terça-feira, 23 de março de 2010

O Kyklos Tou Nerou/O Ciclo da Água

Musica de Mikis Theodorakis sobre poema de Dimitra Manda
por Angelique Ionatos - Album "Mia Thalassa" (Um Mar)



Mikis Theodorakis- Dimitra Manda- Angelique Ionatos

    O Kyklos Tou Nerou/O Ciclo da Água

Κάθε βροχή και μία μουσική
έτσι όπως κλείνει ο Κύκλος του Νερού
κι η μοναξιά μου μέσα του ανθίζει

Toda chuva traz uma música
encerrando o ciclo da água
que aflora minha solitude

       
     Mia Thalassa/Um Mar

Τέτοια στιγμή να ρθεις
που η μέρα σβήνει
στην αγκαλιά μιάς θάλασσας
γεμάτης μουσική


Chega a hora em que o dia termina
nos braços de um mar
cheio de música

Lançamento de livro

sábado, 13 de março de 2010

Ainda intradoxos- o Mar

Assim como Pound, o livro de Márcio-André lê-se melhor pelas beiradas. No fragmento. No meio da miríade de sinais, que não deve fazer sentido nem para o poeta, fulguram jóias. O mar sempre presente (o Rio). Seleciono estes:

"[falar do mar é uma imposição do mar]"
...

"preferia ser herói do mar e é preciso pedir ao céu"
...

"o mar do sem música"
...

"Os ghindastes [dorsos de cavalos] bebendo do mar

e a chuva

este alaúde com cordas [também] de vidro
teia-cloro

À deriva"
...

E este que não tem a ver (ou terá?) com mar, que de tão "paulistano" deveria ser gravado nos trens que por aqui transitam, ao lado dos velhíssimos Camões:

"A incerteza dos esgotos
[urbe-uretra]


os sonhos subterrâneos do metrô
onde até os poetas têm cartão de ponto
"

quarta-feira, 10 de março de 2010

Intradoxos-O mar

"Nada existe
excepto o
mar" [Tudo caminha para o mar]


Fragmento de Intradoxos, um livro assombroso, de Márcio-André, um Ezra Pound carioca, da Confraria do Vento.

Como isso é verdadeiro! Como estão aguados de mar os poemas!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Elegia Pão e Vinho -Hölderlin

Elegia Pao e Vinho- Holderlin

Tradução do alemão por Fernanda Ros/Casa das Musas

Fim de Sumário de Incertezas

Ponto final no livro de poemas Sumário de Incertezas. Terminei de preparar um coletânea com os melhores poemas de Sumário e Balada para um Morto, a sair em breve, por uma editora. Parece que finalmente vou estrear em livro. Brrr.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Carnaval 2x4

Passo o carnaval escutando tango e tomando vinho tempranillo. (Dezenas de discos em mp3. De Gardel a Dolores Solá, imperdíveis o CD e o show dela, "Salto Mortal", que vi em BsAs e me emocionou). Que maneira mais maravilhosa de trair a pátria! (rs)

Neste blog argentino pode-se baixar tudo: Taringa

Paludes

29.1.05 ÍNDICE DAS FRASES MAIS NOTÁVEIS DE PALUDES, DE ANDRÉ GIDE

Pág. 11 ― Disse: Ah! você está trabalhando?

Pág. 107 ― Precisamos carregar até o fim todas as idéias que suscitamos.

Pág. 28 ― Bom para Paludes.

Pág. (*)
.........................................................................



(*) Para respeitar a idiossincrasia de cada um, deixamos a cada leitor a tarefa de completar esta página.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

3 poemas

O Poeta



Acostumar-se a este ofício

Que não é melhor, nem pior

A nenhum outro

Mas que é o único em que te sentes

Igual a ti mesmo e teus semelhantes

Com todas tuas garras e dentes

E preocupar-se com mais nada



A poesia



A poesia é um longo e interminável diálogo entre poetas, no qual se entra como num rio caudaloso. Igual perigo de afogar-se nessa corrente.



Buenos Aires (*)


Não sei quando voltaremos, Buenos Aires

talvez nunca, talvez esta noite, talvez nunca

quem sabe?

Talvez esta cidade seja como todo o resto

criado pelo imprecavido intento humano

de reinventar-se.

Talvez não seja mais que isso, uma breve ilusão

rodeada de praças bem ou mal iluminadas

Um labirinto efêmero em que se perder

e ao qual sonhamos, constantemente, reingressar.

_________

(*)Fiquei com medo de ter roubado o poema Buenos Aires de Borges ou de alguma coisa que li sobre Borges. O fato é que a figura do labririnto ---e do labirinto dentro do labirinto, penso no cemitério da Recoleta--- é inseparável daquela cidade. Estou carregando na minha mochila o volume 1 das obras completas do homem, em que consta "Fervor de Buenos Aires", primeiro livro (e de poesia) dele. Tinha lido antes e não tinha gostado, agora depois de ter conhecido BsAs passou a fazer outro sentido.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

"Escrever o menos possível"

Do blog:
John Haffenden escreveu uma biografia sobre o poeta William Empson, “Among the Mandarins”, Paperback Book, 720 páginas, em que conta a seguinte história sobre o poeta T. S. Eliot:



Minha memória mais marcante é de estar caminhando [ao lado de Eliot] na Kingsway depois de algum almoço, provavelmente por volta de 1930, momento em que me encontrando sozinho com o grande homem senti que era oportuno levantar uma questão prática que andava me causando certa angústia. “O senhor acha realmente necessário, Mr. Eliot”, disparei, “como o senhor disse no prefácio à antologia dos poemas de Pound, que um poeta escreva versos ao menos uma vez por semana?” Ele estava se preparando para atravessar a Russel Square, olhando para o tráfego nas duas direções, e estávamos nos esquivando dos carros quando sua lenta resposta começou. “Eu estava pensando em Proust quando escrevi aquela passagem”, começou a profunda e triste voz, e então houve uma pausa considerável. “Tomando a questão de modo geral, eu diria, no caso de muitos poetas, que a coisa mais importante que eles teriam a fazer… é escrever o menos possível.” A gravidade da última frase era tão pura que lhe conferia uma qualidade quase lírica. Um leitor pode pensar que se tratava de uma manifestação de desdém ou de uma simples brincadeira, mas eu ainda hoje acho que não era; e naquele tempo me pareceu uma resposta não apenas muito sensata mas também muito satisfatória. Tirou um grande peso da minha consciência.

Comentário meu:
Eu tendo a pensar assim como John Haffenden, também tirou um grande peso da minha consciência! TS Eliot é um dos meus preferidos.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

NO PASA NADA

A casa era uma combinação de vidro e concreto, com linhas retas, e uma sala com portas de vidro que terminava num quintal também de concreto com piscina. Lembrava uma pintura de David Hockney, com alguma coisa de decadente. Ervas daninhas cresciam no canteiro ao lado da piscina, cujo fundo estava bastante escurecido. Uma pequena ponte de madeira com os pregos saltando se equilibrava ou jazia ali no meio, com uma espreguiçadeira de plástico branco displicentemente colocada em cima.

Estava para ser vendida para uma empreiteira que iria demoli-la e construir um prédio de sabe-se lá quantos andares. Ficava numa posição elevada de onde se podia enxergar o horizonte recortado de edifícios cinzas longínquos e algumas poucas edificações mais próximas. Essas pareciam encenar um teatro diário do cotidiano, de formigas humanas movimentando-se, piscando, apagando e acendendo as luzes. Formas de vida como de outro planeta que, a não ser por isso, jamais entrariam em contato.

"Lembrava uma pintura de David Hockney, com alguma coisa de decadente."

Havia lido que cerca de 35 mil litros de esgoto eram despejados por segundo no rio que passava a alguns quilômetros dali. De vez em quando se podia sentir o cheiro pútrido que se levantava de outro rio ou esgoto mais perto. Podreira da cidade podre que apodrecia. Mas não pensava nisso enquanto observava o céu sentado enquanto bebericava vinho e tomava notas. Ele estava empenhado em acompanhar as evoluções e mudanças no espaço aéreo à sua frente como se fossem o resultado da mistura de cores da paleta do pintor mais enlouquecido, acometido de um excesso de melancolia, e esforçava-se para captá-las através da escrita.

Inutilmente, lia para si mesmo, não sem consternação, o resultado pífio em que comparava a lua nova, quando o céu “turvando-se e multiplicando-se em angustiantes profundidades púrpuras e azuis”, vinha “negar-lhe o esplendor”, aos olhos convulsivos (era o que representava para ele naquele momento) das vítimas do acidente ocorrido há poucos dias no Metrô ― cinco passageiros de um microônibus, além de dois pedestres, tragados por desmoronamento de uma cratera aberta nas obras às margens daquele rio fedorento.

