sábado, 27 de março de 2010
Theodarikis, Angelique Ionatos e Elomar
john williams - songs of freedom - theodorakis (1971).rar
Angelique_Ionatos_-_O_Erotas__1992
Elomar_Auto da Catingueira_1984
quinta-feira, 25 de março de 2010
terça-feira, 23 de março de 2010
O Kyklos Tou Nerou/O Ciclo da Água
por Angelique Ionatos - Album "Mia Thalassa" (Um Mar)
Mikis Theodorakis- Dimitra Manda- Angelique Ionatos
έτσι όπως κλείνει ο Κύκλος του Νερού
κι η μοναξιά μου μέσα του ανθίζει
Toda chuva traz uma música
encerrando o ciclo da água
que aflora minha solitude
Τέτοια στιγμή να ρθεις
που η μέρα σβήνει
στην αγκαλιά μιάς θάλασσας
γεμάτης μουσική
Chega a hora em que o dia termina
nos braços de um mar
cheio de música
sábado, 13 de março de 2010
Ainda intradoxos- o Mar
"[falar do mar é uma imposição do mar]"
...
"preferia ser herói do mar e é preciso pedir ao céu"
...
"o mar do sem música"
...
"Os ghindastes [dorsos de cavalos] bebendo do mar
e a chuva
este alaúde com cordas [também] de vidro
teia-cloro
À deriva"
...
E este que não tem a ver (ou terá?) com mar, que de tão "paulistano" deveria ser gravado nos trens que por aqui transitam, ao lado dos velhíssimos Camões:
"A incerteza dos esgotos
[urbe-uretra]
os sonhos subterrâneos do metrô
onde até os poetas têm cartão de ponto"
quarta-feira, 10 de março de 2010
Intradoxos-O mar
excepto o
mar" [Tudo caminha para o mar]
Fragmento de Intradoxos, um livro assombroso, de Márcio-André, um Ezra Pound carioca, da Confraria do Vento.
Como isso é verdadeiro! Como estão aguados de mar os poemas!
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Fim de Sumário de Incertezas
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Carnaval 2x4
Neste blog argentino pode-se baixar tudo: Taringa
Paludes
Pág. 11 ― Disse: Ah! você está trabalhando?
Pág. 107 ― Precisamos carregar até o fim todas as idéias que suscitamos.
Pág. 28 ― Bom para Paludes.
Pág. (*)
.........................................................................
(*) Para respeitar a idiossincrasia de cada um, deixamos a cada leitor a tarefa de completar esta página.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
3 poemas
O Poeta
Acostumar-se a este ofício
Que não é melhor, nem pior
A nenhum outro
Mas que é o único em que te sentes
Igual a ti mesmo e teus semelhantes
Com todas tuas garras e dentes
E preocupar-se com mais nada
A poesia
A poesia é um longo e interminável diálogo entre poetas, no qual se entra como num rio caudaloso. Igual perigo de afogar-se nessa corrente.
Buenos Aires (*)
Não sei quando voltaremos, Buenos Aires
talvez nunca, talvez esta noite, talvez nunca
quem sabe?
Talvez esta cidade seja como todo o resto
criado pelo imprecavido intento humano
de reinventar-se.
Talvez não seja mais que isso, uma breve ilusão
rodeada de praças bem ou mal iluminadas
Um labirinto efêmero em que se perder
e ao qual sonhamos, constantemente, reingressar.
_________
(*)Fiquei com medo de ter roubado o poema Buenos Aires de Borges ou de alguma coisa que li sobre Borges. O fato é que a figura do labririnto ---e do labirinto dentro do labirinto, penso no cemitério da Recoleta--- é inseparável daquela cidade. Estou carregando na minha mochila o volume 1 das obras completas do homem, em que consta "Fervor de Buenos Aires", primeiro livro (e de poesia) dele. Tinha lido antes e não tinha gostado, agora depois de ter conhecido BsAs passou a fazer outro sentido.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
"Escrever o menos possível"
Minha memória mais marcante é de estar caminhando [ao lado de Eliot] na Kingsway depois de algum almoço, provavelmente por volta de 1930, momento em que me encontrando sozinho com o grande homem senti que era oportuno levantar uma questão prática que andava me causando certa angústia. “O senhor acha realmente necessário, Mr. Eliot”, disparei, “como o senhor disse no prefácio à antologia dos poemas de Pound, que um poeta escreva versos ao menos uma vez por semana?” Ele estava se preparando para atravessar a Russel Square, olhando para o tráfego nas duas direções, e estávamos nos esquivando dos carros quando sua lenta resposta começou. “Eu estava pensando em Proust quando escrevi aquela passagem”, começou a profunda e triste voz, e então houve uma pausa considerável. “Tomando a questão de modo geral, eu diria, no caso de muitos poetas, que a coisa mais importante que eles teriam a fazer… é escrever o menos possível.” A gravidade da última frase era tão pura que lhe conferia uma qualidade quase lírica. Um leitor pode pensar que se tratava de uma manifestação de desdém ou de uma simples brincadeira, mas eu ainda hoje acho que não era; e naquele tempo me pareceu uma resposta não apenas muito sensata mas também muito satisfatória. Tirou um grande peso da minha consciência.
Comentário meu:
Eu tendo a pensar assim como John Haffenden, também tirou um grande peso da minha consciência! TS Eliot é um dos meus preferidos.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
NO PASA NADA
![]() |
| "Lembrava uma pintura de David Hockney, com alguma coisa de decadente." |
![]() |
| “Inutilmente, lia para si mesmo (...) o resultado pífio em que comparava a lua nova (...) aos olhos convulsivos (...) das vítimas do acidente ocorrido há poucos dias no Metrô”. |
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Três poemas

SÍSIFO FELIZ?
Coragem
Paciência
Retidão
Honestidade
Rolar a pedra
Caráter
Ânimo
Disposição
Boa vontade
Rolar a pedra
Energia
Bem estar
Empolgação
Humanidade
Rolar a pedra
Sísifo só tem este
ideal.
RIMA, RIMADOR!
Aprender com o alvo
a flecha
Com o fim
a festa
Com o rasgo
a brecha
Com o beijo
a testa
Com a viga
a mestra
O que me resta
nesta vida
nesta rima
tão canhestra.
