


Diário de Balada para um Morto
(livro poético)


Com observações pós-finalizado.

Lembrar-se:
1. São as palavras que importam, não a expressão do Eu individual.
2. A pesquisa das palavras é o mais importante.
3. Ler poesia sempre. Principalmente aqueles que faltam ler ou ler mais Eliot, Artaud, etc. (Por que Eliot, Artaud? Ler mais "o que interessa". Guimarães Rosa)
4. Artigos científicos também ajudam. "a raridade dos raios ao pé dos Andes" é uma boa frase. Próximo poema: Relâmpago.

XI-RARO


Pesada a fronte
Como por um raio
Iluminada a noite

...............................RARO.

Ao pé do monte.

5. Por que importa a natureza? Os quatro elementos. Não perder de vista isso.
6.*Manter o Eu sempre em suspenso. Entre aspas. Ou em itálico.
*Este item foi revogado. O eu transborda.
7. **Narrar, abusar da terceira pessoa.
** Tem a ver com o item anterior. Fazia parte do projeto essa idéia de "obliteração" do eu. Nada disso é universal, nem muito rígido. Comecei a elaborar essa lista quando já ia longe no livro. Serviu durante algum tempo para mim. Acho importante ter um norte em que se apoiar quando se escreve algo mais demorado.
8. Quebrar frases. Expulsar o óbvio, o que rima fácil.
9. Não tentar ser lógico.
10. Contar uma história como se não tivesse entendido tudo (Borges).

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Os infinitos de Borges

Releio o volume 1 das Obras Completas de Jorge Luis Borges, publicada pela Editora Globo. Devo dizer que não escolho muito os autores que vou ler. Geralmente, os livros aparecem para mim e graças a Deus (isto é, ao Acaso) tenho tido sorte. Esse livro apareceu durante minha mudança de casa. Tentei resistir à leitura, pois tenho muito déficit a cumprir, mas não foi possível. Sobrevoei os poemas e novamente achei-os desinteressantes, como da primeira vez, esses poemas antigos de Borges, a não ser por terem sido escritos pela mesma mão que escreveu o Aleph ou Ficções. O melhor livro de poesia de Borges para mim ainda é o que ele ditou, já em um estado avançado de cegueira, aos 70 anos: O Elogio da Sombra, de 1969. Minha avaliação, como sempre, é pessoal. Esse livro também veio até mim pela mão de meu pai. Li-o quando já estava morto e li-o, lendo a sua leitura, por meio das marcas que deixou, em grafite, assinalando uma ou outra passagem. Não sei com quem está esse livro, procurei-o agora mesmo e não o encontrei. Em que mãos andará? Aguardo paciente o retorno. Livros são objetos carregados de afetividade. Não tenho muitas fotos em casa, nenhuma do meu pai. Fiquei com esse livro dele e uma edição dos contos de Poe, com a data de 1979, escrita à mão ―quando eu tinha sete anos e lembro que a capa em preto e dourado com um homem trajando um manto cheio de motivos geométricos e arabescos, terminando nuns quadriculados, acompanhado de um gato preto, povoou os meus pesadelos―, além de um ou outro volume de filosofia, que me esforço para me lembrar qual agora (talvez os Pensamentos de Pascal). O resto está espalhado pelo Rio de Janeiro, Alemanha e Natal, onde moram meus quatro irmãos.

Voltemos a Borges e às suas Obras Completas, Volume 1. Após passar a vista nos poemas, fui direto para a leitura que me prendeu ao livro, e que me fez chegar até aqui, a esse ponto do meu relato: o conto que dá nome ao título mais famoso de Borges: O Aleph. Uma vez que caímos na sua armadilha não o esqueceremos jamais. O Aleph é pois um tipo de Zahir borgeano, o objeto que é capaz de nos fazer esquecer todo o universo. No caso, o esquecimento pode ser das outras obras de Borges, assim como A Metamorfose é para alguns, péssimos leitores, o Zahir kafkiano, e não me admiraria se ele tivesse querido em algum momento desfazer-se desse conto. Mas é sem dúvida exagero dizer isso e só o faço por uma questão de estilo. O Zahir é tema de outro conto do livro, uma espécie de conto irmão deste, talvez escrito antes do Aleph, e em ambos o autor assinala, num epílogo de 1949, a influência da estória “The crystal egg” (1899), de Wells. Talvez o Aleph seja afinal um reflexo de uma outra miragem de Borges, de outro livro, anterior, Ficções, e dentro deste o conto: o Jardim de Veredas que se Bifurcam, o labirinto dentro de um livro, com suas dobras temporais: presente em que releio (e portanto situado no passado) e futuro em que será relido (fecha-se o círculo que é eterno). Começa-se a ler Borges e fica-se prisioneiro das referências, dessas palavras e termos, enriquecido pelo conhecimento, dessas metáforas vertiginosas, de sua mise en abîme. Não se esquece, rememora-se, vai-se adiante e retorna-se. Não se deve ler Borges começando pelo Aleph, como fez um conhecido meu. As obras completas têm portanto essa vantagem, de trazer ao leitor recém-iniciado tudo de uma só vez. Ler saltando de uma estória a outra, e no tempo, é outro dos prazeres. Falei em enriquecimento e não há melhor palavra para descrever. Borges é o tipo de escritor que nos torna mais inteligentes, ou em contato com a sua inteligência superior, nos faz sentir mais inteligentes do que realmente somos. Abrem-se mundos, que não existiam antes, deuses que criamos, fala-se com os mortos, alguns até ressuscitam.

sábado, 5 de julho de 2008

CADERNOS DE ESTÉTICA

Pico do cabugi_on the road
Revista Bula, 11 de setembro de 2006
Lauro Marques

RAZÃO-POESIA


–– “O que faz uma obra ser dotada de poesia e outra não? A sensibilidade do receptor?”

Acredito que deva haver uma razão objetiva, isto é, na própria obra. Existem potencialidades latentes que apelam tanto à razão como à emoção, para um receptor suficientemente apto a interpretar-sentir (sentir já é uma forma de interpretar).

Alogicidade, pelo menos de um tipo de lógica, formal, estrito senso, é uma das características da poesia. Mas há um outro tipo de lógica, que apela para, na falta de uma palavra melhor aqui, a “intuição” e funciona por meio, por exemplo, do uso de metáforas.

Lembremo-nos que um poema verbal é constituído de um encadeamento de palavras, uma após a outra. Essas palavras formam conexões “abertas”, e, para mim, quanto mais abertas, ambíguas, mais “poéticas”.

Isso nos “salva do abismo de existir”? Talvez seja um só nó em que nos seguremos, por algum tempo. Não seria o poeta aquele que, ao contrário, mantém-se sempre na superfície? Sempre mirando o abismo e portanto nunca a salvo dele?

Salvos estariam somente os que evitam esse olhar. O homem comum. Mas quem quer estar-se a salvo quer também fugir. Este tem medo... não sente....