Lembrou-se de sexta-feira, quando descera na estação Klabin e, sonolento, caminhara alguns metros. Os pulmões ardendo da poluição às 8 da manhã. (Respirar aqui equivale a fumar dois cigarros por dia, ele estava por dentro das estatísticas). Pensou na cidade, que envelhecia a passos rápidos. 453 anos de invasão jesuíta tinham dado nisso. Olhou os pombos importados da Europa arrastando-se doentes de tão gordos. Eles raspam o tacho da sarjeta. Um casal meio tonto em roupa de jogging passou por ele cambaleante. Vieram “carbonizar” um pouco, pensou. Sintonizou o rádio do celular num rock and roll e rolou em frente.

Súbito, levantou-se, tentando espantar a borboleta negra que zumbia acima de sua cabeça, endoidecida pela luz da lâmpada elétrica. Ei-la repousada agora na parede, não mais uma borboleta e sim uma barata imensa e com asas. Correu para dentro da casa em busca do veneno e voltou com dois sprays de marcas diferentes. No meio tempo, a miserável havia sumido. Um dia depois teve a impressão de ver seu cadáver boiando na piscina e vê-lo em seguida desaparecer entre o bico do pássaro gordo de barriga amarela e rosto mascarado que vigiava aquelas águas de cima da árvore-arbusto que se elevava bem mais de cinco metros do muro e projetava sua sombra, deixando cair as florações e folhas mortas que ficavam por ali boiando.

No topo da árvore ele já havia divisado mais de uma vez um casal de periquitos, que faziam um barulho infernal ao cair da tarde, de modo que se podia dizer que ali ele estava de fato numa reserva ecológica. O terraço era um lugar misterioso. Diga-se de passagem que um certo dia um mamoeiro havia brotado ali, no meio do concreto, sem que ninguém soubesse como. Essa árvore milagrosa, que ficava cada vez mais alta, dava pequenos mamõezinhos doces que eram devidamente estraçalhados pelos pássaros que vinham em bandos, avisados uns pelos outros, por seus gritos frenéticos, para a refeição.

Inutilmente, lia para si mesmo (...) o resultado pífio em que comparava a lua nova (...) aos olhos convulsivos (...) das vítimas do acidente ocorrido há poucos dias no Metrô”. 

Sempre admirara os pássaros, à exceção dos pombos, “ratos com asas”, na sua opinião, na mesma medida que detestava os cães. É preciso dizer que na casa havia dois. Ambos de nomes ridículos e humanizados. Um no entanto, já havia morrido. O outro, podia ser adorável de vez em quando, mas ainda assim era um cachorro, i.e., estorvo. Eles usavam o capim ao lado da piscina para fazer suas necessidades. Liberdades que lhes permitiam a dona da casa, assim como a ele, outras tantas.

Ele gostava muito mais dela do que da casa, que às vezes lhe parecia uma prisão com algumas regalias especiais. Ouviu sua voz chamando-o por cima do ombro, virou-se e pode mirá-la contra uma luz fraca, vinda do interior, a cabeleira loura destacando-se no fundo negro em que flutuavam alguns insetos. Olhou-o com um sorriso de quem gostaria de saber o que estava se passando ali naquele intervalo de tempo em que ele ficara quieto, apenas observando, enquanto começava a esfriar. Respondeu também mentalmente com um sorriso em castelhano de no pasa nada, efeito de uma imersão rápida naquele vinho espanhol chamado Memorandum. Quando seu pé tocou na precária ponte de madeira, a construção inteira desabou fazendo Tchibum.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Três poemas


SÍSIFO FELIZ?




Coragem


Paciência


Retidão


Honestidade


Rolar a pedra




Caráter


Ânimo


Disposição


Boa vontade


Rolar a pedra




Energia


Bem estar


Empolgação


Humanidade


Rolar a pedra




Sísifo só tem este


ideal.








RIMA, RIMADOR!




Aprender com o alvo


a flecha


Com o fim


a festa


Com o rasgo


a brecha


Com o beijo


a testa


Com a viga


a mestra


O que me resta


nesta vida


nesta rima


tão canhestra.






O INSETO






Tem da natureza inseta


a atração


por luzes


pelo perfume das flores


e das bebidas.

sábado, 24 de outubro de 2009

domingo, 27 de setembro de 2009

Baladinha da primavera




Uma, duas, três flores


amarelas.




Sobre o cadáver do homem


morto na


primavera.




"Ai, quando eu me for


desta minha vida insincera,


dai-me também uma flor,


duas, três flores


amarelas."

sábado, 26 de setembro de 2009

Cançãozinha francesa

"J’ai perdu ma vie,
par délicatesse
"-

Disse, redizendo,Rimbaud.

O espelho se ri:

"Por delicadeza,
Vous?"

Retorno à simplicidade

Leitura de primavera

Livros com 50% de desconto:

Poesia completa de Garcia Lorca

Edição bilingue da Editora da Imprensa Oficial.
Quase 700 páginas.

Reencontro as canções (vontade de escrever), reencontro toda uma poética, que parece simples...que fala de vento no olival, vento na serra...

Poema de la solea*


Tierra seca
tierra quieta
de noches
inmensas.

..(Viento em el olivar,
viento en la sierra.)

Tierra
vieja
del candil
y la pena.
Tierra
de las hondas cisternas.
Tierra
de la muerte sin ojos
y las flechas.

..(Viento por los caminos.
Brisa en las alamedas.)



__

*ou "soledad": canção típica da Andaluzia, informa o tradutor na edição do livro.

domingo, 20 de setembro de 2009

Commentary on The Cantos of Ezra Pound,

Commentary on The Cantos of Ezra Pound and others, c. 2001-2002

Comentários dos Cantos (no final da página):

Canto I, II & XX, III, IV, VIII, IX, X,

XI, XII, XIII, XIV, XV, XVII, XVIII, XIX,

XXI, XXXI, XXXII, XCVIII

Relembro-me, de mim, quando a poesia era um mistério
E eu tropeçando pelos Cantos, sem entender niente:
“E o Buccentoro, a vinte jardas bradando “Stretti”,
Mas adorando tudo -
“Luz: e a luz primeira antes de qualquer orvalho
“Ou: a escada cinza segue acima sobre os cedros”.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A bigorna

Blog do amigo Aldrovandi, músico e compositor (dos bons, daqueles com piano em casa), que também gosta de "poetar" com o martelo:

A Bigorna

sábado, 29 de agosto de 2009

Fabulador de pulsões negativas


É assim que o escritor argentino Alan Pauls descreve Enrique Vila-Matas na orelha de "Suicídios Exemplares", publicado recentemente no Brasil. Escrito dez anos antes de Bartleby e Companhia, já há algo neste livro do escrivão de Herman Melville que se recusa a fazer qualquer coisa que seja (o que é também um modo de se aniquilar). Tema que seria explorado por Vila-Matas na forma de uma galeria de personagens estranhos tomados por essa mesma "pulsão negativa". Não agir, não escrever, literatura do não. Não é por menos que Fernando Pessoa seja um dos heróis de Vila-Matas. No final desse seu livro de contos sobre suicidas e não-suicidas, ele o transforma em personagem, juntamente com Mário de Sá-Carneiro, simplesmente ao transcrever (outra vez o copista, que exercita a arte da citação) o trecho da carta deste para Fernando Pessoa, escrita em 31 de março de 1916, poucas semanas antes de suicidar-se no Hotel de Nice, Paris, após ingerir cinco frascos de estricnina, tendo inclusive convidado para assistir o amigo José de Araújo: Mas não façamos literatura. Pelo mesmo correio (ou amanhã) registradamente enviarei o meu caderno de versos que você guardará e de que você pode dispor para todos os fins como se fosse seu (...) Adeus. Se não conseguir arranjar amanhã a estricnina em dose suficiente deito-me para debaixo do "metro"... Não se zangue comigo.

O antiblogger?

Escrever somente quando necessário.

Como Paul Valéry, que acordava no meio da noite assaltado pela urgência de uma frase ou pensamento e assim preencheu cadernos e mais cadernos absolutamente desnecessários. E aqui me contradigo, pois, em literatura, como na vida, como saber quando e o que é de fato necessário?

* * *

"Poste-escrito": sobre isso e sobre a "necessidade do sentimento", ler (valeria a pena meditar?) minha tradução do texto Pequeno Café, de Valéry.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Poésie perdue

Où..........
se trouveras
la poésie
dans une..............
cellule
.....................cancer-rose?

Poesia perdida

Onde a
..........poesia
mora..............
Numa célula
.....................câncer-rosa?

domingo, 31 de maio de 2009

O monge e o desassossego

Uma bem intencionada amiga emprestou-me O monge e o Executivo, de James Hunter. Pus na minha mesa de cabeceira debaixo do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Eles que se entendam!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Meus poemas, Um bom poema

Você me perguntou para aonde foram meus poemas? Eles estão por aí, jogando bola, mudando de cidade, ou de emprego, arrumando briga. Como dizia Leminski *: um bom poema, minha amiga, leva uma vida.

_______________

*um bom poema leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade,
eu e você, caminhando junto.