O INSETO
Tem da natureza inseta
a atração
por luzes
pelo perfume das flores
e das bebidas.
sábado, 24 de outubro de 2009
sábado, 3 de outubro de 2009
domingo, 27 de setembro de 2009
Baladinha da primavera
sábado, 26 de setembro de 2009
Retorno à simplicidade
Livros com 50% de desconto:
Poesia completa de Garcia Lorca
Edição bilingue da Editora da Imprensa Oficial.
Quase 700 páginas.
Reencontro as canções (vontade de escrever), reencontro toda uma poética, que parece simples...que fala de vento no olival, vento na serra...
Poema de la solea*
Tierra seca
tierra quieta
de noches
inmensas.
..(Viento em el olivar,
viento en la sierra.)
Tierra
vieja
del candil
y la pena.
Tierra
de las hondas cisternas.
Tierra
de la muerte sin ojos
y las flechas.
..(Viento por los caminos.
Brisa en las alamedas.)
__
*ou "soledad": canção típica da Andaluzia, informa o tradutor na edição do livro.
domingo, 20 de setembro de 2009
Commentary on The Cantos of Ezra Pound,
Comentários dos Cantos (no final da página):
Canto I, II & XX, III, IV, VIII, IX, X,
XI, XII, XIII, XIV, XV, XVII, XVIII, XIX,
XXI, XXXI, XXXII, XCVIII
Relembro-me, de mim, quando a poesia era um mistério
E eu tropeçando pelos Cantos, sem entender niente:
“E o Buccentoro, a vinte jardas bradando “Stretti”,
Mas adorando tudo -
“Luz: e a luz primeira antes de qualquer orvalho”
“Ou: a escada cinza segue acima sobre os cedros”.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
sábado, 29 de agosto de 2009
Fabulador de pulsões negativas
O antiblogger?
Escrever somente quando necessário.
Como Paul Valéry, que acordava no meio da noite assaltado pela urgência de uma frase ou pensamento e assim preencheu cadernos e mais cadernos absolutamente desnecessários. E aqui me contradigo, pois, em literatura, como na vida, como saber quando e o que é de fato necessário?
* * *
"Poste-escrito": sobre isso e sobre a "necessidade do sentimento", ler (valeria a pena meditar?) minha tradução do texto Pequeno Café, de Valéry.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Poésie perdue
dans une..............
cellule
Poesia perdida
domingo, 31 de maio de 2009
O monge e o desassossego
Uma bem intencionada amiga emprestou-me O monge e o Executivo, de James Hunter. Pus na minha mesa de cabeceira debaixo do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Eles que se entendam!
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Meus poemas, Um bom poema
Você me perguntou para aonde foram meus poemas? Eles estão por aí, jogando bola, mudando de cidade, ou de emprego, arrumando briga. Como dizia Leminski *: um bom poema, minha amiga, leva uma vida.
_______________
*um bom poema leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade,
eu e você, caminhando junto.
Paulo Leminski
sábado, 23 de maio de 2009
domingo, 26 de abril de 2009
O filho eterno
Em O Filho Eterno, de Cristovão Tezza, não há tanta crueldade, ao contrário do que afirma o crítico da Veja, cujo comentário vem estampado na contracapa do premiado livro do escritor nascido em Lages-SC. Não dá para equipará-lo a Céline ou Onetti, nesse quesito, por exemplo. Talvez porque os personagens do livro sejam reais - principalmente seu filho, alvo da "crueldade" por ser portador da síndrome de Down, que ele não se reprime às vezes de qualificar como 'idiota", para em seguida demonstrar uma infinita paciência (eu não diria "compreensão", mais uma tolerância diante do inevitável). O que o crítico da Veja queria era quem sabe um outro "Marley e eu". E o romance (no que até onde hoje em dia se chama de romance) não oferece nenhum guia de auto-ajuda. Ele está tão perdido quanto nós. É um escritor, e isso basta. Em alguns momentos me lembra um John Fante, tentando ir em frente com seus escritos e hesitante diante da acolhida que têm. O Brasil, a dificuldade de se viver num país como o nosso, aparece como pano de fundo, nas lembranças do autor. Imigração e trabalho subalterno no exterior, a casa comprada com juros extorsivos embutidos num plano picareta do Governo, o medo diante da polícia, que dariam um segundo romance. O livro termina em um ponto que poderia ter sido outro qualquer. A ficção imita ou antes acompanha a vida dele e seu filho, impedido de chegar à idade adulta (que o pai, como ele próprio faz questão de sublinhar, por sua vez, reluta em alcançar) , daí o "eterno" do título.
sábado, 28 de março de 2009
Porque gosto tanto deste poema
Madadayo (*)
Um fio de cabelo
branco brotou no meu peito.
Tu, coração, velho?
__________________
(*)Madadayo (pt: Ainda Não) é um filme japonês de 1993, o último dirigido e escrito por Akira Kurosawa. O filme é baseado na história real do professor Uchida Hyakken, que se aposentou depois de 30 anos lecionando literatura alemã para se tornar escritor. Com grande carisma e humor peculiar, conquistou o repeito e a amizade de seus alunos na forma de comemoração: todos os anos, no dia de seu aniversário, era comemorado o Madadayo, quando os alunos perguntam "Mada kai?" (Pronto?), e ele depois de uma imensa taça de cerveja respondia "Mada dayo!" (Ainda não!) significando que seus alunos teriam que "agüentá-lo" por mais um ano.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
segunda-feira, 23 de março de 2009
Recordações em vermelho, preto e branco

Mas a maioria dos meus jogos se passava de casa para dentro. Nos jogos solitários que inventava, como o “futebol de mão”, em que, usando uma bola de gude e duas traves improvisadas em cima da mesa, uma mão jogava contra a outra (havia muitos empates). Ou o “futebol de parede”, que consistia em chutar a bola com força contra a parede da garagem e rebater sem dar dois toques e nas poucas vezes que jogava com meu irmão mais novo (que, no entanto, preferia a leitura dos romances de Stendhal ao nobre esporte inglês).