Talvez nossa tarefa, e parte de nossa condenação, como poetas, seja “permanecer valentemente na superfície, na dobra, na pele, adorar a aparência, acreditar em formas, em tons, em palavras, em todo o Olimpo da aparência!”. Ser “superficiais – por profundidade...” , como os gregos, como queria Nietzsche.


TRANSPARÊNCIA


Pensar como o poema “revela” algo (de nós, do mundo). Por que temos pudor do poema? Porque ele nos deixa nus, ao mesmo tempo em que esconde. É transparência. Benedito Nunes fala algo a respeito disso no livro “Introdução à filosofia da arte”, da Série Fundamentos, vol. 38. São Paulo: Ática.

O objeto estético, que é ao mesmo tempo sensível e expressivo, é para Nunes (1991: 79) uma “existência ‘aparente’, não como Platão queria, mas como Schiller entendeu: aparência que é translucidez ou transparência, a qual vive de sua própria forma reveladora”. E afirma Suzanne Langer (apud Nunes 1991: 80) que: “uma obra de arte difere de todas as outras coisas belas pelo fato de que é ‘vidro e transparência’ (palavras de Ortega y Gasset)”, sendo, portanto, nessa acepção, “um símbolo”.

“A arte é uma forma de ação, cujos efeitos se produzem de maneira indireta, oblíqua, na proporção da transparência do mundo que exprime. Revelando-nos o humano em sua variedade e profundeza, forçando-nos a interiorizar essa revelação e assimilá-la à experiência, ela age sobre a nossa maneira de sentir e pensar” (Nunes 1991: 88).

_________

Poesia é risco. Ser poeta é arriscar-se. Mas não nos confundamos mais, uma coisa é o poema, outra a poesia (há até quem faça poema sem poesia...).


_________

Há na poesia uma espécie de fusão. Quando eu era menino, por volta dos sete anos, lembro que minhas viagens de carro com meus pais duravam horas. Iam da madrugada até o meio da tarde do dia seguinte. Eram séculos, em que eu podia observar todas as colorações, mudanças de tom, da paisagem e vegetação que iam do preto-azul escuro cinza ao amarelo e azul e verde e depois cinza e azul e depois verde-escuro-azul e amarelo-ouro de novo. Lembro da paisagem lunar do Pico do Cabugi, marciana, quando ficava avermelhado. (Revendo a fotografia, me lembrei de uma Torre do Silêncio Parse). Lembro também da comoção que me causavam algumas pessoas caminhando ao pé da rodovia. Como, diante de uma casa solitária com um homem velho parado à entrada eu podia sentir como se fosse aquele homem, ou essas crianças jogando bola num chão de terra batida, ou agachadas ao lado de um cão, ou aquela mulher com um lenço vermelho estendendo roupa numa cerca de arame na planitude. Podia me ver transportado para dentro daquela pessoa e quase me observar passando diante deles, de seus olhos. Em uma ocasião, disse à minha mãe, como eu me sentia. Cautelosa, ela pediu-me para não fazer mais isso. Eu não deveria fazer mais isso. Era perigoso, ela disse, olhar na alma das pessoas.

domingo, 15 de junho de 2008

O Elogio da Dúvida


O Elogio da Dúvida
Resenha-ensaio de “O Elogio do Amor”, de Jean-Luc Godard
Lauro José Maia Marques


Ficha técnica
Título: O Elogio do Amor.
Diretor: Jean-Luc Godard
Atores: Bruno Putzulu, Cecile Camp, Jean Davy, Françoise Verny.
Duração: 98 minutos.
Ano: 2001.
País: França.




“O elogio do amor”, o elogio “de alguma coisa”. A frase aparece, entrecortada, em letras brancas sobre a tela preta, insistentemente interrompendo a fruição contínua do filme. Desde os primeiros minutos do longa-metragem, de 2001, Jean-Luc Godard joga com a ambiguidade e o descontínuo, palavras-chave do cinema desse autor.
Neste, como em outros filmes do ex-crítico da revista Cahiers du Cinéma, nos anos 50, e um dos diretores mais marcantes do movimento cultural que redefiniu o cinema moderno para a França e para o mundo na década de 60, a Nouvelle Vague, ao lado de personalidades como Truffaut, Chabrol e Rohmer, não se trata de narrar uma estória, de forma clara, com começo, meio e fim, de modo a envolver — entretendo — o espectador, à maneira do cinema clássico hollywoodiano.
Trata-se antes de, partindo de uma idéia, por vezes imprecisa, e utilizando-se de um universo audiovisual heterogêneo, chegar-se a uma obra de ficção, que seja também um comentário crítico da realidade e do papel do cinema em lidar com essa mesma realidade.
O filme se desenrola em duas partes. Na primeira, filmada em preto e branco, um homem, chamado Edgar, tem um projeto vago: fazer um filme (ou um romance, ou uma peça, ou uma ópera, ele não sabe direito), na “tradição do documentário”, sobre os vários “momentos” do amor, atravessando a juventude, passando pela idade madura, até a velhice.
O projeto está desde o início fadado ao fracasso, pois “o que é um adulto?”, pergunta-se à certa altura Edgar. Os jovens e os velhos são evidentes, mas não os adultos, estes são difíceis de definir, podendo mesmo passar despercebidos. O que se dá em seguida é a narração da impossibilidade de se contar essa estória.
Edgar peregrina por Paris, (e nos faz lembrar imediatamente de Acossado (1960), primeiro filme de Godard, em que um não menos angustiado Jean-Paul Belmondo buscava freneticamente o sentido da vida e do amor nas ruas da cidade-fetiche do autor), procurando pessoas para seu projeto, com um livro em branco nas mãos, um livro sem frases, como um sinal dos tempos, da nossa época das imagens. A trama é um pretexto para Godard ir tecendo sua visão de mundo e do cinema, literalmente falando pela boca de suas criações.
“As coisas estão aí, por que inventá-las?”, questiona Edgar-Godard, parafraseando o neo-realista Rossellini, trocando “manipulação” por “invenção”. Na sequência seguinte há um corte para um casal de mendigos, enrolando-se em um cobertor imundo na calçada. É preciso observar a realidade ao invés de tentar extrair ficções dela, concordaria com ele Zavattini (Xavier 1977: 59) ― outro ícone do movimento cinematográfico da Itália do pós-guerra, cuja “fome de realidade” (Xavier 1977: 59), influenciaria o surgimento da Nouvelle Vague francesa. As coisas precisam resistir para que possam existir fora de nós, diferentemente das ilusões que criamos.
Contudo, o real luta contra revelar-se em sua inteireza. “Uma imagem nunca diz nada”, afirma Edgar. Ela sempre remete à outra, anterior. Não podemos pensar senão por meio de associações. Por isso, a opção pelo ensaio, como forma, e a “primazia da ambiguidade”, como “hipótese e método” (Xavier 1977:62). O que Godard é contra é o artificialismo da certeza (ilusória), celebrado por diretores como Steven Spielberg — uma crítica que já podemos encontrar em O Demônio das Onze Horas (1965): o Cinema é o reino da descontinuidade, posta aqui a serviço de um discurso ambíguo e de final em aberto.
A mulher ideal para o par amoroso na idade adulta, no projeto de Edgar, foi encontrada (e perdida para sempre) no passado, em que ocorre a segunda parte do filme, cronologicamente situada dois anos antes da primeira, e ironicamente rodada em imagens digitais em cores hipersaturadas. Imagens que brincam com as novas possibilidades tecnológicas e fazem eco a experiências recentes do diretor, como na série Histoire(s) du Cinéma (1989-98), mas também em La Puissance de la Parole (1988), ambos fundamentais para as relações entre a arte e a comunicação contemporâneas.
A ironia é que inverte o clichê cinematográfico (passado=preto e branco, presente=colorido), utilizando-se de imagens digitais coloridas para mostrar o passado, que é também a memória/ficção do personagem principal do filme. Ao introduzir um defeito na qualidade dessas imagens, rebela-se uma vez mais contra a fotografia limpa, asséptica, sem ruídos, hollywoodiana. Escolha técnica que faz todo sentido: insere um elemento estranho, impedindo a fruição espontânea, forçando o espectador a uma postura crítica sobre o significado do que está sendo mostrado.
O exato oposto do que ocorre em A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, e seu final “real” filmado em cores. Nele vemos bem aonde o uso das convenções, mesmo quando visando uma pretensa objetividade, podem levar: em contraste com seu final, todo o resto do filme, o próprio Holocausto inclusive, corre o risco de ser tomado como uma ficção. A polêmica em torno do filme de Spielberg é o objeto recorrente das investidas de Godard em O Elogio do Amor.
Na segunda metade, principalmente ao final, a montagem adquire um ritmo caótico, com momentos de cinema poético puro e metáforas visuais reveladoras do discurso do autor. Tais como a de uma onda, que fundida à imagem, vai varrendo a tela, como se fosse apagando a memória dos fatos. Talvez querendo com isso dizer que a memória, apoderada por uma narrativa que abdica da ambiguidade, em função do espetáculo, redunda em esquecimento.
Ou quem sabe Godard quisesse nos reportar a Titanic — filme que é alvo de comentários, não muito elogiosos, no contexto da apropriação da memória pelo cinema americano, ao cabo de uma sequência em que um casal de ex-combatentes da resistência vendem sua história para os estúdios de Spielberg.
Há ainda uma terceira onda, menos vaga, a que Godard poderia estar se referindo: a do ressurgimento do fascismo na Europa. “A resistência conheceu a juventude, conheceu a velhice, mas não chegou jamais à idade adulta”, constata, no alto dos seus 71 anos. E o que aconteceu na França, no dia 21 de abril de 2002, quando dois partidos de extrema-direita obtiveram juntos 5,5 milhões de votos, no primeiro turno da eleição presidencial, servem, caso não servirem para mais nada, para confirmá-lo.
REFERÊNCIAS