Paulo Leminski

domingo, 26 de abril de 2009

O filho eterno


Em O Filho Eterno, de Cristovão Tezza, não há tanta crueldade, ao contrário do que afirma o crítico da Veja, cujo comentário vem estampado na contracapa do premiado livro do escritor nascido em Lages-SC. Não dá para equipará-lo a Céline ou Onetti, nesse quesito, por exemplo. Talvez porque os personagens do livro sejam reais - principalmente seu filho, alvo da "crueldade" por ser portador da síndrome de Down, que ele não se reprime às vezes de qualificar como 'idiota", para em seguida demonstrar uma infinita paciência (eu não diria "compreensão", mais uma tolerância diante do inevitável). O que o crítico da Veja queria era quem sabe um outro "Marley e eu". E o romance (no que até onde hoje em dia se chama de romance) não oferece nenhum guia de auto-ajuda. Ele está tão perdido quanto nós. É um escritor, e isso basta. Em alguns momentos me lembra um John Fante, tentando ir em frente com seus escritos e hesitante diante da acolhida que têm. O Brasil, a dificuldade de se viver num país como o nosso, aparece como pano de fundo, nas lembranças do autor. Imigração e trabalho subalterno no exterior, a casa comprada com juros extorsivos embutidos num plano picareta do Governo, o medo diante da polícia, que dariam um segundo romance. O livro termina em um ponto que poderia ter sido outro qualquer. A ficção imita ou antes acompanha a vida dele e seu filho, impedido de chegar à idade adulta (que o pai, como ele próprio faz questão de sublinhar, por sua vez, reluta em alcançar) , daí o "eterno" do título.

sábado, 28 de março de 2009

Porque gosto tanto deste poema


Porque gosto tanto deste poema, escrito já há alguns anos, um haicai perfeito de 17 sílabas, que eu mesmo compus, para celebrar a mim mesmo (como o velho Walt Whitman também fez, sendo menos sintético, ele que não era nenhum japonês):


Madadayo (*)

Um fio de cabelo
branco brotou no meu peito.
Tu, coração, velho?




__________________

(*)Madadayo (pt: Ainda Não) é um filme japonês de 1993, o último dirigido e escrito por Akira Kurosawa. O filme é baseado na história real do professor Uchida Hyakken, que se aposentou depois de 30 anos lecionando literatura alemã para se tornar escritor. Com grande carisma e humor peculiar, conquistou o repeito e a amizade de seus alunos na forma de comemoração: todos os anos, no dia de seu aniversário, era comemorado o Madadayo, quando os alunos perguntam "Mada kai?" (Pronto?), e ele depois de uma imensa taça de cerveja respondia "Mada dayo!" (Ainda não!) significando que seus alunos teriam que "agüentá-lo" por mais um ano.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Recordações em vermelho, preto e branco


Eu escutava, no escuro da garagem, o rádio do fusca estacionado (um fusca lamentavelmente verde-abacate), em Mossoró, anos oitenta, interior do Rio Grande do Norte. Sentado no banco da frente, no lado do condutor, só a luz interna acesa, enquanto brincava com a direção do carro, a porta meio aberta, ouvia o locutor declamar “GOOOOOOOOOOOL” ― vibrava ― “DOOOO FLAAAMEEENGOOOO!!!... Ao redor, o silêncio da noite estrelada e quente mossoroense, a rua sem carros e sem asfalto, visível pelas frestas das grades do portão branco de ferro que separava a rua da casa, onde, de vez em quando, eu jogava bola até ficar tarde e minha mãe me chamar para dentro.

Mas a maioria dos meus jogos se passava de casa para dentro. Nos jogos solitários que inventava, como o “futebol de mão”, em que, usando uma bola de gude e duas traves improvisadas em cima da mesa, uma mão jogava contra a outra (havia muitos empates). Ou o “futebol de parede”, que consistia em chutar a bola com força contra a parede da garagem e rebater sem dar dois toques e nas poucas vezes que jogava com meu irmão mais novo (que, no entanto, preferia a leitura dos romances de Stendhal ao nobre esporte inglês).

Eu morava a poucos passos do estádio de futebol, o “Nogueirão”, um campinho de terra amarronzada e uma árvore solitária pouco frondosa separavam minha casa do local onde ocorria, a intervalos sucessivos, o clássico Potiguar versus Baraúnas ― eu nunca tinha entrado lá. Só uma vez, em 1985, quando tinha 14 anos, meu pai me levou para assistir ao jogo amistoso do Flamengo contra o Baraúnas. Os jogadores do Fla com o uniforme branco, o que eu mais gostava, com o qual a equipe conquistou o campeonato mundial de interclubes, em 1981. Era o grupo de Zico, Adílio, Júnior, Tita, Leandro, Andrade, Raul... O melhor time que o Flamengo já montou e que colecionou vitórias naquela década.

Os jogadores do Baraúnas iam a pé ou de bicicleta treinar ― daquelas bicicletas Monark barra-forte, de pedreiro. Um time que nunca havia ganhado nenhum título fora de casa, surgido inicialmente como bloco carnavalesco, cujo nome foi inspirado no cacique “Baraúnas”, líder da tribo Monxorós, que habitava a região. (Como, aliás, está dito no hino do clube, o qual, obviamente, eu nunca havia escutado: “Baraúnas, tu és origem / Da história que fez tradição. / Foste chefe, na mata virgem, / De uma tribo desta região...”).

É claro, na época, eu não pensava que nada disso fosse contraditório. Na verdade eu (ou era meu pai) odiava Mossoró. Torcer contra o time da cidade era perfeitamente razoável. Eu mesmo não havia telefonado uma vez, a pedido do meu pai, para uma emissora, num programa de rádio que denunciava as mazelas da cidade e dito a frase: “Agora desminta a Folha de São Paulo!”? Tudo por causa de uma matéria publicada naquele jornal que havia revoltado o município. Falava, entre outras coisas, das bicicletas (na ocasião, o número desses veículos por habitante em Mossoró era comparável ao da China) e das carroças disputando lugar com os carros. Eu havia depois desligado, deixando atônito e enraivecido no outro lado da linha o apresentador, que ainda tentou retrucar, deixando solto um início de resposta, evidentemente não ouvido, “Nós...” e depois falou disso ao vivo no programa ido ao ar em seguida.

Aqui cabe uma explicação. Meu pai e a família dele eram paraibanos, e ele havia se mudado a contragosto para Mossoró. A cidade era extraordinariamente quente e seca ― apesar das praias a pouco mais de 40 km, para onde nós, sem que eu encontre agora nenhuma explicação além da que irei dar a seguir, não íamos nunca. Meu pai detestava praia, gostava das serras paraibanas, onde havia se criado, e era capaz de dirigir um dia inteiro (com um braço quebrado e engessado, como ele havia feito uma vez levando a mulher e os filhos) para chegar à Paraíba. Na casa dos avôs, meus quinze tios viviam em pé de guerra, porque uns eram vascaínos, outros botafoguenses e outros, ainda, eram flamenguistas “doentes” como meu pai e eu.

Meu pai me punha na frente da TV vestido com o uniforme do Flamengo, todos os cinco filhos, na verdade, inclusive as duas meninas, uniformizados em frente à TV. E quando não passava o jogo do Flamengo, a salvação era o rádio. Aliás, ele desligava o som da televisão porque não suportava os comentaristas e ligava o rádio, cujos profissionais eram muito mais competentes e informados, segundo ele. No rádio, uma jogada que parecia completamente sem graça virava um momento emocionante, todos os momentos eram culminantes na narração e quando a jogada acabava, entrava o locutor anunciando a hora ou um reclame do Ponto Frio Bonzão (um nome que me fazia pensar não no Rio de Janeiro, mas num lugar gelado e tão distante de Mossoró quanto a Lua, como o Pólo Norte) e outras lojas que eu não conhecia.

O Nogueirão era palco, também, quando não tinha jogo, de torneios de bingo (para cada dezena sorteada, o locutor anunciava: “Núuuumero dez!”. Ou vinte, trinta etc. E acrescentava à frase um “De rombo!” para indicar, talvez para quebrar a rotina monótona dos jogos de bingo, que o número proclamado continha um zero)... E corrida de jegue. Eu gostaria que meu pai tivesse me levado pelo menos uma vez a uma daquelas sensacionais corridas de jegue. Eu só havia escutado a música tocando nos alto-falantes, que continha uma lição jamais esquecida (recordo até hoje): “O burro é quem merece uma medalha/ O burro é quem trabalha/ O burro é quem dá duro...”. E foi então que Zico e companhia, com seu uniforme branco no qual havia bordado, acima do peito, orgulhosamente, uma estrela amarela de campeões do mundo na final contra o time do Liverpool, em Tóquio, pisaram o mesmo gramado que os jegues já haviam adubado tantas outras vezes.

Vinte e três anos depois e me esforço para recordar como foi a partida. Em vão. Só me lembro dos uniformes brancos, de como gostei de estar no estádio com meu pai, torcendo pelo Flamengo, na arquibancada, e do formato redondo do estádio de cimento armado. Lembro que, comparado à proximidade dos “closes” da televisão, os jogadores pareciam pequenos de onde eles estavam.
Lembro de ter olhado para fora do muro e visto minha casa, onde ficaram minha mãe e meus irmãos. Da noite cálida e do campo verde ― não sabia que era tão verde, ou será que imagino agora que era tão verde? ―, dos mosquitos ao redor das torres de iluminação ― e imediatamente me recordo da vez em que uma coruja se perdeu e veio cair tonta no quintal de minha casa, por causa das luzes do estádio de futebol.