Eu morava a poucos passos do estádio de futebol, o “Nogueirão”, um campinho de terra amarronzada e uma árvore solitária pouco frondosa separavam minha casa do local onde ocorria, a intervalos sucessivos, o clássico Potiguar versus Baraúnas ― eu nunca tinha entrado lá. Só uma vez, em 1985, quando tinha 14 anos, meu pai me levou para assistir ao jogo amistoso do Flamengo contra o Baraúnas. Os jogadores do Fla com o uniforme branco, o que eu mais gostava, com o qual a equipe conquistou o campeonato mundial de interclubes, em 1981. Era o grupo de Zico, Adílio, Júnior, Tita, Leandro, Andrade, Raul... O melhor time que o Flamengo já montou e que colecionou vitórias naquela década.
Os jogadores do Baraúnas iam a pé ou de bicicleta treinar ― daquelas bicicletas Monark barra-forte, de pedreiro. Um time que nunca havia ganhado nenhum título fora de casa, surgido inicialmente como bloco carnavalesco, cujo nome foi inspirado no cacique “Baraúnas”, líder da tribo Monxorós, que habitava a região. (Como, aliás, está dito no hino do clube, o qual, obviamente, eu nunca havia escutado: “Baraúnas, tu és origem / Da história que fez tradição. / Foste chefe, na mata virgem, / De uma tribo desta região...”).
É claro, na época, eu não pensava que nada disso fosse contraditório. Na verdade eu (ou era meu pai) odiava Mossoró. Torcer contra o time da cidade era perfeitamente razoável. Eu mesmo não havia telefonado uma vez, a pedido do meu pai, para uma emissora, num programa de rádio que denunciava as mazelas da cidade e dito a frase: “Agora desminta a Folha de São Paulo!”? Tudo por causa de uma matéria publicada naquele jornal que havia revoltado o município. Falava, entre outras coisas, das bicicletas (na ocasião, o número desses veículos por habitante em Mossoró era comparável ao da China) e das carroças disputando lugar com os carros. Eu havia depois desligado, deixando atônito e enraivecido no outro lado da linha o apresentador, que ainda tentou retrucar, deixando solto um início de resposta, evidentemente não ouvido, “Nós...” e depois falou disso ao vivo no programa ido ao ar em seguida.
Aqui cabe uma explicação. Meu pai e a família dele eram paraibanos, e ele havia se mudado a contragosto para Mossoró. A cidade era extraordinariamente quente e seca ― apesar das praias a pouco mais de 40 km, para onde nós, sem que eu encontre agora nenhuma explicação além da que irei dar a seguir, não íamos nunca. Meu pai detestava praia, gostava das serras paraibanas, onde havia se criado, e era capaz de dirigir um dia inteiro (com um braço quebrado e engessado, como ele havia feito uma vez levando a mulher e os filhos) para chegar à Paraíba. Na casa dos avôs, meus quinze tios viviam em pé de guerra, porque uns eram vascaínos, outros botafoguenses e outros, ainda, eram flamenguistas “doentes” como meu pai e eu.
Meu pai me punha na frente da TV vestido com o uniforme do Flamengo, todos os cinco filhos, na verdade, inclusive as duas meninas, uniformizados em frente à TV. E quando não passava o jogo do Flamengo, a salvação era o rádio. Aliás, ele desligava o som da televisão porque não suportava os comentaristas e ligava o rádio, cujos profissionais eram muito mais competentes e informados, segundo ele. No rádio, uma jogada que parecia completamente sem graça virava um momento emocionante, todos os momentos eram culminantes na narração e quando a jogada acabava, entrava o locutor anunciando a hora ou um reclame do Ponto Frio Bonzão (um nome que me fazia pensar não no Rio de Janeiro, mas num lugar gelado e tão distante de Mossoró quanto a Lua, como o Pólo Norte) e outras lojas que eu não conhecia.
O Nogueirão era palco, também, quando não tinha jogo, de torneios de bingo (para cada dezena sorteada, o locutor anunciava: “Núuuumero dez!”. Ou vinte, trinta etc. E acrescentava à frase um “De rombo!” para indicar, talvez para quebrar a rotina monótona dos jogos de bingo, que o número proclamado continha um zero)... E corrida de jegue. Eu gostaria que meu pai tivesse me levado pelo menos uma vez a uma daquelas sensacionais corridas de jegue. Eu só havia escutado a música tocando nos alto-falantes, que continha uma lição jamais esquecida (recordo até hoje): “O burro é quem merece uma medalha/ O burro é quem trabalha/ O burro é quem dá duro...”. E foi então que Zico e companhia, com seu uniforme branco no qual havia bordado, acima do peito, orgulhosamente, uma estrela amarela de campeões do mundo na final contra o time do Liverpool, em Tóquio, pisaram o mesmo gramado que os jegues já haviam adubado tantas outras vezes.
Vinte e três anos depois e me esforço para recordar como foi a partida. Em vão. Só me lembro dos uniformes brancos, de como gostei de estar no estádio com meu pai, torcendo pelo Flamengo, na arquibancada, e do formato redondo do estádio de cimento armado. Lembro que, comparado à proximidade dos “closes” da televisão, os jogadores pareciam pequenos de onde eles estavam.
Lembro de ter olhado para fora do muro e visto minha casa, onde ficaram minha mãe e meus irmãos. Da noite cálida e do campo verde ― não sabia que era tão verde, ou será que imagino agora que era tão verde? ―, dos mosquitos ao redor das torres de iluminação ― e imediatamente me recordo da vez em que uma coruja se perdeu e veio cair tonta no quintal de minha casa, por causa das luzes do estádio de futebol.
Lembro que estranhei a falta de “replay” nos gols, de meu pai e eu vestidos com a camisa do time rubro-negro (em nenhum momento pensei que fosse um time “carioca”). Meu pai com um radinho, que ele tanto gostava, de alça e botão seletor para mudar de estação. A sensação que tenho é de uma nostalgia silenciosa, de volta ao passado, com todas as sensações tácteis e visuais, mas nenhuma lembrança fixa, nem auditiva ou olfativa, um mergulho com bolhas numa piscina de água muito quente e muito funda.
Sim, havia outros flamenguistas, uma horda estranha como eram eu e meu pai, e vieram de todas as partes, de seus lares também silenciosos, naquele dia no estádio, mas eu não os conhecia e não fiz nenhum contato com eles, nem o meu pai. O que minha memória reteve foi um espaço vago e teatralmente iluminado na arquibancada, ocupado por meu pai e eu somente.