XAVIER, Ismail (1977). O discurso Cinematográfico. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Último filme de Woody Allen é Hitchcok sem suspense

O último filme de Woody "Sonho de Cassandra" é bom, muito bom, na linha de Match Point, Crimes e Pecados. Referências a Dos. e à tragédia grega, com uma pitada de estilo pop e humor. Tragédia com clima de farsa. Vão dizer que ele se repete, que já cansou, etc, etc, mas não tem problema porque ele já está em outra, filmando em Barcelona, outro filme que irá estrear em Cannes.

Para mim o filme é um Hitchcok sem suspense (SIC). Allen deu um entrevista publicada na Folha de SP, que fez uma coisa meio idiota, no estilo VEJA, na edição impressa, comparando-o à hiena Hardy, porque ele diz -oh céus- que a vida é trágica.

PERGUNTA - Você disse uma vez que a vida é "uma experiência bastante trágica".
ALLEN - Sempre senti que a vida é uma confusão muito grande. Tenho uma visão sombria e pessimista da vida e da fé do homem, da condição humana. Mas acho que há alguns oásis extremamente divertidos no meio dessa miragem. Há momentos de prazer e momentos que são divertidos, mas, basicamente, a vida é trágica.

Leia a entrevista completa na FolhaOnline

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Bárbara e eu









(sinopse para um conto ou relato breve)




Nada demais. Apenas o fel e o mel do cotidiano. Nossos lençóis sendo dobrados pela manhã, marcando a alternância entre dia e noite. Suas saídas para lugar nenhum e as minhas andanças pelo bairro vazio, o relógio que não temos, esquecido. Um pouco lavar as louças (eu), varrer a casa (Bárbara), escutar música e adormecer nos seus braços ou não. Ficar só. Ler um conto de Cortázar ou Sciascia. Lembrar nosso mergulho na Ilha do Breu, nome sintomático, onde sintomaticamente desaparecemos do radar por dois dias seguidos. Bárbara sorri quando não chora. Fosse a vida um barco. Um mar calmo e nós dentro dele. “Pena que não é”, Bárbara sorri, quando não chora. E ali, esquecidos, os dias passam. Ali onde não estamos, Bárbara e eu. Apenas suspeitamos.

A bolsa de Bárbara. Signo da ausência de Bárbara. Seu nome ferino, sua natureza indômita. A história que me contou de como atravessou um túnel, a pé, na Sicília, para cortar caminho, no meio do campo, e seguiu junto à linha do trem, quando, durante a travessia, quase que morreu por alguns segundos. Teve que ficar colada contra a parede do túnel, na ponta dos pés, vendo o trem passar com toda a sua carga, lentamente, à sua frente, vagão por vagão, interminável e quente, e o apito se transformar em anos. “Saí do outro lado envelhecida”. E só por essa história já poderia amá-la.

Mas então novas brigas. Outro mergulho em outro breu, mais denso e viscoso e pútrido como sangue podre. Nossos conflitos infindáveis, o fel de que vos falei. Saio a levar para passear o cão de nossas rusgas, o que eu odeio, que mija e defeca pelas ruas e que de vez em quando me morde, furioso. Levo-o pela coleira apertada no pescoço, a saliva escorrendo pelo canto da boca, uiva. Eis que achei a imagem perfeita para as nossas desavenças, a de um cão sarnento, que levo para passear, e essa imagem me faz bem por alguns instantes. Paro para admirar um abacateiro, uma goiabeira que surge insuspeitada em meio à avenida. Puxo uma folha de amora e sopro entre os dentes, um assobio, e o cão vai embora. Bárbara sorri, quando não chora. E quando chora, o mundo inteiro desaba. E então ela fará tudo de novo outra vez, da mesma forma, e nós dois dando voltas em círculos como um relógio tonto. O gesto infantil do guri que relha e chora, quando lhe roubam a água do pocinho em frente ao oceano. Bárbara felimininamente sorri. O assobio da amora. Amarga. Arrasto o cão da angústia. O fel. E o mel. Morde os lábios. Chora. Bárbara.

