domingo, 5 de setembro de 2010

NOTAS À MARGEM

LER É VIVER


Minhocão, foto de Daniel Mitsuo


A frase em letras garrafais, numa faixa, sobre a porta de um pequeno sebo, surpreendeu-me da janela do ônibus, enquanto passava embaixo do elevado Costa e Silva, mais conhecido como minhocão, uma das sete desgraças do mundo contemporâneo (não há as sete maravilhas do mundo antigo? Eu proponho uma lista alternativa que seja encabeçada pelo minhocão).



Quer frase mais “Pessoana” do que essa? Ler é viver. E portanto, a maioria da população brasileira não vive, pois não lê. Não sei se quem pôs a faixa estava inteiramente consciente da crítica feroz que fazia à ignorância dos que, como eu, por ali cruzavam a rua, cumpridores da rotina diária, ruidosos ou em silêncio, a caminho de mais um dia na metrópole paulistana.





DIGNIDADE



Parei hoje para cumprimentar o vigilante que toma conta do prédio onde trabalho. Ele estava polindo as botas, sentado à cadeira do engraxate, que faz ponto na praça em frente do prédio. Fui dizer, apenas para ser simpático e ter algo para dizer, que eu também iria engraxar meus sapatos, um dia desses. Então ele me responde afirmando: “Já que vamos sair amanhã, resolvemos engraxar as botas”.



Confesso que de início não compreendi, o plural majestoso confundiu-me. Imaginei que ele, vaidoso, certamente planejava dar uma volta à noite, ou sair para uma festa ou quem sabe talvez um bar, após o trabalho, e queria por isso ver suas botas brilhando.



Como eu não havia entendido bem, fiquei surpreso quando ele me disse em seguida que este seria o seu último dia naquele emprego. Falei qualquer coisa para reanimá-lo e fui-me embora, sorrindo. Só agora, já em casa, quando tomo para mim mesmo essas notas solitárias, é que pude compreender a verdadeira dimensão do que ocorrera.



Ele chegara ao fim do contrato temporário de serviço como vigilante e o ato de polir as botas era uma maneira de demonstrar para si mesmo que ele era superior à sua própria desgraça. (Se as devolveu ou não, como imagino ser praxe nesses casos, é um mero detalhe que não afeta em nada a minha imaginação de sua superioridade).



Tinha razão portanto o plural majestoso, carregado de dignidade, daquele homem, que eu, para minha vergonha, na minha simplicidade, não pude perceber de imediato.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Dois poemas de Ezra Pound


O SOBRADO

Ezra Pound

Tradução Lauro J.M. Marques

Vem, apiedemo-nos daqueles que estão melhor que nós.

Vem, amiga minha, e recorda

que os ricos têm mordomos e não amigos,

E nós temos amigos e não mordomos.

Vem, apiedemo-nos de casados e solteiros.



A aurora entra com seus pezinhos

como uma dourada Pavlova*

E estou próximo ao meu desejo.

Não há coisa melhor no mundo

Que essa hora de claro frescor

A hora de despertarmos juntos.





INSTRUÇÕES POSTERIORES

Ezra Pound

Tradução Lauro J.M. Marques

Venham, minhas canções, vamos expressar nossas paixões mais básicas.

Vamos expressar nossa inveja do homem com um trabalho regular e nenhuma preocupação com o futuro.

Vocês são muito vãs, minhas canções.

Receio que terão um péssimo fim.

Vocês vagabundeiam pelas ruas, vocês demoram-se nas esquinas e paradas de ônibus,

Vocês não fazem quase nada.



Vocês sequer expressam nossas grandezas mais íntimas,

Vocês terão um péssimo fim.



E eu? Eu acabei meio alucinado.

Eu falei tanto com vocês, que as vejo quase à minha volta,

Insolentes animaizinhos! Libertinas! Desnudas!



Mas vocês, canções mais recentes do lote,

Vocês não são velhas o suficiente para terem causado muita injúria.

Eu trarei para vocês um casaco verde da China

Com dragões bordados.

Eu trarei para vocês as calças de seda escarlate

Da imagem do menino Jesus em Santa Maria Novella;

Para que não digam que nos falta o gosto,

Ou que não há ninguém casto nessa família.

 
_______________

(*) "Como uma dourada Pavlova" = Anna Pavlova, bailarina russa, nascida em São Petersburgo, a 31 de janeiro (segundo o calendário juliano) ou a 12 de fevereiro (pelo calendário gregoriano) de 1881 e falecida na Haia, em 23 de janeiro de 1931.. De talento e carisma excepcionais, fascinou o mundo da dança no fim do século XIX e na primeira metade do século XX. Seu extraordinário talento e suas interpretações extremamente pessoais deram um novo sentido ao balé clássico. Também era conhecida como Anna Pavlovna Pavlova. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Anna_Pavlova

Texto original dos poemas:

Lustra, 1916.
http://www.archive.org/stream/lustrofezrpound00pounrich#page/n0/mode/2up



A POESIA É UM CENTAURO


“A poesia é um centauro”. Metade lógica, metade música.

“A faculdade clarificadora, pensante, de arranjar as palavras, deve se mover em conjunto às faculdades estimuladoras, sensíveis, musicais.”

Ezra Pound, Literary Essays of Ezra Pound, New Directions, New York, pg 52.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

SILENCIEMOS, POIS SIM, MAS NA LINGUAGEM

Ela caminha em minha direção, vinda de não sei onde, que a apanhei. Eu a pus para andar, soprei ar nos seus pulmões, dei-lhe um nome incógnito para protegê-la. Eu a falei.



Agora ela é sua. Trate-a bem.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Hamlet e as ervas daninhas


Que mundo este! Oh! É um jardim inculto em que crescem as ervas bravas!



Ler com a “chave” do soneto 94 (*). Hamlet é uma erva daninha que cresce num maltratado jardim de lírios (a Dinamarca, o casal real, este mundo!), os quais, infectados por um tipo de mal (traição e assassinato do rei), fedem mais do que as ervas, quando apodrecem.



A vil erva vai turvar-lhes (ultrapassar-lhes) a compostura (dignidade).



Não fuga à vida, mas preparação para a morte.

_____________

(*)

Soneto 94

Eles que podem magoar, mas não, / não fazem coisas neles evidentes, / que movem outros e em si mesmos são / de pedra, imóveis, frios, reticentes, / herdam graças do céu, poupam primores / da Natura a desgaste e decadência, / de suas faces donos e senhores. / Outros são servos só dessa excelência. / Embora para si viva e pereça, / a flor do verão ao verão traz a doçura, / mas basta que se infecte e adoeça, / vil erva vai turvar-lhe a compostura. / Se há feitos que os mais doces mais azedem, / os lírios podres mais que as ervas fedem.



“Sonetos Completos de William Shakespeare”. Tradução de Vasco Graça Moura

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Dois poemas de Augusto Monterroso

Na direção contrária ao ¿Por qué no te callas?, o guatemalteco Augusto Monterroso escreveu: Cuando tengas algo que decir, dilo; cuando no, también. Escribe siempre.
Li a respeito dele, falecido em 2003, que era um autor de minicontos. Na minha opinião, são minipoemas, como este “epitáfio”, carregado de humor, que traduzo a seguir:
Epitáfio achado no cemitério
Monte Parnaso de San Blas, S.B
Escreveu um drama: disseram que se julgava Shakespeare;
Escreveu uma novela: disseram que se julgava Proust;
Escreveu um conto: disseram que se julgava Tchekhov;
Escreveu uma carta: disseram que se julgava Lord Chesterfield;
Escreveu um diário: disseram que se julgava Pavese;
Escreveu uma despedida: disseram que se julgava Cervantes;
Deixou de escrever: disseram que se julgava Rimbaud;
Escreveu um epitáfio: disseram que se julgava morto.