O que lembro, como se fosse hoje, é do verde do campo de futebol, do branco com listras em vermelho e preto do uniforme do Flamengo, da sensação térmica de calor envolvendo todos, onde talvez soprasse de vez em quando uma brisa noturna vinda daquelas praias afastadas e dos insetos em volta das luzes das torres do estádio, confundindo as aves noturnas.
sábado, 7 de março de 2009
Pedro Páramo
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Não existe
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
A vida Breve
No fim do romance A vida Breve de Onetti, os personagens, que diga-se de passagem, são produtos da fantasia criados por outro personagem Juan María Brausen, estão fugindo da polícia. Fantasiados, "excessivamente escondidos no Carnaval", sem roupas para trocar e sem nenhuma perspectiva, sem dinheiro nem documentos, deixados para trás na fuga, sem ter mais para onde correr, eles sabem que quando acabar esse que é o último dia de folia, eles não vão conseguir passar mais despercebidos. É a hora em que está amanhecendo em Buenos Aires e eles estão sentados numa praça enquanto brindam à má sorte com copos vazios e a um homem muito velho que "alimentava-se de minúsculos mistérios sem importância. Na hora da morte acreditou que se salvaria dizendo estar com sono".
sábado, 21 de fevereiro de 2009
A conta do Marques
Bernardo Soares. O Livro do Desassossego.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
sábado, 7 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Os detetives selvagens2
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Aleijadinho
Religião e mendicância
Em Ouro Preto, há um Museu do Oratório, com peças de todos os tipos. Entre os oratórios, existia um chamado de "esmoler", utilizado por mendigos, pendurado no pescoço, para pedir esmolas. Há uma linha contínua unindo religião e mendicância.
domingo, 25 de janeiro de 2009
Minas
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Salvação. De viagem
Como estou de viagem para Minas Gerais esses dias e devo me enfiar em algumas Igrejas (só espero que não estejam muito mofadas), acho bom ir me acostumando com isso. Levarei meu caderno de notas (caneta e papel) comigo, além de anti-histamínico, tomarei minhas impressões.
domingo, 4 de janeiro de 2009
A vida Breve 2
Há livros que não deveríamos ler. Que querem dissipar suas sombras tristes sobre nós, através de nós, tornando-nos seus personagens. Livros assim escravizam. Talvez Onetti fosse louco, assim como todos os grandes escritores (Joyce, Céline, Becket). E talvez escrever seja uma forma de ir adiante. Levantar-se, preparar o café com ovos mexidos, limpar-se, tomar banho, abotoar o paletó e dirigir-se até o escritório. Enquanto sentem se avolumar ao redor as ondas surdas do caos .
sábado, 3 de janeiro de 2009
Paul Valéry
A vida breve
domingo, 28 de dezembro de 2008
Poema para uma derrota (2)
Marcador 2
Notas sem texto (2)
"Não inventamos nada, acreditamos inventar quando na realidade nos limitamos a balbuciar a lição, os restos de alguns deveres escolares aprendidos, esquecidos, a vida sem lágrimas, tal como a choramos. À merda.", diz o narrador, o qual, desde então passa a fazer parte do quadro descrito por ele (Rimbaud e Kafka estão entre os mais citados), sua obra também entra no universo das obras de arte em suspenso que povoam e assombram essas "notas sem texto", como ele, Quase-Watt / Vila-Matas, as chama, ou, alternativamente, "Notas do não".
Nota sem texto (1)
Após terminar a leitura de Bartleby, de Melville, e em seguida a de Bartleby e companhia de Enrique Vila-Matas, parece que me sinto pronto a terminar de escrever o novo conto que eu havia esboçado (ou seria melhor dizer, terminar de começar?).
domingo, 14 de dezembro de 2008
Marcador
sábado, 13 de dezembro de 2008
Na cafeteria
Notas 13/12/2008
Descobri hoje, lendo na nova livraria do shopping no bairro, que pertenço à linhagem dos Bartleby – os escritores do Não. Li o capítulo I do livro inspirado no escrivão de Melville, Bartleby & Cia, de Enrique Vila-Mattas. A preço de um café, li na cafeteria. (É quase tão bom quanto levar sem pagar. Não que eu faça isso. Não mais). O livro custa absurdos R$ 45,00. A editora Cossac & Naif tem sempre os livros mais caros, coffee tables de luxo. No shopping, várias senhoras desesperadas para "estar adquirindo" o best-seller que irão dar de presente no Natal para os parentes e "amigos secretos" que não irão ler. Frase de Juan Rulfo citado por Vila-Mattas, para justificar o porquê de ter escrito quase nada mais depois de Pedro Páramo: "Hoje em dia até os maconheiros publicam livros, tem muito livro estranho por aí". Sorri.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Poema para uma derrota
Poema para um derrota
Entulhas pela casa, em todo canto, os restos do passado. Passeias entre caixas, malas, bolsas, vendo o desgoverno do teu estado. Lá fora, no orvalho da noite fria, não podes deixar de cobrir com lona, devido à chuva das monções, a velha cadeira pia que tantas vezes te sentou. Não podes deixar de notar o tanto de sonhos fracassados que és. O mar de espíritos velhos, este sertão cerrado convés vazio ao mar.
Entulhas pela casa alheia, em todo canto, o relógio velho parado, o monte de saco seco nordestinado, o quadro inacabado do pintor falido, o fogão sem forno funcionado. Procuras no meio do entulho a coleção de pedras, verás estranhamente, que elas continuam pedras. Mas já não pedras como antes. Agora são pedras mudadas, acompanhadas do claudicante pó do nada.
Duas imagens me causam impacto e dão idéia da força do poeta: a cadeira pia (porque velha mãe que "lhe sentou" tantas vezes no colo) que não se pode deixar de cobrir com lona, para proteger-lhe, este resto de passado tornado coisa, devido à chuva das monções - e o uso da palavra monção, de origem árabe, para indicar chuva intensa sazonal, tem um sabor especial também para os nordestinados como Gustavo.