Depois meiga, o rabinho balançando, as garras ainda compridas, a cabeça baixa a esconder a mandíbula portentosa, rostos femininos em monstros desde a pré-história, difícil resistir, nua crava a boca em meu peito, as unhas, sangrando, no rosto, seu colado no meu, o suor escorrendo de ambas as testas, rolamos agarrados um ao outro, num amplexo infernal, minha língua em sua língua, em suas costas, de lado, pernas, leoa, cabeleira loura, deitada, rugindo, o vôo dos pássaros, alma, nada, vazio, Deus, nada, abismos.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Diálogos - O encontro inadiável



― Desculpem interromper vossa conversa, senhores, mas tenho, neste exato momento, um encontro inadiável comigo mesmo!

Disse isso, deixando as palavras em suspenso, e partiu.

* * *

― Mas se não é o diabo em pessoa! Disse o amigo, vendo-o entrar pela porta do bar.

― Por favor, evite me chamar pelo meu nome verdadeiro! Sorriu, enquanto puxava uma cadeira e sentava.

― Que maus ventos o trazem de volta ao velho antro? Perguntou o amigo.

― Era exatamente o que eu estava me perguntando agora mesmo, quando saí do trabalho.

O bar chamava-se “El Chasco” e tinha sido freqüentado por ambos na juventude.

― Mas não imaginava encontrar com outra pessoa a não ser comigo mesmo!

― Vamos com calma a essa hora, que ainda estou na primeira tequilita, hombre!

Bueno.

Que dices?

Una tequila!

― E presto! Mas não perguntei, que bebes?

― Duas taças de vinho e uma boa refeição, como faziam os príncipes e não podiam os mendigos.

― Shakespeare?

― Ele também.

― Mas onde se enfiou aquele cagatintas do garçom?

O garçom se aproxima com uma bandeja, contendo dois copos e uma cerveja. Apesar de não ser exatamente um cagatintas, a palavra o impressionara.

― Ser ou não ser?

― Ser! Respondem em uníssono. O garçom enche seus copos com o líquido amarelo borbulhante.

― Não ser! Bebem de um gole.

O bar, um quadrado em forma de caixote, teto baixo, as paredes cobertas de caixas de ovo cinzas exalando a nicotina de vários cigarros antepassados, havia mudado de dono e de nome, para “El Cajón”. Ao centro da parede, pendia um quadro que parecia ter sido cuspido na tela, guache sobre cartolina, pelo autor: um rosto em forma de árvore ou uma árvore em forma de rosto, a psicologia da arte ainda não havia sido conclusória, de aspecto repulsivo e viscoso, lhes encarava.

― Esse cabrón continua aí.

― Sim, o trato foi que nada fosse removido.

― E “el gran cabrón”?

- Muerto, hace años. Um tiro pelas costas. Um fã de Warhol.

- Por supuesto.

Ao fundo, Herbie Hancock caprichava na melodia. Antigamente, eram os discos de rock, Tom Waits.

― Esse ainda toca. O dono gosta.

Pediram uma porção de pimentas, que mordiscaram sem prazer.

― Há coisas que só pioram com o tempo. De outro lado, temos a burrice (Nelson Rodrigues) e a música que são eternas.

― Na minha impressão, tudo melhora. Excetuando-se essas pimentas e a más memórias.

― Como as pimentas, não se pode simplesmente cuspir.

― Neste ponto, entra a tequila.

― Sim. Garçom!

* * *

Passaram-se minutos, talvez horas. O homem se levanta, assim como seu reflexo solitário, acompanhado pelo olhar complacente do garçom pelo espelho do bar, prestes a fechar. Estivera o tempo todo calado e pensativo e solitário olhando para o copo. Todo esse tempo não dissera uma só palavra, além do nome de umas três bebidas.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

"Sereias degoladas"


Li uma poetisa que falava de "sereias degoladas" por "piratas abusivos", surgidos de um "mar ensanguentado". Primeiro, pensei:"Que absurdo!", pois quem degolaria sereias? Para evitar seu canto, depois lembrei: "sereias são monstros".


quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

DE MANHÃ, RESSUSCITAREI

Adoro destruir-me.
Destruir-me-ei mil vezes.
Mas não como Cristo.
Que não ressuscitou.
Jamais!
Ressuscitarei como a manhã
Que levemente beija a folha da maçã.
E cairei
de podre!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Dois instantâneos


Felicidade de Pipa

A febre voltou.

Palavras podem ser deliciosas.

Comê-las.

Com meus olhos

soltos no espaço.

Entre o ziguezaguear feliz de uma pipa e
o trem passeando no
elevado
sobre a rua de carros empilhados.


Baterista cego

Gesto 1:
A vareta abre-se ao comando
do meu braço
Desenrolando-se
em câmera lenta.

Antes retraída
Em duas partes seguras
pela minha mão
(Duas baquetas)
entre minhas pernas
de baterista
cego sentado.

Gesto 2:
Fixo a vareta no chão
meus olhos
(Há muito tempo)
Fechados
Até que paralisem
o trem.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

forrest gander

descoberto na revista Confraria:

Nós sobrevivemos ao Natal, seu rosto prensado contra o peito espremido de sua avó numa casa tão imaculada, a aranha na fresta do teto mantém distância obscenamente.

forrest gander
ligaduras

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007




“ No reencontro. ― A: Eu ainda o compreendo bem? Você está buscando? Onde se acham, no meio do mundo real de agora, seu canto e sua estrela? Onde pode você deitar-se ao sol, de forma que também lhe chegue um excedente de bem-estar e a sua existência se justifique? Que cada um faça isto por si próprio ― você parece me dizer ― e tire da mente as generalidades e as preocupações com os outros e a sociedade! ― B: Eu quero mais, eu não sou um buscador. Quero criar para mim meu próprio sol.”

Que Nietzsche tenha escrito isso por volta de 1882, em a Gaia Ciência, me faz pensar como, de todos os filósofos, ele talvez seja o mais necessário e como é necessária a sua leitura ainda hoje. E como anêmicos, afetados, frívolos e desnecessários ― por mais aberrante que soe a palavra ― me parecem Kant, Schiller, Schelling e outros pensadores alemães, com seus sistemas e metas e ideais e conceitos abstratos, sempre pairando um pouco acima da superfície sem jamais produzir nenhum atrito. Todos muito altos e etéreos ― ... e muito pouco (profundamente) superficiais!