Lendo os seus poemas -chamemo-os assim, talvez não mais de “mini”, pois o poema é sempre maior que a forma que ele contém- lembrei-me de René Char, E.E. Cummings, Samuel Menashes, Giuseppe Ungaretti e D.H. Lawrence. O texto traduzido a seguir poderia ser colocado lado a lado de um pansie (forma anglicizada do francês pensée) - título de um livro de poemas-pensamentos de D.H. Lawrence:
Cavalo imaginando Deus
“Apesar do que dizem, a idéia de um céu habitado por Cavalos e presidido por um Deus com figura equina repugna ao bom gosto e à lógica mais elementar, raciocinava dias destes o cavalo.
Todo mundo sabe -prosseguia em seu raciocínio- que se os Cavalos fôssemos capazes de imaginar Deus, o imaginaríamos na forma de Ginete.”

Tomado de La letra e, México, Era, 1987.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

short lived like a butterfly

Diante da imagem em P&B, de baixíssima definição, que espelhava a performance, o artista alienado manipulava frequências no ferro-velho eletrônico, que remetiam à ante-sala do consultório ou à Internet discada. A experiência, muito mais agonicamente vivida que a existência de uma borboleta, durou cerca de uma hora. Ao final do desconcerto, na sala ecoou o vazio, envolvendo todos numa atmosfera de frouxidão.

domingo, 11 de julho de 2010

MINIMUM RES (COISA MÍNIMA)

AFORISMO SEM NENHUM PRÉ-JUÍZO (para Valdivino Braz)

Em terra de cego, quem tem um olho só é semi-ótico.



ARTE É INTERPRETAÇÃO

Uma obra de arte é um signo. Como tal já é interpretação, antes mesmo de ser interpretada. Ela representa algo para um intérprete futuro. Esse intérprete futuro é virtual.

Signo de quê? Do objeto que “aparece” por meio da mediação que a obra de arte faz entre o objeto ―que não é individual, mas múltiplo, o universo “criado” pelo artista, algo que é “dado”, ou seja, “aparece” por meio dela― e um intérprete futuro. O primeiro intérprete desse signo assim “criado” sendo o próprio artista.

É interpretação, de algo anterior a ela, desde a origem, seja na forma de pintura, partitura, livro, filme, já é uma interpretação. Como se dá essa interpretação é que vai definir se ela é arte. É olhando para o produto “criado” que podemos emitir algum tipo de julgamento. Claro, há muita subjetividade envolvida nesse julgamento, mas ele não pode ser somente subjetivo.

OBJETIVIDADE DA ARTE

Há uma objetividade na obra de arte que está na origem desta como um signo (algo que não vive numa esfera à parte, mas está sempre “grávido” de mundo, de um objeto). Uma pintura não deixa de ser arte quando se apagam as luzes do museu e não há ninguém mais para admirá-la. Ela “contém” algo.

Assim como uma pintura, uma partitura é um sistema de signos, que vai ser lido, “interpretado” por alguém. Obviamente ninguém “tira” Mozart de qualquer partitura Então há um ponto de partida para a música ―uma “ontologia da arte”― que vai ser executada depois, e isso é fixado por quem escreveu a partitura, uma pessoa, mil, não importa. O que importa é o produto.

ARTE É PROCESSO

A vida dos signos é “comunicar idéias”. Como um signo, uma obra de arte está sempre apta a uma interpretação. Essa interpretação é um signo mais desenvolvido, não no sentido de algo melhor, mas de que foi gerado pelo primeiro. A execução da música é um signo mais desenvolvido de uma partitura. Há arte em ambos, arte é processo. Está sempre em processo. Como tal não é “acabada” nunca.
DIGRESSÃO: NEM TUDO É ARTE, MAS TUDO PODE SER INTERPRETADO

Mesmo a arte conceitual precisa de objetos. Duchamp é o caso paradigmático. Affonso Romano de Sant'anna disse que não havia o que ver na última vez que Duchamp foi exposto em São Paulo. Segundo alguns críticos, os “objetos” de Duchamp não são obras de arte, mas reflexões sobre o fazer artístico.

No entanto, essas reflexões não existem apenas na cabeça de Duchamp. Elas ganharam uma forma, que não é ―nunca é― destituída de conteúdo. Algumas pessoas confundem as coisas e passam admirar somente as formas do urinol, sua “beleza estética”. Um artista que visitou a exposição confessou ao jornal que ficou emocionado porque fez girar com a mão a roda da bicicleta ―uma “cópia” da “original”, que foi jogada no lixo pela irmã de Duchamp, que, obviamente, “não entendia” nada de arte.

Dissemos que arte é interpretação. Mas qualquer coisa pode ser interpretada. Um banco de madeira não é simplesmente um banco de madeira. Ele inclui, no próprio processo de fabricação, a forma humana. Tem uma determinada altura, que é a altura que uma pessoa normal poderia se utilizar para sentar. Em alguns casos, pode ter um encosto para os pés. A forma é determinada pela função.

Do mesmo modo, uma roda de bicicleta. Nenhuma forma é destituída de conteúdo. As rodas da bicicleta têm uma função, são feitas para cumprir essa função, que é fazer com que a bicicleta se mantenha em pé e se movimente.

Duchamp pega esses dois elementos que não coexistem (na verdade são antípodas) e cria, reinterpreta, a partir de um conceito, que já é o surrealismo, um novo objeto, que é um “mix” de ambos: um banco de madeira, feito para sentar, que se move! (Ao fazer isso, ele “recria” a bicicleta, de cabeça para baixo, devolvendo uma característica de estranhamento ao que é considerado “normal”).

O “produto final” é também uma idéia ―mais do que nunca um signo, imaterial. Paradoxalmente, essa idéia precisa, como dissemos, de uma forma para se expressar. Não por acaso, os curadores das exposições ganharam destaque. São eles os responsáveis pela organização dessa forma, o que já fazem os museus. Os museus, as exposições, “reinterpretam” as obras, que já são interpretações. A arte morre ―é a tese de Hegel― para se tornar “filosofia da arte”. A História, no entanto, continua.

sábado, 3 de julho de 2010

He liked the dead/Ele gostava dos mortos


Não sendo um Rupert Broke, nem amante de verdade, nele

Nada evocava simplicidade.

Sua alma de medo nunca foi despossuída,
 
E, agora mesmo, por uma caneca de cerveja, três vezes seria vendida
 
Ele parecia desconhecer o amor, apreciar o pavor
 
Acima de todos os sentimentos humanos. Ele gostava dos mortos;
 
A grama para ele não era verde, sequer era grama;
 
Nem o sol era sol; a rosa, rosa; o fumo, fumo; a rama, rama.



De:
The collected poetry of Malcolm Lowry
Tradução: Lauro Marques


No Ruppert Broke, and no great lover, he

Remembered little of simplicity.