Lembro que estranhei a falta de “replay” nos gols, de meu pai e eu vestidos com a camisa do time rubro-negro (em nenhum momento pensei que fosse um time “carioca”). Meu pai com um radinho, que ele tanto gostava, de alça e botão seletor para mudar de estação. A sensação que tenho é de uma nostalgia silenciosa, de volta ao passado, com todas as sensações tácteis e visuais, mas nenhuma lembrança fixa, nem auditiva ou olfativa, um mergulho com bolhas numa piscina de água muito quente e muito funda.

Sim, havia outros flamenguistas, uma horda estranha como eram eu e meu pai, e vieram de todas as partes, de seus lares também silenciosos, naquele dia no estádio, mas eu não os conhecia e não fiz nenhum contato com eles, nem o meu pai. O que minha memória reteve foi um espaço vago e teatralmente iluminado na arquibancada, ocupado por meu pai e eu somente.

O que lembro, como se fosse hoje, é do verde do campo de futebol, do branco com listras em vermelho e preto do uniforme do Flamengo, da sensação térmica de calor envolvendo todos, onde talvez soprasse de vez em quando uma brisa noturna vinda daquelas praias afastadas e dos insetos em volta das luzes das torres do estádio, confundindo as aves noturnas.

sábado, 7 de março de 2009

Pedro Páramo

E agora lendo Pedro Páramo, de Juan Rulfo, agora que só escrevo notas esparsas, escorridas, pergunto-me se já não estão todos mortos... como as almas saídas das páginas deste pequeno livro estranho e forte, enquanto lá fora o ar enche-se da umidade pré-chuva, neste verão interminável de março, negando-me, não sei se negando-me de fato, onde para sempre para mim vida e morte se reuniram no dia trigésimo em que nasci, no mesmo em que vinte anos depois morreu meu pai, Pedro Páramo.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Não existe

"Não existe verdade sem o seu contrário; não existe amor que não odeie" (Borges? Escrevi para mim mesmo, à guisa de lembrete endereçado ao futuro, na contracapa de Ficções, numa edição antiga que folheio agora, no momento certo que eu previ, muito anos depois.)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A vida Breve


No fim do romance A vida Breve de Onetti, os personagens, que diga-se de passagem, são produtos da fantasia criados por outro personagem Juan María Brausen, estão fugindo da polícia. Fantasiados, "excessivamente escondidos no Carnaval", sem roupas para trocar e sem nenhuma perspectiva, sem dinheiro nem documentos, deixados para trás na fuga, sem ter mais para onde correr, eles sabem que quando acabar esse que é o último dia de folia, eles não vão conseguir passar mais despercebidos. É a hora em que está amanhecendo em Buenos Aires e eles estão sentados numa praça enquanto brindam à má sorte com copos vazios e a um homem muito velho que "alimentava-se de minúsculos mistérios sem importância. Na hora da morte acreditou que se salvaria dizendo estar com sono".

sábado, 21 de fevereiro de 2009

A conta do Marques

"É a débito e não a crédito da conta do Marques. (Vejo-o gordo, amável, piadista, e num momento, o navio desaparece)."

Bernardo Soares. O Livro do Desassossego.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Os detetives selvagens2

Ontem parei na página 526 dos Detetives. Acho que no final é um livro triste, tem uma visão pessimista e desencantada do ato de escrever, dos poetas, e escritores em geral.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Duas visões




















Profeta Daniel, de Aleijadinho, em pedra sabão e Liteira "serpentina" de arruar, século XVIII.

Aleijadinho

Era mulato, como a maioria da população de Ouro Preto, filho de arquiteto português, e de uma sua escrava africana. Produziu obras magníficas. As melhores estão fora da igreja, em Congonhas, expostas ao ar livre e à ação dos vândalos: a série dos doze profetas esculpidos em pedra sabão. O conjunto em madeira pintada representando sete cenas da Paixão de Cristo também é impressionante, cheio de sentidos enigmáticos que alguns interpretam como sendo referências à maçonaria e à Inconfidência. De novo, o sentido religioso não é o que atrai aqui e sim a maestria da obra, que contou com a ajuda dos discípulos para ser feita. (A doença que deformou as mãos de Aleijadinho estava já em estado avançado. Ele precisava atar o martelo e o cinzel nas mãos para poder esculpir e talhar.) Nota-se, entretanto, um estilo único em todas as esculturas, algo comovente.
Como tudo no Brasil, mesmo personagens recentes são envoltos em brumas, o que abre espaços para a especulação. A ausência de uma historiografia séria deixa dúvidas sobre a biografia e até mesmo da real existência desse personagem do barroco mineiro. As obras contudo estão lá, apesar de faltar um maior envolvimento das instituições que deveriam apoiar a pesquisa e a preservação desse patrimônio, perceptível para quem visite as cidades históricas mineiras.

Religião e mendicância

Em Ouro Preto, há um Museu do Oratório, com peças de todos os tipos. Entre os oratórios, existia um chamado de "esmoler", utilizado por mendigos, pendurado no pescoço, para pedir esmolas. Há uma linha contínua unindo religião e mendicância.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Minas



As igrejas em São João Del Rei e em Tiradentes têm o teto em forma de uma caravela invertida – "a bem dizer, naufragada" – explicou-me um guia, não sei se captando o alcance da imagem. As igrejas barrocas, naufrágios portugueses do século XVIII talhados em madeira coberta de ouro, transplantados para os trópicos em navios e como navios naufragados deixados para secar e apodrecer sobre pilares ornamentados nos pontos altos das cidades.

Em Tiradentes, ressoa música por todos os lados. Sentado na piscina de um casarão do século XVIII, escuto Vivaldi. O mesmo tipo de som, música erudita, toca nos alto falantes na rua, na praça em frente à capela do Rosário, também do século XVIII, enquanto espero pelo trio de sopro (clarineta, fagote e flauta) que irá executar peças de Vivaldi, Corelli e Mozart. À noite, saindo da igreja, após o concerto, me deparo com um coral de jovens acompanhados de violão, que apresentava músicas populares antigas, de porta em porta, em vários pontos da cidade.

Sobre as igrejas

Para a maioria dos visitantes, como eu próprio, elas perderam quase toda a significação religiosa. São um misto de exposição de arte, museu, cenário, palco e obras de arte em si mesmas.

Quando, em São João Del Rei, sem nenhum aviso, o padre inicia a missa das seis, parece um intruso, eu diria que ele parece quase profanar o lugar com sua presença.
Os turistas, com suas câmeras, fogem (fugimos) todos como um bando de pássaros assustados para a frente da igreja.

A ruína do significado religioso pode ser lida numa placa de advertência afixada no local: "Este altar é sagrado, favor não apoiar-se ou colocar objetos em cima".

Falta de um museu da escravidão
Não sei se existe um mesmo no Brasil, voltado apenas para esse tema, mostrando os sofrimentos e as torturas impingidas aos negros trazidos da África. Em São Paulo, onde há museu de tudo quanto é coisa, sei que não há (tem, isto sim, o Museu Afro, que ainda não visitei). Nos museus em Minas, da Inconfidência, em Ouro Preto e Casa do Padre Toledo, em Tiradentes, a questão é tratada en passant, quando não suavizada. Talvez porque o próprio Padre Toledo era um rico senhor de escravos e os inconfidentes não fossem abolicionistas.