VEGETARIANISMO

Corrijo um erro: não foi em A Gaia Ciência a definição do vegetariano que citei em outra ocasião. Foi em O Caso Wagner, dedicado a “desmascarar” o compositor alemão Richard Wagner. “Definição do vegetariano: um ser que necessita de um fortificante”. Interessante que em Ecce Homo, ao mesmo tempo em que espinafra a cozinha alemã e elogia a italiana do Piemonte, ele se declara “um adversário por excelência do vegetarianismo, exatamente como Richard Wagner, que me converteu”, além de se declarar contra qualquer bebida “espirituosa” (mais menos como Wagner era para ele): “água basta...”! (Ao que retrucaria um não abstêmio irônico como Fernando Pessoa: “Dêem-me de beber que não tenho sede!”).

BARRABÁS

Esse livro, Ecce Homo ― cujo título é extraído da versão vulgata da Bíblia, no evangelho de são João, capítulo 19, onde Pilatos apresenta Cristo aos judeus ― contém a melhor argumentação para aqueles que professam uma aceitável dúvida em Deus (ao contrário daqueles que só acham possível crer em Deus). Deus é uma resposta grosseira.“Sou muito inquiridor, muito duvidoso, muito altivo para me satisfazer com uma resposta grosseira. Deus é uma resposta grosseira, uma indelicadeza para conosco, pensadores ― no fundo, até mesmo uma grosseira proibição para nós: não devem pensar!”.

LIVRE PENSAR

“Eis o homem”, o episódio bíblico da escolha de Barrabás serviu como desculpa para a perseguição e morte de judeus nos séculos seguintes. Dizem que santo de casa não faz milagres, mas fato é que o sectarismo de Jesus não alterou muito o judaísmo até hoje, passados mais de dois mil anos, e a maior parte dos povos do Oriente Médio professa a fé islâmica. Não deixa de ser também uma boutade histórica que os santos floresceram na Itália dos dominadores romanos e de lá saíram também a maior parte dos “representantes” de Cristo na terra.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

"Chique", no segundo.

FSP, 30/11
Brasil tem 2º melhor IDH entre os Brics
DA REDAÇÃO

O termo Bric é usado para o grupo dos quatro gigantes econômicos emergentes -Brasil, Rússia, Índia e China. O Brasil é o segundo melhor entre os Brics em relação ao grau de desenvolvimento humano. No relatório das Nações Unidas, divulgado nesta semana, o país obteve o 70º lugar no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).A Rússia ficou três posições acima, como 67ª colocada. China e Índia ficaram atrás, com o 81º e o 128º lugares, respectivamente.

"Chique", no "úrtimo"

Folha de São Paulo, 30/11
ELIANE CANTANHÊDE

"Chique"
BRASÍLIA - Segundo Lula, o Brasil agora é "chique", porque é do Brics, com Rússia, Índia e China, e além disso integra o grupo dos países de alto desenvolvimento humano. Ele, porém, esqueceu de alguns "detalhes" e manteve aquela postura curiosa: vitórias são sempre dele; derrotas, dos outros.

A curva do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil mostra claramente que os avanços do país são parte de um longo processo: 0,723 em 1990, 0,753 em 1995, 0,789 em 2000 e, enfim, 0,800 em 2005. Ou seja, o menor avanço em 15 anos foi justamente de 2000 para 2005.

É como Lula capitalizar a auto-suficiência do petróleo e a descoberta de um possível megacampo da Petrobras como mágicas dele. Ou, ainda, como Lula comemorar a marca de um milhão de carros da Ford na Bahia. O PT gaúcho expulsou a fábrica, e o PFL baiano pegou. A festa é do PFL (ou DEM) baiano.

E não custa lembrar que o Brasil entrou no grupo de alto desenvolvimento humano como lanterninha, o último entre os 70, o que não tem nada de chique, especialmente quando comparado ao desenvolvimento econômico, também resultado de um longo processo.

No confronto com dados da realidade, a coisa fica ainda pior. Na mesma semana em que Lula estala a língua de alegria com o IDH, o país e o mundo se chocam com a história de L., a menina franzina e violentada pela vida, entregue pelas "autoridades" às feras no Pará.

Essa menina não é um caso isolado. Ao contrário, sua dor chama a atenção para a situação de sabe-se lá quantas mulheres no Pará e sabe-se lá quantas mulheres e homens jogados como bichos em cadeias pelo país afora. Muitos, aliás, inocentes e sem defesa.

Números são números. Siglas são siglas. A realidade, senhor presidente, é que o Brasil vem evoluindo, sim, mas está longe, muito longe de ser "chique". Pergunte a L.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Bolsa Família "diminui desigualdade", mas...

Jornal de Debates
http://www.jornaldedebates.ig.com.br/index.aspx?tma_id=1454

O Brasil merece o posto de elite da qualidade de vida?

A ONU incluiu o Brasil no grupo de elite da qualidade de vida. O país é o último dos 70 mais bem colocados, com IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) superior a 0,800, em uma escala de zero a um. O ingresso aconteceu graças a uma revisão nas estatísicas de expectativa de vida, que elevou a esperança de vida de 70,8 anos para 71,7 no país.

De acordo com o relatório de Desenvolvimento Humano da ONU, "o Bolsa Família é responsável por quase um quarto da recente queda abrupta na desigualdade no Brasil e por 16% de seu declínio na probreza extrema".

O assessor do Pnud (Programa das Nações Unidas de Desenvolvimento Humano), Flávio Comin, aponta cinco áreas em que o Brasil está muito defasado em relação aos outros países de alto desenvolvimento: saneamento básico, pobreza, mortalidade infantil, mortalidade materna e desigualdade.

Na primeira área, um estudo da Fundação Getúlio Vargas demonstra que o país vai demorar para conseguir melhorar. Segundo a estimativa, se se manter o nível de crescimento das redes em 1,59% ao ano, somente em 2122 toda a população brasileira terá acesso à rede de coleta de esgoto. A fundação calculou que apenas 46,77% da população possuía rede de coleta em 2006. O Jornal de Debates pergunta: o Brasil merece o posto de elite da qualidade de vida?

Desenvolvimento econômico à frente do social

O Estado de São Paulo
quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Com atraso, Brasil entra no grupo de alto desenvolvimento humano
País alcançou 0,800 a passos lentos; renda melhorou, mas outros indicadores seguem em situação crítica


Lisandra Paraguassú e Lígia Formenti, BRASÍLIA

Pela primeira vez desde que foi divulgado o primeiro relatório do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), há 30 anos, o Brasil alcançou a pontuação 0,800, o que coloca o País na categoria do alto desenvolvimento humano. O relatório é de 2007, mas com base nos dados de 2005.

A própria Organização das Nações Unidas (ONU), que coleta as informações e faz o cálculo do índice, trata a conquista brasileira de maneira comedida.

Veja a evolução do IDH

"É simbólico. Há muito para se fazer", afirmou Flávio Comin, especialista em Desenvolvimento Humano e assessor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), que prepara o relatório do IDH. Só o Bolsa-Família, com a prática da transferência de renda, é que empurra o País para cima. A precariedade das políticas públicas de saúde, educação e saneamento não melhora significativamente a vida dos brasileiros.