His soul had never beeen empty of fear,

And he would sell it thrice now for a tankard of beer

He seemed to have known no love, to have valued dread

Above all human feelings. He like the dead;

The grass was not green, not even grass to him;

Nor was sun, sun; rose, rose; smoke, smoke,; limb, limb.

sábado, 26 de junho de 2010

e.e. cummings


if you like my poems let them
Se gosta de meus poemas deixe-os


if you like my poems let them
se gosta de meus poemas deixe-os
walk in the evening,
caminhar à noite,
a little behind you
um pouco atrás de você

then people will say
aí as pessoas dirão
"Along this road i saw a princess pass
"Ao longo da estrada eu vi uma princesa passar
on her way to meet her lover(it was
a caminho de encontrar seu amante(era
toward nightfall)
perto do anoitecer)
with tall and ignorant servants."
acompanhada de servos altos e ignorantes."


ee cummings
lauro marques

sexta-feira, 25 de junho de 2010

AS POESIAS DE ANDRÉ WALTER




Em 1892, no ano seguinte à publicação de seu primeiro romance, intitulado "Os cadernos de André Walter", André Gide mandou imprimir, num pequeno volume, um complemento, composto apenas de 20 poemas, numerados em algarismos romanos. O título era “As poesias de André Walter (obra póstuma)”. Num prefácio à “edição definitiva”, que reúne as duas obras, de 1930, o autor escreve que é com um certo sofrimento que folheia os seus Cadernos, e mesmo com alguma mortificação, pela quantidade de defeitos que encontra na obra de juventude. “Ao contrário”, escreve ele, “eu leio com prazer algumas dessas Poesias que reapresento junto com os Cadernos. Eu as escrevi quase todas em menos de oito dias, pouco tempo após a publicação dos Cadernos, o que explica seu título, e essa atribuição a um André Walter imaginário, ainda que este estivesse já morto em mim. E mesmo não me parece que o André Walter dos Cadernos tivesse sido suficientemente capaz de os escrever; eu já o havia ultrapassado.”



A seguir, traduzo um poema deste livro:

XV



O PARQUE



Quando percebemos que a portinhola estava fechada,

Quedamos longo tempo a chorar;

Quando compreendemos que isso não serviria para nada,

Retornamos lentamente à estrada.



O dia inteiro, contornamos o muro do jardim,

De onde por vezes nos chegavam ruídos de vozes e de risos;

Pensávamos haver quem sabe festas sobre a relva,

E a idéia nos deixava melancólicos.



O sol à tardinha avermelhou os muros do parque;

Nós não sabíamos o que lá se passava, pois não víamos

Nada, a não ser os galhos que, por detrás do muro, se agitavam

E os quais deixavam cair, de tempos em tempos, folhas.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O SILÊNCIO DO ASCETA (SEGUIDO DE UMA NOTA INTERCALADA)

Fala o asceta:
– E quando não tiver mais nada para dizer? Ora, mergulhar no silêncio é uma tarefa muito fácil e agradável. Os sons e os ruídos que brotam como bolhas na superfície do pensamento, forçando-nos a agir, compelindo-nos a algum tipo de ação, como por exemplo, escrever ou falar, é que tornam difícil... viver.

E no entanto, o poeta está continuamente contradizendo o primeiro. É, na verdade, o seu contrário.

Ou antes, preferivelmente, seu complemento.

“– Pois tudo deve ser manifestado, mesmo as coisas mais funestas: ‘Infeliz daquele a quem o escândalo atinge’, mas ‘É preciso que o escândalo surja.’ – O artista e o homem verdadeiramente homem, que vive para uma determinada coisa, deve ter feito antes o sacrifício de si mesmo. Toda a sua vida não deve passar de um caminhar nesse sentido.


“Mas agora, o que manifestar? – Isso se aprende no silêncio.”

(Esta nota que segue entre aspas, em itálico e intercalada ao que escrevi é de autoria de André Gide, que a pensou em 1890, quando veio a lume o Tratado de Narciso – Teoria do símbolo – dedicado a Paul Valéry).

sábado, 19 de junho de 2010

O Privilégio dos mortos

Nietzsche, § 262, da Gaia Ciência: “- A: ‘Qual é o privilégio dos mortos?’ - B: ‘Não mais morrer’”. O computador de Alphaville, filme de Godard, onde escutei pela primeira vez a questão, na voz gutural do próprio diretor francês, sabia responder exatamente bem a pergunta. Essa era apenas uma das citações sem referência do filme, que só descobri, para o meu prazer, muito tempo depois de assisti-lo.

COOL MEMORIES

Baudrillard escreve nos anos 80 um livro em forma de diário chamado Cool Memories. Traduzo da tradução em espanhol:



“Cada pensamento é o último, cada anotação o traço do final, cada idéia não faz mais do que aparecer e desaparecer, igualmente a este planeta feito de auroras e crepúsculos sucessivos. Múltiplas parcelas de uma continuidade hipotética que não existe e que só se pode recuperar em filigrana, depois da morte.”



Para que uma idéia não cintile e desapareça no ar, é preciso que ela seja retida. Cada pensamento é o último. O escritor tem a consciência vívida da morte e que suas idéias comporão no futuro o retrato, máscara mortuária múltipla de si mesmo, dos seus muitos “eus”.

“TAL QUAL” – PAUL VALÉRY (TRADUÇÃO)*

*Tradução Lauro Marques. Em luto pela morte de Saramago
Extraído de “TAL QUAL” – PAUL VALÉRY



Literatura

A obra e sua duração



Todo grande homem entretém a ilusão que poderá prescrever alguma coisa ao futuro; é o que chamamos durar.



Mas o tempo é um rebelde, – e se alguém parece lhe resistir, se uma obra conserva-se à tona e flutua e não é propriamente deglutida – veremos sempre que é uma obra muito diferente daquela que seu autor acreditou ter deixado.



A obra dura na medida em que é capaz de parecer completamente diferente do que seu autor a havia realizado.



Ela dura por se haver transformado, e porque era capaz de mil transformações e interpretações.



Ou melhor, porque ela comporta uma qualidade independente de seu autor, não criada por ele, mas por sua época ou nação, e a qual adquire valor pela mudança de época ou nação.”

terça-feira, 8 de junho de 2010

Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague




O documentário Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague (Les Deux de La Vague), em cartaz em São Paulo, traça um paralelo instigante entre os dois diretores da Nouvelle Vague, cuja amizade na juventude serviu para forjar e levar adiante o movimento.

Mostra que Godard nunca superou o complexo de filho abastado da classe média, enquanto que Truffaut, vindo de baixo, nunca precisou provar isso. Em uma sequência de "Beijos Proibidos", Truffaut manda um recado para Godard por meio do personagem Antoine Doinel, interpretado por Jean-Pierre Léaud (uma cria dos dois, que sofreu nas telas -e na pele- a separação de ambos): "Se for um acerto de contas, não pode ser uma obra de arte".

Opções estéticas e políticas separaram os dois. Truffaut foi chamado de mentiroso por Godard por ter segundo ele uma visão acrítica. A resposta de Truffaut foi que o artista nunca deve ficar atrelado às ideologias do momento. Talvez por isso os filmes de Godard pareçam datados enquanto os de Truffaut são vivos até hoje. Ele foi mais inteligente que Godard nesse ponto e Godard mais ingênuo, como parecem ingênuos seus panfletos marxistas-leninistas.

Godard sobreviveu como mestre metalinguístico e poeta das imagens, enquanto seu discurso envelheceu. E no entanto, a imagem final do documentário é a de Pierre Léaud em “Os Incompreendidos” de Truffaut: uma imagem angustiada e da inquietação juvenil que é o reflexo daqueles (bons) tempos.

domingo, 25 de abril de 2010

Fotos do meu livro de poesia



 



 

Fotos do meu livro de poesia, a sair em junho pela editora carioca Confraria do Vento.
Foto original da capa por James Emery.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Filme em preto e branco

Chove há quatro dias consecutivos na cidade, que respira aliviada depois de um período prolongado de muita estiagem e secura. Mas não é uma chuva intensa, maciça, e sim chega a ser delicada, porém insistente, generosa, ininterrupta, mas sem ser excessiva, cobrindo a cidade e os habitantes com uma camada líquida que deita e literalmente rola pelos ombros dos homens e pelas ruas acidentadas, ladeira abaixo, formando verdadeiras cascatas e rios nos asfaltos e paralelepípedos, correndo por entre carros e homens ― e não parando nem para um nem outro.