Exposta no museu onde ficava a casa do inconfidente Padre Toledo, vi uma liteira que parecia saída de uma pintura do Inferno de Bosch. O modelo de "arruar" (isto é, para ir à rua, em viagens curtas) chamava-se "serpentina", por causa da representação em madeira de uma serpente na ponta do "veículo", produzido em outra colônia portuguesa, Macau. O trabalho de carregá-las era para ser feito por escravos "bem fardados e corpulentos". Era, informa o texto do museu, um trabalho "especializado", pois os carregadores negros aprendiam a marchar sem solavancos, para não "incomodar" as pessoas que transportavam. Por isso, ainda de acordo com o texto exposto, após a abolição tornou-se um dos ofícios mais bem pagos, senão o mais bem pago, para os negros "livres". (No museu da Inconfidência vi outro desses modelos. Lá, um guardinha que fazia às vezes de guia, lembrou que os negros que transportavam as mocinhas da sociedade eram castrados, sem dó nem piedade. Segundo ele, os testículos eram esmagados com pedras).
Ainda na casa transformada em museu do Padre Toledo, em Tiradentes, vi também pela primeira vez, uma corrente usada para "prender e transportar escravos", com várias formas pontiagudas de ferro enegrecido, retirado, em 1970, do fundo do Rio das Mortes – de novo, a sensação de estar diante de um objeto produzido nos fornos do inferno, por demônios. Abaixo da casa, "existe um interessante porão que serviu de prisão para escravos," como descreve laconicamente, quase como não tivesse muita importância, e por último entre as "atrações" do museu, o texto na página da Prefeitura de Tiradentes. Mesmo descaracterizado, com pichações, dá para sentir a atmosfera maligna e angustiante que impregna as paredes e imaginar-se no lugar dos que ali "viveram".
Texto ao lado de objetos de tortura usados em escravos no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto exalta a "paciência e a sabedoria" dos negros que "souberam se integrar" à cultura dos seus algozes brancos. Entre as poucas referências escritas, há um livro que ensina como "tratar, curar e evitar as doenças dos negros", como um compêndio destinado à saúde dos animais de criação.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Salvação. De viagem

Em pé e espremido perto da janela do ônibus em movimento hoje à tarde, debaixo de um sol escaldante, numa ruazinha perpendicular, próxima à igreja, pude observar, num flash de tempo - apenas alguns segundos, enquanto o ônibus ia se afastando-, uma fileira de anciões, todos muito brancos, que aguardavam não sei que sinal divino, parados. À frente do grupo, um andor, emplumado, pendia nos ombros de dois abnegados velhinhos. Mais atrás, algumas velhinhas mais sensatas portavam sombrinhas. Sobre a padiola ornamentada, uma estátua do que eles chamam de “A virgem santíssima”, ou algo equivalente (e esse conceito de virgem imaculada, por trás do Grande Corno, não citarei nomes para não ofender ninguém, o caso permanece em aberto já faz mais de 2 mil anos, eu nunca pude aceitar completamente, eu quero dizer compreender). A pergunta que me veio à cabeça, pouco depois, quando desci do ônibus, no calor sufocante do asfalto, foi: Que Deus sadomasoquista os ensinou a sofrer assim? E o que é pior, os ensinou que sofrer é bonito?

Como estou de viagem para Minas Gerais esses dias e devo me enfiar em algumas Igrejas (só espero que não estejam muito mofadas), acho bom ir me acostumando com isso. Levarei meu caderno de notas (caneta e papel) comigo, além de anti-histamínico, tomarei minhas impressões.

domingo, 4 de janeiro de 2009

A vida Breve 2


Há livros que não deveríamos ler. Que querem dissipar suas sombras tristes sobre nós, através de nós, tornando-nos seus personagens. Livros assim escravizam. Talvez Onetti fosse louco, assim como todos os grandes escritores (Joyce, Céline, Becket). E talvez escrever seja uma forma de ir adiante. Levantar-se, preparar o café com ovos mexidos, limpar-se, tomar banho, abotoar o paletó e dirigir-se até o escritório. Enquanto sentem se avolumar ao redor as ondas surdas do caos .

sábado, 3 de janeiro de 2009

Paul Valéry

Frase de Paul Valéry, que me apanhei relendo pouco tempo antes dos fogos explodirem, na virada do ano: "Temos de entrar em nós próprios armados até os dentes." De Monsieur Teste.

A vida breve

A "Vida breve", de Onetti, é também cruel . Me fez lembrar de Céline. Personagens esquisitos, desesperados, a morte rondando ao lado, inquieta. E de vez em quando, frases como essa, entre parêntesis, que iluminam o texto como um clarão de cemitério: "(Alguém pisa, estrangeiro, as folhas caídas no bosque; damos sepultura, sem pompa, à última rosa desse verão chuvoso.)". Enquanto gotas, reais, de chuva lavam a janela do apartamento onde digito isso e uma mulher grita, na casa da rua embaixo, pela terceira vez com o cachorro (que insiste em latir).

domingo, 28 de dezembro de 2008

Poema para uma derrota (2)

Acrescento uma terceira imagem, que havia me passado despercebida anteriormente, no poema para uma derrota, de Gustavo Castro: o fato da casa que o poeta habita ser uma casa alheia.

Marcador 2

A frase escrita no marcador achada dentro do livro "A Vida Breve", de Juan Onetti -cuja leitura tive que interromper para ler os dois Bartlebys, comentados nos últimos posts- é minha. Esqueci de dizer.

Notas sem texto (2)

Enrique Vila-Matas tem o que se pode chamar de uma "escrita ágil", que prende o leitor, embora em alguns trechos do seu "Bartleby e companhia", seja um pouco repetitivo. Os melhores momentos são quando ele deixa de simplesmente recontar, a partir de inúmeras citações, e dá voz ao personagem que ele cria: o corcunda QuaseWatt. O nome, com o qual se renomeia o narrador até então sem nome, é uma homenagem a um personagem de Samuel Becket, o qual é confundido respectivamente com um monte de trapos, uma lata de lixo caída e um pacote de jornais velhos.

"Não inventamos nada, acreditamos inventar quando na realidade nos limitamos a balbuciar a lição, os restos de alguns deveres escolares aprendidos, esquecidos, a vida sem lágrimas, tal como a choramos. À merda.", diz o narrador, o qual, desde então passa a fazer parte do quadro descrito por ele (Rimbaud e Kafka estão entre os mais citados), sua obra também entra no universo das obras de arte em suspenso que povoam e assombram essas "notas sem texto", como ele, Quase-Watt / Vila-Matas, as chama, ou, alternativamente, "Notas do não".

Nota sem texto (1)


Após terminar a leitura de Bartleby, de Melville, e em seguida a de Bartleby e companhia de Enrique Vila-Matas, parece que me sinto pronto a terminar de escrever o novo conto que eu havia esboçado (ou seria melhor dizer, terminar de começar?).

domingo, 14 de dezembro de 2008

Marcador

Achado escrito à mão num marcador dentro do livro "A vida breve", de Juan Onetti: "Gosto dos livros porque são solidões portáteis".

sábado, 13 de dezembro de 2008

Na cafeteria


Notas 13/12/2008
Descobri hoje, lendo na nova livraria do shopping no bairro, que pertenço à linhagem dos Bartleby – os escritores do Não. Li o capítulo I do livro inspirado no escrivão de Melville, Bartleby & Cia, de Enrique Vila-Mattas. A preço de um café, li na cafeteria. (É quase tão bom quanto levar sem pagar. Não que eu faça isso. Não mais). O livro custa absurdos R$ 45,00. A editora Cossac & Naif tem sempre os livros mais caros, coffee tables de luxo. No shopping, várias senhoras desesperadas para "estar adquirindo" o best-seller que irão dar de presente no Natal para os parentes e "amigos secretos" que não irão ler. Frase de Juan Rulfo citado por Vila-Mattas, para justificar o porquê de ter escrito quase nada mais depois de Pedro Páramo: "Hoje em dia até os maconheiros publicam livros, tem muito livro estranho por aí". Sorri.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Poema para uma derrota



Acabei de ler (posso já ter lido, então releio) "Poema para uma derrota", de Gustavo de Castro (poeta estreante, editor autor), do livro Ossos da luz, editora Casa das Musas, 2007, o melhor livro do gênero que li este ano. Este é apenas um exemplo dos muitos bem-sucedidos poemas do livro, perpassado pelas sombras iluminadoras de René Char e do argentino Roberto Juarroz, com ecos de Nietzsche, Calvino e Cortázar (e que tem, lógico, altos e baixos e alguns erros de revisão, mas os altos são mais altos), cuja leitura é essencial.

Poema para um derrota



Entulhas pela casa, em todo canto, os restos do passado. Passeias entre caixas, malas, bolsas, vendo o desgoverno do teu estado. Lá fora, no orvalho da noite fria, não podes deixar de cobrir com lona, devido à chuva das monções, a velha cadeira pia que tantas vezes te sentou. Não podes deixar de notar o tanto de sonhos fracassados que és. O mar de espíritos velhos, este sertão cerrado convés vazio ao mar.

Entulhas pela casa alheia, em todo canto, o relógio velho parado, o monte de saco seco nordestinado, o quadro inacabado do pintor falido, o fogão sem forno funcionado. Procuras no meio do entulho a coleção de pedras, verás estranhamente, que elas continuam pedras. Mas já não pedras como antes. Agora são pedras mudadas, acompanhadas do claudicante pó do nada.


Duas imagens me causam impacto e dão idéia da força do poeta: a cadeira pia (porque velha mãe que "lhe sentou" tantas vezes no colo) que não se pode deixar de cobrir com lona, para proteger-lhe, este resto de passado tornado coisa, devido à chuva das monções - e o uso da palavra monção, de origem árabe, para indicar chuva intensa sazonal, tem um sabor especial também para os nordestinados como Gustavo.