Na comparação de índices sociais, o Brasil continua perdendo de países como Chile, Argentina, Uruguai e México. "Os números mostram que estamos no caminho correto, mas temos uma dívida social muito grande", afirmou Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social.

O Brasil chegou a um IDH 0,800, mas não conseguiu subir na comparação entre países. Era o 69º em 2006 (0,792). É o 70º neste ano, o último da linha de alto desenvolvimento humano. E chegou a esse estágio por conta de revisões na metodologia de cálculo dos dados, descobrindo-se que Albânia e Arábia Saudita têm situações melhores que a brasileira.

O grupo de médio desenvolvimento, onde sempre esteve o Brasil, vai de 0,500 a 0,799, enquanto os países com baixo desenvolvimento - a maioria, do continente africano - têm índices que chegam, no máximo, a 0,499.

EMPURRÃO ECONÔMICO

Um olhar mais atento sobre os números mostra que o Brasil melhora a passos muito lentos e, se avançou na economia, ainda deixa a desejar nos avanços sociais. É na comparação entre Produto Interno Bruto (PIB) per capita e o IDH que a real situação social do Brasil aparece.Nesse índice, números positivos significam que o desenvolvimento social do País é maior do que o desenvolvimento econômico. O número brasileiro é três negativo.

Países que o Brasil ultrapassou no ranking têm resultados melhores. É o caso da Venezuela, que tem uma pontuação 14, do Equador, com 21, e do Paraguai, com 10.

"No Brasil, o desenvolvimento econômico está à frente do desenvolvimento social. É preciso crescer renda, mas é preciso que se cresça numa velocidade maior nessas dimensões sociais", afirma o assessor do Pnud.

Se o País melhorou gradativamente em todos os índices que compõem o IDH (renda, educação e saúde) é o aspecto econômico que tem tido mais peso, especialmente depois da criação de programas de transferência de renda - políticas iniciadas no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (1999-2002), com a criação da chamada Rede de Proteção Social, e que foram consolidadas no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a partir de 2004, com o Bolsa-Família, que unificou e expandiu a rede social.

Neste ano, a renda foi a única que teve crescimento real no Brasil. Saúde e educação tiveram índices melhores por conta de revisões de metodologias feitas pela ONU. O PIB per capita no Brasil passou de US$ 8.195 para US$ 8.402 (o dólar usado é o da Paridade de Poder de Compra, não o câmbio real).

Desse valor, US$ 130 são devidos à revisão dos dados, mas US$ 77 foi de crescimento real.No Índice de Pobreza Humana (IPH) - um cálculo que leva em conta a situação de saúde, renda e educação apenas da parte mais pobre da população -, o Brasil aparece em 23º lugar entre 108 países em desenvolvimento. Mas, quando se tira a renda da conta, o Brasil cai seis posições no ranking. Sobra um país em que ainda há uma enorme faixa da população analfabeta, com problemas de saneamento básico e mortalidades infantil e materna acima do aceitável.

ESPAÇO PARA OTIMISMO

Apesar dos problemas, a ONU aponta motivos para otimismo no Brasil. A previsão é que os relatórios dos próximos anos poderão trazer números melhores, resultado de investimentos atuais. "Uma coisa interessante é que houve redistribuição de renda nos últimos anos sem sacrifício da estabilidade econômica ou do crescimento", elogia Kevin Watkins, coordenador do relatório do IDH.

"Economistas freqüentemente dizem que não é possível distribuir renda com crescimento, mas o Brasil mostrou que isso pode acontecer."Mas Watkins faz cobranças. "Para que esse otimismo se confirme já se sabe que há requisitos relacionados ao crescimento econômico, redistribuição de terra e crédito e um sistema de impostos eficiente e igualitário", diz.

"Abençoados por Deus" - sete crianças brasileiras morrem por dia em conseqüência da falta de saneamento básico

Folha online27/11/2007 - 13h36
Lula comemora IDH, diz que país é abençoado por Deus e reclama do FMI


RENATA GIRALDI
da Folha Online, em Brasília

Entusiasmado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou nesta terça-feira o resultado apontado pelo relatório de Desenvolvimento Humano 2007-2008, divulgado hoje pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

De acordo com o relatório, o Brasil entrou pela primeira vez no grupo de países considerados de alto desenvolvimento humano.

"Todo governo que vier vai se sentir na obrigação de fazer o Brasil crescer um ponto no relatório. Todos [no atual governo] têm o compromisso de que o país vive um momento tão especial que nós poderemos nos dar ao luxo de dizer que 'somos abençoados por Deus'", disse Lula.

27/11/2007 - 10h00
Brasil entra no grupo de países de alto desenvolvimento humano, mas cai no ranking

LORENNA RODRIGUES
da Folha Online, em Brasília

O Brasil entrou pela primeira vez no grupo de países considerados de alto desenvolvimento humano. Entre os dados que contribuíram para o desempenho brasileiro está o aumento na expectativa de vida da população. Em 2004, ela era de 71,5 anos para 71,7 anos em 2005.

Apesar disso, caiu uma posição no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), passando de 69º para 70º no item qualidade de vida.

O Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) divulgou nesta terça-feira relatório que mostra que o IDH brasileiro alcançou 0,800 --em uma escala de 0 a 1--, o que é considerado alto. O índice divulgado hoje leva em consideração dados de 2005. No relatório do ano passado, de 2004, o IDH do Brasil foi de 0,792.

Os responsáveis pela pesquisa, porém, viram com cautela a melhoria no desempenho do país. Eles lembram que países como Argentina, México e Cuba estão à frente do Brasil no ranking há mais de 20 anos.
[...]

Ranking

Em 2005, a Albânia e a Arábia Saudita ultrapassaram o Brasil no ranking do IDH, ocupando agora a 68ª e a 61ª posição respectivamente. O Brasil, em compensação, ficou à frente da Dominica (71ª posição).

Países vizinhos do Brasil, porém, estão em melhor posição, como a Argentina (38ª), Chile (40ª) e Uruguai (46ª). A Islândia ocupa a primeira posição, com IDH de 0,968, seguida por Noruega, Austrália, Canadá e Irlanda. Em último lugar (177ª posição), com IDH de 0,336, está Serra Leoa.


Folha de São Paulo, quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Saneamento para todos só em 2122, diz FGV
Estimativa foi feita com base na taxa de crescimento do nível de coleta de esgoto no país, que atualmente está em 1,59% por ano

Fundação calculou que, em 2006, apenas 46,77% da população brasileira possuía rede de coleta de dejetos domésticos


DA SUCURSAL DO RIO
Com o atual nível de investimento em saneamento básico, só em 2122, daqui a 115 anos, a totalidade da população brasileira terá acesso à rede de coleta de esgoto, revela pesquisa da FGV (Fundação Getúlio Vargas) divulgada ontem. Mais da metade dos brasileiros não tem esgoto recolhido.