Há um trilha sonora intensa e maravilhosa que sufoca os barulhos dos carros e quase que muda se faz ouvir surpreendentemente por cima dos ruídos. Os movimentos dos passantes se tornam lentos e algumas vezes incômodos, como que convidando à reflexão. Diferentemente dos dias ensolarados, em que cada um vai para aonde quiser, na hora que bem entender, a passos rápidos, esportistas, aqui vemos os guarda-chuvas se abrirem e se fecharem formando verdadeiros círculos de veículos separados, isolando seus condutores em cabines únicas, na maioria de cor preta, individualizadas.

O dia inteiro pouco se viu de luz. Embora não estivesse tão escuro a ponto de se acenderem as lâmpadas dos postes, como sói ocorrer às vezes, quando somos pegos de surpresa e quase sempre nos causa uma sensação desagradável de angústia de não saber as horas nem onde estamos. Havia luz, mas filtrada pelas nuvens e pela poluição, chegava aqui em baixo esmaecida e opaca, só tornando o concreto ainda mais feio e cinza, como num filme em preto e branco, feito intencionalmente dessas cores, ao qual assistimos mornamente, com um misto de interesse e tédio, apenas para num determinado momento espetacular de epifania nos depararmos com o conhecimento de que é para nós a nossa própria vida.

Anywhere out of the world!



― É melhor você aparar os pelos do nariz antes de falar com o capitão ― disse George.

Marcelo não via nenhuma razão naquilo. Em que diabos poderia isso afinal afetar serem aceitos ou não?

George mostrou o recorte de jornal: Navio de bandeira holandesa contrata tripulação por período determinado. Destino: Porto de Roterdã, com paradas em África e Europa. Requisitos: ser maior de idade e gozar de boa saúde física além de disposição para trabalhar no mar. Diversos postos e renumeração equivalente. Procurar o capitão do navio no porto da cidade.

Por via das dúvidas, Marcelo apanhou a tesourinha que lhe ofereceu George e enquanto mirava-se no espelho do banheiro ouvia George na cozinha preparando um lanche. George morava sozinho e tentava impressionar Marcelo com sua independência. A mãe cozinhava e mandava a comida para ele em tupperwares que eram consumidos semanalmente. Também semanalmente as roupas voltavam limpas e passadas a ferro. Marcelo nunca tinha preparado nem o café. George cortou uma salsicha em dois e jogou junto com a manteiga na frigideira fazendo subir um cheiro agradável.

Com as narinas aparadas, Marcelo sentou-se no sofá. Escutava um CD de uma coletânea de músicas de Eduardo Duzek. George chegou com a vitamina de leite com toddy e banana e o sanduíche que ambos repartiram.

― Tem essa passagem pela África ― lembrou Marcelo, um pouco sério, enquanto dava a primeira mordida no pão.

― Moleza ― disse George. ― Depois, velho mundo, meu chapa! Na primeira chance a gente desce e chispa... Vamos fumar maconha em Amsterdã!

Os dois eram magros, haviam acabado de entrar na idade adulta, brancos e esticados. George usava óculos e andava sempre com uma carteira de cigarros no bolso. Os dois eram companheiros de porres. Nenhum dos dois nadava.

― Eu sei que tem vaga na cozinha. Por isso falei para cortar o pelo. Higiene, cara, é fundamental ― falava George, o “rei da culinária” e da higiene.

Aquele era o dia que os dois iriam juntos até o porto. Marcelo achava que oportunidades assim só aconteciam em filmes, nunca na vida real. Já se via suando no porão do navio ou lavando o convés ou esticando cordas. (Não sabia bem porque, mas ele achava que o trabalho num navio deveria envolver, em algum momento, inevitavelmente, esticar cordas. Ainda que ele não tivesse a menor idéia do que afinal isso significava.) Ele tinha lido Kerouac e Hemingway e Baudelaire e Rimbaud. E todos falavam em fuga, todos concordavam que partir era a melhor, senão a única, solução. Anywhere out of the world! “― Seja onde for! Contanto que seja fora desse mundo”, não era o que diziam Baudelaire e os românticos?

domingo, 18 de abril de 2010

Revista celuzlose

Quarto número da revista digital, com boa navegação (dá para ler na tela com facilidade), tem textos inéditos de vários poetas contemporâneos brasileiros e alguns estrangeiros, poesia visual, contos, além  de um caderno crítico.

Contém ainda um excerto do segundo volume (a sair) elaborado em torno da pergunta "O que é poesia?" feita a vários autores.  Publicado na revista como um adendo à apresentação do primeiro volume, é importante ler o depoimento de Márcio-André. Segundo vaticina Márcio, mais do que nunca o que todos -fazedores de poemas ou não- desejam ser é o seu próprio poeta, "como fuga ao desencanto que se abate
em todas as instâncias da realidade institucionalizante".

Isso acaba levando a um beco sem saída, em que todos escrevem e poucos leem poesia. Porém será que de fato todos fazem poesia? Será que devemos chamar qualquer coisa de poesia? Ou será mera fuga à realidade institucionalizante? O que é poesia?

Revista Celuzlose

É preciso separar o joio do trigo. Poesia é profissão? Outra pergunta que surge na entrevista de Carlos Felipe Moisés, também na revista. Muitos fazem poesia, mas quantos podem ser chamados poetas?

E no entanto, quanto prazer quando descobrimos um poeta de verdade! Foi o que aconteceu comigo, quando "descobri", tardiamente, Juan Gelman e achei que deveria ler imediatamente toda sua obra publicada.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

AGUAS

La lluvia cae sin preocupaciones de vecino
Cualquer cosa enciende el poema:
la lluvia que cae sin preocupaciones de vecino. O:
¿por qué las maldiciones
brillan como diamantes en el día general?
Las bocas lloran hasta
el último color. Si me dejaran
solo, entraría
en las aguas al sol, dijo Almagro.

Juan Gelman in Valer la pena
(México, 1996-2000)

domingo, 28 de março de 2010

Juan Gelman _Otromundo: antología 1956-2007

Otromundo: antología 1956-2007 - Google Livros

Madrugada

Jugos del cielo mojan la madrugada de la ciudad violenta.
Ella respira por nosotros.


Somos los que encendimos el amor para que dure,
para que sobreviva a toda soledad.


Hemos quemado el miedo, mirado frente a frente al
      dolor
antes de merecer esta esperanza.


Hemos abierto las ventanas para darle mil rostros.

Vicente Huidobro, Portada

"Las mejores cosas sobre mí las han dicho mis enemigos".

Vicente Huidobro, Portada

Altazor

terça-feira, 23 de março de 2010

O Kyklos Tou Nerou/O Ciclo da Água

Musica de Mikis Theodorakis sobre poema de Dimitra Manda
por Angelique Ionatos - Album "Mia Thalassa" (Um Mar)



Mikis Theodorakis- Dimitra Manda- Angelique Ionatos

    O Kyklos Tou Nerou/O Ciclo da Água

Κάθε βροχή και μία μουσική
έτσι όπως κλείνει ο Κύκλος του Νερού
κι η μοναξιά μου μέσα του ανθίζει

Toda chuva traz uma música
encerrando o ciclo da água
que aflora minha solitude

       
     Mia Thalassa/Um Mar

Τέτοια στιγμή να ρθεις
που η μέρα σβήνει
στην αγκαλιά μιάς θάλασσας
γεμάτης μουσική


Chega a hora em que o dia termina
nos braços de um mar
cheio de música

Lançamento de livro

sábado, 13 de março de 2010

Ainda intradoxos- o Mar

Assim como Pound, o livro de Márcio-André lê-se melhor pelas beiradas. No fragmento. No meio da miríade de sinais, que não deve fazer sentido nem para o poeta, fulguram jóias. O mar sempre presente (o Rio). Seleciono estes:

"[falar do mar é uma imposição do mar]"
...

"preferia ser herói do mar e é preciso pedir ao céu"
...

"o mar do sem música"
...

"Os ghindastes [dorsos de cavalos] bebendo do mar

e a chuva

este alaúde com cordas [também] de vidro
teia-cloro

À deriva"
...