A segunda imagem que fica é a da coleção de pedras, transformadas pelo tempo em outra coisa, cobertas por um pó de nada hesitante, metáforas para o próprio poema, que se oferece o tempo todo en abîme.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Descobri Enrique Vila-Matas


Descobri Enrique Vila-Matas. Leyla Perrone Moisés diz que é um dos melhores escritores espanhóis da atualidade. Gostei que ele mescla romance/crônica/ ensaio, memória e ficção. Estou para comprar Bartleby, mas preciso ler antes Melville, de quem não li sequer Mobydick. Quem disse q ignorância é uma benção? Talvez compre em espanhol, pois sai muito mais barato.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Espaço intraquadro

O espaço interno é imaginário -está "dentro" e fora do campo de visão do espectador.


segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Surpresa na percepção de obras de arte

(fragmento de Teoria Estética)

Quando algo surpreendente ou sugestivo de alguma coisa que não podemos decifrar de imediato se interpõe diante de nós, atinge nossos sentidos na forma de um choque, de intensidade mais ou menos variada.

Algo que ocorre sempre quando estamos diante de uma obra de arte visual, por exemplo, uma pintura, uma vez que não podemos apreendê-la na totalidade absoluta, mas que excita nossa atenção, desafiando-nos a abarcá-la, ao menos em parte, através de nossa consideração sensível.

Sempre há esforço envolvido nisso, por menor que seja. A percepção de uma obra de arte visual não é algo cândido, mas sim que envolve de modo pré-determinado um certo grau de reação ou choque, necessário para haver de fato experiência.

Muitas outras coisas fazem isso. Na verdade, esse é o funcionamento normal da visão que temos de uma imagem qualquer, cuja visão, aliás, sempre se dá através de um percurso complexo.

E para além da ocorrência que experimentamos sempre alguma reação na percepção, e que uma imagem qualquer só pode ser vista à custa de uma exploração não inocente do olho sobre a superfície, uma obra de arte é, além disso, feita com o intuito de ser percebida, contemplada, experienciada, interpretada, de alguma forma.

Há em toda obra de arte legítima uma ânsia de comunicar algo, por mais inefável que seja. E para que um trabalho artístico comunique uma idéia qualquer, de forma a vir a se tornar compreensível, é necessário haver, em alguma medida, elaboração naquilo que é apresentado. Para que possa nos chamar a atenção e captar o interesse, é necessário que haja surpresa na percepção, cuja experiência disso ao final “nos recompense”.

Arnhein chamou isso de “desafio perceptivo”: “onde as pessoas se defrontam com uma situação exterior de tal modo que as suas capacidades de aprender, interpretar, elucidar, aperfeiçoar-se são mobilizadas”. Ele lembrou a “importância do desafio perceptivo” para nossas vidas e da necessidade de vencê-lo.

O que é necessário, segundo Arnheim, falando da obra de arte visual, “é a experiência de que, entre as coisas visíveis, haja algumas que possam, afinal de contas, ser compreendidas”.

A surpresa pode se dar até mesmo a partir do reconhecimento de um sentimento semelhante ao que já foi experienciado em uma ambientação diferente da que lhe era familiar. Isso pode ocorrer porque um sentimento jamais é exatamente igual a outro e novas idéias são sempre geradas, de acordo com novas associações de idéias provocadas por experiências de obras particulares.

Sempre resta algo de novo a descobrir em uma obra. Os seus sentidos e a capacidade de provocar em nós novas hipóteses são praticamente inesgotáveis; apesar de que podemos chegar a algumas crenças sobre alguns de seus efeitos, sendo isso inclusive o que irá nos ajudar na compreensão de outros efeitos possíveis.

Imagens de Manet. Olhares que nunca se cruzam e que observam o vazio extraquadro. “A ameixa”, “O balcão”, “Almoço no ateliê”, “Na praia”, “Na estufa”. Série de fotografias, da década de 90, de Sarah Jones, com “quarto” no título. “The sitting room”, “The dinning room”

Por exemplo, a semelhança com algo que já havíamos experienciado no passado, nos retratos de grupo de Manet, despertou nosso interesse, foi o que nos causou surpresa primeiramente, na fotografia de Sarah Jones.



Edouard Manet Na estufa, 1879 e Sarah Jones A sala de jantar, 1997




Isso fez com que nos demorássemos mais tempo na percepção da série que a fotógrafa britânica fez no final da década de 90, incluídas na coleção da Tate Galley, buscando entender o que estas nos “comunicavam”. Podemos dizer que Manet, os retratos de grupo do pintor em que os personagens são figurados em momentos de absorção mental e alheamento, em meio a cenas familiares, é parte do significado, do que é transmitido ou do que representam essas obras.

O artista geralmente trabalha no sentido de evitar a repetição, pela repetição pura e simples, mas ele pode, no entanto, acrescentar isso também à sua estratégia. A referência a obras do passado, recombinadas de modo interessante, de modo a continuar chamando a nossa atenção e ganharem assim uma outra “vida”, é uma tática bem sucedida na história da arte. O que é uma forma de fazer crescer a “idéia” dessas obras, reinterpretando-as em contextos diferentes.

sábado, 15 de novembro de 2008

A morte exata do crítico medidor

Em seu escritório atapetado, cercado de livros por todos os lados, o crítico avaliava, com régua métrica, calibrada pelo Instituto Nacional de Metrologia, quantos centímetros de espessura possuía o texto do escritor X ou Y. Era seu lazer e sua vocação, para a qual havia dedicado grande parte de sua vida e carreira, ambas devotadas integralmente às letras.

Por escolha própria não havia contraído nenhum matrimônio, nem tido filho. Evitava mesmo a todo custo o contato com outras pessoas. A não ser os fortuitos e de breve permanência. A crítica literária era sua única e verdadeira paixão. Havia nascido para isso, para ser crítico. E era o que exercia com afinco, na sua solidão de celibatário aplicado, até mesmo nos piores momentos de sua vida, nem sempre alegre.

Havia começado seu trabalho de medição da escritura do texto dos autores com uma medida em palmos, mas, aos poucos, com sua fama crescente e na proporção em que se avolumavam os pedidos que lhe chegavam de todas as partes do globo, havia abandonado esse padrão, já há muito ultrapassado, em favor de um mais pertinente ao sistema métrico vigente.

O nível máximo de escritura que algum autor já havia alcançando na sua rígida escala pessoal havia sido de 40 centímetros ―e o mínimo, em torno de ¼ de um palmo, cinco centímetros. Era um crítico diligente e tenaz e vivia, literalmente, afundando-se em livros e leituras.

Nos últimos dias de sua vida, estivera a ponto de desenvolver um novo método revolucionário, que iria lhe permitir medir, além da espessura, também a massa ou ―dito em outras palavras,― o peso da escritura de determinado autor.

Para isso já havia feito diversos testes, com balanças de todos os tipos, analógicas e digitais, nacionais e importadas, chegando a delinear um projeto de um protótipo especialmente adaptado às suas exigências, desenhado por ele próprio, para o qual, entretanto, infelizmente ficaram faltando muitos desenvolvimentos que permaneceram inconclusos.

Sua estante, como alguém poderia esperar, era abastecida com uma multiplicidade sem fim de livros, que cresciam numa torrente até o pé-direito do escritório que chegava à altura máxima de sete metros. Aos mais espessos e pesados, assim medidos por ele, dedicava um lugar de honra no topo da estante, que estava ficando para lá de abarrotada.

Foi vítima de um acidente inusitado e infeliz, porém, conseqüente com sua atividade literária, enquanto cochilava sobre uma pilha de livros recém-medidos, o pescoço molemente apoiado sobre o último da pilha, quase que se oferecendo inconscientemente ao sacrifício. Num momento e zás! A estante inteira veio a desabar em cima dele, causando-lhe morte súbita por esmagamento e quebra do pescoço.

Hoje se encontra enterrado sob sete palmos de terra. De vez em quando, algum autor timidamente iniciante, sedento de julgamento, ainda vem depositar algum livro que acabou de dar à luz sobre sua lápide, por uma crença que ficou difundida principalmente entre os escritores mais jovens. Na vã esperança de que, do além onde se encontra, o nosso crítico possa ler e declarar a sua apreciação, a respeito da medida exata de sua escritura.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O telefone está tocando, Delia (1938)*


Tradução inédita de um dos primeiros contos de Julio Cortázar
por Lauro Marques



As mãos de Delia doíam. Como vidro moído, a espuma de sabão ardia nas rachaduras de sua pele, punha nos nervos uma dor áspera ferida repentinamente por lancinantes agulhadas. Delia havia chorado sem disfarces, abrindo-se para a dor como para um abraço necessário. Não chorava porque uma secreta energia a repelia para a queda fácil do soluço; a dor do sabão não era razão suficiente, depois de todo o tempo que tinha vivido chorando por Sonny, chorando pela ausência de Sonny. Teria sido degradar-se, sem a única causa que para ela merecia a dádiva de suas lágrimas. E, além disso, ali estava Babe, em seu berço de ferro comprado a prazo. Ali, como sempre, estavam Babe e a ausência de Sonny. Babe em seu berço ou engatinhando sobre o tapete surrado; e a ausência de Sonny, presente em todas as partes como são as ausências.