A segunda imagem que fica é a da coleção de pedras, transformadas pelo tempo em outra coisa, cobertas por um pó de nada hesitante, metáforas para o próprio poema, que se oferece o tempo todo en abîme.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Descobri Enrique Vila-Matas
Descobri Enrique Vila-Matas. Leyla Perrone Moisés diz que é um dos melhores escritores espanhóis da atualidade. Gostei que ele mescla romance/crônica/ ensaio, memória e ficção. Estou para comprar Bartleby, mas preciso ler antes Melville, de quem não li sequer Mobydick. Quem disse q ignorância é uma benção? Talvez compre em espanhol, pois sai muito mais barato.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Surpresa na percepção de obras de arte
Quando algo surpreendente ou sugestivo de alguma coisa que não podemos decifrar de imediato se interpõe diante de nós, atinge nossos sentidos na forma de um choque, de intensidade mais ou menos variada.
Algo que ocorre sempre quando estamos diante de uma obra de arte visual, por exemplo, uma pintura, uma vez que não podemos apreendê-la na totalidade absoluta, mas que excita nossa atenção, desafiando-nos a abarcá-la, ao menos em parte, através de nossa consideração sensível.
Sempre há esforço envolvido nisso, por menor que seja. A percepção de uma obra de arte visual não é algo cândido, mas sim que envolve de modo pré-determinado um certo grau de reação ou choque, necessário para haver de fato experiência.
Muitas outras coisas fazem isso. Na verdade, esse é o funcionamento normal da visão que temos de uma imagem qualquer, cuja visão, aliás, sempre se dá através de um percurso complexo.
E para além da ocorrência que experimentamos sempre alguma reação na percepção, e que uma imagem qualquer só pode ser vista à custa de uma exploração não inocente do olho sobre a superfície, uma obra de arte é, além disso, feita com o intuito de ser percebida, contemplada, experienciada, interpretada, de alguma forma.
Há em toda obra de arte legítima uma ânsia de comunicar algo, por mais inefável que seja. E para que um trabalho artístico comunique uma idéia qualquer, de forma a vir a se tornar compreensível, é necessário haver, em alguma medida, elaboração naquilo que é apresentado. Para que possa nos chamar a atenção e captar o interesse, é necessário que haja surpresa na percepção, cuja experiência disso ao final “nos recompense”.
Arnhein chamou isso de “desafio perceptivo”: “onde as pessoas se defrontam com uma situação exterior de tal modo que as suas capacidades de aprender, interpretar, elucidar, aperfeiçoar-se são mobilizadas”. Ele lembrou a “importância do desafio perceptivo” para nossas vidas e da necessidade de vencê-lo.
O que é necessário, segundo Arnheim, falando da obra de arte visual, “é a experiência de que, entre as coisas visíveis, haja algumas que possam, afinal de contas, ser compreendidas”.
A surpresa pode se dar até mesmo a partir do reconhecimento de um sentimento semelhante ao que já foi experienciado em uma ambientação diferente da que lhe era familiar. Isso pode ocorrer porque um sentimento jamais é exatamente igual a outro e novas idéias são sempre geradas, de acordo com novas associações de idéias provocadas por experiências de obras particulares.
Sempre resta algo de novo a descobrir em uma obra. Os seus sentidos e a capacidade de provocar em nós novas hipóteses são praticamente inesgotáveis; apesar de que podemos chegar a algumas crenças sobre alguns de seus efeitos, sendo isso inclusive o que irá nos ajudar na compreensão de outros efeitos possíveis.
Imagens de Manet. Olhares que nunca se cruzam e que observam o vazio extraquadro. “A ameixa”, “O balcão”, “Almoço no ateliê”, “Na praia”, “Na estufa”. Série de fotografias, da década de 90, de Sarah Jones, com “quarto” no título. “The sitting room”, “The dinning room”
Por exemplo, a semelhança com algo que já havíamos experienciado no passado, nos retratos de grupo de Manet, despertou nosso interesse, foi o que nos causou surpresa primeiramente, na fotografia de Sarah Jones.
Edouard Manet Na estufa, 1879 e Sarah Jones A sala de jantar, 1997
Isso fez com que nos demorássemos mais tempo na percepção da série que a fotógrafa britânica fez no final da década de 90, incluídas na coleção da Tate Galley, buscando entender o que estas nos “comunicavam”. Podemos dizer que Manet, os retratos de grupo do pintor em que os personagens são figurados em momentos de absorção mental e alheamento, em meio a cenas familiares, é parte do significado, do que é transmitido ou do que representam essas obras.
O artista geralmente trabalha no sentido de evitar a repetição, pela repetição pura e simples, mas ele pode, no entanto, acrescentar isso também à sua estratégia. A referência a obras do passado, recombinadas de modo interessante, de modo a continuar chamando a nossa atenção e ganharem assim uma outra “vida”, é uma tática bem sucedida na história da arte. O que é uma forma de fazer crescer a “idéia” dessas obras, reinterpretando-as em contextos diferentes.
sábado, 15 de novembro de 2008
A morte exata do crítico medidor
Por escolha própria não havia contraído nenhum matrimônio, nem tido filho. Evitava mesmo a todo custo o contato com outras pessoas. A não ser os fortuitos e de breve permanência. A crítica literária era sua única e verdadeira paixão. Havia nascido para isso, para ser crítico. E era o que exercia com afinco, na sua solidão de celibatário aplicado, até mesmo nos piores momentos de sua vida, nem sempre alegre.
Havia começado seu trabalho de medição da escritura do texto dos autores com uma medida em palmos, mas, aos poucos, com sua fama crescente e na proporção em que se avolumavam os pedidos que lhe chegavam de todas as partes do globo, havia abandonado esse padrão, já há muito ultrapassado, em favor de um mais pertinente ao sistema métrico vigente.
O nível máximo de escritura que algum autor já havia alcançando na sua rígida escala pessoal havia sido de 40 centímetros ―e o mínimo, em torno de ¼ de um palmo, cinco centímetros. Era um crítico diligente e tenaz e vivia, literalmente, afundando-se em livros e leituras.
Nos últimos dias de sua vida, estivera a ponto de desenvolver um novo método revolucionário, que iria lhe permitir medir, além da espessura, também a massa ou ―dito em outras palavras,― o peso da escritura de determinado autor.
Para isso já havia feito diversos testes, com balanças de todos os tipos, analógicas e digitais, nacionais e importadas, chegando a delinear um projeto de um protótipo especialmente adaptado às suas exigências, desenhado por ele próprio, para o qual, entretanto, infelizmente ficaram faltando muitos desenvolvimentos que permaneceram inconclusos.