E este que não tem a ver (ou terá?) com mar, que de tão "paulistano" deveria ser gravado nos trens que por aqui transitam, ao lado dos velhíssimos Camões:

"A incerteza dos esgotos
[urbe-uretra]


os sonhos subterrâneos do metrô
onde até os poetas têm cartão de ponto
"

quarta-feira, 10 de março de 2010

Intradoxos-O mar

"Nada existe
excepto o
mar" [Tudo caminha para o mar]


Fragmento de Intradoxos, um livro assombroso, de Márcio-André, um Ezra Pound carioca, da Confraria do Vento.

Como isso é verdadeiro! Como estão aguados de mar os poemas!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Elegia Pão e Vinho -Hölderlin

Elegia Pao e Vinho- Holderlin

Tradução do alemão por Fernanda Ros/Casa das Musas

Fim de Sumário de Incertezas

Ponto final no livro de poemas Sumário de Incertezas. Terminei de preparar um coletânea com os melhores poemas de Sumário e Balada para um Morto, a sair em breve, por uma editora. Parece que finalmente vou estrear em livro. Brrr.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Carnaval 2x4

Passo o carnaval escutando tango e tomando vinho tempranillo. (Dezenas de discos em mp3. De Gardel a Dolores Solá, imperdíveis o CD e o show dela, "Salto Mortal", que vi em BsAs e me emocionou). Que maneira mais maravilhosa de trair a pátria! (rs)

Neste blog argentino pode-se baixar tudo: Taringa

Paludes

29.1.05 ÍNDICE DAS FRASES MAIS NOTÁVEIS DE PALUDES, DE ANDRÉ GIDE

Pág. 11 ― Disse: Ah! você está trabalhando?

Pág. 107 ― Precisamos carregar até o fim todas as idéias que suscitamos.

Pág. 28 ― Bom para Paludes.

Pág. (*)
.........................................................................



(*) Para respeitar a idiossincrasia de cada um, deixamos a cada leitor a tarefa de completar esta página.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

3 poemas

O Poeta



Acostumar-se a este ofício

Que não é melhor, nem pior

A nenhum outro

Mas que é o único em que te sentes

Igual a ti mesmo e teus semelhantes

Com todas tuas garras e dentes

E preocupar-se com mais nada



A poesia



A poesia é um longo e interminável diálogo entre poetas, no qual se entra como num rio caudaloso. Igual perigo de afogar-se nessa corrente.



Buenos Aires (*)


Não sei quando voltaremos, Buenos Aires

talvez nunca, talvez esta noite, talvez nunca

quem sabe?

Talvez esta cidade seja como todo o resto

criado pelo imprecavido intento humano

de reinventar-se.

Talvez não seja mais que isso, uma breve ilusão

rodeada de praças bem ou mal iluminadas

Um labirinto efêmero em que se perder

e ao qual sonhamos, constantemente, reingressar.

_________

(*)Fiquei com medo de ter roubado o poema Buenos Aires de Borges ou de alguma coisa que li sobre Borges. O fato é que a figura do labririnto ---e do labirinto dentro do labirinto, penso no cemitério da Recoleta--- é inseparável daquela cidade. Estou carregando na minha mochila o volume 1 das obras completas do homem, em que consta "Fervor de Buenos Aires", primeiro livro (e de poesia) dele. Tinha lido antes e não tinha gostado, agora depois de ter conhecido BsAs passou a fazer outro sentido.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

"Escrever o menos possível"

Do blog:
John Haffenden escreveu uma biografia sobre o poeta William Empson, “Among the Mandarins”, Paperback Book, 720 páginas, em que conta a seguinte história sobre o poeta T. S. Eliot:



Minha memória mais marcante é de estar caminhando [ao lado de Eliot] na Kingsway depois de algum almoço, provavelmente por volta de 1930, momento em que me encontrando sozinho com o grande homem senti que era oportuno levantar uma questão prática que andava me causando certa angústia. “O senhor acha realmente necessário, Mr. Eliot”, disparei, “como o senhor disse no prefácio à antologia dos poemas de Pound, que um poeta escreva versos ao menos uma vez por semana?” Ele estava se preparando para atravessar a Russel Square, olhando para o tráfego nas duas direções, e estávamos nos esquivando dos carros quando sua lenta resposta começou. “Eu estava pensando em Proust quando escrevi aquela passagem”, começou a profunda e triste voz, e então houve uma pausa considerável. “Tomando a questão de modo geral, eu diria, no caso de muitos poetas, que a coisa mais importante que eles teriam a fazer… é escrever o menos possível.” A gravidade da última frase era tão pura que lhe conferia uma qualidade quase lírica. Um leitor pode pensar que se tratava de uma manifestação de desdém ou de uma simples brincadeira, mas eu ainda hoje acho que não era; e naquele tempo me pareceu uma resposta não apenas muito sensata mas também muito satisfatória. Tirou um grande peso da minha consciência.

Comentário meu:
Eu tendo a pensar assim como John Haffenden, também tirou um grande peso da minha consciência! TS Eliot é um dos meus preferidos.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

NO PASA NADA

A casa era uma combinação de vidro e concreto, com linhas retas, e uma sala com portas de vidro que terminava num quintal também de concreto com piscina. Lembrava uma pintura de David Hockney, com alguma coisa de decadente. Ervas daninhas cresciam no canteiro ao lado da piscina, cujo fundo estava bastante escurecido. Uma pequena ponte de madeira com os pregos saltando se equilibrava ou jazia ali no meio, com uma espreguiçadeira de plástico branco displicentemente colocada em cima.

Estava para ser vendida para uma empreiteira que iria demoli-la e construir um prédio de sabe-se lá quantos andares. Ficava numa posição elevada de onde se podia enxergar o horizonte recortado de edifícios cinzas longínquos e algumas poucas edificações mais próximas. Essas pareciam encenar um teatro diário do cotidiano, de formigas humanas movimentando-se, piscando, apagando e acendendo as luzes. Formas de vida como de outro planeta que, a não ser por isso, jamais entrariam em contato.

"Lembrava uma pintura de David Hockney, com alguma coisa de decadente."

Havia lido que cerca de 35 mil litros de esgoto eram despejados por segundo no rio que passava a alguns quilômetros dali. De vez em quando se podia sentir o cheiro pútrido que se levantava de outro rio ou esgoto mais perto. Podreira da cidade podre que apodrecia. Mas não pensava nisso enquanto observava o céu sentado enquanto bebericava vinho e tomava notas. Ele estava empenhado em acompanhar as evoluções e mudanças no espaço aéreo à sua frente como se fossem o resultado da mistura de cores da paleta do pintor mais enlouquecido, acometido de um excesso de melancolia, e esforçava-se para captá-las através da escrita.

Inutilmente, lia para si mesmo, não sem consternação, o resultado pífio em que comparava a lua nova, quando o céu “turvando-se e multiplicando-se em angustiantes profundidades púrpuras e azuis”, vinha “negar-lhe o esplendor”, aos olhos convulsivos (era o que representava para ele naquele momento) das vítimas do acidente ocorrido há poucos dias no Metrô ― cinco passageiros de um microônibus, além de dois pedestres, tragados por desmoronamento de uma cratera aberta nas obras às margens daquele rio fedorento.

Lembrou-se de sexta-feira, quando descera na estação Klabin e, sonolento, caminhara alguns metros. Os pulmões ardendo da poluição às 8 da manhã. (Respirar aqui equivale a fumar dois cigarros por dia, ele estava por dentro das estatísticas). Pensou na cidade, que envelhecia a passos rápidos. 453 anos de invasão jesuíta tinham dado nisso. Olhou os pombos importados da Europa arrastando-se doentes de tão gordos. Eles raspam o tacho da sarjeta. Um casal meio tonto em roupa de jogging passou por ele cambaleante. Vieram “carbonizar” um pouco, pensou. Sintonizou o rádio do celular num rock and roll e rolou em frente.