A bandeja, sacudida no suporte pelo ritmo do esfregar, se juntava à percussão de um blues cantado pela mesma garota de pele escura que Delia admirava nas revistas de rádio. Sempre preferia as transmissões da cantora de blues: às sete e quinze da noite ―a rádio, entre uma música e outra, anunciava a hora com um “hi, hi” de ratazana assustada― e até às sete e meia. Delia nunca pensava: “às dezenove e trinta”; preferia a velha nomenclatura familiar, tal como proclamava o relógio de parede, de pêndulo fatigado que Babe observava agora com um cômico balanceio de sua cabecinha insegura. Delia gostava de olhar a todo instante para o relógio e escutar o “hi,hi” da rádio; apesar de que lhe entristecera associar ao tempo a ausência de Sonny, a maldade de Sonny, seu abandono, Babe, e o desejo de chorar, e como a senhora Morris havia dito que a conta da despensa tinha que ser paga imediatamente, e que lindas eram suas meias cor de avelã.

Sem saber de início por qual motivo, Delia se pegou olhando furtivamente para uma fotografia de Sonny, pendurada ao lado da prateleira do telefone. Pensou: “ninguém me ligou hoje”. Pouco se compreendia a razão de continuar pagando mensalmente a conta de telefone. Ninguém ligava para esse número desde que Sonny se fora. Os amigos, porque Sonny tinha muitos amigos, não ignoravam que agora ele era um estranho para Delia, para Babe, para o pequeno apartamento onde as coisas se amontoavam no reduzido espaço dos dois cômodos. Somente Steve Sullivan ligava às vezes e falava com Delia; falava para dizer-lhe o muito que o alegrava de saber que gozava de boa saúde, e que não acreditasse nunca que o ocorrido entre ela e Sonny seria motivo para que deixasse de ligar perguntando por sua boa saúde e pelos dentinhos de Babe. Somente Steve Sullivan; e esse dia o telefone não havia tocado nem uma única vez; nem sequer por causa de um número errado.

Eram sete e vinte. Delia escutou o “hi,hi” misturado a anúncios de creme dental e cigarros mentolados. Ficou sabendo também que o gabinete Daladier perigava por instantes. Depois voltou a cantora de blues e Babe, que mostrava propensão para o choro, fez um gracioso gesto de alegria, como se naquela voz morena e espessa houvesse alguma guloseima que ele tinha gostado. Delia foi despejar a água com sabão e secou as mãos, queixando-se de dor ao friccionar a toalha sobre a carne macerada.

No entanto, não ia chorar. Só por Sonny ela podia chorar. Em voz alta, dirigindo-se a Babe que lhe sorria desde o seu berço em desordem, buscou palavras que justificaram um soluço, um gesto de dor.

―Se ele pudesse compreender o mal que nos fez, Babe... Se tivesse alma, se fosse capaz de pensar por um segundo o que deixou para trás quando fechou a porta com um empurrão de raiva... Dois anos, Babe, dois anos... e não tivemos mais notícias dele... Nem uma carta, nem um vale... nem sequer um vale para você, para roupa e sapatinhos... Não se lembra mais do dia de seu aniversário, não é mesmo? Foi mês passado, e eu estive ao lado do telefone, com você em meus braços, à espera que ele ligasse, que ele dissesse somente: “Alô, felicidades!”, ou que lhe mandasse um presente, nada mais que um presentinho, um coelhinho ou uma moeda de ouro...

Assim, as lágrimas que queimavam suas bochechas lhe pareciam legítimas porque as derramava pensando em Sonny. E foi nesse momento que tocou o telefone, justamente quando da rádio assomava o cansativo e pequeno chiado anunciando sete e vinte dois.


―Alguém ligou― disse Delia, olhando para Babe como se a criança pudesse compreender. Se aproximou do telefone, um pouco insegura ao pensar que poderia ser a senhora Morris exigindo o pagamento. Sentou-se no banquinho. Não demonstrava pressa apesar do tilintar insistente. Disse:

―Alô.

Demorou para se ouvir a resposta.

―Alô. Quem...?

Claro que ela já sabia, e por isso lhe pareceu que o apartamento girava, que o ponteiro de minutos do relógio se convertia numa hélice furiosa.

―Quem fala é Sonny, Delia, Sonny.

―Ah, Sonny.

―Vai desligar?

―Sim, Sonny ―disse ela, muito devagar.

―Preciso dizer-lhe muitas coisas, Delia.

―Está bem, Sonny.

―Está... está zangada?

―Não posso estar zangada, estou triste.

―Sou um desconhecido para você... um estranho agora?

―Não me pergunte isso. Não quero que me pergunte isso.

―É que me dói, Delia.

―Ah, te dói?

―Por Deus, não fale assim, nesse tom...

―...

―Alô.

―Alô. Pensei que...

―Delia...

―Sim, Sonny.

―Posso te perguntar uma coisa?

Ela notava algo estranho na voz de Sonny. Claro que podia já ter se esquecido de uma parte da voz de Sonny. Sem formular a pergunta, compreendeu que estava pensando se ele ligava para ela de uma prisão ou de um bar... Havia silêncio por detrás de sua voz; e quando Sonny se calava, tudo era silêncio, um silêncio noturno.

―... uma única pergunta, Delia.

Babe, no seu berço, olhou para sua mãe inclinando a cabeça com um gesto de curiosidade. Não mostrava impaciência nem desejo de irromper num pranto. A rádio em outro extremo do apartamento, acusou outra vez a hora: “hi, hi”, sete e vinte e cinco. E Delia ainda não havia posto para esquentar o leite para Babe; e não havia pendurado a roupa recém-lavada.

―Delia... quero saber se me perdoa.

―Não Sonny, não te perdôo.

―Delia...

―Sim, Sonny.

―Não me perdoa?

―Não, Sonny, o perdão não vale nada agora... Se perdoa a quem se ama ainda um pouco... e é por Babe, por Babe, que não te perdôo.

―Por Babe, Delia? Me crê capaz de esquecê-lo?

―Não sei Sonny. Mas não deixaria jamais você voltar para o lado dele porque agora é apenas meu filho, apenas meu filho. Não deixaria nunca.

―Isso já não importa, Delia ―disse a voz de Sonny, e Delia sentiu outra vez, mas com mais força, que faltava algo (ou sobrava?) à voz de Sonny.

―De que lugar você me liga?

―Também não importa ―disse a voz de Sonny como se lhe afligisse responder assim.

―Mas é que...

―Deixemos isso, Delia.

―Está bem, Sonny.

(Sete e vinte e sete.)

―Delia... imagine que eu me vá...

―Você, ir-se? E por quê?

―Pode acontecer, Delia... Acontecem tantas coisas que... Compreende, compreende... Ir-me assim, sem teu perdão... Ir-me assim, Delia, sem nada... nu... nu e só!

(A voz estranha, tão estranha. A voz de Sonny, como se ao mesmo tempo não fosse a voz de Sonny.).

―Por que fala desse jeito, Sonny?

―Porque não sei... Estou tão só, tão privado de carinho, tão estranho...

―Mas...

Como através de uma neblina, Delia mirava fixamente à sua frente, na direção do relógio. Sete e vinte e nove; o ponteiro coincidia com a linha firme anterior ao traço mais grosso da meia hora.

Delia... Delia!

―De onde você fala...? ―gritou ela, inclinando-se sobre o telefone, começando a sentir medo, medo e amor; e sede, muita sede, e querendo pentear entre seus dedos o cabelo escuro de Sonny, e beijá-lo na boca―. De onde você fala...?

―...

―De onde você fala, Sonny?

―...

―Sonny...!

―...

―Alô, alô...! Sonny!

―... Seu perdão, Delia...

O amor, o amor, o amor. Perdão, que absurdo já...

―Sonny... Sonny, vem...! Vem, te espero...! Vem...!

(“Deus. Deus...!”)

―...

― Sonny...!

―...

―Sonny! Sonny!!

―...

Nada.

Eram sete e trinta. O relógio assinalava. E a rádio: “hi hi”. O relógio, a rádio e Babe, que sentia fome e olhava para a mãe um pouco assombrado com a demora.

Chorar, chorar. Deixar-se ir corrente abaixo do pranto, ao lado de um menino gravemente silencioso e como compreendendo que ante um pranto assim toda imitação devia se calar. Da rádio veio um piano muito doce, de acordes líquidos, e então Babe foi quedando adormecido com a cabeça apoiada no antebraço da mãe. Havia no apartamento como que um grande ouvido atento, e os soluços de Delia ascendiam pelas espirais das coisas, se demoravam, resfolegando, antes de perder-se nas galerias interiores do silêncio.

A campainha. Um toque seco. Alguém tossia, junto à porta.

―Steve!

―Sou eu, Delia ―disse Steve Sullivan―. Passava, e...

Houve um longa pausa.

―Steve... vem da parte de...

―Não, Delia.

Steve estava triste, e Delia fez um gesto maquinal convidando-o a entrar. Notou que ele não caminhava com o passo seguro de antes, quando vinha à procura de Sonny ou para jantar com eles.

―Sente-se, Steve.

―Não, não... me vou em seguida. Delia, você não sabe nada de...

―Não, nada...

―E, claro, você já não o quer a...

―Não, não o quero, Steve. E isso que...