Sua estante, como alguém poderia esperar, era abastecida com uma multiplicidade sem fim de livros, que cresciam numa torrente até o pé-direito do escritório que chegava à altura máxima de sete metros. Aos mais espessos e pesados, assim medidos por ele, dedicava um lugar de honra no topo da estante, que estava ficando para lá de abarrotada.
Foi vítima de um acidente inusitado e infeliz, porém, conseqüente com sua atividade literária, enquanto cochilava sobre uma pilha de livros recém-medidos, o pescoço molemente apoiado sobre o último da pilha, quase que se oferecendo inconscientemente ao sacrifício. Num momento e zás! A estante inteira veio a desabar em cima dele, causando-lhe morte súbita por esmagamento e quebra do pescoço.
Hoje se encontra enterrado sob sete palmos de terra. De vez em quando, algum autor timidamente iniciante, sedento de julgamento, ainda vem depositar algum livro que acabou de dar à luz sobre sua lápide, por uma crença que ficou difundida principalmente entre os escritores mais jovens. Na vã esperança de que, do além onde se encontra, o nosso crítico possa ler e declarar a sua apreciação, a respeito da medida exata de sua escritura.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
O telefone está tocando, Delia (1938)*
Tradução inédita de um dos primeiros contos de Julio Cortázar
por Lauro Marques
As mãos de Delia doíam. Como vidro moído, a espuma de sabão ardia nas rachaduras de sua pele, punha nos nervos uma dor áspera ferida repentinamente por lancinantes agulhadas. Delia havia chorado sem disfarces, abrindo-se para a dor como para um abraço necessário. Não chorava porque uma secreta energia a repelia para a queda fácil do soluço; a dor do sabão não era razão suficiente, depois de todo o tempo que tinha vivido chorando por Sonny, chorando pela ausência de Sonny. Teria sido degradar-se, sem a única causa que para ela merecia a dádiva de suas lágrimas. E, além disso, ali estava Babe, em seu berço de ferro comprado a prazo. Ali, como sempre, estavam Babe e a ausência de Sonny. Babe em seu berço ou engatinhando sobre o tapete surrado; e a ausência de Sonny, presente em todas as partes como são as ausências.
A bandeja, sacudida no suporte pelo ritmo do esfregar, se juntava à percussão de um blues cantado pela mesma garota de pele escura que Delia admirava nas revistas de rádio. Sempre preferia as transmissões da cantora de blues: às sete e quinze da noite ―a rádio, entre uma música e outra, anunciava a hora com um “hi, hi” de ratazana assustada― e até às sete e meia. Delia nunca pensava: “às dezenove e trinta”; preferia a velha nomenclatura familiar, tal como proclamava o relógio de parede, de pêndulo fatigado que Babe observava agora com um cômico balanceio de sua cabecinha insegura. Delia gostava de olhar a todo instante para o relógio e escutar o “hi,hi” da rádio; apesar de que lhe entristecera associar ao tempo a ausência de Sonny, a maldade de Sonny, seu abandono, Babe, e o desejo de chorar, e como a senhora Morris havia dito que a conta da despensa tinha que ser paga imediatamente, e que lindas eram suas meias cor de avelã.
Sem saber de início por qual motivo, Delia se pegou olhando furtivamente para uma fotografia de Sonny, pendurada ao lado da prateleira do telefone. Pensou: “ninguém me ligou hoje”. Pouco se compreendia a razão de continuar pagando mensalmente a conta de telefone. Ninguém ligava para esse número desde que Sonny se fora. Os amigos, porque Sonny tinha muitos amigos, não ignoravam que agora ele era um estranho para Delia, para Babe, para o pequeno apartamento onde as coisas se amontoavam no reduzido espaço dos dois cômodos. Somente Steve Sullivan ligava às vezes e falava com Delia; falava para dizer-lhe o muito que o alegrava de saber que gozava de boa saúde, e que não acreditasse nunca que o ocorrido entre ela e Sonny seria motivo para que deixasse de ligar perguntando por sua boa saúde e pelos dentinhos de Babe. Somente Steve Sullivan; e esse dia o telefone não havia tocado nem uma única vez; nem sequer por causa de um número errado.
Eram sete e vinte. Delia escutou o “hi,hi” misturado a anúncios de creme dental e cigarros mentolados. Ficou sabendo também que o gabinete Daladier perigava por instantes. Depois voltou a cantora de blues e Babe, que mostrava propensão para o choro, fez um gracioso gesto de alegria, como se naquela voz morena e espessa houvesse alguma guloseima que ele tinha gostado. Delia foi despejar a água com sabão e secou as mãos, queixando-se de dor ao friccionar a toalha sobre a carne macerada.
No entanto, não ia chorar. Só por Sonny ela podia chorar. Em voz alta, dirigindo-se a Babe que lhe sorria desde o seu berço em desordem, buscou palavras que justificaram um soluço, um gesto de dor.
―Se ele pudesse compreender o mal que nos fez, Babe... Se tivesse alma, se fosse capaz de pensar por um segundo o que deixou para trás quando fechou a porta com um empurrão de raiva... Dois anos, Babe, dois anos... e não tivemos mais notícias dele... Nem uma carta, nem um vale... nem sequer um vale para você, para roupa e sapatinhos... Não se lembra mais do dia de seu aniversário, não é mesmo? Foi mês passado, e eu estive ao lado do telefone, com você em meus braços, à espera que ele ligasse, que ele dissesse somente: “Alô, felicidades!”, ou que lhe mandasse um presente, nada mais que um presentinho, um coelhinho ou uma moeda de ouro...
Assim, as lágrimas que queimavam suas bochechas lhe pareciam legítimas porque as derramava pensando em Sonny. E foi nesse momento que tocou o telefone, justamente quando da rádio assomava o cansativo e pequeno chiado anunciando sete e vinte dois.
―Alguém ligou― disse Delia, olhando para Babe como se a criança pudesse compreender. Se aproximou do telefone, um pouco insegura ao pensar que poderia ser a senhora Morris exigindo o pagamento. Sentou-se no banquinho. Não demonstrava pressa apesar do tilintar insistente. Disse:
―Alô.
Demorou para se ouvir a resposta.