Súbito, levantou-se, tentando espantar a borboleta negra que zumbia acima de sua cabeça, endoidecida pela luz da lâmpada elétrica. Ei-la repousada agora na parede, não mais uma borboleta e sim uma barata imensa e com asas. Correu para dentro da casa em busca do veneno e voltou com dois sprays de marcas diferentes. No meio tempo, a miserável havia sumido. Um dia depois teve a impressão de ver seu cadáver boiando na piscina e vê-lo em seguida desaparecer entre o bico do pássaro gordo de barriga amarela e rosto mascarado que vigiava aquelas águas de cima da árvore-arbusto que se elevava bem mais de cinco metros do muro e projetava sua sombra, deixando cair as florações e folhas mortas que ficavam por ali boiando.

No topo da árvore ele já havia divisado mais de uma vez um casal de periquitos, que faziam um barulho infernal ao cair da tarde, de modo que se podia dizer que ali ele estava de fato numa reserva ecológica. O terraço era um lugar misterioso. Diga-se de passagem que um certo dia um mamoeiro havia brotado ali, no meio do concreto, sem que ninguém soubesse como. Essa árvore milagrosa, que ficava cada vez mais alta, dava pequenos mamõezinhos doces que eram devidamente estraçalhados pelos pássaros que vinham em bandos, avisados uns pelos outros, por seus gritos frenéticos, para a refeição.

Inutilmente, lia para si mesmo (...) o resultado pífio em que comparava a lua nova (...) aos olhos convulsivos (...) das vítimas do acidente ocorrido há poucos dias no Metrô”. 

Sempre admirara os pássaros, à exceção dos pombos, “ratos com asas”, na sua opinião, na mesma medida que detestava os cães. É preciso dizer que na casa havia dois. Ambos de nomes ridículos e humanizados. Um no entanto, já havia morrido. O outro, podia ser adorável de vez em quando, mas ainda assim era um cachorro, i.e., estorvo. Eles usavam o capim ao lado da piscina para fazer suas necessidades. Liberdades que lhes permitiam a dona da casa, assim como a ele, outras tantas.

Ele gostava muito mais dela do que da casa, que às vezes lhe parecia uma prisão com algumas regalias especiais. Ouviu sua voz chamando-o por cima do ombro, virou-se e pode mirá-la contra uma luz fraca, vinda do interior, a cabeleira loura destacando-se no fundo negro em que flutuavam alguns insetos. Olhou-o com um sorriso de quem gostaria de saber o que estava se passando ali naquele intervalo de tempo em que ele ficara quieto, apenas observando, enquanto começava a esfriar. Respondeu também mentalmente com um sorriso em castelhano de no pasa nada, efeito de uma imersão rápida naquele vinho espanhol chamado Memorandum. Quando seu pé tocou na precária ponte de madeira, a construção inteira desabou fazendo Tchibum.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Três poemas


SÍSIFO FELIZ?




Coragem


Paciência


Retidão


Honestidade


Rolar a pedra




Caráter


Ânimo


Disposição


Boa vontade


Rolar a pedra




Energia


Bem estar


Empolgação


Humanidade


Rolar a pedra




Sísifo só tem este


ideal.








RIMA, RIMADOR!




Aprender com o alvo


a flecha


Com o fim


a festa


Com o rasgo


a brecha


Com o beijo


a testa


Com a viga


a mestra


O que me resta


nesta vida


nesta rima


tão canhestra.






O INSETO






Tem da natureza inseta


a atração


por luzes


pelo perfume das flores


e das bebidas.

sábado, 24 de outubro de 2009

domingo, 27 de setembro de 2009

Baladinha da primavera




Uma, duas, três flores


amarelas.




Sobre o cadáver do homem


morto na


primavera.




"Ai, quando eu me for


desta minha vida insincera,


dai-me também uma flor,


duas, três flores


amarelas."

sábado, 26 de setembro de 2009

Cançãozinha francesa

"J’ai perdu ma vie,
par délicatesse
"-

Disse, redizendo,Rimbaud.

O espelho se ri:

"Por delicadeza,
Vous?"

Retorno à simplicidade

Leitura de primavera

Livros com 50% de desconto:

Poesia completa de Garcia Lorca

Edição bilingue da Editora da Imprensa Oficial.
Quase 700 páginas.

Reencontro as canções (vontade de escrever), reencontro toda uma poética, que parece simples...que fala de vento no olival, vento na serra...

Poema de la solea*


Tierra seca
tierra quieta
de noches
inmensas.

..(Viento em el olivar,
viento en la sierra.)

Tierra
vieja
del candil
y la pena.
Tierra
de las hondas cisternas.
Tierra
de la muerte sin ojos
y las flechas.

..(Viento por los caminos.
Brisa en las alamedas.)



__

*ou "soledad": canção típica da Andaluzia, informa o tradutor na edição do livro.

domingo, 20 de setembro de 2009

Commentary on The Cantos of Ezra Pound,

Commentary on The Cantos of Ezra Pound and others, c. 2001-2002

Comentários dos Cantos (no final da página):

Canto I, II & XX, III, IV, VIII, IX, X,

XI, XII, XIII, XIV, XV, XVII, XVIII, XIX,

XXI, XXXI, XXXII, XCVIII

Relembro-me, de mim, quando a poesia era um mistério
E eu tropeçando pelos Cantos, sem entender niente:
“E o Buccentoro, a vinte jardas bradando “Stretti”,
Mas adorando tudo -
“Luz: e a luz primeira antes de qualquer orvalho
“Ou: a escada cinza segue acima sobre os cedros”.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A bigorna

Blog do amigo Aldrovandi, músico e compositor (dos bons, daqueles com piano em casa), que também gosta de "poetar" com o martelo:

A Bigorna

sábado, 29 de agosto de 2009

Fabulador de pulsões negativas


É assim que o escritor argentino Alan Pauls descreve Enrique Vila-Matas na orelha de "Suicídios Exemplares", publicado recentemente no Brasil. Escrito dez anos antes de Bartleby e Companhia, já há algo neste livro do escrivão de Herman Melville que se recusa a fazer qualquer coisa que seja (o que é também um modo de se aniquilar). Tema que seria explorado por Vila-Matas na forma de uma galeria de personagens estranhos tomados por essa mesma "pulsão negativa". Não agir, não escrever, literatura do não. Não é por menos que Fernando Pessoa seja um dos heróis de Vila-Matas. No final desse seu livro de contos sobre suicidas e não-suicidas, ele o transforma em personagem, juntamente com Mário de Sá-Carneiro, simplesmente ao transcrever (outra vez o copista, que exercita a arte da citação) o trecho da carta deste para Fernando Pessoa, escrita em 31 de março de 1916, poucas semanas antes de suicidar-se no Hotel de Nice, Paris, após ingerir cinco frascos de estricnina, tendo inclusive convidado para assistir o amigo José de Araújo: Mas não façamos literatura. Pelo mesmo correio (ou amanhã) registradamente enviarei o meu caderno de versos que você guardará e de que você pode dispor para todos os fins como se fosse seu (...) Adeus. Se não conseguir arranjar amanhã a estricnina em dose suficiente deito-me para debaixo do "metro"... Não se zangue comigo.

O antiblogger?

Escrever somente quando necessário.

Como Paul Valéry, que acordava no meio da noite assaltado pela urgência de uma frase ou pensamento e assim preencheu cadernos e mais cadernos absolutamente desnecessários. E aqui me contradigo, pois, em literatura, como na vida, como saber quando e o que é de fato necessário?