―Trago uma notícia, Delia.

―A senhora Morris?

―Se trata de Sonny.

―De Sonny? Está preso?

―Não, Delia.

Delia se deixou cair no banco. Sua mão tocou o telefone frio.

―Ah...! Pensei que poderia ter me telefonado da prisão...

―Ele ligou para você?

―Sim, Steve, queria pedir-me perdão.

―Sonny? Sonny lhe pediu perdão por telefone?

―Sim, Steve. E eu não o perdoei. Nem Babe nem eu podíamos perdoá-lo.

―Oh, Delia!

―Não podíamos, Steve. Mas depois... não me olhe assim... depois chorei como uma tonta... veja meus olhos... e queria que... mas você disse que era uma notícia... uma notícia de Sonny...

―Delia...

―Já sei, já sei... não me diga; roubou outra vez, não é verdade? Está preso e me ligou da prisão... Steve... agora sim quero saber!

Steve parecia confuso. Olhou para todas as partes, como buscando um ponto de apoio.

―Quando ele lhe ligou, Delia?

―Faz pouco tempo, às sete... às sete e vinte, agora me lembro bem. Falamos até sete e meia.

―Mas, Delia, não pode ser.

―Por que não? Queria que eu o perdoasse, Steve, e somente quando caiu a ligação compreendi que estava verdadeiramente só, desesperado... E então era tarde, ainda gritei, gritei ao telefone... era tarde. Falava da prisão, não é verdade?

―Delia... ―Steve tinha agora o rosto branco e impessoal e seus dedos se crispavam na aba do chapéu manuseado―. Por Deus, Delia...

―O que foi, Steve...?

―Delia... não pode ser, não pode ser...! Sonny não pode ter ligado faz meia hora!

―Por que não? ―disse ela, pondo-se de pé e em um só impulso de horror.

―Porque Sonny morreu às cinco, Delia. Mataram-no com um tiro, na rua.

Do berço chegava a respiração rítmica de Babe, coincidindo com o vai e vem do pêndulo. O pianista da rádio já não tocava mais; a voz do locutor, cerimoniosa, louvava com eloqüência um novo modelo de automóvel: moderno, econômico, extremamente veloz.



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*Extraído do livro de contos “La otra orilla” (1945), publicado em: Julio Cortázar/ Cuentos completos 1- Buenos Aires: Punto de Lectura, 2007.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Dois costureiros




― Vamos costurando nossas belezas ―disse.

― Sim, conquanto faremos uma bandeira e não uma mortalha... Um parangolé e não uma bandeira ―apressou-se em corrigir-se o segundo.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A performance

Pedro e Marta haviam combinado de irem juntos à abertura, cercada de mistério, da instalação do artista que estava causando sensação naquele momento na cidade. Mas Pedro tivera um problema no trabalho àquela tarde e chegara muito atrasado ao casarão transformado em galeria e local para exposições e performances como aquela. Chovia e ele procurou em vão Marta na pequena multidão que deixava o local às pressas, molhada e espavorida. Como não a encontrou, resolveu juntar-se ao segundo grupo que já se formava na fila de entrada.

O casarão ficava numa parte elevada e tinha uma construção bizarra por causa do terreno desnivelado. Antes de chegar à porta principal passava-se por uma piscina ladeada por paredes altas, localizada na parte abaixo do casarão, e um muro lateral por onde subia uma escada de degraus largos, cercada de jardins.

Passando pela porta, chegava-se às muitas salas. Um recepcionista mudo entregou o programa a que se deveria assistir. Setas e placas apontavam a direção. O programa dividia-se em duas partes. Na primeira, em uma sala de cinema especialmente preparada era projetado um documentário fictício em preto-e-branco sobre vítimas da ditadura em um país latino-americano. Nos dois lados da sala havia máquinas, em torno de dez, metade em cada lado, que Pedro notou serem imitações de aparelhos mata-moscas eletrônicos de luz negra, que no início da sessão permaneciam apagados.

No final do filmete, falado em espanhol e português, que durou 15 minutos, os personagens principais reapareciam na tela e os que haviam sido torturados até à morte diziam seus nomes e iam lentamente desaparecendo da tela, quando, para cada menção, se acendia o mata-moscas fazendo o barulho característico de eletrocussão e um cheiro de carne queimada era exalado.

Em seguida, ia-se a outra sala onde um outro filme mostrava o próprio artista caracterizado de Little Richard cantando acompanhado por uma banda de músicos vestidos como gângsteres. No meio do show, a apresentação era interrompida e em seu lugar eram exibidas imagens do lado de fora. As imagens focavam as pessoas que tinham saído da sessão anterior deixando o local apressadamente, ao som de uma música marcial, descendo os degraus da escada atabalhoadamente, alguns corriam.




Canhões laser disparavam finos feixes de luz vermelha sobre as pessoas. Os feixes de laser eram seguidos de sons que imitavam balas sendo disparadas e barulhos de detonação e pessoas gritando. No meio daquela confusão, Pedro pôde distinguir Marta, num momento em que quase caiu e olhou para trás, a câmera aproximou seu rosto num close.

Por fim, as luzes se acenderam, a música terminou e era a vez dos que tinham assistido ao filme sair para a rua. Pedro tentou ligar para Marta, mas do outro lado do celular ninguém atendeu a ligação.

Chovia mais forte quando ele deixou o casarão, o que tornou a “escapada” ainda mais dramática. Pedro abriu o guarda-chuva preto iluminado por fora pelo canhão de luz vermelha em meio aos estampidos, silvos e gritos e forçou a passagem pelo grupo que ia mais à frente.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Cidade do México - Diário de viagem

Frida Kahlo por Antonio Gironella


(Instantâneos)
-escrito em portuñol selvagem-

Xochimilco: Pântano Azteca de águas oscuras. Aquí hay gente que vive aislada. A mãe levando de balsa, remando, seus filhos para la escuela. Nosotros y los mexicanos bebiendo frescas cervezas. Tristes-alegres, “valsam”. Noches Buenas*, los terribles Mariachis e bem no fundo, quase não se notam, emplumados para la guerra, eles nos olham.

Teotihuacan: Das casas de palha e barro, nenhum vestígio. Palácios, um rei morou aqui. Do alto da pirâmide, larga vista para o vale de los muertos ―“camelando” sus últimas bugigangas.

Centro, praça do Zócalo: Em uma tenda zapatista armada, solitária, alguém canta una vieja canção, Che Guevara. Policiais no palacio del Gobierno montam-guardam os murais de Rivera.

Centro, Catedral: Silêncio. No centro, à entrada, de interior negro, Jesus Del Veneno, oscuro, pende de la cruz, como se pendesse de um galho, antes dos outros santos e altares. Tudo alto y dependurado. Cheiro incenso ―mais silêncio, intenso, vindo de fora, da praça, um canto, irreproduzível, la-la-la-la, de tristeza amplificada de micrófono, alegre y desesperada. Um campesino escuta a si próprio na sala reservada, a conversar com estátuas, que lhe olham, e a si mesmas, assustadas, em su silencio de luto e de madera.

Palácio de Belas-Artes: Fuera los santos! Catedral (in)útil onde se odeia/adora el hombre: de novo Rivera, Orozco ―um rasgo en las paredes, mejor que los murales, gigantescos y tirânicos: Gironella, pinturas que  son un corte y sangran.

Museo Nacional de Arte: Bela moldura, em espanhol. Patio sin nombre ―donde contemplo o vazio, el tiempo, como se fuera la mas bela de las artes, subindo y descendo las escaleras.

Calle Francisco de Souza: O ocre cor de terra das casas da calle Francisco de Souza, hijos de la Malinche, também tingida de azul cobalto y Frida, que eu não vi, as aquarelas do museu de aquarela...

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* "Noche Buena" é o nome de uma cerveja mexicana, do tipo premium, escura, de edição limitada e lançada nos meses de outubro a dezembro para ser consumida na noite de Natal (a "Nochebuena", como é chamada). É também o nome de uma flor vermelha estampada no invólucro da cerveja.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Perspectivismo (poema)

Livre ou aborrecido
O pássaro gira em círculos no céu
Suas asas molhadas, sob a chuva
Úmida
Traçando cálculos precisos.
Acaso não sonha ele
Com pés e mãos
Na terra
Livre de sua prisão?

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Política e incesto em Casa Tomada

No conto Casa Tomada, Cortázar afirmou haver por trás a idéia do incesto entre irmãos. Está no livro "Conversas com Cortázar", publicado pela Zahar - as confidências e idéias trocadas entre o repórter uruguaio Ernesto González Bermejo e o escritor argentino Julio Cortázar - amigos e companheiros de exílio.

Casa Tomada foi escrito a partir de um sonho. Então tem muito de inconsciente lá, tabus, essa coisa toda e mais a subida ao poder do Peronismo. Achei o aúdio de uma entrevista em que Cortázar fala sobre isso e o aúdio do próprio Cortázar lendo o conto.

Um outro conto genial dele que li esses dias, chamado "A Saúde dos enfermos" virou peça encenada em São Paulo.