[...]

A FGV calculou que, em 2006, somente 46,77% da população brasileira era beneficiada por rede de recolhimento de dejetos domésticos. Há 14 anos, era de 36,02% o percentual dos brasileiros com acesso a rede de esgoto.

Coordenador da pesquisa, o economista Marcelo Néri estimou que, a se manter o nível de crescimento das redes coletoras em todo o país observado a partir de 1992, somente daqui a, no mínimo, 56 anos, metade da população terá acesso a esgoto encanado. A atual taxa de crescimento da rede de esgoto nacional é de 1,59% por ano.

Mortalidade infantil

Ainda de acordo com a pesquisa, a mortalidade infantil na faixa de um a seis anos de idade é maior nas regiões do país onde não há esgoto coletado. Ao analisar os dados da Pnad, Néri concluiu que a falta de saneamento básico tem responsabilidade direta na mortalidade registrada nessa faixa etária.

A incidência de morte entre um ano e seis anos decorre do contato direto das crianças com as aglomerações de esgoto
, afirma o pesquisador. Antes de completar o primeiro ano, o bebê ainda permanece mais tempo sob os cuidados de adultos.

Segundo Marcelo Néri, depois disso, os meninos, mais do que as meninas, passam a ficar mais soltos, pois começam a andar e a brincar fora de casa. Muitas vezes descalços e nus, circulam em meio à imundície acumulada em poças e valões. A maioria deles até bebe a água contaminada por coliformes fecais. Acabam vitimados por diarréias e outras doenças relacionadas à carência de saneamento básico.

Baixo investimento

Conforme divulgou o Instituto Trata Brasil, sete crianças brasileiras morrem por dia em conseqüência da falta de saneamento básico no local onde vivem. O instituto considera que o ideal seria investir em saneamento o equivalente a 0,63% do PIB (Produto Interno Bruto). Hoje, o investimento na área é de 0,22%.

Outras vítimas em potencial da ausência de rede coletora de esgoto são as gestantes, pois a falta de saneamento aumenta as chances de os filhos nascerem mortos. De acordo com a pesquisa, em áreas sem saneamento, aumenta em cerca de 30% a possibilidade de grávidas virem a parir natimortos.

A pesquisa mostra ainda que, apesar da gravidade da situação constatada nos índices oficiais do governo federal, a velocidade da expansão do saneamento básico é inferior à oferta de outros serviços públicos, como rede de distribuição de água, coleta de lixo e eletricidade.

O levantamento da FGV indica também que São Paulo é o Estado brasileiro com maior cobertura em saneamento básico -84,24% da população paulista é atendida por rede de esgoto. O Amapá convive com situação oposta. É o pior Estado brasileiro em termos de recolhimento de esgoto. Só 1,42% dos habitantes têm o benefício.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

O novelo de Antonioni

Monica Vitti_ La Notte

“O fio perigoso das coisas e outras histórias”, livro de anotações de idéias para possíveis filmes, de Michelangelo Antonioni. São 33 “núcleos narrativos”, como ele chama, transformados em peças literárias, editado na Itália no início dos anos 80 e publicado aqui em 1990, pela editora Nova Fronteira.

Leio e vou destecendo nós, que são os nossos, um homem e uma mulher, desencontros.
“Na planície do Pó os homens amavam as mulheres com ironia”, diz em um desses fragmentos, intitulado “Crônica de um Amor que nunca existiu”. O Pó aí é o nome do rio no Norte da Itália... mas o importante mesmo é saber o que significa “amar uma mulher com ironia”, como tantos personagens masculinos nos filmes do cineasta morto aos 95 neste negro ano de 2007. ― Penso em Marcelo Mastroianni em “A Noite”, um filme com uma manhã e uma noite e essa ironia talvez seja na verdade desespero, carregado de angústia, quando amanhece.

“Com ironia” significa não se entregar totalmente, manter-se numa situação de proximidade distante, irônica, o contrário ou quase da alegria, que é entrega, total e permanente, sem reservas, talvez um estado impossível só alcançado de tempos em tempos e do qual se cai constantemente. A ironia seja por isso talvez uma defesa para tais quedas. Não entregar-se é manter-se ereto, com todas as conotações eróticas da frase.

A maioria dos contos ou pedaços de filmes imaginários ou não, alguns realizados anos depois, é sobre encontros e desencontros (tomando emprestado como foi traduzido no Brasil o título recente de um filme de Sofia Coppola, que bebe nessa fonte). “As geleiras da Antártida caminham três milímetros por ano em nossa direção. Calcular quando chegarão. Prever, num filme, o que acontecerá.” Num fragmento intitulado Antártida, Antonioni espera a geleira, que afinal chegou para ele, essa que pode fazer esperar mas não decepciona nunca.

Em “Este corpo de lama” temos primeiro uma breve exposição, resultado de pesquisa sobre a vida das mulheres num convento de clausura, tema para o qual o cineasta foi levado após a leitura de um episódio narrado por uma monja americana em seu diário e que daria segundo ele um belo início de filme. Em seguida tem-se uma narrativa também curta baseada nesse episódio.

Um homem encontra uma mulher andando sozinha à noite, muito grave, e resolve segui-la e então abordá-la. Após uma breve troca de palavras, ela o leva quase sem querer para uma igreja onde os dois se separam, por vontade dela, evitando-o por meio de um gesto e indo sentar-se à distância, completamente absorta numa espécie de transe místico. Ela lhe parece “um impermeável vazio, o corpo jogado fora. Este corpo de lama, diz Santa Teresa”.

Ao fim da missa, ele a perde de vista, mas resolve procurá-la na rua onde a havia visto sair de uma porta de casa para a noite antes. Encontra-a e no meio de hesitações trava uma batalha impossível de ser ganha que corresponde à luta travada entre uma fogueira teimando em arder e os primeiros flocos de neve: “Tem a impressão de nunca ter experimentado um desejo tão intenso de possuir uma mulher. Mas é um desejo diferente, que tem algo de meigo e respeitoso. É ridículo, pensa. E no entanto hesita na voz e não pode fazer nada contra isso, enquanto diz:
― Posso te ver amanhã?

Ela continua sorrindo nos poucos segundos de silêncio que precedem sua resposta. E sua voz não deixa transparecer nenhuma emoção quando fala.

― Amanhã vou entrar num convento de clausura.”

“Que início fantástico de filme!”, exclama Antonioni. Mas é um filme que para nós, ― plagiando-lhe ―, feliz ou infelizmente, acaba aqui.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

CABELOS MOLHADOS


Gabriel não estava pensando em nada especial quando olhou para o chão naquela noite em Vasta Colina. Era uma noite agradável de inverno. Ele estava de passagem pela cidade onde ele nascera. Fazia anos e anos que não pisava lá. Agora estava alojado na coxia de um teatro reservado para um congresso de teoria literária. Ele não fazia a mínima idéia de como ele havia ido parar ali, junto com aquela trupe de amigos, todos tão sem grana e sem muita esperança quanto ele.