* * *

"Poste-escrito": sobre isso e sobre a "necessidade do sentimento", ler (valeria a pena meditar?) minha tradução do texto Pequeno Café, de Valéry.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Poésie perdue

Où..........
se trouveras
la poésie
dans une..............
cellule
.....................cancer-rose?

Poesia perdida

Onde a
..........poesia
mora..............
Numa célula
.....................câncer-rosa?

domingo, 31 de maio de 2009

O monge e o desassossego

Uma bem intencionada amiga emprestou-me O monge e o Executivo, de James Hunter. Pus na minha mesa de cabeceira debaixo do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Eles que se entendam!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Meus poemas, Um bom poema

Você me perguntou para aonde foram meus poemas? Eles estão por aí, jogando bola, mudando de cidade, ou de emprego, arrumando briga. Como dizia Leminski *: um bom poema, minha amiga, leva uma vida.

_______________

*um bom poema leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade,
eu e você, caminhando junto.

Paulo Leminski

domingo, 26 de abril de 2009

O filho eterno


Em O Filho Eterno, de Cristovão Tezza, não há tanta crueldade, ao contrário do que afirma o crítico da Veja, cujo comentário vem estampado na contracapa do premiado livro do escritor nascido em Lages-SC. Não dá para equipará-lo a Céline ou Onetti, nesse quesito, por exemplo. Talvez porque os personagens do livro sejam reais - principalmente seu filho, alvo da "crueldade" por ser portador da síndrome de Down, que ele não se reprime às vezes de qualificar como 'idiota", para em seguida demonstrar uma infinita paciência (eu não diria "compreensão", mais uma tolerância diante do inevitável). O que o crítico da Veja queria era quem sabe um outro "Marley e eu". E o romance (no que até onde hoje em dia se chama de romance) não oferece nenhum guia de auto-ajuda. Ele está tão perdido quanto nós. É um escritor, e isso basta. Em alguns momentos me lembra um John Fante, tentando ir em frente com seus escritos e hesitante diante da acolhida que têm. O Brasil, a dificuldade de se viver num país como o nosso, aparece como pano de fundo, nas lembranças do autor. Imigração e trabalho subalterno no exterior, a casa comprada com juros extorsivos embutidos num plano picareta do Governo, o medo diante da polícia, que dariam um segundo romance. O livro termina em um ponto que poderia ter sido outro qualquer. A ficção imita ou antes acompanha a vida dele e seu filho, impedido de chegar à idade adulta (que o pai, como ele próprio faz questão de sublinhar, por sua vez, reluta em alcançar) , daí o "eterno" do título.

sábado, 28 de março de 2009

Porque gosto tanto deste poema


Porque gosto tanto deste poema, escrito já há alguns anos, um haicai perfeito de 17 sílabas, que eu mesmo compus, para celebrar a mim mesmo (como o velho Walt Whitman também fez, sendo menos sintético, ele que não era nenhum japonês):


Madadayo (*)

Um fio de cabelo
branco brotou no meu peito.
Tu, coração, velho?




__________________

(*)Madadayo (pt: Ainda Não) é um filme japonês de 1993, o último dirigido e escrito por Akira Kurosawa. O filme é baseado na história real do professor Uchida Hyakken, que se aposentou depois de 30 anos lecionando literatura alemã para se tornar escritor. Com grande carisma e humor peculiar, conquistou o repeito e a amizade de seus alunos na forma de comemoração: todos os anos, no dia de seu aniversário, era comemorado o Madadayo, quando os alunos perguntam "Mada kai?" (Pronto?), e ele depois de uma imensa taça de cerveja respondia "Mada dayo!" (Ainda não!) significando que seus alunos teriam que "agüentá-lo" por mais um ano.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Recordações em vermelho, preto e branco


Eu escutava, no escuro da garagem, o rádio do fusca estacionado (um fusca lamentavelmente verde-abacate), em Mossoró, anos oitenta, interior do Rio Grande do Norte. Sentado no banco da frente, no lado do condutor, só a luz interna acesa, enquanto brincava com a direção do carro, a porta meio aberta, ouvia o locutor declamar “GOOOOOOOOOOOL” ― vibrava ― “DOOOO FLAAAMEEENGOOOO!!!... Ao redor, o silêncio da noite estrelada e quente mossoroense, a rua sem carros e sem asfalto, visível pelas frestas das grades do portão branco de ferro que separava a rua da casa, onde, de vez em quando, eu jogava bola até ficar tarde e minha mãe me chamar para dentro.

Mas a maioria dos meus jogos se passava de casa para dentro. Nos jogos solitários que inventava, como o “futebol de mão”, em que, usando uma bola de gude e duas traves improvisadas em cima da mesa, uma mão jogava contra a outra (havia muitos empates). Ou o “futebol de parede”, que consistia em chutar a bola com força contra a parede da garagem e rebater sem dar dois toques e nas poucas vezes que jogava com meu irmão mais novo (que, no entanto, preferia a leitura dos romances de Stendhal ao nobre esporte inglês).

Eu morava a poucos passos do estádio de futebol, o “Nogueirão”, um campinho de terra amarronzada e uma árvore solitária pouco frondosa separavam minha casa do local onde ocorria, a intervalos sucessivos, o clássico Potiguar versus Baraúnas ― eu nunca tinha entrado lá. Só uma vez, em 1985, quando tinha 14 anos, meu pai me levou para assistir ao jogo amistoso do Flamengo contra o Baraúnas. Os jogadores do Fla com o uniforme branco, o que eu mais gostava, com o qual a equipe conquistou o campeonato mundial de interclubes, em 1981. Era o grupo de Zico, Adílio, Júnior, Tita, Leandro, Andrade, Raul... O melhor time que o Flamengo já montou e que colecionou vitórias naquela década.

Os jogadores do Baraúnas iam a pé ou de bicicleta treinar ― daquelas bicicletas Monark barra-forte, de pedreiro. Um time que nunca havia ganhado nenhum título fora de casa, surgido inicialmente como bloco carnavalesco, cujo nome foi inspirado no cacique “Baraúnas”, líder da tribo Monxorós, que habitava a região. (Como, aliás, está dito no hino do clube, o qual, obviamente, eu nunca havia escutado: “Baraúnas, tu és origem / Da história que fez tradição. / Foste chefe, na mata virgem, / De uma tribo desta região...”).

É claro, na época, eu não pensava que nada disso fosse contraditório. Na verdade eu (ou era meu pai) odiava Mossoró. Torcer contra o time da cidade era perfeitamente razoável. Eu mesmo não havia telefonado uma vez, a pedido do meu pai, para uma emissora, num programa de rádio que denunciava as mazelas da cidade e dito a frase: “Agora desminta a Folha de São Paulo!”? Tudo por causa de uma matéria publicada naquele jornal que havia revoltado o município. Falava, entre outras coisas, das bicicletas (na ocasião, o número desses veículos por habitante em Mossoró era comparável ao da China) e das carroças disputando lugar com os carros. Eu havia depois desligado, deixando atônito e enraivecido no outro lado da linha o apresentador, que ainda tentou retrucar, deixando solto um início de resposta, evidentemente não ouvido, “Nós...” e depois falou disso ao vivo no programa ido ao ar em seguida.

Aqui cabe uma explicação. Meu pai e a família dele eram paraibanos, e ele havia se mudado a contragosto para Mossoró. A cidade era extraordinariamente quente e seca ― apesar das praias a pouco mais de 40 km, para onde nós, sem que eu encontre agora nenhuma explicação além da que irei dar a seguir, não íamos nunca. Meu pai detestava praia, gostava das serras paraibanas, onde havia se criado, e era capaz de dirigir um dia inteiro (com um braço quebrado e engessado, como ele havia feito uma vez levando a mulher e os filhos) para chegar à Paraíba. Na casa dos avôs, meus quinze tios viviam em pé de guerra, porque uns eram vascaínos, outros botafoguenses e outros, ainda, eram flamenguistas “doentes” como meu pai e eu.