―Alô. Quem...?
Claro que ela já sabia, e por isso lhe pareceu que o apartamento girava, que o ponteiro de minutos do relógio se convertia numa hélice furiosa.
―Quem fala é Sonny, Delia, Sonny.
―Ah, Sonny.
―Vai desligar?
―Sim, Sonny ―disse ela, muito devagar.
―Preciso dizer-lhe muitas coisas, Delia.
―Está bem, Sonny.
―Está... está zangada?
―Não posso estar zangada, estou triste.
―Sou um desconhecido para você... um estranho agora?
―Não me pergunte isso. Não quero que me pergunte isso.
―É que me dói, Delia.
―Ah, te dói?
―Por Deus, não fale assim, nesse tom...
―...
―Alô.
―Alô. Pensei que...
―Delia...
―Sim, Sonny.
―Posso te perguntar uma coisa?
Ela notava algo estranho na voz de Sonny. Claro que podia já ter se esquecido de uma parte da voz de Sonny. Sem formular a pergunta, compreendeu que estava pensando se ele ligava para ela de uma prisão ou de um bar... Havia silêncio por detrás de sua voz; e quando Sonny se calava, tudo era silêncio, um silêncio noturno.
―... uma única pergunta, Delia.
Babe, no seu berço, olhou para sua mãe inclinando a cabeça com um gesto de curiosidade. Não mostrava impaciência nem desejo de irromper num pranto. A rádio em outro extremo do apartamento, acusou outra vez a hora: “hi, hi”, sete e vinte e cinco. E Delia ainda não havia posto para esquentar o leite para Babe; e não havia pendurado a roupa recém-lavada.
―Delia... quero saber se me perdoa.
―Não Sonny, não te perdôo.
―Delia...
―Sim, Sonny.
―Não me perdoa?
―Não, Sonny, o perdão não vale nada agora... Se perdoa a quem se ama ainda um pouco... e é por Babe, por Babe, que não te perdôo.
―Por Babe, Delia? Me crê capaz de esquecê-lo?
―Não sei Sonny. Mas não deixaria jamais você voltar para o lado dele porque agora é apenas meu filho, apenas meu filho. Não deixaria nunca.
―Isso já não importa, Delia ―disse a voz de Sonny, e Delia sentiu outra vez, mas com mais força, que faltava algo (ou sobrava?) à voz de Sonny.
―De que lugar você me liga?
―Também não importa ―disse a voz de Sonny como se lhe afligisse responder assim.
―Mas é que...
―Deixemos isso, Delia.
―Está bem, Sonny.
(Sete e vinte e sete.)
―Delia... imagine que eu me vá...
―Você, ir-se? E por quê?
―Pode acontecer, Delia... Acontecem tantas coisas que... Compreende, compreende... Ir-me assim, sem teu perdão... Ir-me assim, Delia, sem nada... nu... nu e só!
(A voz estranha, tão estranha. A voz de Sonny, como se ao mesmo tempo não fosse a voz de Sonny.).
―Por que fala desse jeito, Sonny?
―Porque não sei... Estou tão só, tão privado de carinho, tão estranho...
―Mas...
Como através de uma neblina, Delia mirava fixamente à sua frente, na direção do relógio. Sete e vinte e nove; o ponteiro coincidia com a linha firme anterior ao traço mais grosso da meia hora.
―Delia... Delia!
―De onde você fala...? ―gritou ela, inclinando-se sobre o telefone, começando a sentir medo, medo e amor; e sede, muita sede, e querendo pentear entre seus dedos o cabelo escuro de Sonny, e beijá-lo na boca―. De onde você fala...?
―...
―De onde você fala, Sonny?
―...
―Sonny...!
―...
―Alô, alô...! Sonny!
―... Seu perdão, Delia...
O amor, o amor, o amor. Perdão, que absurdo já...
―Sonny... Sonny, vem...! Vem, te espero...! Vem...!
(“Deus. Deus...!”)
―...
― Sonny...!
―...
―Sonny! Sonny!!
―...
Nada.
Eram sete e trinta. O relógio assinalava. E a rádio: “hi hi”. O relógio, a rádio e Babe, que sentia fome e olhava para a mãe um pouco assombrado com a demora.
Chorar, chorar. Deixar-se ir corrente abaixo do pranto, ao lado de um menino gravemente silencioso e como compreendendo que ante um pranto assim toda imitação devia se calar. Da rádio veio um piano muito doce, de acordes líquidos, e então Babe foi quedando adormecido com a cabeça apoiada no antebraço da mãe. Havia no apartamento como que um grande ouvido atento, e os soluços de Delia ascendiam pelas espirais das coisas, se demoravam, resfolegando, antes de perder-se nas galerias interiores do silêncio.
A campainha. Um toque seco. Alguém tossia, junto à porta.
―Steve!
―Sou eu, Delia ―disse Steve Sullivan―. Passava, e...
Houve um longa pausa.
―Steve... vem da parte de...
―Não, Delia.
Steve estava triste, e Delia fez um gesto maquinal convidando-o a entrar. Notou que ele não caminhava com o passo seguro de antes, quando vinha à procura de Sonny ou para jantar com eles.
―Sente-se, Steve.
―Não, não... me vou em seguida. Delia, você não sabe nada de...
―Não, nada...
―E, claro, você já não o quer a...
―Não, não o quero, Steve. E isso que...
―Trago uma notícia, Delia.
―A senhora Morris?
―Se trata de Sonny.
―De Sonny? Está preso?
―Não, Delia.
Delia se deixou cair no banco. Sua mão tocou o telefone frio.
―Ah...! Pensei que poderia ter me telefonado da prisão...
―Ele ligou para você?
―Sim, Steve, queria pedir-me perdão.
―Sonny? Sonny lhe pediu perdão por telefone?
―Sim, Steve. E eu não o perdoei. Nem Babe nem eu podíamos perdoá-lo.
―Oh, Delia!
―Não podíamos, Steve. Mas depois... não me olhe assim... depois chorei como uma tonta... veja meus olhos... e queria que... mas você disse que era uma notícia... uma notícia de Sonny...
―Delia...
―Já sei, já sei... não me diga; roubou outra vez, não é verdade? Está preso e me ligou da prisão... Steve... agora sim quero saber!