Fora atraído pela possibilidade de rever a cidade e nada mais. E ela não o decepcionara. Estava linda. A noite abriu uma boca cheia de dentes pronta para engolir tudo em volta. O ar batendo contra o corpo causava uma sensação tépida. Olhou para cima. Cuspiu o cigarro que não fumava por entre os dentes (“o modo infame de beber” e um dos dois únicos pecados mortais existentes, segundo os vaabitas) e pôs-se em movimento.

A cidade o chamava para dentro. Andou a esmo à procura de um bar ou qualquer outro sinal de movimento. Um perfeito estrangeiro, nada o reconhecia. Sentia entretanto uma sensação estranha de pertencimento, que nunca mais pôde sentir novamente em nenhum outro lugar. Para onde ia? Essa é a única forma de liberdade. “Turismo é pecado, caminhar é virtude”, disse Herzog, o “duque”, certa vez. As placas o guiavam para lugar nenhum, pequenos hotéis ainda acesos mais adiante.

"Fora atraído pela necessidade de rever a cidade e nada mais".
Foi quando a viu sair pela porta de vidro de um desses hotéis. Em menos de um segundo, os olhos de Gabriel piscaram como quando ele via alguma coisa realmente interessante. Em menos de um segundo, distinguiu. O tornozelo primeiro. A saia curta e preta em cima de um salto alto. Passos cadenciados, vinte anos no máximo, segurando uns livros contra o peito, e os cabelos curtos molhados.

Não havia outra decisão senão não perdê-la de vista.

Passou a segui-la. Sim, era outra forma de se perder, ainda mais, em Vasta Colina, dessa vez sendo guiado. Era fácil e doloroso por causa da adrenalina. E ele não era de resistir à tentação, pelo contrário. Não havia cera nenhuma em seus ouvidos, de modo que os círculos da noite iam se fechando em volta dele enquanto percorria as ruas, enquanto a garota à sua frente ia fazendo curvas e mais curvas. Finalmente, tomou coragem para aproximar-se o bastante.

- Desculpe, por favor você poderia me informar...

Viu seu rosto. Combinava perfeitamente bem com o resto.

- É que eu sou de fora, estou no congresso...

- Você sabe onde fica...

Olhou para ele, calma e decidida, e respondeu, tranquilamente,  como uma legítima vastacolinense, algo que ele não sentiu necessidade nenhuma em anotar. Agora que a havia alcançado, diante dela, em poucos minutos, resolveu que não precisava mais disfarçar.

- Olha, falou ele, para ser sincero, eu não quero nenhuma informação. Eu vi você saindo do hotel e resolvi seguir você - apostou tudo de uma vez no número sete, preto.

- É mesmo? Que bom - disse ela, para a total surpresa dele, que esperava qualquer outra coisa.


"Não havia outra decisão senão não perdê-la de vista".

Perguntou seu nome e ela respondeu.

- Mas não vou poder falar com você agora, disse.

Pararam em frente ao portão da casa dela.

- É que estou esperando meu namorado.

Nesse exato momento, passou um cara num chevette vermelho e estacionou alguns metros adiante.

- Olha ele aí... Tenho que ir. Passe aqui depois amanhã e a gente conversa, sorriu.

Obedecendo, e meio que maravilhado, disfarçou e apressou o passo. Continuou andando, não sem antes registrar local e número.

Ainda meio sem acreditar e sedento pela caminhada, procurou por um bar. Não muito mais adiante encontrou. Havia poucas cadeiras no balcão e uma única vazia ao lado de um cidadão de meia-idade, careca, gordo e àquela altura completamente bêbado.

Sem muito o que fazer sentou e ordenou ao garçom uma cerveja. Não demorou muito pro sujeitinho ao seu lado abrir o bico e puxar conversa.

- Amigo, adivinha só onde eu estava agora há pouco?

- ...

Não esperou responder:

- Tava num hotel com uma gata. 19 anos, um corpinho de deusa, cabelinho curto... e viciada em maconha. Sou o traficante dela, sabe? Faz qualquer coisa em troca. Fizemos de tudo...

E descreveu com detalhes o “tudo”, que, devo dizer, não era pouco.

- E o  o corno do namorado dela não sabe de nada, soltou uma gargalhada, que ecoou de forma sinistra pelo bar.

Não havia dúvida, era a menina com quem ele havia acabado de conversar. Não quis ficar mais tempo ouvindo aquilo, terminou sua cerveja e se despediu da criatura ao seu lado, deixando-o se vangloriar para outro alguém. No dia seguinte, tinha que ir embora. Passou pela manhã no endereço que havia anotado. Ainda cheio de coragem da noite anterior, tocou a campainha. Atendeu a mãe dela que respondeu que ela não estava. Tinha ido estudar.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

NOTÍCIAS DO BRASIL REAL

Matéria veiculada na Folha de São Paulo, terça-feira, 25 de setembro de 2007

CLÓVIS ROSSI
As estatísticas e a vida real

SÃO PAULO - Janio de Freitas e Vinicius Torres Freire já haviam alertado sobre o excesso de foguetório em torno da redução da miséria. Excessivo porque o patamar a partir do qual a pessoa deixa de ser "miserável" é baixo demais. Aí, esse excelente repórter que é Sergio Torres foi visitar uma família das que deixaram de ser "miseráveis", pelo menos na estatística.

Eis sua descrição:

"As crianças não têm o que calçar, vestem-se todos os dias com as mesmas roupas, comem carne, quando muito, uma vez por semana, dormem no chão sem piso de um casebre sem banheiro e brincam em um riacho de esgoto. Mesmo assim, não são miseráveis, segundo metodologia da FGV".

É a história da família de Nilcéia de Lurdes da Silva, 35 anos, cinco filhos, um neto, e do companheiro Aílton de Oliveira, 34, que vivem "em barraco pendurado em uma encosta no bairro Quilombo, próximo ao centro de Paracambi, município que, a 75 km do Rio, separa a Baixada Fluminense da região centro-sul do Estado".

Poderia ser a história de milhões de outras Nilcéias e Aíltons que, na estatística, deixaram de ser miseráveis, mas só na estatística.

Na vida real, prossegue Sergio Torres, "continuam na situação miserável que as acompanha desde a nascença. Na última sexta, não comeram nada de manhã. O barraco da família não tem água. A luz é clandestina, puxada do poste da rua. O esgoto, uma vala negra que corre no quintal. As crianças só andam descalças. Pisam nos dejetos sem dar importância. É o chão delas, afinal. Para trabalhar, o casal deixa as crianças aos cuidados da filha de 11 anos".

Nada contra festejar estatísticas agradáveis. Desde que a festa não seja apenas um pretexto para esquecer que, por trás delas, ou apesar delas, o Brasil continua um país primitivo. Obscenamente primitivo.