Meu pai me punha na frente da TV vestido com o uniforme do Flamengo, todos os cinco filhos, na verdade, inclusive as duas meninas, uniformizados em frente à TV. E quando não passava o jogo do Flamengo, a salvação era o rádio. Aliás, ele desligava o som da televisão porque não suportava os comentaristas e ligava o rádio, cujos profissionais eram muito mais competentes e informados, segundo ele. No rádio, uma jogada que parecia completamente sem graça virava um momento emocionante, todos os momentos eram culminantes na narração e quando a jogada acabava, entrava o locutor anunciando a hora ou um reclame do Ponto Frio Bonzão (um nome que me fazia pensar não no Rio de Janeiro, mas num lugar gelado e tão distante de Mossoró quanto a Lua, como o Pólo Norte) e outras lojas que eu não conhecia.

O Nogueirão era palco, também, quando não tinha jogo, de torneios de bingo (para cada dezena sorteada, o locutor anunciava: “Núuuumero dez!”. Ou vinte, trinta etc. E acrescentava à frase um “De rombo!” para indicar, talvez para quebrar a rotina monótona dos jogos de bingo, que o número proclamado continha um zero)... E corrida de jegue. Eu gostaria que meu pai tivesse me levado pelo menos uma vez a uma daquelas sensacionais corridas de jegue. Eu só havia escutado a música tocando nos alto-falantes, que continha uma lição jamais esquecida (recordo até hoje): “O burro é quem merece uma medalha/ O burro é quem trabalha/ O burro é quem dá duro...”. E foi então que Zico e companhia, com seu uniforme branco no qual havia bordado, acima do peito, orgulhosamente, uma estrela amarela de campeões do mundo na final contra o time do Liverpool, em Tóquio, pisaram o mesmo gramado que os jegues já haviam adubado tantas outras vezes.

Vinte e três anos depois e me esforço para recordar como foi a partida. Em vão. Só me lembro dos uniformes brancos, de como gostei de estar no estádio com meu pai, torcendo pelo Flamengo, na arquibancada, e do formato redondo do estádio de cimento armado. Lembro que, comparado à proximidade dos “closes” da televisão, os jogadores pareciam pequenos de onde eles estavam.
Lembro de ter olhado para fora do muro e visto minha casa, onde ficaram minha mãe e meus irmãos. Da noite cálida e do campo verde ― não sabia que era tão verde, ou será que imagino agora que era tão verde? ―, dos mosquitos ao redor das torres de iluminação ― e imediatamente me recordo da vez em que uma coruja se perdeu e veio cair tonta no quintal de minha casa, por causa das luzes do estádio de futebol.

Lembro que estranhei a falta de “replay” nos gols, de meu pai e eu vestidos com a camisa do time rubro-negro (em nenhum momento pensei que fosse um time “carioca”). Meu pai com um radinho, que ele tanto gostava, de alça e botão seletor para mudar de estação. A sensação que tenho é de uma nostalgia silenciosa, de volta ao passado, com todas as sensações tácteis e visuais, mas nenhuma lembrança fixa, nem auditiva ou olfativa, um mergulho com bolhas numa piscina de água muito quente e muito funda.

Sim, havia outros flamenguistas, uma horda estranha como eram eu e meu pai, e vieram de todas as partes, de seus lares também silenciosos, naquele dia no estádio, mas eu não os conhecia e não fiz nenhum contato com eles, nem o meu pai. O que minha memória reteve foi um espaço vago e teatralmente iluminado na arquibancada, ocupado por meu pai e eu somente.

O que lembro, como se fosse hoje, é do verde do campo de futebol, do branco com listras em vermelho e preto do uniforme do Flamengo, da sensação térmica de calor envolvendo todos, onde talvez soprasse de vez em quando uma brisa noturna vinda daquelas praias afastadas e dos insetos em volta das luzes das torres do estádio, confundindo as aves noturnas.

sábado, 7 de março de 2009

Pedro Páramo

E agora lendo Pedro Páramo, de Juan Rulfo, agora que só escrevo notas esparsas, escorridas, pergunto-me se já não estão todos mortos... como as almas saídas das páginas deste pequeno livro estranho e forte, enquanto lá fora o ar enche-se da umidade pré-chuva, neste verão interminável de março, negando-me, não sei se negando-me de fato, onde para sempre para mim vida e morte se reuniram no dia trigésimo em que nasci, no mesmo em que vinte anos depois morreu meu pai, Pedro Páramo.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Não existe

"Não existe verdade sem o seu contrário; não existe amor que não odeie" (Borges? Escrevi para mim mesmo, à guisa de lembrete endereçado ao futuro, na contracapa de Ficções, numa edição antiga que folheio agora, no momento certo que eu previ, muito anos depois.)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A vida Breve


No fim do romance A vida Breve de Onetti, os personagens, que diga-se de passagem, são produtos da fantasia criados por outro personagem Juan María Brausen, estão fugindo da polícia. Fantasiados, "excessivamente escondidos no Carnaval", sem roupas para trocar e sem nenhuma perspectiva, sem dinheiro nem documentos, deixados para trás na fuga, sem ter mais para onde correr, eles sabem que quando acabar esse que é o último dia de folia, eles não vão conseguir passar mais despercebidos. É a hora em que está amanhecendo em Buenos Aires e eles estão sentados numa praça enquanto brindam à má sorte com copos vazios e a um homem muito velho que "alimentava-se de minúsculos mistérios sem importância. Na hora da morte acreditou que se salvaria dizendo estar com sono".

sábado, 21 de fevereiro de 2009

A conta do Marques

"É a débito e não a crédito da conta do Marques. (Vejo-o gordo, amável, piadista, e num momento, o navio desaparece)."

Bernardo Soares. O Livro do Desassossego.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Os detetives selvagens2

Ontem parei na página 526 dos Detetives. Acho que no final é um livro triste, tem uma visão pessimista e desencantada do ato de escrever, dos poetas, e escritores em geral.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Duas visões




















Profeta Daniel, de Aleijadinho, em pedra sabão e Liteira "serpentina" de arruar, século XVIII.

Aleijadinho

Era mulato, como a maioria da população de Ouro Preto, filho de arquiteto português, e de uma sua escrava africana. Produziu obras magníficas. As melhores estão fora da igreja, em Congonhas, expostas ao ar livre e à ação dos vândalos: a série dos doze profetas esculpidos em pedra sabão. O conjunto em madeira pintada representando sete cenas da Paixão de Cristo também é impressionante, cheio de sentidos enigmáticos que alguns interpretam como sendo referências à maçonaria e à Inconfidência. De novo, o sentido religioso não é o que atrai aqui e sim a maestria da obra, que contou com a ajuda dos discípulos para ser feita. (A doença que deformou as mãos de Aleijadinho estava já em estado avançado. Ele precisava atar o martelo e o cinzel nas mãos para poder esculpir e talhar.) Nota-se, entretanto, um estilo único em todas as esculturas, algo comovente.
Como tudo no Brasil, mesmo personagens recentes são envoltos em brumas, o que abre espaços para a especulação. A ausência de uma historiografia séria deixa dúvidas sobre a biografia e até mesmo da real existência desse personagem do barroco mineiro. As obras contudo estão lá, apesar de faltar um maior envolvimento das instituições que deveriam apoiar a pesquisa e a preservação desse patrimônio, perceptível para quem visite as cidades históricas mineiras.

Religião e mendicância

Em Ouro Preto, há um Museu do Oratório, com peças de todos os tipos. Entre os oratórios, existia um chamado de "esmoler", utilizado por mendigos, pendurado no pescoço, para pedir esmolas. Há uma linha contínua unindo religião e mendicância.