Steve parecia confuso. Olhou para todas as partes, como buscando um ponto de apoio.
―Quando ele lhe ligou, Delia?
―Faz pouco tempo, às sete... às sete e vinte, agora me lembro bem. Falamos até sete e meia.
―Mas, Delia, não pode ser.
―Por que não? Queria que eu o perdoasse, Steve, e somente quando caiu a ligação compreendi que estava verdadeiramente só, desesperado... E então era tarde, ainda gritei, gritei ao telefone... era tarde. Falava da prisão, não é verdade?
―Delia... ―Steve tinha agora o rosto branco e impessoal e seus dedos se crispavam na aba do chapéu manuseado―. Por Deus, Delia...
―O que foi, Steve...?
―Delia... não pode ser, não pode ser...! Sonny não pode ter ligado faz meia hora!
―Por que não? ―disse ela, pondo-se de pé e em um só impulso de horror.
―Porque Sonny morreu às cinco, Delia. Mataram-no com um tiro, na rua.
Do berço chegava a respiração rítmica de Babe, coincidindo com o vai e vem do pêndulo. O pianista da rádio já não tocava mais; a voz do locutor, cerimoniosa, louvava com eloqüência um novo modelo de automóvel: moderno, econômico, extremamente veloz.
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*Extraído do livro de contos “La otra orilla” (1945), publicado em: Julio Cortázar/ Cuentos completos 1- Buenos Aires: Punto de Lectura, 2007.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Dois costureiros
terça-feira, 21 de outubro de 2008
A performance
O casarão ficava numa parte elevada e tinha uma construção bizarra por causa do terreno desnivelado. Antes de chegar à porta principal passava-se por uma piscina ladeada por paredes altas, localizada na parte abaixo do casarão, e um muro lateral por onde subia uma escada de degraus largos, cercada de jardins.
Passando pela porta, chegava-se às muitas salas. Um recepcionista mudo entregou o programa a que se deveria assistir. Setas e placas apontavam a direção. O programa dividia-se em duas partes. Na primeira, em uma sala de cinema especialmente preparada era projetado um documentário fictício em preto-e-branco sobre vítimas da ditadura em um país latino-americano. Nos dois lados da sala havia máquinas, em torno de dez, metade em cada lado, que Pedro notou serem imitações de aparelhos mata-moscas eletrônicos de luz negra, que no início da sessão permaneciam apagados.
No final do filmete, falado em espanhol e português, que durou 15 minutos, os personagens principais reapareciam na tela e os que haviam sido torturados até à morte diziam seus nomes e iam lentamente desaparecendo da tela, quando, para cada menção, se acendia o mata-moscas fazendo o barulho característico de eletrocussão e um cheiro de carne queimada era exalado.
Em seguida, ia-se a outra sala onde um outro filme mostrava o próprio artista caracterizado de Little Richard cantando acompanhado por uma banda de músicos vestidos como gângsteres. No meio do show, a apresentação era interrompida e em seu lugar eram exibidas imagens do lado de fora. As imagens focavam as pessoas que tinham saído da sessão anterior deixando o local apressadamente, ao som de uma música marcial, descendo os degraus da escada atabalhoadamente, alguns corriam.
Canhões laser disparavam finos feixes de luz vermelha sobre as pessoas. Os feixes de laser eram seguidos de sons que imitavam balas sendo disparadas e barulhos de detonação e pessoas gritando. No meio daquela confusão, Pedro pôde distinguir Marta, num momento em que quase caiu e olhou para trás, a câmera aproximou seu rosto num close.
Por fim, as luzes se acenderam, a música terminou e era a vez dos que tinham assistido ao filme sair para a rua. Pedro tentou ligar para Marta, mas do outro lado do celular ninguém atendeu a ligação.
Chovia mais forte quando ele deixou o casarão, o que tornou a “escapada” ainda mais dramática. Pedro abriu o guarda-chuva preto iluminado por fora pelo canhão de luz vermelha em meio aos estampidos, silvos e gritos e forçou a passagem pelo grupo que ia mais à frente.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Cidade do México - Diário de viagem
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| Frida Kahlo por Antonio Gironella |
-escrito em portuñol selvagem-
Xochimilco: Pântano Azteca de águas oscuras. Aquí hay gente que vive aislada. A mãe levando de balsa, remando, seus filhos para la escuela. Nosotros y los mexicanos bebiendo frescas cervezas. Tristes-alegres, “valsam”. Noches Buenas*, los terribles Mariachis e bem no fundo, quase não se notam, emplumados para la guerra, eles nos olham.
Teotihuacan: Das casas de palha e barro, nenhum vestígio. Palácios, um rei morou aqui. Do alto da pirâmide, larga vista para o vale de los muertos ―“camelando” sus últimas bugigangas.
Centro, Catedral: Silêncio. No centro, à entrada, de interior negro, Jesus Del Veneno, oscuro, pende de la cruz, como se pendesse de um galho, antes dos outros santos e altares. Tudo alto y dependurado. Cheiro incenso ―mais silêncio, intenso, vindo de fora, da praça, um canto, irreproduzível, la-la-la-la, de tristeza amplificada de micrófono, alegre y desesperada. Um campesino escuta a si próprio na sala reservada, a conversar com estátuas, que lhe olham, e a si mesmas, assustadas, em su silencio de luto e de madera.
Palácio de Belas-Artes: Fuera los santos! Catedral (in)útil onde se odeia/adora el hombre: de novo Rivera, Orozco ―um rasgo en las paredes, mejor que los murales, gigantescos y tirânicos: Gironella, pinturas que son un corte y sangran.
Calle Francisco de Souza: O ocre cor de terra das casas da calle Francisco de Souza, hijos de la Malinche, também tingida de azul cobalto y Frida, que eu não vi, as aquarelas do museu de aquarela...
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quinta-feira, 2 de outubro de 2008
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Política e incesto em Casa Tomada
Casa Tomada foi escrito a partir de um sonho. Então tem muito de inconsciente lá, tabus, essa coisa toda e mais a subida ao poder do Peronismo. Achei o aúdio de uma entrevista em que Cortázar fala sobre isso e o aúdio do próprio Cortázar lendo o conto.
Um outro conto genial dele que li esses dias, chamado "A Saúde dos enfermos" virou peça encenada em São Paulo.

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